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Capítulo 1 · O Processo

PRIMEIRO CAPÍTULO

PRIMEIRO CAPÍTULO

DETENÇÃO · CONVERSA COM A SENHORA GRUBACH · DEPOIS COM A SENHORITA BÜRSTNER

Alguém devia ter caluniado Josef K., pois, sem que tivesse feito mal algum, certa manhã foi detido. A cozinheira da senhora Grubach, sua locadora de quarto, que todos os dias lhe trazia o café da manhã por volta das oito horas, desta vez não veio. Isso nunca havia acontecido. K. esperou ainda um pouco, viu de seu travesseiro a velha senhora que morava em frente e que o observava com uma curiosidade nela de todo incomum; mas então, ao mesmo tempo estranhando e faminto, tocou a campainha. Imediatamente bateram à porta e entrou um homem que ele jamais vira naquele apartamento. Era esguio e, no entanto, de compleição firme; usava uma roupa preta ajustada ao corpo, que, à semelhança dos trajes de viagem, era provida de várias pregas, bolsos, fivelas, botões e de um cinto, e por isso, sem que se percebesse claramente para que deveria servir, parecia particularmente prática. “Quem é o senhor?”, perguntou K., sentando-se logo meio ereto na cama. O homem, porém, passou por cima da pergunta, como se sua aparição tivesse de ser aceita, e disse apenas, por sua vez: “O senhor tocou?” “Anna deve me trazer o café da manhã”, disse K., e tentou, de início em silêncio, por meio da atenção e da reflexão, determinar quem era propriamente aquele homem. Mas este não se expôs por muito tempo a seus olhares; antes se voltou para a porta, que abriu um pouco para dizer a alguém que evidentemente estava bem atrás dela: “Ele quer que Anna lhe traga o café da manhã.” Seguiu-se uma pequena risada no quarto ao lado; pelo som, não era certo se várias pessoas não haviam tomado parte nela. Embora o homem estranho não pudesse ter ficado sabendo, com isso, nada que já não soubesse antes, disse então a K., no tom de um comunicado: “É impossível.” “Essa é nova”, disse K., saltou da cama e vestiu depressa as calças. “Quero ver que gente há no quarto ao lado e como a senhora Grubach se justificará diante de mim por esta perturbação.” Ocorreu-lhe logo, é verdade, que não precisava ter dito isso em voz alta e que, desse modo, reconhecia de certa maneira um direito de vigilância por parte do estranho; mas isso agora não lhe pareceu importante. De todo modo, o estranho entendeu assim, pois disse: “Não prefere ficar aqui?” “Não quero ficar aqui nem ser interpelado pelo senhor enquanto não se apresentar.” “Foi dito com boa intenção”, disse o estranho, e agora abriu a porta por vontade própria. No quarto ao lado, em que K. entrou mais devagar do que queria, tudo parecia, à primeira vista, quase exatamente igual à noite anterior. Era a sala de estar da senhora Grubach; talvez naquele aposento abarrotado de móveis, toalhas, porcelanas e fotografias houvesse hoje um pouco mais de espaço que de costume, mas não se reconhecia isso de imediato, tanto menos porque a principal mudança consistia na presença de um homem que estava sentado junto à janela aberta com um livro, do qual agora levantou os olhos. “O senhor devia ter ficado no seu quarto! Franz não lhe disse?” “Sim, mas o que os senhores querem?”, disse K., e olhou do novo conhecido para aquele chamado Franz, que permanecera parado à porta, e depois de volta. Pela janela aberta viu-se novamente a velha senhora, que, com uma curiosidade verdadeiramente senil, se aproximara da janela agora defronte, para continuar vendo tudo. “Eu quero falar com a senhora Grubach...”, disse K., fez um movimento como se se arrancasse dos dois homens, que, contudo, estavam longe dele, e quis seguir adiante. “Não”, disse o homem junto à janela, atirou o livro sobre uma mesinha e se levantou. “O senhor não pode sair, está detido.” “É o que parece”, disse K. “E por quê?”, perguntou então. “Não fomos encarregados de lhe dizer isso. Vá para o seu quarto e espere. O procedimento já foi iniciado, afinal, e o senhor ficará sabendo de tudo no momento certo. Excedo minha incumbência ao lhe falar de modo tão amistoso. Mas espero que ninguém ouça isso além de Franz, e ele mesmo, contra todos os regulamentos, está sendo amistoso com o senhor.

