Museu do amanhã
O idoso paginou seu jornal com dedos nervosos. Era um gesto necessário, calculado. Não que houvesse acabado as páginas anteriores; foi meramente para disfarçar sua espionagem. De longe, seus olhos fitavam, por cima dos óculos, um menino que esperneava no chão da praça, pois sua mãe lhe negara um balão do carrinho de pipoca. Era compreensível que, aos três anos de idade, sua mentalidade ainda não aceitasse bem negações.
Seu olhar não carregava julgamentos, apenas curiosidade. Curiosidade de quem se senta no mesmo banco, naquela mesma praça, cotidianamente, e acaba entediado caso não haja o que ver além do próprio jornal.
Vez ou outra, o coreto recebia visitas de artistas locais. Uma sombra do que já fora em outros tempos. Ah, que tempos. Quando a praça central era, de fato, o centro das atenções. Durante o dia, pais e mães levavam seus filhos para brincar. Quase todos na cidade frequentavam a igreja, que, em dias de missa, reunia toda a comunidade, e, após as orações, davam voltinhas na praça, a fumar, beber ou comer uma maçã doce. Mesmo nas noites sem missa, a praça enchia-se de rapazes e moças a se paquerarem, principalmente aos domingos, quando a banda da cidade tocava, sem faltar, pois era, unanimemente, o evento mais aguardado da semana. E, assim como coração de mãe, na praça parecia sempre caber mais um, por mais que já se vissem multidões.
No entanto, em algum momento, o centro das atenções se dividiu: um pub famoso aqui, uma avenida badalada ali, um parque melhor noutra praça para os pequenos. E, por fim, o coreto tornou-se um símbolo — simbólico.
O idoso era o coreto, e o coreto era o idoso. Via-se em cada tijolo de outro tempo, em cada pedaço de tinta já desgastada pela idade. Talvez esquecido… certamente esquecido, mas ainda respeitado e lembrado.
E cada transeunte — adolescentes com seus celulares, crianças com suas birras, pais que agora preferiam os pubs à praça — evidenciava o contraste temporal que ali residia: um idoso e seu coreto, visitados por contemporâneos que já habitavam outra era.
Então ele não observava as pessoas por curiosidade. Observava-as como quem percorre um museu.
Não para ver o novo, mas para recordar o que já foi seu, agora em outra perspectiva.