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Edson Basilio

@ edsonbas

Nível
2
Essência
🌬️ Ar
Ritual
0 Dias

Patrimônio

60.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

Updates

09/0513:09
Na época da minha adolescência, quando iam chegando as eleições, as campanhas dos candidatos eram bem diferentes, eles distribuíam todo tipo de brinde: camisas, canetas, lixas de unha, bonés etc. Além disso, davam festinhas nos comitês de campanha com salgadinhos, refrigerante, música e muito bate-papo. O social, a interação, vinha em primeiro lugar.
Outro tipo de evento que a gente gostava muito eram os showmícios: shows de cantores famosos, contratados por um candidato, que fazia um discurso e depois chamava os artistas para o palco. O show começava e, entre uma música e outra, sempre vinha um agradecimento ao candidato que estava patrocinando, um reforço ao número dele e um pedido para voltar nele. Agora não pode mais, é crime.
A gente era adolescente e ainda não votava, mas aproveitava as festinhas e os shows. Dava para fazer novas amizades e conhecer umas meninas da nossa idade. Às vezes já rolava um beijo no comitê mesmo, outras só depois, no showmício. Era tão bom que a gente saía pelas ruas vestindo as camisas com os nomes e os números dos candidatos como se fossem abadás, carregava bandeiras e colava adesivos para todo lado. Verdadeiros cabos eleitorais, só que de graça, ou quase, nosso pagamento era em salgadinhos e refrigerantes. Muito barato para eles.
As camisas viraram pijamas e, depois, panos de limpeza. As canetas foram de grande utilidade para a gente no colégio, para os pais no trabalho e em casa, para deixar junto com o bloquinho de anotações do lado do telefone. Os bonés eram muito feios e, por isso, a gente não usava nem na campanha. As lixas de unha foram tantas que, até hoje, 30 anos depois, minha mãe ainda tem um monte delas presas com um elástico de dinheiro, e olha que ela usa, está sempre puxando mais uma quando a anterior acaba. As festinhas ainda existem, não participo mais, mas ouço falar que agora rola até churrasco. Os showmícios ficaram só nas lembranças. Já as amizades, muitas ainda duram até hoje.
07/0511:33
Cheguei tarde. Muito tarde. A rua já estava deserta e o porteiro cochilava com a TV ligada passando um daqueles programas que mostram festas de gente rica ou de suas empresas. Continuei até o elevador. Ainda estava quebrado. Cinco andares. Dez lances de escada. Cinquenta degraus. Ainda não sou um idoso, mas também não sou mais um menino. Abri a porta, entrei e sentei no sofá. Fiquei alí por mais ou menos meia hora. Cansado, suado e com dores pelo corpo.
Sempre achei que faltavam quadros nas minhas paredes. Queria ter plantas também, mas nunca deu certo. Tudo acaba morrendo. Não consigo cuidar. Como cuidar de coisas se não estou conseguindo cuidar nem de mim mesmo? O dia-a-dia tem sido muito maquinal, mecânico. Não me sinto mais um ser vivo, nem um robô. Menos que um robô, me tornei um autômato. Sempre a mesma rotina. Esqueci o que sou, o que sinto e o que tenho.
Pensei que seria bom tomar um banho. Me levantei e fui para o banheiro. Tomei. Foi bom. O banho quente ajudou a relaxar o corpo e a diminuir as dores. Me acalmei e a cabeça começou a funcionar melhor, com mais clareza. E a pensar com menos pessimismo. Como estava com fome, fui para a cozinha preparar alguma coisa para comer. Fazer a própria comida é um tipo de terapia também. Descascar, cortar, temperar, esperar o tempo que cada ingrediente leva para cozinhar. E leva muito tempo. O bastante para pensar. Ah! Se eu tivesse todo esse tempo… Tinha que acordar cedo de novo. Fiz um Miojo.
05/0512:02
O ano era 1996, nós éramos adolescentes e estávamos passando as férias escolares de julho na praia. Era ano de Olimpíadas e dessa vez seria nos Estados Unidos: Jogos Olímpicos de Atlanta. A gente adorava as Olimpíadas, assistíamos todas as disputas de todas as modalidades.
No primeiro dia em que fomos à praia, ao comprar picolés, descobrimos que a Kibon estava realizando uma promoção na qual a gente poderia ganhar réplicas colecionáveis das medalhas olímpicas. Não lembro se o palito vinha premiado ou se tínhamos que juntar alguns palitos e pagar mais uma quantia em dinheiro, só lembro que em 3 dias a gente já tinha tudo o que precisava para trocar por 2 coleções completas.
Um dos vendedores de picolés nos disse que o único posto de troca era uma confeitaria no centro da cidade. Lá fomos nós. Ao chegar, perguntamos aos atendentes qual deles era responsável pelas trocas, nos disseram que só o dono da confeitaria, o Senhor Gentil, fazia as trocas, mas ele não estava no momento, era melhor voltar no dia seguinte.
Foi então que começamos uma caçada épica ao Senhor Gentil. Sei que já faz muito tempo que é difícil achar uma pessoa gentil por aí, mas o Senhor Gentil era mais difícil ainda. Todo santo dia nós voltávamos na bendita confeitaria, perguntávamos pelo bendito Senhor Gentil e ouvíamos a mesma bendita resposta: "- Hoje ele não está, é melhor vocês voltarem amanhã".
Agosto já estava chegando e, junto com ele, o fim da quinzena e das férias, mas a gente não desistiu e, finalmente, no décimo dia, ao chegarmos na porta da confeitaria, antes de entrarmos ou falarmos alguma coisa, uma das atendentes já foi chegando perto da gente e falando toda animada e sorridente: "- Hoje ele tá! Hoje ele tá! Podem subir que ele tá no escritório lá em cima!".
O Senhor Gentil tinha um quê de Papai Noel: era gordinho, simpático e tinha os cabelos bem branquinhos, só faltava a barba e a roupa vermelha. Atendeu a gente muito rapidamente, nos entregou as medalhas, pediu desculpas pela sua ausência nos últimos dias e se despediu com tanta gentileza que fez jus ao seu nome. Agradecemos, descemos, nos despedimos de todo mundo e voltamos para o apartamento onde estávamos hospedados.
Ao final das férias, voltamos para casa, para a nossa cidade, como se fôssemos atletas voltando das Olimpíadas, com as nossas medalhas, conquistadas, merecidas, assim como as deles.