Universo da obra
Universo da obra
LOSANGO CÁQUI ou AFETOS MILITARES DE MISTURA COM OS PORQUÊS DE EU SABER ALEMÃO
Me resolvo a publicar êsle livro assim como fo i composto em 1922. É um diário de Ires meses a que ajuntei uns poucos trechos de outras épocas que o completam e esclarecem. Sensações, ideas, aluci- nações, brincadeiras, liricamente anotadas. Raro tive a intenção de poema quando escrevi os versos sem titulo dêste livro. Aliás o que mais me perturba nesta feição artistica a que me levaram minhas opiniões esteticas é que todo lirismo realizado confor~ me tal orientação se torna poesia-de-circunstancia. E se restringe por isso a uma existência pessoal p o r demais. Lhe falta aquela característica de universalidade que deve ser um dos principais espetos da obra-de-arte. Vivo parafusando, repensando e hesito em chamar estas poesias de poesias. Prefiro antes representa-las como anotações liricas de momentos de vida e movimentos subconscientes aonde vai com gosto o meu sentimento possivelmente pau-brasil e romântico. Hoje estou convencido que a Poesia não pode ficar nisso. Tem de ir alem. Pra que alens não sei não e a gente nunca deve querer passar adiante de si mesmo. Porém peço que êste livro seja tomado como pergunta, não como solução que eu acredite siquer momentânea. A existência admirá vel que levo consagrei-a toda a procurar. Deus queira que não ache nunca. . . Porquê seria então o descanço em vida, parar mais detestá vel que a morte. Minhas obras todas na significação verdadeira delas eu as mostro nem mesmo como soluções possíveis e tranzitorias. São procuras. Consagram e perpetuam esta inquietação gostosa de procu rar. Eis o que é, o que imagino será toda a minha o bra: uma curiosidade em via de satisfação. Rapazes, não confundam a calma destas linhas preparatórias com a melancolia comum. Não tem melancolia aqui. Sou leliz. Estou convencido que cumpro o destino que deviam ter meu corpo em sua transformaçao, minha alma em sua fínalidade. E passo bem, muito obrigado. M. de A. S. Paulo, 1924
Texto original de Mário de Andrade, publicado em 1926, preparado a partir do OCR do PDF disponível no Wikimedia Commons. O escopo inclui a nota inicial e os poemas I a XLV, encerrando antes do colofão com informação de capa.
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