“Se também de agora em diante o senhor tiver tanta sorte como teve na designação de seus guardas, então pode ficar confiante.” K. quis sentar-se, mas viu agora que, em todo o quarto, não havia nenhum lugar onde se pudesse sentar, salvo a poltrona junto à janela. “O senhor ainda há de reconhecer como tudo isso é verdadeiro”, disse Franz, e ao mesmo tempo avançou para ele com o outro homem. Sobretudo este último ultrapassava K. consideravelmente em altura e lhe batia amiúde no ombro. Ambos examinaram a camisa de dormir de K. e disseram que agora ele teria de vestir uma camisa muito pior, mas que eles guardariam essa camisa, assim como toda a sua outra roupa branca, e, se o seu caso tivesse um desfecho favorável, as devolveriam a ele. “É melhor que entregue as coisas a nós do que ao depósito”, disseram, “pois no depósito ocorrem com frequência desvios e, além disso, lá vendem todas as coisas depois de certo tempo, sem consideração se o respectivo processo terminou ou não. E quanto não duram tais processos, sobretudo ultimamente. Por fim o senhor receberia, é verdade, do depósito o produto da venda, mas esse produto, em primeiro lugar, já é em si mesmo pequeno, pois na venda não decide o valor da oferta, mas o valor do suborno, e além disso tais produtos da venda, como ensina a experiência, diminuem quando são passados de mão em mão e de ano em ano.” K. mal prestava atenção a essas falas; não atribuía grande valor ao direito de dispor de suas coisas, que talvez ainda possuísse; muito mais importante para ele era obter clareza sobre sua situação. Na presença daquela gente, porém, não conseguia sequer pensar; a barriga do segundo guarda — pois só podiam ser guardas — chocava-se sempre de novo contra ele, de modo quase amistoso; mas, quando erguia os olhos, avistava um rosto seco, ossudo, que de modo algum combinava com aquele corpo gordo, com um nariz forte virado de lado, e que, por cima dele, se entendia com o outro guarda. Que homens eram aqueles? De que falavam? A que autoridade pertenciam? K. vivia, afinal, num Estado de Direito; por toda parte reinava a paz; todas as leis estavam em vigor; quem ousava invadi-lo em sua própria moradia? Ele tendia sempre a tomar tudo da maneira mais leve possível, a acreditar no pior apenas quando o pior acontecesse, a não tomar precauções para o futuro, mesmo quando tudo ameaçava. Aqui, porém, isso não lhe parecia correto; podia-se, é verdade, considerar tudo uma brincadeira, uma brincadeira grosseira que seus colegas do banco haviam organizado por motivos desconhecidos, talvez porque hoje fosse seu trigésimo aniversário; era naturalmente possível, talvez bastasse rir de algum modo na cara dos guardas e eles ririam junto, talvez fossem carregadores da esquina, não eram muito diferentes deles — apesar disso, desta vez, praticamente desde o primeiro olhar ao guarda Franz, ele estava decidido a não entregar a menor vantagem que talvez possuísse diante daquela gente. No fato de mais tarde poderem dizer que ele não entendera a brincadeira, K. via um perigo muito pequeno; mas lembrava-se — embora não fosse de seu costume aprender com a experiência — de alguns casos em si insignificantes nos quais, diferentemente de seus amigos, comportara-se de modo imprudente, conscientemente, sem o menor senso das possíveis consequências, e fora punido pelo resultado. Isso não devia acontecer de novo, pelo menos não desta vez; se era uma comédia, ele queria representar junto.

