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Edson Basilio

@ edsonbas

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2
Essência
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0 Dias

Patrimônio

60.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

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25/0322:02
A porta gritou jogando duas moedas sujas no balcão: – Me dá dois cigarros no varejo!
Um cigarro na orelha, o outro na boca: – Tem fogo?
Três puxadas e a ponta já está em brasa. A brasa fica mais forte, mais brilhante – a primeira tragada. A fumaça sai devagar pelas narinas e por entre os dentes. O indicador e o polegar apertam o filtro, tirando o cigarro da boca, o médio bate a cinza – todos eles amarelados nas extremidades, assim como as unhas, essas até a metade. Mãos um tanto quanto nojentas – as palmas suadas e encardidas, uma sujeira preta por debaixo das unhas. Uma ajeitada no boné, que tinha manchas de suor que mais pareciam desenhadas com alguma tinta gosmenta encontrada ao acaso num depósito de lixo. Os dentes, amarelados também da nicotina, após mais uma forte tragada, soltaram uma baforada espessa na cara do balcão, que nela pôde ler com muita dificuldade – uma letra muito miúda e mal escrita – um “obrigado” tão amarelado quanto o recipiente de onde veio. O “obrigado” se desvaneceu com o bater da porta ensebada: – Estranho, não?! Não deve ser dessas bandas... Realmente não é. Nunca foi visto pela vizinhança, quanto menos aqui.
A porta torna a gritar, na mesma altura, no mesmo tom e com o mesmo bafo, que o balcão logo reconheceu: – Me dá um copo de cachaça! Até o risco!
O copo, já pela metade, se dirigiu ao banheiro. Após uns minutos ouviu-se um barulho. A cadeira, que estava mais próxima, levantou-se, toda torta, e entrou no banheiro – as cadeiras costumam ser muito curiosas. Lá dentro podia-se ver que após derramar-se um pouco no vaso brancamarelamarronzado, o copo caiu, bateu a cabeça na pia e se quebrou deixando no chão uma poça de cachaça, que agora já era avermelhada.
24/0308:50
Já estava pronto para sair.
Abri a porta da sala e vi que a chuva estava pior do que parecia. Com a casa toda fechada, eu estava me baseando só no barulho.
Fui até a janela que ficava do outro lado, pois de lá dava para ver o ponto de ônibus. Estava tudo branco de tanta chuva que caía e ventava muito, o guarda-chuva não iria dar conta. Fiquei quase meia hora olhando e não passou nenhum ônibus.
Resolvi tirar os sapatos, deixar os pés respirando e à vontade. Meu Deus! Como esses sapatos apertam! Assim que a chuva estiar, calço eles novamente e saio.
Olhei pela janela por mais 10 minutos. Nada. Abri a porta novamente. As poças no chão estavam enormes e as enxurradas pareciam as Cataratas do Iguaçu.
Tirei o paletó e pendurei no cabideiro ao lado da porta. Afrouxei a gravata. Respirar, sim respirar.
Liguei o ventilador, sentei no sofá e pus os pés no pufe.
Comecei a pensar se realmente valia a pena ir àquela festa. Eu nem conhecia as pessoas direito.
Lembrei da minha infância, quando minha mãe me levava às festas das suas amigas, nas quais só havia gente mais velha e nenhuma diversão para uma criança. Na maioria das vezes eu saía andando pelas casas à procura de alguma coisa divertida, mas, vira e mexe, quebrava um item decorativo: um vaso, uma xícara ou algo no estilo.
Às vezes íamos a festas de primos que eu nem conhecia. Na maioria das vezes não dava tempo nem de me enturmar. Ficava meio sem jeito de me aproximar e só observava, de longe, os presentes sendo abertos e como brincavam com eles. Alguns salgadinhos, o parabéns, o bolo, os docinhos e já estávamos voltando para casa.
Neste momento, dei uma olhada no relógio e mais meia hora havia se passado. Olhei novamente pela janela e deu para ver a silhueta de um ônibus passando.
Acabei de tirar a gravata, desabotoei a camisa, arregacei as mangas e tirei as meias.
Fui à cozinha tomar um copo d’água. Na mesa havia um último pedaço restante de um bolo que eu estava comendo há dias no café da manhã, dei a primeira mordida e me lembrei do Toddynho do meu sobrinho, que estava na geladeira. Resolvi tomar, depois era só comprar outro, ele só viria aqui em casa de novo na semana seguinte.
Desta vez o saudosismo veio de forma mais agradável. Lembranças boas foram voltando à minha memória. Lembrei de um videogame que estava guardado desde o final dos anos 90, fui buscá-lo no meio dos meus cacarecos.
Voltei para a sala.
Anos atrás, as garrinhas eram conectadas à entrada da antena da TV, mas agora precisavam de um adaptador. Eu tinha. Conectei tudo, liguei o videogame na tomada e apertei o botão “Power”. Ele funcionou direitinho, exatamente do mesmo jeito que funcionava antes.
Achei na caixa o cartucho do jogo que eu mais gostava de jogar na minha adolescência, soprei embaixo e inseri. A manete boa era a que tinha uma marca feita com corretivo. Peguei ela e virei a madrugada jogando, só de samba-canção.
