wilcipolli
@wilcipolli
Não gosto de sirenes. E quem gosta?

O terror do neandertal residia na hipótese de algum indivíduo demonstrar um comportamento súbito e histérico — certamente o cheiro de sangue já rondava seus narizes. Desde o princípio, o sujeito — com lama nas nádegas, peles apodrecendo sobre os ombros e as mãos mais lascadas do que as pedras que tentava fazer chispar — já saía gritando e pulando ao avistar um cavaleiro igualmente fétido se aproximando para saquear a tribo.
Com o tempo, esse comportamento foi substituído por alguém encarregado de alarmar a aldeia, de modo mais civilizado, mas não menos barulhento e histérico, batendo sinetas presas aos portões da comunidade. Assim, no meio da noite, todos pulavam da cama e se refugiavam nas florestas, tentando escapar das invasões bárbaras. Os pais tapavam a boca das crianças que resfolegavam forte — mas o maldito grilo não cessava seu canto, e, dessa forma, ele próprio servia de sirene aos invasores, que, guiados pelo som, encontravam a família escondida e a degolavam.
Mais tarde, ainda não menos barulhentos, mas certamente mais eficientes, surgiram as sirenes antiaéreas, soando quando se avistavam os terríveis aviões bombardeiros. Porque não basta a matança ser mais eficaz, nem a tecnologia evoluir absurdamente em relação aos primeiros povos — é preciso também aprimorar a técnica de agredir-nos os ouvidos e gerar pânico generalizado. Antes fosse uma sirene que causasse surdez espontânea; assim, a pessoa morreria em paz, bastaria fechar os olhos, e seria como morrer dormindo. Ao menos, não morreria ao som da sirene.
Diga-me: quem se agrada ao ouvir uma sirene? Ainda hoje, ela é símbolo de ocorrência, caos e sofrimento — pois, se não for crime, é incêndio, enchente ou algum moribundo clamando por socorro
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