Se também de agora em diante o senhor tiver tanta sorte quanto teve na escolha de seus guardas, então pode ficar confiante.” K. quis sentar-se, mas viu agora que em todo o quarto não havia onde se sentar, exceto a poltrona junto à janela. “O senhor ainda há de perceber como tudo isso é verdadeiro”, disse Franz, avançando ao mesmo tempo para ele com o outro homem. Sobretudo este último excedia K. consideravelmente em altura e lhe batia repetidas vezes no ombro. Ambos examinaram a camisa de dormir de K. e disseram que agora ele teria de vestir uma camisa muito pior, mas que eles guardariam esta camisa, bem como toda a sua outra roupa branca, e, se o seu caso tivesse um desfecho favorável, a devolveriam a ele. “É melhor que entregue as coisas a nós do que ao depósito”, disseram, “pois no depósito ocorrem muitas vezes desvios e, além disso, lá se vendem todas as coisas depois de certo tempo, sem levar em conta se o respectivo processo terminou ou não. E quanto duram, afinal, processos desse tipo, sobretudo ultimamente. No fim o senhor receberia, é verdade, do depósito, o produto da venda, mas esse produto, em primeiro lugar, já é em si mesmo pequeno, pois na venda não decide o valor da oferta, mas o valor do suborno, e além disso tais produtos, como mostra a experiência, diminuem quando são passados de mão em mão e de ano em ano.” K. mal prestava atenção a esses discursos; o direito de dispor de suas coisas, que talvez ainda possuísse, não lhe parecia de grande valor; muito mais importante era obter clareza sobre sua situação. Na presença daquela gente, porém, ele não conseguia sequer pensar; a barriga do segundo guarda — pois só podiam ser guardas — batia nele sem cessar, de modo quase amistoso; mas, quando erguia os olhos, via um rosto seco, ossudo, de nariz forte e voltado para o lado, que de modo algum combinava com aquele corpo gordo, e que, por cima dele, entendia-se com o outro guarda. Que espécie de homens eram aqueles? De que falavam? A que autoridade pertenciam? K., afinal, vivia num Estado de Direito; por toda parte reinava a paz, todas as leis estavam em vigor; quem ousava atacá-lo em sua própria moradia? Ele tendia sempre a tomar tudo da maneira mais leve possível, a acreditar no pior apenas quando o pior acontecesse, a não tomar precauções para o futuro, mesmo quando tudo ameaçava. Ali, porém, isso não lhe parecia correto; podia-se, é verdade, considerar tudo uma brincadeira, uma brincadeira grosseira que seus colegas do banco haviam organizado por motivos desconhecidos, talvez porque hoje fosse seu trigésimo aniversário; era naturalmente possível, talvez bastasse rir de alguma maneira na cara dos guardas e eles ririam junto, talvez fossem carregadores da esquina, não eram muito diferentes deles — apesar disso, desta vez, praticamente desde o primeiro olhar ao guarda Franz, ele estava decidido a não entregar a menor vantagem que talvez possuísse diante daquela gente. No fato de mais tarde dizerem que ele não entendera a brincadeira, K. via um perigo muito pequeno; mas lembrava-se — embora não fosse de seu costume aprender com a experiência — de alguns casos em si insignificantes nos quais, ao contrário de seus amigos, comportara-se de modo imprudente, conscientemente, sem o menor senso das possíveis consequências, e fora punido pelo resultado. Isso não devia acontecer de novo, ao menos não desta vez; se era uma comédia, ele queria representar junto.