20/0308:55
A raquete de matar pernilongo me proporciona um certo prazer. Confesso que acho esse prazer um tanto quanto estranho, mas sei, também, que o compartilho com muitas outras pessoas. Lá no meu prédio mesmo, já ouvi aquele estalo que ela produz quando algum inseto encosta na sua trama eletrificada vindo de janelas de diversos apartamentos. Tem dias que parece até que estou jogando tênis com um dos meus vizinhos, eu dou uma raquetada de cá e escuto o estalo da raquete dele de lá. Outros dias tenho a impressão que estou ouvindo metralhadoras.
A responsável pelo desenvolvimento dessa raquete deve ser a indústria do entretenimento, que quis trazer a emoção dos videogames para a vida real. Eles pensaram em tudo: elementos do esporte, de jogos de estratégia e de guerra. Caçamos sem precisar de uma licença, nem curso para aprender a utilizar uma arma de fogo. É uma "diversão" que ajuda a descarregar nossa raiva, sede de vingança e a suar um pouco, assim como no esporte.
Existe um ditado que diz que "a vingança é um prato que se come frio", mas quando se trata de pernilongos, a minha vingança é em forma de churrasco. Já disse que eu mesmo acho estranho, mas o prazer de ver aquele mosquito agarrado na raquete enquanto a gente segura o botão e ele vai torrando, deixando subir uma fumacinha, inseticida nenhum é capaz de proporcionar.
Sou sádico? Sou! Mas esse bicho também é. A gente acaba de espantar e ele volta para a nossa orelha. Uma picada na perna ou no braço é ruim, coça, mas o zumbido na orelha é só para atrapalhar a gente a dormir mesmo, ele nem pica ali. Só estou jogando o jogo dele.
18/0322:35
Não me lembro bem se o meu primeiro contato com o álcool foi através do Biotônico ou do mimeógrafo. Eu era muito novo e algumas memórias do início das nossas infâncias acabam se perdendo. Ficam só alguns fragmentos e as histórias da família.
Minha mãe conta que eu era “ruim de comer”, por mais que ela tentasse, nunca conseguia me fazer comer nada. A solução foi apelar para o Biotônico. Era só tampar o nariz e enfiar goela abaixo para abrir o apetite. O gosto era meio estranho e forte, mas com o tempo fui me acostumando e depois passei até a gostar e já pedia: “- Manhê! Me dá cachacinha?”. Esse apelido era muito comum, algum adulto lá em casa experimentou e falou, mas depois descobri que as outras crianças também chamavam ele assim. Mais tarde, cheguei pessoalmente à conclusão de que o gosto era bem parecido mesmo. Assim como um dia eu descobri que o Biotônico tinha aquele gostinho de cachaça e passei a desconfiar que tinha álcool alí, os órgãos de fiscalização também desconfiaram, fizeram testes e descobriram que realmente tinha. A fórmula teve que ser mudada para poder continuar vendendo.
Já no caso do mimeógrafo, este não me foi apresentado em casa, foi na “rua”, ou melhor, na escola. Os professores pegavam um pacote de Chamequinho, que os nossos pais tinham que levar todo início de ano letivo, e uma garrafa de álcool, colocavam cada um no seu devido compartimento, o “original” da prova na bandeja e começavam a girar a manivela, por isso diziam que iam “rodar” a prova. A folha entrava branca e saía uma cópia quase perfeita daquele “original”, só que da cor azul e com um cheiro muito forte de álcool. Descobrimos que cheirar aquelas folhas “dava onda”, a gente ficava meio tontinho, era o “barato” da molecada. Com o tempo, o mimeógrafo foi sendo superado pela tecnologia, principalmente quando ela começou a baratear. As cópias ficaram mais fiéis aos originais, inclusive a cor preta dos textos das provas. O cheiro já não fazia mais parte do processo e não se fala mais em “rodar” as provas, agora elas saíam automaticamente e numa velocidade muito maior.
Na minha memória ficaram gravadas aquelas sensações da minha infância: o gosto, o cheiro e a “onda”. Quando cresci, as encontrei de novo em um bar qualquer, dentro de um copo. Foi como ter nas minhas mãos a nostalgia em forma líquida para beber. E ainda tem gente que pergunta: “- Por que você bebe?”.
17/0322:10
Toda vez que pego um ônibus, para qualquer bairro que seja, sempre tem alguém comendo uma coxinha ou um pastel num saco de papel pardo com uma mancha úmida de gordura. A pessoa abre o saco, puxa o salgado um pouco para fora, dá uma mordida, passa a língua entre os lábios para tirar os farelos, enfia o salgado de volta no saco e começa a mastigar, tampando a boca com umas das mãos. Tudo isso com uma postura encurvada, quase corcunda, e um olhar desconfiado para os lados, como se estivesse comendo escondido, com medo de alguém pedir um pedaço. Eu que não seria. Nem aceitaria se me oferecesse. Mas só pelo egoísmo, fico desejando que tenha uma baita duma azia.
Acho que nem todo mundo pára para pensar com mais frieza nos detalhes da forma que deveria. Além do ônibus não ser o local mais indicado para se fazer um lanche, por causa da quantidade enorme de gente que colocou as mãos no mesmo lugar que você, pessoas de higiene duvidosa, por exemplo, não se pode esquecer que você pegou no dinheiro para pagar o salgado e a passagem. Qual foi a mão que segurou aqui e ali? Qual foi a que pegou no dinheiro? Qual vai segurar o saco engordurado? Qual vai puxar e enfiar o salgado de volta no saco?
