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Edson Basilio

@ edsonbas

Nível
2
Essência
🌬️ Ar
Ritual
0 Dias

Patrimônio

60.0 LC

ESTRADA

LITERÁRIA

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21/0214:31
Bar que serve almoço é uma tradição que já estava quase desaparecendo, restaram poucos que já eram consagrados. Até algumas décadas atrás, qualquer botequim “pé-sujo” servia pelo menos uma refeição, em alguns casos tinha janta também. Era aquele “pê-efe” de respeito com um bifão do tamanho do prato por cima. O “zoiudo” era outra presença garantida neste prato típico, ele vinha com a gema mole para a gente estourar com a ponta da faca de serrinha e deixar escorrer por cima do arroz branquinho, que vinha no formato certinho da cumbuca na qual eles o colocavam e viravam no prato. O feijão vinha numa cumbuca à parte, assim como a salada de alface com tomate e cebola.
A gente entrava naqueles estabelecimentos com azulejos até metade da parede, geralmente nas cores: verde-claro, azul-claro, branco, amarelo ou revezando 2 destas cores, na posição normal (quadrados) ou tombados (losangos), cumprimentava o dono e íamos nos sentar. Ele mesmo vinha anotar nossos pedidos, colocava na mesa o jogo americano descartável de papel com propagandas de lojas e já trazia “uma” por conta da casa para tomar com a gente. Existia um certo nível de amizade, de fraternidade, entre frequentadores e proprietários de bares.
O balcão era de madeira e tinha estufas embutidas, que serviam como vitrines repletas de carnes, bolinhos, batatas cozidas, torresmos, empadas, coxinhas e pastéis. De frente para ele, alguns bancos fixos com assentos giratórios de madeira, onde se sentavam os fregueses que preferiam beber ali. Do outro lado, engradados de cerveja vazios ficavam empilhados numa parede, no canto, ao lado da porta do banheiro. No topo desta pilha, o último engradado sustentava uma tábua de madeira com uma TV 14" em cima, transmitindo o jornal do meio-dia.
Ultimamente estão tentando resgatar esta tradição. Fazem uma decoração retrô (naquele estilo), reproduzem os pratos clássicos, mas ainda faltam algumas coisas. O dono ainda não aparece sempre, nem se senta para conversar e a comida, apesar de gostosa, ainda não é igual. O profissionalismo empresarial e a higiene excessiva tiraram o gosto da comida e pelo papo.
20/0208:33
Aquele senhor no ponto de ônibus me parecia simpático, tinha um semblante tranquilo, uma cara de felicidade. Era um daqueles senhores que usa uma boina de abotoar a aba, pulôver, cachecol, calça social e sapatos sempre muito bem engraxados. Levava um guarda-chuva, que também usava como bengala e dois óculos, um no rosto e o outro pendurado no pescoço, os dois tinham aquelas cordinhas para que ele pudesse ir trocando entre um e outro conforme precisasse enxergar de perto ou de longe. Perguntei se meu ônibus parava naquele ponto, me respondeu que sim, era o mesmo que ele iria pegar. Ficamos esperando, mas não nos falamos mais.
Quando o ônibus chegou, só estavam lá dentro o motorista e o cobrador. Entrei e me sentei. Logo em seguida, o senhor entrou e me perguntou, já se sentando, se poderia se sentar do meu lado. Sem ter escolha, eu disse que sim. Ele tirou do bolso da camisa que usava por baixo do pulôver um maço de dinheiro, lambeu o dedo e passou uma nota, lambeu novamente e passou outra e mais uma. Terminado este ritual nojento, ele esticou o braço, esbarrando na minha cara, e entregou o dinheiro ao cobrador. Seu perfume era o Lancaster e ele havia usado uma quantidade exagerada, quase sufocante. Infelizmente, mal sabia eu que o pior ainda estava por vir.
De todos os tipos de chato, acho que o pior é o que fica cutucando enquanto conversa com a gente, como se tivesse que chamar a nossa atenção o tempo inteiro por estarmos ignorando o que ele fala. Alguns cutucam no ombro com um ou dois dedos, outros com o cotovelo no braço e, os campeões da chatice, os que ficam dando tapinhas no antebraço. Se existe alguma coisa mais irritante do que isso, ainda não me foi apresentada, e torço para que nunca seja.