Ainda estava livre. “Com licença”, disse ele, e passou às pressas entre os guardas para dentro de seu quarto. “Ele parece ser sensato”, ouviu dizerem atrás de si. Em seu quarto, escancarou logo as gavetas da escrivaninha; ali tudo estava em perfeita ordem, mas justamente os documentos de identificação que procurava ele não conseguia encontrar de imediato, na excitação. Por fim encontrou sua licença de ciclista e já ia levá-la aos guardas, mas então o papel lhe pareceu demasiado insignificante, e ele continuou procurando até encontrar a certidão de nascimento. Quando voltou ao quarto ao lado, a porta defronte acabava de se abrir e a senhora Grubach queria entrar por ali. Só se pôde vê-la por um instante, pois mal reconheceu K., evidentemente embaraçou-se, pediu perdão, desapareceu e fechou a porta com extremo cuidado. “Entre, por favor”, K. ainda tivera tempo de dizer. Mas agora estava parado no meio do quarto com seus papéis, olhando ainda para a porta, que não voltou a se abrir, e só se sobressaltou quando os guardas o chamaram; estavam sentados junto à mesinha, à janela aberta, e, como K. agora reconhecia, devoravam o seu café da manhã. “Por que ela não entrou?”, perguntou ele. “Ela não pode”, disse o guarda alto. “O senhor está detido.” “Como é que posso estar detido? E ainda por cima desta maneira?” “Então o senhor começa outra vez”, disse o guarda, mergulhando um pão com manteiga no potinho de mel. “Não respondemos a perguntas desse tipo.” “Terão de respondê-las”, disse K. “Aqui estão meus documentos de identificação; mostrem-me agora os dos senhores e, antes de tudo, o mandado de detenção.” “Santo Deus!”, disse o guarda, “que o senhor não consiga se conformar com sua situação e que pareça decidido a irritar inutilmente a nós, que agora provavelmente estamos mais próximos do senhor do que todos os seus semelhantes.” “É assim, acredite”, disse Franz; não levou à boca a xícara de café que segurava na mão, mas fitou K. com um olhar longo, provavelmente significativo, porém incompreensível. K., sem querer, deixou-se envolver num diálogo de olhares com Franz, mas então bateu nos papéis e disse: “Aqui estão meus documentos de identificação.” “E que nos importam eles?”, exclamou agora o guarda alto. “O senhor se comporta pior do que uma criança. O que quer afinal? Quer levar seu grande e maldito processo a um rápido fim discutindo conosco, os guardas, sobre identificação e mandado de prisão? Somos funcionários subalternos, que mal entendem de um documento de identificação e que nada têm a ver com o seu caso senão ficar dez horas por dia de guarda junto ao senhor e receber por isso. Isso é tudo o que somos; apesar disso, somos capazes de compreender que as altas autoridades a cujo serviço estamos, antes de ordenarem uma detenção como esta, informam-se com grande exatidão sobre os motivos da detenção e sobre a pessoa do detido. Nisso não há erro. Nossa autoridade, tanto quanto a conheço — e conheço apenas os graus mais baixos —, não sai por aí procurando a culpa na população, mas é, como diz a lei, atraída pela culpa, e deve enviar-nos, os guardas. Isso é lei. Onde haveria erro nisso?” “Não conheço essa lei”, disse K. “Tanto pior para o senhor”, disse o guarda. “Ela talvez exista apenas na cabeça dos senhores”, disse K.; ele queria, de algum modo, insinuar-se nos pensamentos dos guardas, voltá-los a seu favor ou ali se naturalizar. Mas o guarda disse apenas, repelindo-o: “O senhor a sentirá.” Franz intrometeu-se e disse: “Veja, Willem, ele admite que não conhece a lei e ao mesmo tempo afirma ser inocente.” “Você tem toda razão, mas não se consegue fazer com que ele entenda nada”, disse o outro. K. não respondeu mais; devo eu, pensou, deixar-me confundir ainda mais pelo falatório desses órgãos ínfimos — eles mesmos admitem sê-lo? De qualquer modo, falam de coisas que não compreendem absolutamente. Sua segurança só é possível por sua estupidez.

Algumas palavras que eu venha a trocar com um homem de minha mesma condição tornarão tudo incomparavelmente mais claro do que os mais longos discursos com estes. Ele andou algumas vezes de um lado para outro no espaço livre do quarto; em frente, viu a velha senhora, que arrastara até a janela um ancião ainda muito mais velho, mantendo-o abraçado. K. precisava pôr fim àquele espetáculo: “Levem-me ao superior de vocês”, disse ele. “Quando ele o desejar; não antes”, disse o guarda que fora chamado Willem. “E agora lhe aconselho”, acrescentou, “que vá para seu quarto, comporte-se com calma e espere pelo que será decidido a seu respeito. Nós lhe aconselhamos: não se distraia com pensamentos inúteis, mas recolha-se; grandes exigências serão feitas ao senhor. O senhor não nos tratou como merecia nossa solicitude; esqueceu-se de que nós, sejamos lá o que formos, pelo menos agora somos, diante do senhor, homens livres, e isso não é uma pequena vantagem. Apesar disso, estamos dispostos, caso tenha dinheiro, a trazer-lhe um pequeno café da manhã do café ali em frente.”

Sem responder a essa oferta, K. ficou parado por algum tempo. Talvez os dois, se ele abrisse a porta do quarto seguinte ou mesmo a porta da antessala, nem ousassem impedi-lo; talvez fosse a solução mais simples de tudo levar a coisa ao extremo. Mas talvez ainda assim o agarrassem, e, uma vez derrubado, estaria perdida também toda a superioridade que agora, em certo sentido, ainda conservava diante deles. Por isso preferiu a segurança da solução tal como o curso natural devia trazê-la, e voltou para o seu quarto, sem que de sua parte ou da parte dos guardas mais uma palavra tivesse sido dita.