Quando vejo uma pessoa comendo naquele lugar, tudo isso passa pela minha cabeça e meu estômago já fica embrulhado. Se estiver com fome, perco o apetite na hora. Mas ela, não! Ela está lá, com aquela mão suja, se deliciando com aquele salgado como se ele fosse a refeição mais deliciosa desse mundo, tão gostosa que vai mastigando, mastigando, mastigando e nunca engole. Na maioria das vezes demora uns 10 minutos para dar mais uma mordida. Sempre deixando cair um monte de farelos na blusa que, se for de lã, que é a que agarra mais, acaba virando uma árvore de Natal de casquinhas de pastel, pedacinhos de carne moída, fiapinhos de frango, entre outros “enfeites”.
Mas o pior de tudo mesmo é a pessoa ser egoísta. Apesar de estar comendo um lanche gorduroso, sujo e babujado, ela acha que todos os outros passageiros do ônibus estão mortos de fome a ponto de não conseguir esperar chegar ao destino para comer alguma coisa e cobiçam seu salgado como se ele fosse a última comida disponível na face da Terra. Cada vez que o ônibus pára em um ponto, parece que dá para ver escrito na cara dela: “menos um” ou “menos dois”.
Chega uma hora que, por estar satisfeita, ou por estar com muito medo de dividir, a pessoa simplesmente pára de comer, guarda o restante no saco, dobra ele várias vezes e guarda dentro de uma bolsa ou mochila para terminar mais tarde. O que acontece depois, nunca vou saber. Eu sempre desço antes.
14/0313:55
Já repararam na quantidade de gente que desmaia em pontos de ônibus? A pessoa está parada, às vezes até conversando com outra, e simplesmente, do nada, cai no chão.
Por diversas vezes perguntei a conhecidos meus se eles já repararam nisso, mas a resposta sempre foi negativa. Nunca presenciaram sequer um desses casos. Fico com a impressão de que isso só acontece perto de mim, como se fosse uma perseguição. Sempre estou por perto e me pedem ajuda. Ajudar como?! Tem que abrir espaço para deixar a pessoa respirar e ligar para uma ambulância! Em vez disso, ficam todos em cima da pessoa, nessa hora aparecem curiosos de todos os cantos, e pedem ajuda para levantar a pessoa e sentá-la no banco. Para que?! A pessoa está desmaiada, inconsciente, ela tem que ficar deitada, com o corpo relaxado. E a gente ainda vai ter que ficar escorando para ela não cambalear e cair. Mas se falar isso, começam a achar que você está de má vontade, que não está querendo ajudar.
Às vezes fico tentando imaginar como foi o dia daquela pessoa ou o que houve com ela para que isso acontecesse. Será que foi uma rotina estressante de trabalho? Uma caminhada muito longa? Muitas horas sem comer? O sol muito forte? Acho que nunca vou descobrir. Não dá para saber o que se passa na cabeça de outra pessoa ou qual foi a sua rotina naquele dia. Também não vou ser invasivo ao ponto de esperar ela acordar, me aproximar e perguntar, não sou tão intrometido. Confesso que até fico tentado, mas me seguro. Ah! Se curiosidade matasse...
Certa vez aconteceu algo parecido comigo. Após um dia inteiro numa rotina estressante de trabalho, tive que fazer uma caminhada longa, estava sem comer há algumas horas e o sol bem forte. No meio dessa caminhada, comecei a me sentir mal, um pouco tonto e achei que fosse desmaiar. Mas foi no meio da caminhada! Por que essa gente deixa para desmaiar do meu lado, ali no ponto de ônibus, depois de já ter chegado e já ter parado, quando já está descansando? Vai saber.
12/0309:50
Já não aguentava mais o barulho que vinha daquela boca mastigando, da língua passando a comida de um lado para o outro dando estalos. Aquilo me dava arrepios e calafrios. Eu já tinha perdido a fome. Tentei sair disfarçadamente da mesa, mas aquela mão engordurada da coxa de frango que havia comido segurou meu braço. Me perguntou onde eu ia. Respondi que ia ao banheiro. Começou uma conversa unilateral comigo. Ainda havia um restinho de comida na ponta da língua, aquele que a pessoa dá mais uma mastigadinha de vez em quando, mas que nunca acaba. Os dentes exageradamente espaçados e projetados para fora, daqueles que obrigam a pessoa a fazer biquinho para conseguir fechar a boca, tinham restos de queijo grudados entre si e, de vez em quando, entre um perdigoto e outro, um pedacinho também "voava" na minha direção. Eu ficava tentando me esquivar, mas, vez ou outra, um deles acabava atingindo minha camisa. Senti um tocar o meu queixo. Tive ânsia de vômito, aquela coisa azeda subiu pela minha garganta, mas, antes que chegasse à boca, consegui segurá-la e fazê-la retornar para o lugar de onde veio.
Com muito custo, consegui finalmente ir ao banheiro, mas a mão não me soltou enquanto não chegamos à porta dele. Quis me acompanhar para mostrar o caminho, sem parar de falar um único minuto. Acho que me contou a história da família inteira, mas não consegui prestar atenção em nada. Assim que entrei, já fui direto para a pia, joguei água na cara, molhei um pouco os cabelos e a nuca. Enquanto isso, me aguardava na porta para me acompanhar de volta à mesa. Demorei bastante, mas ainda era aguardado incansavelmente. Me perguntou se estava tudo bem. Respondi que sim, que já estava terminando. Saí e fui recebido com um enorme e indigesto sorriso. Me deu azia. Na verdade, eu já estava sentindo, mas não na mesma intensidade que agora.