As histórias da infância e adolescência dele numa cidadezinha do interior, onde todos se conheciam e as casas não precisavam de muros, as portas podiam ficar destrancadas, as bicicletas no passeio, porque não tinha tantos bandidos como hoje e mais alguns causos, até que eram interessantes, mas se tornavam infinitos, assim como a viagem de ônibus que estávamos fazendo, por causa dos tapinhas no meu antebraço seguidos de um “vai escutando”. Aquilo chegava a gelar a espinha e arrepiar os pelos do corpo inteiro. Meu braço estava apoiado na minha coxa, tentei escapar segurando no encosto do banco da frente, mas os tapinhas foram junto, como se fossem um inseto que pousa no braço da gente e não quer sair, só sai quando batemos a mão para espantar, mas com aquela mão não dava para fazer isto.
O ônibus leva meia hora para ir do centro até o ponto final, que fica em frente à minha casa, mas neste dia havia acontecido um acidente que deixou o trânsito tão lento que o trajeto levou uma hora e meia. Eu já não conseguia mais prestar atenção no que aquele senhor falava, nem pensar em mais nada. Minha mente agora só conseguia ficar contando os tapinhas. Ao todo foram 365, um para cada dia do ano, até finalmente chegarmos ao nosso destino. Sim, ele foi sentado do meu lado até o meu ponto.
Descemos do ônibus e, antes que eu conseguisse atravessar a rua, ouvi um “até amanhã” e ganhei mais um tapinha no antebraço. O ano era bissexto.
19/0222:30
Lá na roça, água de beber é na moringa. De manhã cedo, já tem que ir buscar na bica da mina d'água. Ela sai tão geladinha e é tão pura que não dá para resistir, já juntamos as mão em forma de concha (como as de feijão, não as do mar) e levamos até a boca. É uma água que tem até sabor, mas não como as aromatizadas, é o sabor da terra e das pedras pelas quais ela passou no seu caminho até o pedaço de cano que alguém adaptou ali várias décadas atrás. Sempre escorre um pouco pelo queixo, descendo pelo pescoço até o peito, é uma sensação muito gostosa e refrescante.
Com a moringa já cheia, é hora de levá-la de volta para a casa. Dá para sentir que ela ficou gelada quase que instantaneamente e úmida por fora. É o barro, material do qual é feita, recordando suas origens, ele é quem vai manter a água por bastante tempo naquela temperatura natural, fresca, quase gelada e realçar o leve sabor de terra. O lugar daquela maravilhosa "garrafa", tampada com um copo, também feito de barro, é em cima da mesinha de canto da sala, onde ficavam mais um copo, este de alumínio, uma caneca esmaltada e uma garrafa de café, daquele cheiroso, colhido, torrado e moído ali mesmo e adoçado com açúcar mascavo.
É bem comum um vizinho aparecer para prosear e tomar um cafezinho com biscoitos de polvilho e de araruta, broa, queijo e pão, tudo feito em casa. Fala-se sobre a família, o filho que foi morar com a tia na cidade para estudar, sobre as colheitas, a chuva, o sol, as vacas que dão mais leite, o riacho que corta as terras de um ou de outro e tudo que é assunto que for aparecendo. Esse papo pode durar muitas horas e só terminar com o sol já sumindo lá longe no horizonte.
Quando começa a escurecer, é hora de ir embora, pois ainda dá para enxergar o caminho de volta para casa pela estradinha de chão batido. Fica um "obrigado pelo café e pela prosa", um convite para “ir lá também um dia” e um sentimento de pena pelo dia estar acabando. Na roça, a despedida parece ser mais triste porque sempre vem depois de uma alegria que também é bem maior.
19/0210:44
(Manhã)

- E aí cara, trouxe a parada?
- Tá aqui!
- Cara! Que legal! Isso é a coisa mais legal que eu já vi na minha vida!
- É mesmo. Não te falei que era maneiro?
- Hehe. Demais cara! Mas como que a gente vai fazer pra detonar ela?
- Acho que vou bater nela com uma pedra.
- Mas e se ela explodir e te machucar?
- Explode nada, a gente mira pro outro lado e tá tranquilo.
- Cê tem certeza?
- Claro! Cê tá com medo, cara?
- Não, claro que não! Só tô preocupado com você.
- Pode ficar tranquilo que não vai acontecer nada comigo.
- Beleza então. Vai lá!
- Porra! Essa merda não detona.