Atirou-se sobre a cama e tomou do lavatório uma bela maçã que preparara para o café da manhã na noite anterior. Agora era o seu único café da manhã e, de todo modo, como se certificou à primeira grande mordida, muito melhor do que teria sido o café da manhã do sujo café noturno, que ele poderia ter obtido pela graça dos guardas. Sentia-se bem e confiante; no banco, é verdade, faltava naquela manhã ao serviço, mas isso, dada a posição relativamente elevada que ali ocupava, era facilmente desculpável. Deveria apresentar a verdadeira desculpa? Pensava em fazê-lo. Se não acreditassem nele, o que nesse caso era compreensível, poderia levar a senhora Grubach como testemunha, ou também os dois velhos de frente, que talvez agora já estivessem a caminho da janela oposta. Espantava K., pelo menos segundo o curso de pensamento dos guardas, que o tivessem empurrado para dentro do quarto e o deixado ali sozinho, onde, afinal, ele tinha múltiplas possibilidades de se matar. Ao mesmo tempo, contudo, perguntava a si mesmo, segundo o seu próprio curso de pensamento, que motivo poderia ter para fazê-lo. Talvez porque os dois estivessem sentados ao lado e houvessem interceptado seu café da manhã. Teria sido tão sem sentido matar-se que ele, mesmo que quisesse fazê-lo, em consequência da falta de sentido não teria sido capaz. Se a limitação mental dos guardas não fosse tão evidente, poder-se-ia supor que também eles, em virtude da mesma convicção, não teriam visto perigo algum em deixá-lo só. Eles podiam agora, se quisessem, observar como ele ia até um pequeno armário de parede onde guardava uma boa aguardente, como esvaziava um copinho primeiro para substituir o café da manhã, e como destinava um segundo copinho a lhe infundir coragem; este último apenas por precaução, para o caso improvável de que viesse a ser necessário.

Foi então que um chamado vindo do quarto ao lado o assustou de tal modo que ele bateu com os dentes no copo. “O inspetor o chama”, disseram. Foi apenas o grito que o assustou, aquele grito curto, entrecortado, militar, que ele jamais teria atribuído ao guarda Franz. A ordem em si lhe era muito bem-vinda. “Enfim”, gritou ele em resposta, trancou o armário de parede e correu imediatamente para o quarto ao lado. Ali estavam os dois guardas e o enxotaram de volta para o seu quarto, como se isso fosse evidente. “Que ideia é essa?”, gritaram eles. “De camisa o senhor quer se apresentar ao inspetor? Ele manda espancar o senhor e a nós também.” “Deixem-me, com os diabos”, gritou K., que já fora empurrado de volta até o guarda-roupa, “se me atacam na cama, não podem esperar me encontrar em traje de gala.” “Não adianta”, disseram os guardas, que sempre, quando K. gritava, ficavam inteiramente calmos, sim, quase tristes, e com isso o confundiam ou, de certo modo, o traziam à razão. “Cerimônias ridículas!”, resmungou ele ainda, mas já tirava um paletó da cadeira e o segurava por algum tempo com ambas as mãos, como se o submetesse ao juízo dos guardas. Eles sacudiram a cabeça. “Tem de ser um paletó preto”, disseram. K. então atirou o paletó ao chão e disse — ele próprio não sabia em que sentido o dizia —: “Ainda não é a audiência principal.” Os guardas sorriram, mas permaneceram no seu: “Tem de ser um paletó preto.” “Se com isso eu apressar a coisa, por mim está bem”, disse K., abriu ele mesmo o guarda-roupa, procurou demoradamente entre as muitas roupas, escolheu seu melhor traje preto, um terno de paletó que, por causa de seu corte na cintura, quase causara sensação entre os conhecidos, puxou também outra camisa e começou a se vestir cuidadosamente. Em segredo, acreditava ter conseguido apressar tudo pelo fato de os guardas terem se esquecido de obrigá-lo ao banho. Observou-os para ver se talvez ainda se lembrariam disso, mas naturalmente isso nem lhes ocorreu; em compensação, Willem não se esqueceu de mandar Franz ao inspetor com a notícia de que K. se vestia.

Quando estava completamente vestido, teve de passar rente a Willem pelo quarto ao lado vazio até o aposento seguinte, cuja porta, com as duas folhas, já estava aberta. Esse quarto, como K. sabia exatamente, era habitado havia pouco tempo por uma senhorita Bürstner, datilógrafa, que costumava sair muito cedo para o trabalho, voltava tarde para casa e com quem K. não trocara muito mais que palavras de cumprimento. Agora a mesinha de cabeceira de sua cama fora deslocada para o meio do quarto como mesa de interrogatório, e o inspetor estava sentado atrás dela. Tinha as pernas cruzadas e um braço apoiado no encosto da cadeira.