Antes que segurasse meu braço novamente, eu disse que precisava de um sal de frutas, pois havia comido algo que me fez mal. Seu semblante mudou, a simpatia exagerada virou raiva. Um ódio mortal. Me disse que era impossível que algo que comi pudesse me fazer mal, pois tudo foi feito com ingredientes frescos comprados nas lojas mais caras da cidade e com muito amor. Disse que eu não sabia o que era isso, que eu não tinha amor pela minha família e nem tampouco tinha educação. Me expulsou de sua casa dizendo que eu era muito grosso e mal-agradecido. Disse que não era para eu voltar nunca mais, pois não era mais bem-vindo. Saí aliviado e, sem querer, acabei deixando escapar um “obrigado”.
11/0313:57
Um dia eu estava numa lanchonete comendo uma empada de queijo e ouvi uma pessoa falar que os homens geralmente não gostam de empada, mas as mulheres sim. Não disse o motivo e nem deu mais nenhuma explicação, apenas “deixou no ar”. Fiquei com isso na cabeça. Gosto muito de empada, ainda mais se for a de queijo, e isso me intrigou.
Sou um apaixonado pela empada de queijo desde criança, é uma paixão que chega a ser quase amor. Desde a primeira vez que coloquei uma na boca, ela já foi entrando e ocupando um lugarzinho no meu coração, como se fosse um quartinho que estava disponível para aluguel há muito tempo e finalmente tinha aparecido um inquilino que paga em dia, não faz barulho e não reclama de nada. Acho curioso ela ser a única que não tem aquela “tampinha” de massa cobrindo, o recheio dela é exposto, e isso parece que influencia a minha vontade de comer, eu vejo o recheio e parece que já começo a sentir um pouco do gosto. Ela é honesta, não tem nada para esconder.
A empada é um dos salgados mais populares do Brasil, ela é feita com aquela massa podre deliciosa que desmancha na boca e com todo tipo de recheio que a gente pode imaginar: frango, camarão, palmito, carne moída, queijo, etc. Agora tem até empada doce! No lanche da tarde ou em festinhas de aniversário de criança, numa confraternização ou num coffee break, ela é presença certa e indispensável, quase obrigatória. Por que os homens não iriam gostar? Será que as mulheres têm uma sensibilidade diferente da dos homens também em relação à empada? Será que eu tenho um lado feminino quando se trata de lanchar?
Passei a observar as pessoas que entram nas lanchonetes onde estou lanchando e o que elas pedem. Não foi por uma semana, por um mês, trimestre ou semestre, foi por anos. Nunca vi um homem pedir uma empada.
10/0314:54
Tem gente que, quando vai contar alguma coisa para a gente, conta de uma maneira que dá a impressão de que tudo o que ela fez foi melhor do que o que a gente faz. Não estou falando de pessoas que contam vantagem, que se gabam ou se acham superiores, mas daquelas que descrevem o que fizeram “com gosto”.
Todo mundo já conversou com alguém que contou como foi o seu dia, tudo pelo que passou e teve que fazer naquele dia, como ficou cansado, sem forças e sem disposição, mas que, quando chegou em casa, tomou AQUELE banho e saiu com as energias renovadas. Tem também quem conte que estava com muita fome e, quando foi almoçar, comeu AQUELA macarronada, ou qualquer outra comida, o que importa é a ênfase que a pessoa dá na hora de contar.
Acho que eu nunca tomei um banho, nem comi nada tão bom que tivesse merecido o adjetivo “AQUELE (A)” com essa ênfase toda. Já tomei banhos que foram revigorantes, mas nenhum deles foi AQUELE, já comi comidas deliciosas, mas nenhuma delas também foi AQUELA. Talvez eu não esteja fazendo essas coisas do mesmo jeito ou no mesmo lugar que as tais pessoas que contam fazem.
Para falar a verdade, acho que nem essas pessoas chegaram a tomar um banho ou a comer algo tão bom assim, o jeito como elas contam é que parece criar um outro mundo dentro das nossas cabeças, onde tudo é melhor. Elas gesticulam de uma maneira diferente enquanto descrevem o banho que tomaram e falam com a boca cheia d’água e como se estivessem sentindo o sabor enquanto descrevem as comidas que comeram. É tudo o jeito. E eles têm o jeito. AQUELE jeito.
07/0308:43
Engarrafamento numa sexta-feira depois do expediente ninguém merece. As quatro pistas paradas e eu doido para chegar em casa. Não anda de jeito nenhum, meia hora já e não saio do lugar, nem um centímetro. Há muito tempo não engarrafava desse jeito, por isso eu já tinha feito até planos para o fim de tarde e noite. Comprei a bebida e os tira-gostos. Ia ser só eu e ela, era só chegar, ligar, tomar um banho, me arrumar e esperar. Mas engarrafou. Justamente nessa sexta.
Passou um vendedor de biscoito, desses que sempre aparecem do nada nos engarrafamentos e a gente nunca sabe de onde eles surgem e se já sabiam que iria engarrafar ou como eles conseguiram comprar tanto biscoito assim de última hora. Ele chegou do lado do carro, enfiou a mão pelo vidro da porta, segurando aquele saquinho branco com o desenho do bonequinho com um cabeção redondo, e disse: "- Biscoito Globo, freguês?! É o maior sucesso!". Eu detesto esse biscoito, ele é horrível, tão horrível quanto ser chamado de "freguês" por um vendedor. Agradeci e perguntei se tinha água mineral, ele respondeu que não, mas que tinha um camarada que vendia e ia mandar ele vir trazer para mim.