- Cê não deve tá batendo com bastante força.
- Então olha agora. Vou bater com toda a minha força.
- Ah! Cê tá muito fraquinho. Me dá essa pedra aqui!
- Ué! Cê não tava com medo?
- Já falei que não! Eu só tava preocupado.
- Então toma aqui! Quero ver se cê é mais forte que eu.
- Cê não tava batendo direito. Vou te mostrar como que eu tava falando pra bater.
- Vai lá, fortão!
- Vou mesmo!
- Ih! Alá! Não é de nada também! Tirou a maior onda e na hora H nada.
- Ah! Vai a merda!
- Como que a gente vai fazer pra essa porra atirar?
- Sei lá, caralho!
- Que que cê acha da gente pôr na linha e esperar o trem passar em cima?
- É! O trem tem mais força que essa sua mãozinha de boiola. Hahaha.
- E a sua?! Cê também não conseguiu, sua bichona. Hahaha.
- Vamo deixar de bobeira e vamo pro centro pôr essa merda na linha do trem logo!
- Beleza! Vamo lá!
- Agora não, vamo depois do almoço. Já tá quase na hora, senão minha mãe vai me encher o saco.
- Beleza! Vou almoçar também.
- Então a gente encontra depois do almoço na pracinha.
- Tranquilo. Falou!
- Falou!

(Tarde)

- E aí? Vamo lá?
- Porra! Cê demorou pra caralho! Já tem meia hora que eu tô aqui!
- É que depois do almoço tive que dar uma cagada.
- Hahahaha! Cagão!
- Cê não caga, não, porra!
- Tô zoando, cara! Cê pega pilha fácil, hein?!
- Bora pra lá então!
- Bora!
- É aqui ó! Melhor lugar pra pôr. O barulho do trem e a buzina não vai deixar ninguém ouvir.
- Vem cá pra trás do muro, mas despista pra ninguém perceber.
- Esse trem tá demorando muito. Será que hoje ele não passa?
- Passa sim. É que a gente tá nervoso, aí parece que demora mais.
- Mas eu não tô nervoso. Eu sou macho.
- Até parece.
- Sou mesmo! Mais macho que…
- Olha lá ele!
- Até que enfim!
- Não fica olhando. Faz de conta que a gente tá fazendo outra coisa.
- Não tô olhando.
- Tá sim! Cê tá dando na pinta pra caralho!
- Tá chegando!
- Vou ficar olhando pro outro lado.
- Eu não. Quero ver o que vai acontecer.
- Porra! Que barulhão! E aí, como foi? Deu pra ver?

- Responde cara! Levanta cara! CARAAAAAAAAAAAA!
14/0213:10
Um senhorzinho se aproximou de mim na fila do banco e puxou conversa, daquele jeito que sempre costumam fazer: “- Tá quente hoje, né?”. A gente responde e, a partir daí, o assunto nunca mais acaba.
Outra coisa que também nunca mais acabava, era o arroz que ele mastigava. Sabe aquele grão eterno que fica na ponta da língua de alguns idosos e a gente acaba vendo porque eles mastigam, mastigam, mastigam e depois põem a língua para fora da boca, parecendo até que querem mostrar aquilo para todo mundo, e ele ainda está lá intacto? Como pode uma coisa ser mastigada tantas vezes e nunca acabar? A gente tenta focar na conversa, mas não dá, a nossa atenção fica naquilo, tentando resolver esse mistério.
Ele não parava de falar, e a fila não andava. A fila não andava, e ele não parava de falar. Falava, falava, falava e falava mais um pouco. Eu fingia que estava escutando e entendendo por educação, só balançando a cabeça num “sim” contínuo. Tudo entrava por um ouvido e saía pelo outro. Às vezes eu ouvia um “naquele tempo que era bom”, “na minha época era muito diferente” e outras frases parecidas. Eu estava alí contra a minha vontade, doido para resolver logo um problema na minha conta. Não dava para ficar prestando atenção nas histórias da vida dele.
Finalmente, consegui chegar ao balcão e pegar uma senha para o atendimento. Entrei na sala de espera. Lá, pelo menos, tinha lugar pra sentar. Uma sala cheia de idosos, eram tantos que olhei para a minha senha e pensei que eu é que deveria ter recebido uma preferencial. Hoje em dia ninguém mais vai ao banco, todo mundo resolve tudo no conforto do seu lar, direto do aplicativo de celular, mas as pessoas idosas têm dificuldade com tecnologias e, por isso, as agências de banco passaram a ser quase que exclusivamente para eles. Mas, para o meu azar, a minha conta deu problema, e era do tipo que só dá para resolver pessoalmente na agência.