Num canto do quarto estavam três jovens, olhando as fotografias da senhorita Bürstner, que estavam enfiadas numa esteira pendurada na parede. Na maçaneta da janela aberta pendia uma blusa branca. Na janela em frente estavam de novo os dois velhos, mas sua companhia aumentara, pois atrás deles, excedendo-os muito em altura, estava um homem de camisa aberta no peito, que apertava e torcia com os dedos sua barbicha ruiva e pontuda. “Josef K.?”, perguntou o inspetor, talvez apenas para atrair para si os olhares dispersos de K. K. assentiu. “O senhor está certamente muito surpreendido com os acontecimentos desta manhã”, perguntou o inspetor, deslocando ao mesmo tempo, com ambas as mãos, os poucos objetos que estavam sobre a mesinha de cabeceira, a vela com os fósforos, um livro e uma almofada de alfinetes, como se fossem objetos de que necessitasse para a audiência. “Certamente”, disse K., e o bem-estar de estar enfim diante de um homem sensato e poder falar com ele sobre sua questão tomou conta dele, “certamente, estou surpreendido, mas de modo algum muito surpreendido.” “Não muito surpreendido?”, perguntou o inspetor, colocando agora a vela no centro da mesinha, enquanto agrupava as outras coisas ao redor dela. “Talvez o senhor me compreenda mal”, apressou-se K. em observar. “Quero dizer...” — Aqui K. interrompeu-se e olhou em volta à procura de uma cadeira. “Posso sentar-me, não posso?”, perguntou ele. “Não é costume”, respondeu o inspetor. “Quero dizer”, disse então K., sem nova pausa, “de fato estou muito surpreendido, mas, quando se está há trinta anos no mundo e se teve de abrir caminho sozinho, como me coube, a gente se torna endurecido contra surpresas e não as toma demasiado a sério. Sobretudo a de hoje.” “Por que sobretudo a de hoje?” “Não quero dizer que considere tudo isso uma brincadeira; para isso, os preparativos que foram feitos me parecem, afinal, demasiado extensos. Todos os membros da pensão teriam de estar envolvidos, e também todos os senhores; isso ultrapassaria os limites de uma brincadeira. Portanto, não quero dizer que seja uma brincadeira.” “Muito certo”, disse o inspetor, e verificou quantos fósforos havia na caixinha. “Por outro lado, porém”, prosseguiu K., dirigindo-se então a todos, e de bom grado teria feito até os três junto às fotografias voltarem-se para ele, “por outro lado, porém, a coisa também não pode ter muita importância. Deduzo isso do fato de que estou acusado, mas não consigo encontrar a menor culpa pela qual poderiam me acusar. Mas também isso é secundário; a questão principal é: por quem fui acusado? Que autoridade conduz o procedimento? Os senhores são funcionários? Ninguém está de uniforme, a não ser que se queira chamar sua roupa” — aqui voltou-se para Franz — “de uniforme, mas ela é antes um traje de viagem. Sobre estas questões exijo clareza, e estou convencido de que, depois desse esclarecimento, poderemos nos despedir uns dos outros da maneira mais cordial.” O inspetor bateu a caixinha de fósforos sobre a mesa. “O senhor se encontra em grande erro”, disse ele. “Estes senhores aqui e eu somos inteiramente secundários para a sua questão; sim, quase nada sabemos dela. Poderíamos usar os uniformes mais regulamentares, e sua causa não estaria nem um pouco pior. Também não posso de modo algum lhe dizer que o senhor está acusado; ou melhor, não sei se está. O senhor está detido, isso é correto; mais que isso não sei. Talvez os guardas tenham tagarelado outra coisa, mas então foi apenas tagarelice. Mesmo que eu não responda às suas perguntas, posso, contudo, aconselhá-lo: pense menos em nós e no que acontecerá com o senhor, pense antes mais em si mesmo. E não faça tanto alarde com o sentimento de sua inocência; isso perturba a impressão não propriamente má que, de resto, o senhor causa. Também deveria, de modo geral, ser mais comedido ao falar; quase tudo o que disse há pouco, mesmo que tivesse dito apenas algumas palavras, poderia ter sido deduzido de seu comportamento; além disso, não foi nada excessivamente favorável ao senhor.”

K. fitou o inspetor. Recebia ali lições escolares de um homem talvez mais jovem? Era punido com uma repreensão por sua franqueza? E sobre o motivo de sua detenção e sobre quem a ordenara não ficava sabendo nada?