Agora já tinha uma hora que eu estava parado ali. Ou melhor, tinha andado mais ou menos um quilômetro, mas não fazia muita diferença. Nada de água, a camisa e a calça encharcadas de suor e colando na pele. A garganta seca e a cabeça já começava a doer. Liguei avisando que ia atrasar, disse que não aguentava mais esperar, ela disse que também não.

- Água aí, freguês?
- Ô! Finalmente!
- O camarada do biscoito falou que você queria água.
- Sim. Quero sim. Me dá duas.
- Tá na mão, freguês!
- Graças a Deus! Você me salvou.
- Tamo aqui pra isso, freguês. Agora deixa eu ir naquele outro carro ali.

Abri uma das garrafinhas e já tomei metade da água de uma vez só, sem parar para respirar. Deu uma aliviada na secura. Comecei a sentir fome, poderia comer qualquer coisa. Menos aquele biscoito. Argh! Aquele não!
Mais meia hora e só tinha andado mais uns 700 metros. Liguei de novo para ela cancelando o encontro: "- Marcamos para amanhã, pode ser?". Respondeu que tudo bem. A fome foi aumentando, mas aquele biscoito...
Comecei a pensar em tudo o que poderia ter rolado naquele fim de tarde e noite com ela, em como teria sido bom, mas ia ter que ficar para amanhã. Pensei na bebida e nos tira-gostos. Eu tinha comprado tantos tira-gostos gostosos, mas eles estavam tão longe. Aqui o que reinava era só o Biscoito Globo e eu já estava entendendo porque ele era "o maior sucesso". Não tinha escolha, não tinha outra coisa para comer ali a não ser o biscoito do saquinho branco com o desenho do bonequinho com um cabeção redondo. Avistei pelo retrovisor um vendedor passando com um saco transparente lotado desses saquinhos. Ele estava meio longe, então saí do carro e, com as duas mãos em forma de concha em volta da boca, berrei:

- Ô BISCOITO GLOBOOOOOO!!!
06/0310:28
O anúncio dizia que era uma quitinete, mas aquilo não era tão grande quanto uma. Na verdade, comparada com aquele cômodo, uma quitinete pareceria mais um apartamento de luxo. Mas eu precisava mudar rápido e tinha pouco dinheiro, ia ter que servir. “A pressa é inimiga da perfeição”. Eu não queria ter pressa, fui obrigado a ter, nem queria nada perfeito, mas aquilo era imperfeito demais.
Quando a situação está insustentável, a convivência está impossível, é melhor mudar. Mudar tudo: a cabeça, a forma de agir e reagir, as pessoas, a mobília, a decoração, o ambiente, os ares, em resumo, TUDO. Não queria mais aquilo tudo que me cercava, me apertava e me limitava. Um espaço só meu, por menor que fosse, não me daria tanta claustrofobia. Mesmo tendo pouco espaço para o ar, ele seria mais puro. Por não caber muita coisa, não teria decoração e nem muita mobília, só o básico, bem minimalista, mas, o mais importante, sem ninguém para dizer como, onde, quando ou porque. Só eu morando ali. Ali e na minha mente.
Aquilo não era uma quitinete, era só um quarto, uma suíte. A porta de entrada não abria por completo, ela batia na cama, e eu, que estou acima do peso, tinha que entrar de lado. Já continuava nessa posição para passar no espaço entre a cama e a única parede na qual ela não estava encostada. Assim, eu chegava num ponto no qual já conseguia sentar, com os joelhos encostando na parede. Se continuasse andando, chegaria ao banheiro: uma privada, um chuveiro, quase em cima dela, e uma mini pia, sem porta. Na outra parede, uma prateleira onde eu deixava, ao lado das minhas roupas, um fogareiro elétrico e uma panela, o suficiente para preparar um miojo e cozinhar uns ovos. Um pouco acima da cabeceira da cama, um basculante bem pequenininho era o meu “ar condicionado”. O vento soprava a cortina na minha cara o tempo todo, precisei comprar uma nova, sou alérgico a mofo.
A minha cabeça também estava mais ou menos assim, parecendo bastante com esse quartinho. Mas, aos poucos, passou a parecer mais com uma quitinete, depois com um apartamento normal e, quando me dei conta, já era uma cobertura de frente para a praia. Eu estava pensando nisso enquanto folheava um jornal. Quando cheguei nos classificados, li um anúncio que dizia: “Você se sente só? Saia da solidão…”. Nem acabei de ler, cortei aquele quadradinho com a mão mesmo, deixando um buraco no jornal, piquei em pedacinhos bem pequenininhos e joguei pelo basculante. Continuei minha leitura.
05/0315:32
"- A cigarra é um bicho muito chato, né vô?
- Você acha?
- Eu acho, ela fica fazendo esse barulho chato sem parar.
- Eu gosto. Ela tá anunciando que o verão tá chegando.
- Eu tenho medo dela porque ela é muito grande.
- Ela não faz mal nenhum pra gente, não. Coitada dela, vem pra anunciar que o verão tá chegando e canta até estourar. Você sabia que ela canta até estourar?
- Não, vô! Ela canta até estourar mesmo?
- Aham! É sério, eu mesmo já vi.
- Viu vô?