O senhorzinho, que eu já tinha apelidado mentalmente de Seu Zé do Arroz, como já era esperado, foi chamado antes de mim… preferencial. Tirou um monte de papeis amarelados de dentro de uma daquelas sacolas plásticas recicladas meio acinzentadas que têm um cheiro ruim e pôs na mesa. Começou a falar batendo com a ponta do dedo indicador em cima da pilha de papeis. Pela distância não dava para escutar o que ele dizia, mas dava para ver que falava um pouco e parava para dar mais umas mastigadas no arroz. O atendente olhava fixamente para ele, provavelmente estava prestando bastante atenção no que escutava para tentar ajudar.
Para a minha surpresa, assim que o atendimento do Seu Zé terminou, eu fui chamado. O atendente me desejou boa tarde e perguntou se eu tinha visto o senhor que ele atendeu antes de mim. Eu disse que sim e que tinha conversado um tempão com ele na fila. Ele continuou: “- Você reparou no grão de arroz que ele fica mastigando? Não acaba nunca!”.
13/0216:30
Uma mão áspera e meio pegajosa me puxou pelo braço. Olhei para ela e vi que estava muito suja e era cheia de anéis. O pulso carregava várias pulseiras e fitinhas. Escutei um daqueles estalos que a pessoa faz com a língua enquanto tenta tirar algo que ficou agarrado entre os dentes. Fui levantando a cabeça até conseguir ver aquele rosto com uma maquiagem muito pesada que dividia espaço com a sujeira, uma mistura de poeira e suor, que ficava agarrada nas rugas das bochechas, principalmente naquele bigode chinês. Do meio daqueles lábios cobertos por uma camada exageradamente espessa de batom vermelho, mesma cor do lenço que ornava a cabeça, reluziam dentes dourados que se intercalavam com outros que um dia talvez já tenham sido brancos. Uma língua extremamente grande se esfrega no canino superior direito, que era de ouro, e retorna para dentro daquele Mar Vermelho, que se abre emitindo uma voz bem rouca: "- Tenho uma coisa muito importante para te contar sobre o seu futuro".
Antes que eu conseguisse dizer que não gostaria de saber sobre o meu futuro, uma de suas mão já estava segurando uma das minhas, enquanto o indicador de sua outra mão, com um esmalte já descascando e também vermelho, percorria a palma da minha. Disse que podia ver fortuna, mas que a morte rondava. Naquele momento, um dedo imundo me tocando me preocupava mais que a morte e não havia fortuna que pagasse a liberdade da minha mão. Dei um puxão com bastante força, me libertando daquelas garras longas e afiadas e saí andando. Apertei o passo para tomar o máximo de distância possível e não ser alcançado. Olhei para trás e vi que ela se distanciava, seguindo na mesma velocidade que eu, mas na direção oposta. Tive a impressão de que estava fugindo de mim. Pensei tê-la machucado ao puxar meu braço, mas a sensação de alívio falou mais alto que a minha empatia. Segui para casa.
Logo que cheguei, fui direto para o banheiro, tinha que limpar toda aquela imundície que estava grudada no meu corpo. Tirei minha roupa, meu escapulário, mas, quando fui tirar meu anel de formatura, já não o tinha mais.
12/0217:30
O doce de leite ninho que era vendido nos botecos na minha época tinha gosto de infância, talvez seja por isso que até os dias de hoje ele é uma das lembranças mais vívidas que eu tenho da minha.
Eu passava boa parte do dia na escola, mas sempre dava tempo de encontrar com os amigos que moravam na minha rua para brincar ou simplesmente ficar sentado no passeio conversando. Brincávamos de todos os tipos de pique que existiam, jogávamos bola, fazíamos guerra de mamona, pegávamos frutas nas casas dos vizinhos e conversávamos sobre os mais diversos assuntos: professoras chatas x professoras legais, o último episódio de um desenho animado que todos assistíamos etc. Estávamos sempre de short, camiseta e chinelo e os nossos pés estavam sempre pretos, principalmente entre os dedos. Nós éramos moleques, tanto os meninos quanto as meninas.