Caiu em certa agitação, pôs-se a andar de um lado para outro, sem que ninguém o impedisse, puxou os punhos da camisa para trás, apalpou o peito, ajeitou os cabelos, passou diante dos três senhores, disse: “É tudo sem sentido”, ao que estes se voltaram para ele e o olharam com solicitude, mas seriamente, e por fim voltou a deter-se diante da mesa do inspetor. “O promotor Hasterer é meu bom amigo”, disse ele, “posso telefonar-lhe?” “Certamente”, disse o inspetor, “mas não sei que sentido isso teria, a menos que o senhor tenha com ele algum assunto particular a tratar.” “Que sentido?”, exclamou K., mais consternado do que irritado. “Mas quem são os senhores? Querem um sentido e levam a efeito a coisa mais sem sentido que existe. Não é de fazer as pedras chorarem? Os senhores primeiro me assaltaram, e agora ficam aqui sentados ou em pé à toa e me fazem executar diante do senhor a alta escola. Que sentido teria telefonar a um promotor público, se estou supostamente detido? Pois bem, não telefonarei.” “Mas telefone, sim”, disse o inspetor, estendendo a mão para a antessala, onde estava o telefone, “por favor, telefone.” “Não, já não quero”, disse K., e foi até a janela. Em frente, a companhia ainda estava à janela, e só agora, pelo fato de K. ter se aproximado da janela, pareceu um pouco perturbada em sua tranquila contemplação. Os velhos quiseram levantar-se, mas o homem atrás deles os acalmou. “Também há espectadores desse tipo ali”, gritou K. em voz bem alta para o inspetor, apontando para fora com o indicador. “Saiam daí”, gritou então para o outro lado. Os três recuaram imediatamente alguns passos, os dois velhos até mesmo para trás do homem, que os cobriu com seu corpo largo e que, a julgar pelos movimentos de sua boca, dizia alguma coisa incompreensível àquela distância. Mas não desapareceram de todo; pareciam esperar o momento em que pudessem voltar a se aproximar da janela sem serem notados. “Gente importuna, sem consideração!”, disse K., voltando-se de novo para dentro do quarto. O inspetor talvez concordasse com ele, como K. julgou reconhecer por um olhar de soslaio. Mas era igualmente possível que não tivesse escutado coisa alguma, pois mantinha uma das mãos firmemente comprimida sobre a mesa e parecia comparar os dedos segundo o seu comprimento. Os dois guardas estavam sentados sobre um baú coberto por um pano ornamental e esfregavam os joelhos. Os três jovens tinham posto as mãos nos quadris e olhavam em volta sem rumo. Estava silencioso como em algum escritório esquecido. “Pois bem, meus senhores”, exclamou K.; por um instante pareceu-lhe carregar todos eles sobre os ombros, “a julgar pela aparência dos senhores, minha questão deve estar encerrada. Sou de opinião que o melhor é não refletir mais sobre a legitimidade ou ilegitimidade de seu procedimento e dar à coisa um desfecho conciliador por meio de um aperto de mãos mútuo. Se os senhores também são da minha opinião, então, por favor” — e aproximou-se da mesa do inspetor, estendendo-lhe a mão. O inspetor ergueu os olhos, roeu os lábios e olhou para a mão estendida de K.; K. ainda acreditava que o inspetor a apertaria. Este, porém, levantou-se, pegou um chapéu redondo e duro que estava sobre a cama da senhorita Bürstner e o colocou cuidadosamente com ambas as mãos, como se faz ao experimentar chapéus novos. “Como tudo lhe parece simples!”, disse ele então a K. “Deveríamos dar à coisa um desfecho conciliador, é o que o senhor pensa? Não, não, isso realmente não é possível. Com isso, por outro lado, de modo algum quero dizer que o senhor deva se desesperar. Não, por quê? O senhor está apenas detido, nada mais. Era isso que eu tinha a lhe comunicar, eu o fiz, e também vi como o senhor o recebeu. Com isso basta por hoje, e podemos nos despedir, ainda que apenas provisoriamente. O senhor agora certamente desejará ir ao banco?” “Ao banco?”, perguntou K. “Pensei que estivesse detido.”