- Vi. Ela estoura e fica só a casquinha dela grudada na árvore."

Por muitos anos da minha infância e pré-adolescência, tudo o que eu sabia sobre cigarras era o que eu tinha aprendido com o meu avô. Para mim, ele era o homem mais inteligente do mundo, sabia de tudo, mas eu, que era criança, não sabia quase nada e queria aprender tudo para ser igual a ele.
Todos os netos adoravam ir na "casa do vô", era um desses lugares que têm uma certa magia para as crianças. Lá a gente mexia em tudo o que ele falava que não era para mexer, subia nos lugares que ele falava que não era para subir e tudo mais que não podia fazer. Na estante da sala, dentro de uma portinha trancada com chave, tinha um pote cheio de balas sortidas que ele comprava para chupar durante o dia e para dar para a gente, a que eu mais gostava era a de coco queimado. No banheiro, um pequeno armário de madeira com a parte de baixo fechada por uma cortininha branca, ficavam guardados rolos e mais rolos daquele papel higiênico rosa. Às vezes todos entrávamos na Brasília azul para ir buscar um dos primos, que morava num bairro mais distante, era a maior festa, a maior bagunça.
Enquanto eu crescia e convivia com o meu avô, fui aprendendo um pouco de tudo, ou quase tudo: marcenaria, alvenaria, instalações elétricas e hidráulicas. Aprendi, também, a não jogar, ele detestava jogos de azar, dizia que se fosse feito para ganhar chamaria "jogo de sorte" e sempre repetia: "- Meu filho, teima mas não aposta". Era o homem mais teimoso que conheci em toda a minha vida, mas só teimava quando tinha razão, quando não tinha, apenas calava, menos quando se tratava de chupar picolés, ele era diabético, mas chupava dois ou três em seguida e dizia: "- Esse médico não sabe de nada".
Uma das coisas que meu avô mais me falava era para estudar muito para trabalhar pouco, porque ele tinha estudado pouco e, por isso, teve que trabalhar muito. Ele sempre falava para eu nunca deixar de ir no “culégio” para não passar pelo que ele passou. Assim eu fiz, e foi numa aula de biologia que descobri que as cigarras são insetos e que, após subirem mais ou menos 2 metros no tronco de uma árvore, abrem uma fenda no seu exoesqueleto, de onde saem, agora com asas, deixando só a sua “casquinha” vazia para trás. Naquele dia a cigarra do meu avô morreu.
02/0312:33
Era o último dia de carnaval. Havia ao lado da mesa um engradado cheio de cascos vazios de Malt 90 e mais um que em pouco tempo chegaria na metade. A mesa, na verdade, eram duas que juntaram para caber todo mundo, uma coberta com uma toalha verde e a outra com uma toalha vermelha e, por cima, aquele plástico transparente grosso que ficava colando no braço e às vezes dava umas dobras que deixavam o copo meio tombado. Uma travessa de alumínio, daquelas típicas de bar, com uma porção de jiló frito, outra com uma porção de iscas de fígado com muita cebola e uma terceira com uma boa quantidade de torresmo. Sentados sobre as pesadas cadeiras de madeira, uns usavam calças jeans e camisas desabotoadas mostrando os pelos do peito ou um cordão de ouro, outros ainda usavam a mesma fantasia que já estavam usando desde o primeiro dia, já bem suada, suja, rasgada e faltando alguma parte. Das pequenas caixas de som quadradas penduradas nas paredes vinham, entre chiados, as últimas marchinhas e sambas-enredo daquele ano.
Entrei no bar, cutuquei o ombro do meu pai, ele falou para eu pegar o que quisesse, se virou e voltou a conversar com os amigos. Pedi uma daquelas coxinhas que vêm com osso e um Grapette. Quando acabei de comer, pedi para sentar na mesa também, mas meu pai me disse que ali não era lugar para crianças, pois só tinha adultos e só conversa de adulto, me deu um pouco de dinheiro e falou para eu ir jogar no fliperama do lado. Tá aí uma coisa que eu gostava! Ficava horas jogando sem enjoar enquanto esperava por ele.
Sempre que eu chegava no fliper, já ia comprando um monte de fichas. Entregava o dinheiro todo que meu pai tinha me dado para o homem do caixa e ele me dava uma quantidade tão grande de fichas que os dois bolsos da minha bermuda ficavam cheios e, quando eu andava, elas faziam uma barulheira danada. Eu começava a jogar sozinho, meus jogos favoritos eram os de luta e os de corrida, mas depois sempre encontrava um filho de algum dos amigos do meu pai ou uma outra criança que estivesse querendo jogar na mesma máquina que eu estava e a gente começava a conversar enquanto jogávamos juntos. Fiz muitos amigos assim. Às vezes eles iam comigo até meu pai e ele pagava lanche para todo mundo.
Neste dia, porém, o fliper estava fechado e os meninos estavam todos sentados nos degraus que ficavam em frente. Sentei lá também e fui me enturmando, conversamos por horas. Naquela época as crianças faziam isso, era o nosso buteco.
27/0211:05
Só de olhar para aquilo já me embrulhava o estômago. Enquanto aquela pessoa almoçava, tomando junto uma lata de cerveja em temperatura ambiente, um líquido viscoso e azedo ia subindo pela minha garganta. Me dava ânsia de vômito.