O dono do boteco que ficava no final da rua era amigo do meu pai, ele me deixava pegar algumas coisas e anotava na caderneta para pagar depois. Todo final de semana meu pai ia pagar a conta e quase caía para trás quando via a quantidade de doces de leite ninho. Eu chamava os amigos e íamos todos juntos lá para comer. Aquele era o melhor de todos, e olha que eu já havia experimentado muitos, em qualquer lugar que eu fosse e que tinha, eu comia. Virei especialista na degustação desse doce, ele tinha que ser mais amarelado, mais molinho e derreter na boca, nunca aquele esbranquiçado, que era duro como pedra e só dava pra sentir o gosto do açúcar, pois tinha muito, por isso sua cor era diferente.
Com o passar dos anos, fomos crescendo, as responsabilidades foram aparecendo cada vez em maior quantidade e o tempo parou de sobrar. Alguns dos amigos ainda moram na mesma rua e dá para dar pelo menos um "oi" e dizer que "temos que marcar alguma coisa um dia desses", outros se mudaram para outro bairro, cidade ou país e dois ou três já se foram. O doce de leite ninho sumiu dos botecos e está cada vez mais difícil de achar, mas sempre que acho, eu como, ainda tenho essa mania e, enquanto degusto, reclamando por estar muito branco e duro, vou me recordando da época em que ele e a vida eram mais macios e tinham outra cor.
09/0213:14
O grilo, na realidade, é um ser mágico que tem um poder muito especial, ele consegue
nos transportar imediatamente para a roça apenas com o seu "cri-cri-cri". Faz carros,
asfalto e prédios sumirem. Tudo vira mato, estrada de chão, cavalos e bois e temos
aquela sensação gostosa de sossego.
Um dia desses, eu estava deitado na minha cama e os barulhos da avenida
engarrafada me incomodavam muito, não me deixavam relaxar após o estafante
expediente na empresa. De repente, comecei a escutar um "cri-cri-cri" bem distante,
mas que já me chamava a atenção. Fui me concentrando para tentar ouvi-lo melhor em
meio a toda aquela barulheira e, para minha surpresa, funcionou. O "cri-cri-cri" foi
ficando mais alto, como se o grilo se aproximasse cada vez mais da janela do meu
quarto, e passou a se sobrepor a todos os outros ruídos que me circundavam. Fechei
os olhos e, aos poucos, do meio de uma espessa fumaça que ia se dispersando da
minha mente, começou a surgir uma paisagem rural: um pequeno caminho no meio de
um matagal verde que levava a uma casinha com uma luz amarelada na varanda, o sol
estava se pondo e seus últimos raios desenhavam a silhueta de um horizonte sem fim.
Enquanto eu acompanhava o “cri-cri-cri”, tentando descobrir de onde ele vinha, fui me
sentindo cada vez mais sonolento, mas não desisti de procurar o grilo que me
chamava. Seguindo o pequeno caminho, cheguei à casinha da luz amarelada, bati na
porta e ela se abriu. Fui entrando, mas não havia ninguém lá dentro. No final de um
corredor havia um quarto, o “cri-cri-cri” ia ficando cada vez mais alto enquanto eu
seguia naquela direção. Entrei e avistei um grilo muito grande e colorido em cima de
uma cama bem-arrumada e que aparentava ser bastante confortável. Deitei-me ao lado
dele e juntos pegamos no sono.
09/0209:09
Aquele dedo fino e gelado fazia repetidamente o sinal da cruz na minha testa enquanto o crucifixo do terço que estava enrolado entre os dedos balançava na frente dos meus olhos. Da boca ressecada, com cortes de frio e já quase sem nenhum dente saía um sussurro bem baixinho, não dava para entender nada, só um "ajuda o menino meu Deus" e um "tira o mal dele". Era um ritual místico, fora da minha compreensão.
Eu era criança e ficava impressionado e até com medo daquele monte de imagens de santos num altar, Santa Bárbara, Cosme e Damião, São Sebastião, uma figa muito grande e uma carranca, vasos com espadas-de-são-jorge e outros com arruda. As “paredes” eram telhas de zinco, assim como o telhado, e estavam repletas de quadros de homens barbudos de turbante, Nossa Senhora, um com o rosto de Cristo, Pretos-Velhos e Iemanjá.
