wilcipolli
@wilcipolli
Trecho de minha obra autobiográfica inacabada.

"(...) Nossa casa ficava menos de três minutos de caminhada da residência de minha avó. Minha mãe, meu irmão e eu a visitávamos rotineiramente nas manhãs, um hábito que, na infância, me transmitia uma sensação de estabilidade.

Foi nessa época que o cheiro de um orvalho matinal impregnou-se no meu subconsciente. Um aroma sorrateiro e sinestésico, que não precisava de um dia específico para se manifestar. Bastava um instante qualquer; a falação de uma escola próxima, a calçada sendo varrida pelo vizinho idoso, o sol amarelo das nove, o papagaio falastrão do vizinho, ou o caminhão de gás a tocar Für Elise, de Beethoven. Era a síntese de um contentamento infantil, um símbolo da unidade familiar que, ainda ingênuo, eu acreditava ser inabalável.

Tenho viva a lembrança de desejar que aquele aroma jamais me escapasse. E, para minha angústia, ele nunca escapou.

Imagine você, em seus dias mais cinzentos — na puberdade transbordando hormônios, no luto por um ente querido, no instante exato em que percebe que um sonho fracassou — ser subitamente arrastado de volta para a infância por um odor nostálgico. Uma época que, talvez, nunca tenha sido tão perfeita quanto parece.

Boa recordação torna-se tortura."
Link copiado!