Uma parada que o ônibus faz no meio de uma longa viagem é importante porque ali a gente desce, estica as pernas, vai ao banheiro, come alguma coisa, alguns fumam um cigarro etc. Mas tem gente que prefere ficar lá dentro mesmo, uns dormindo, outros escutando música, mexendo em seus celulares ou comendo algo que trouxeram de casa. Nem sempre dá tempo de terminarem a refeição e, quando retornamos, acabamos presenciando, de camarote, o grotesco espetáculo.
Era uma colherada, com uma daquelas colheres de plástico, na comida já fria dentro do marmitex, seguida de uma golada na cerveja. E eu imaginando o arroz com feijão se misturando com a espuma morna, com um pouco do gosto do alumínio da latinha, e virando uma massaroca que parecia descer, pelo menos um pouco dela, direto pela garganta, sem nem ao menos ser mastigada. Às vezes escorria um fio da bebida pelo canto da boca e a língua, coberta por um pouco daquilo que estava dentro da boca, logo ia buscar de volta.
Por mais que a gente tente, não consegue parar de olhar para essas coisas. Não sei o que é isso, mas eu virava a cabeça para o outro lado e quando me dava conta, já estava encarando aquela cena de novo. Parece que esse tipo de coisa atrai nossa atenção, é irresistível, é como um imã. Será que o ser humano, por natureza, gosta de se torturar?
Passei todo o restante da viagem suando, com azia e mal-estar. Aquela imagem não saía da minha cabeça. Quando desci do ônibus, peguei minha mala no bagageiro e fui direto ao guichê da empresa para comprar a passagem de volta. Pedi pelo amor de Deus uma poltrona na janela. No corredor, nunca mais!
26/0215:08
Um senhor que aparentava já passar dos 60 anos estava agachado em frente à porteira de madeira, de onde partia e retornava uma grande cerca de arame farpado. Levava um cigarro de palha mal enrolado, meio frouxo e torto, no meio do seu bigode amarelado, que deixava subir um fiapo bem fino de fumaça, em contraste com a nuvem espessa que saía pelo canto da boca em longas baforadas intercaladas com pigarros. Usava uma camisa xadrez meio encardida do trabalho na roça, uma calça jeans amarrada com uma corda que servia de cinto, tão apertada quanto nas vezes em que foi usada para fechar um saco no transporte das colheitas, uma bota muito larga para o seu pé, com o cano cortado, toda suja de barro e um chapéu de pescador bem velho e já desfiando. Me aproximei e dei um "boa tarde" que foi respondido com um preguiçoso "taaarde".

- Tudo bem com o senhor?
- Bããão.
- Tô procurando o tio Joãozinho, ele tá?
- Tá.
- Posso ir falar com ele?
- Vai lá.
- O senhor abre pra mim?
- Sim sinhô.
- Ele tá aonde?
- Dendi casa.
- Obrigado! Toma um trocado pra você tomar uma branquinha. O senhor gosta?
- Ô!

Enquanto tratava de alguns assuntos de família com o meu tio, vi que aquele senhor se levantou e foi andando bem devagar na direção do horizonte até sumir. Tomamos café da tarde e nos despedimos. Dessa vez, fui eu mesmo quem teve que abrir e fechar a porteira. Dei umas voltas pela vizinhança, mas não achei mais o "porteiro" da fazenda para me despedir dele também.
Na manhã seguinte, acordei com o telefone tocando na minha cabeceira. Atendi. Era meu tio Joãozinho:

- O faz-tudo da fazenda sumiu. Cê num deu dinheiro pra ele não, né?
24/0208:51
Quem vinha por aquela rua calçada, com certeza passava pela barraca de churrasquinho que ficava no passeio, encostada no muro de um terreno baldio. Era uma daquelas barraquinhas com a estrutura toda de barras de ferro que se encaixam para montar e coberta por um plástico preto grosso. Uma tábua de madeira que ficava apoiada em cima das duas laterais servia como balcão, onde ficavam a pequena churrasqueira a carvão preta feita em ferro fundido e algumas garrafas vazias de refrigerante e cerveja para mostrar quais eram as opções de bebidas, já que não tinha cardápio. No caso do churrasquinho, era de boca mesmo, tinha que perguntar.
Um senhor, que estava sempre de boné, fazia tudo sozinho: descarregava a mercadoria, as ferragens, os isopores e tudo mais, montava a barraca, preparava os churrasquinhos e atendia os fregueses. Ele trazia as coisas na sua velha Caravan e na carretinha que vinha engatada nela. Dizia que gostava do que fazia, gostava de trabalhar e que já tinha formado todos os seus filhos vendendo churrasquinho, não ficou rico, mas nunca faltou nada em casa. Dava para notar que ele gostava muito de conversar também, contava sua vida inteira e era cheio de histórias.
Da primeira vez que fui na barraquinha, eu ainda era criança e foi meu pai quem me levou. Foi mais ou menos assim:

- Opa! Tudo bom menino?
- Tudo bom, moço.
- Hoje o papai te trouxe, né?
- É.
- Boi, porco ou frango?
- Frango!
- Passa no vinagrete?
- Aham.
- Passa na “areia”?
- Areia no churrasco?
- É farofa! - respondeu meu pai rindo.
- Ah! Então pode. Bastante “areia”!
- Tá na mão! Coca?
- Quero.
- Taí, geladinha! Manda ver!