Minha mãe dizia que tem coisas que o médico não cura, ele manda dar remédio, mas não melhora. Tem coisas que não são para doutor, não são coisas da terra e dessas coisas eles não entendem. Ela tinha sua crença no Deus cristão católico, mas também acreditava em simpatias, promessas e benzeções. Achava que era preciso ter fé para curar, não importava qual fé. Quando a pessoa está com quebranto, mau-olhado, espinhela caída, vento virado ou sentido, a gente tem que apelar para tudo.
Naquele dia eu estava sendo benzido porque estava com vento virado, tinha tomado um susto e estava caindo muito e não estava comendo direito. No alto daquele morro, subindo aquele caminho de terra batida que deixava os calçados empoeirados, dentro daquele barraco de zinco, estava a minha cura.
A benzedeira disse que não tinha luxo, mas que nunca faltou nada. Ela não cobrava para benzer, só pedia que, se a gente pudesse, deixasse algum mantimento porque quem a pagava de verdade era Deus, dando saúde para que ela continuasse a viver e a ajudar as pessoas que a procuram quando estão aflitas.
Minha mãe até hoje acredita nessas coisas. Eu não sei se acredito ou não, acho que ainda tenho um pouco de medo. Não faz diferença, o que importa é que o meu vento nunca mais virou.
08/0214:32
Aquelas mão hábeis pegavam, com a ajuda de um pegador, os 4 pães franceses que eu sempre ia buscar aos sábados pela manhã, os embrulhava com um papel cinza, que ia sendo virado e dobrado até que se transformava num embrulho, como se fosse de presente, as 2 pontas que se formavam eram colocadas juntas e um barbante passava por elas, as segurando naquela posição, depois o barbante passava por cima de si mesmo, em cruz, para se encontrar novamente e formar um nó seguido de um laço. Sem a ajuda de nenhuma ferramenta, as mãos, com suas próprias forças, arrebentavam o barbante sem dificuldade alguma, eram mãos calejadas e grossas, mas com unhas sempre bem feitas e com aquele brilho da base. A boca se abria em um sorrisinho meio tímido e dizia: "- Obrigada, meu filho! Até semana que vem!". Eu também agradecia e dizia: "- Até!". O pão se parecia um pouco com ela, a casca era meio dura, mas o seu interior, bem macio e quentinho. Nossas interações nunca passaram disso, nunca se alongaram, mas eu me sentia como se estivesse conversando com a minha avó.
Quando eu era criança, os estabelecimentos tinham um atendimento menos apressado, menos mecânico, menos robótico, as pessoas que trabalhavam no comércio eram mais humanas e o ambiente era mais acolhedor, menos hostil, como se quisessem que a gente ficasse um pouco mais, diferentemente dos estabelecimentos de hoje em dia, onde parecem querer que a gente vá embora logo e dê lugar para o próximo cliente. Nos dias de hoje, as avós sumiram do comércio e os pães parecem sempre estar murchos, frios e meio crus.
07/0222:18
Na infância de muitos de nós, o vermelhão era presença garantida na varanda e às vezes até no chão de dentro da casa de uma avó, tia ou conhecida das nossas mães. Era a cerâmica do pobre. Era o que dava para ter. Às vezes, as casas também tinham pisos de caquinhos na cozinha, área ou nos dois ou três degraus que levavam de um desses locais até o outro. O filtro de barro também sempre estava num cantinho da cozinha ou "lá fora". Em tudo predominava a cor vermelha, inclusive nas listras do filtro. Não sei o motivo, mas me recordo bem que era assim, até os estofados tinham essa cor.
A sala da casa das nossas avós sempre tinha uma estante com uma televisão, uma bíblia, uma santinha e umas peças de louça, na parede, um ou mais quadros: de um circo, um palhaço, Jesus, Maria e fotos do seu casamento com vovô. Um grande relógio de pêndulo que quase matava a gente de susto quando fazia aquele barulhão de hora em hora também não podia faltar, assim como aquela cadeira de balanço de assento e encosto em vime.
Algumas avós gostavam de tomar café com aquele pão de sal fresquinho que acabou de sair na padaria e depois juntar os farelos com a faca de serrinha até formar um montinho, outras gostavam de ficar coçando a cabeça com o dedo médio enquanto mordiscavam o lábio e tinham aquelas que entrelaçavam os dedos das mãos e ficavam girando os dedões, um sobre o outro, para a frente e depois para trás.