Foi o churrasquinho mais gostoso que eu já tinha comido e acho que até hoje ainda é. Ainda são 4 gominhos de carne no espetinho de madeira, a mesma churrasqueira, o mesmo vinagrete e a mesma “areia”. Eu fico rindo da reação das pessoas à pergunta “Passa na ‘areia’?”. Poucas coisas mudaram, a Coca deu lugar à cervejinha gelada e as histórias agora eram sobre o pai que trabalhou até o último dia da sua vida naquela barraquinha.
23/0209:42
Quando se está sentado, compenetrado e focado em fazer alguma coisa, uma mosca pode atrapalhar, e muito. Todas as vezes que ela passa próxima ao rosto ou à orelha, o barulho das suas asas batendo freneticamente e as esbarradas que ela dá acabam por nos desconcentrar, nos tirar o foco, atrapalhando o andamento do que se está fazendo e levando, assim, a um atraso na conclusão daquilo.
Naquela noite, foi exatamente isso o que aconteceu comigo. Como se não bastasse o calor, que já tornava tudo mais difícil, aquela "bendita" mosca não me deixava quieto. Por mais que eu tentasse me concentrar, ela vinha e zumbia no meu ouvido, ou passava pertinho dos meus olhos... e lá ia eu começar todo o processo de novo, e de novo, e de novo.
Já cansado da situação, olhei para o lado e notei que a toalha de rosto estava ao meu alcance, estiquei o braço, a peguei e comecei a dar chicotadas para tudo quanto é lado, mas sem sucesso. A mosca voltava a passar próxima à minha orelha e a soltar no meu ouvido um "zumzumzumzum" que soava como um "hahahaha".
Cheguei à conclusão de que, pelo menos naquela condição na qual me encontrava, eu nunca iria vencer a batalha. Desisti do que estava tentando fazer, me levantei do vaso sanitário, entrei no box e abri o chuveiro. Um banho frio daria um jeito no calor pelo menos. Mais tarde eu poderia voltar e resolver o outro problema.
Foram cerca de 10 a 15 minutos de sossego, cheguei a quase me esquecer da mosca, mas foi a conta de fechar o chuveiro e ela fez questão de me lembrar que ainda estava ali. Me enxuguei, parando, às vezes, para dar um tapa em algum lugar do corpo, na inútil tentativa de matar ou, pelo menos, espantá-la. Terminei, e agora eu tinha uma toalha maior e molhada, mais pesada. As chicotadas passaram a ser mais violentas e até barulhentas, um barulho que parecia com o de uma tora de madeira caindo num chão com piso de ardósia e o quebrando. O resultado foi o mesmo: nenhum.
Já no meu quarto, com a porta fechada para que ela não entrasse, pus meu pijama, tomei um gole de água, me deitei e liguei a TV. Notei que o apresentador do telejornal tinha uma pinta na cara: "- Peraí! Pinta não anda! Ela entrou!". Estava andando na tela da TV. Acho que ela percebeu que eu a descobri ali, pois passou a vir de vez em quando próxima ao meu ouvido para soltar mais um "hahahaha" e voltar para a tela.
Agora eu iria mostrar para ela quem mandava naquela casa, quem era o mais forte e mais inteligente. Liguei o ventilador e busquei a toalha molhada, assim ela iria preferir ficar só na tela da TV e eu teria mais facilidade para acertá-la. Não deu outra: acertei. Demorou um pouco. Alguns minutos. Meia hora, na verdade. Quase cheguei a derrubar a TV, que, com a força de uma das chicotadas que dei, ficou com a tela preta por uns segundos. Procurei o cadáver até achar, peguei pelas asas e fiquei observando aquela única perna que ainda se mexia: "- MAS SERÁ QUE VOCÊ NÃO MORRE!"
Enfim era chegada a hora de concluir algo que a mosca não havia me permitido antes. A levei junto. Joguei-a dentro da lixeira e me sentei abraçado a ela, segurando a tampa, só para garantir.
22/0217:22
Quando você vê uma pessoa de bermuda e chinelo, pode ter certeza de que ela está tranquila, não está devendo nada para ninguém, nem dinheiro, nem satisfação, ela está "de boa", está com a cabeça livre e leve, só relaxando, só vivendo e curtindo a vida em paz. Se estiver na beira de uma piscina, tomando alguma bebida num copo bacana com bastante gelo e um canudo daqueles de dobrar então...
Sou mais ou menos esse tipo de pessoa, o que muda é o copo, que no meu caso é o americano, e o conteúdo dele, uma cerveja bem geladinha com um colarinho de uns dois ou três dedos de espuma, daqueles que deixam até um bigodinho branco na gente. Esse bigode faz o papel do canudinho. A piscina é a mesma.
É nos detalhes que está o segredo das coisas. Sou bastante observador e consigo interpretar bem o significado de cada um deles, só não sei explicar como faço isso. A piscina representa a alma da pessoa porque a água é cristalina. A bermuda é leve e arejada, o chinelo também, e não aperta os pés.
Acho que todo mundo trabalha pensando na bermuda e no chinelo que ficaram em casa. Passar um dia inteiro de calça e sapato, principalmente no calor, representa muito bem o peso de se ter compromissos e prazos para cumprir. Ao final do dia, quando conseguimos entregar o resultado de tudo o que fizemos, o que mais queremos é chegar logo em casa, tomar um banho, vestir a bermuda e calçar o chinelo.
O significado da bebida, do copo, do gelo, do canudo de dobrar e do bigode de espuma eu não sei. Provavelmente minha cabeça acabou inventando, mas, pelo menos para mim, faz muito sentido.