Era comum as famílias serem bem grandes, as avós tinham muitos filhos e o dobro ou o triplo de netos. A criançada se reunia naquela casa lotada de gente e começava a correr, brincar, brigar, fazer as pazes, cair, se machucar e deixar a avó maluca. Em toda casa de vó era assim e, apesar de às vezes não demonstrarem, elas adoravam essa bagunça, afinal de contas, éramos todos delas. Filhos e netos delas. Pertencíamos a elas. Agora elas é que são nossas. Dentro de nossas cabeças, elas pertencem às nossas memórias.
05/0221:20
“Leva um casaco, meu filho”
Esta frase ficava se repetindo na minha cabeça incessantemente enquanto eu tremia de frio andando pelas ruas do centro da cidade depois daquela festa.
Minha casa não ficava muito longe, mas o frio fazia o caminho ficar mais longo. As juntas estavam endurecidas e doíam, o vento úmido dava a sensação de que a carne dos braços estava sendo cortada por milhares de giletes, o queixo não parava de bater e os lábios já tinham um corte de tão ressecados.
“Leva um casaco, meu filho”
Quando se está em um local fechado e cheio de gente, não se sente tanto frio. As janelas estavam todas fechadas, o local era pequeno e havia mais de uma centena de pessoas. A música estava boa e a bebida também ajudava.
Assim que cheguei à festa, já avistei aquela mulher e não consegui mais parar de olhar para ela. Tentei me aproximar de diversas maneiras, mas não consegui, ela estava rodeada de pessoas que formavam uma espécie de barreira intransponível. Mais cedo ou mais tarde, ela precisaria ir ao banheiro e esta seria minha grande chance. Não deu outra, pouco tempo depois, lá estava ela indo para o banheiro. Esperei na porta, mas quando ela saiu, fingiu não ter ouvido o meu “boa noite”. Quando já estava de volta ao seu lugar, me olhou com um olhar gelado. Ela era fria.
“Leva um casaco, meu filho”
Andei o restante do caminho sentindo muito frio, nunca senti tanto frio. Não sei se estava realmente fazendo esse frio todo que eu estava sentindo ou se foi aquele olhar. Não conseguia parar de pensar naquela mulher, mas agora não era mais por sua beleza, era pela sua frieza.
Chegando em casa, me deitei no sofá e liguei a televisão. Estava passando uma comédia romântica chata… todas são chatas. Em meio a toda essa chatice, adormeci. Tive um sonho que era um misto do filme comigo e a mulher da festa, um sonho confuso, sem pé nem cabeça, no qual, num certo momento, aquela mulher se transformou na minha mãe e disse: “Leva um casaco, meu filho”.
04/0215:17
Aquele sujeito entrou na padaria, sentou na mesa que ficava logo depois da minha, de frente para mim, e pediu um copo muito grande de café com leite, o qual pegava, levava até a boca e, fazendo bico, chupava o líquido emitindo um barulho alto igual ao que algumas pessoas fazem quando chupam a colher com a qual estão tomando sopa. Pediu também um pão com manteiga, que ia molhando no café com leite antes de comer, mesmo ainda tendo todos os dentes em sua boca. Ele colocava para fora uma língua cheia de rachaduras e enfiava aquele pão molhado, pingando e com a manteiga escorrendo dentro da boca, enquanto fazia o mesmo barulho de chupar.
Já tinha muitos anos que eu tomava café da manhã, todos os dias, naquela mesma padaria. Bastava eu chegar, no horário de sempre, que já encontrava a mesma atendente me esperando ao lado da “minha mesa”. Ela me recebia todos os dias com o mesmo sorriso, o mesmo “bom dia” e a mesma pergunta retórica: "- O de sempre, né?". Era a minha padaria. Nada nem ninguém tinha o direito de perturbar aquela harmonia.
Em dado momento, um pedaço do pão daquele homem caiu dentro do copo e ele ficou tentando tirá-lo de lá usando o dedo indicador e o médio como uma pinça. Enfiou a mão quase até o punho lá dentro, mas não conseguiu “pescar” aquilo. Desistiu e continuou tomando seu café com leite (e pão) que agora já se parecia mais com um pudim.
Levantei da mesa, fui até o balcão, sentei num daqueles bancos de madeira, apoiei um cotovelo, fiz sinal para o senhor que ficava no caixa e pedi para trocar o pingado e o pão com manteiga por um quibe e uma Coca-Cola. Lanchei por ali mesmo.