perguntou com certo desafio, pois, embora seu aperto de mão não tivesse sido aceito, sentia-se, sobretudo desde que o inspetor se levantara, cada vez mais independente de toda aquela gente. Brincava com eles. Tinha a intenção, caso fossem embora, de correr atrás deles até o portão da casa e oferecer-lhes sua detenção. Por isso repetiu também: “Como posso então ir ao banco, se estou detido?” “Ah, sim”, disse o inspetor, que já estava junto à porta, “o senhor me compreendeu mal. O senhor está detido, certamente, mas isso não deve impedi-lo de cumprir sua profissão. O senhor também não deve ser impedido em seu modo de vida habitual.” “Então estar detido não é muito grave”, disse K., aproximando-se do inspetor. “Nunca quis dizer outra coisa”, disse este. “Mas então nem mesmo a comunicação da detenção parece ter sido muito necessária”, disse K., aproximando-se ainda mais. Também os outros se haviam aproximado. Estavam agora todos reunidos num espaço estreito junto à porta. “Era meu dever”, disse o inspetor. “Um dever estúpido”, disse K., inexorável. “Pode ser”, respondeu o inspetor, “mas não percamos nosso tempo com tais palavras. Eu havia suposto que o senhor queria ir ao banco. Como o senhor presta atenção a todas as palavras, acrescento: não o obrigo a ir ao banco, apenas supus que o senhor quisesse. E, para facilitar isso ao senhor e tornar sua chegada ao banco o mais discreta possível, mantive estes três senhores, seus colegas, aqui à sua disposição.” “Como?”, exclamou K., olhando espantado para os três. Aqueles jovens tão inexpressivos e anêmicos, de quem ele ainda se lembrava apenas como grupo junto às fotografias, eram de fato funcionários de seu banco; não colegas, isso era dizer demais e já constituía uma lacuna na onisciência do inspetor, mas eram, sem dúvida, funcionários subalternos do banco. Como K. não percebera isso? Como devia ter estado tomado pelo inspetor e pelos guardas para não reconhecer aqueles três. O rígido Rabensteiner, balançando as mãos, o louro Kullich, de olhos fundos, e Kaminer, com o sorriso insuportável provocado por uma distensão muscular crônica. “Bom dia!”, disse K. depois de algum tempo, estendendo a mão aos senhores que se inclinavam corretamente. “Não os reconheci de modo algum. Agora iremos então ao trabalho, não é?” Os senhores assentiram rindo, com zelo, como se tivessem esperado por isso o tempo todo; apenas quando K. deu falta de seu chapéu, que ficara em seu quarto, correram todos, um atrás do outro, para buscá-lo, o que, afinal, permitia concluir certa perplexidade. K. ficou parado e os seguiu com os olhos através das duas portas abertas; o último era, naturalmente, o indiferente Rabensteiner, que apenas adotara um trote elegante. Kaminer entregou o chapéu, e K. teve de dizer expressamente a si mesmo, como aliás muitas vezes também se fazia necessário no banco, que o sorriso de Kaminer não era intencional, sim, que ele em absoluto podia sorrir intencionalmente. Na antessala, então, a senhora Grubach, que não parecia muito consciente de culpa, abriu a porta do apartamento para toda a comitiva, e K. olhou, como tantas vezes, para baixo, para o cordão de seu avental, que se afundava tão desnecessariamente em seu corpo volumoso. Lá embaixo, K., com o relógio na mão, decidiu tomar um automóvel, para não aumentar sem necessidade o atraso já de meia hora. Kaminer correu até a esquina para chamar o carro; os outros dois evidentemente tentavam distrair K., quando de repente Kullich apontou para o portão da casa em frente, no qual acabava de aparecer o homem alto de barbicha loura e pontuda, e que, no primeiro instante, um pouco embaraçado por se mostrar agora em toda a sua altura, recuou para junto da parede e se encostou nela. Os velhos deviam estar ainda na escada. K. irritou-se com Kullich por este chamar a atenção para o homem que ele próprio já vira antes, sim, que até esperava.

“Não olhe para lá”, soltou ele, sem notar como era estranha uma tal maneira de falar diante de homens independentes. Mas tampouco foi necessária qualquer explicação, pois justamente então chegou o automóvel, sentaram-se e partiram. Foi então que K. se lembrou de que não notara de modo algum a saída do inspetor e dos guardas; o inspetor lhe encobrira os três funcionários, e agora, por sua vez, os funcionários lhe encobriam o inspetor. Isso não demonstrava muita presença de espírito, e K. decidiu observar-se com mais exatidão nesse sentido. Contudo, ainda se voltou involuntariamente e se inclinou sobre a parte traseira do automóvel para talvez ver ainda o inspetor e os guardas. Mas logo tornou a voltar-se e recostou-se comodamente no canto do carro, sem sequer ter feito a tentativa de procurar alguém. Embora não parecesse, era justamente agora que ele teria necessidade de encorajamento, mas agora os senhores pareciam cansados; Rabensteiner olhava para fora do carro à direita, Kullich à esquerda, e só Kaminer permanecia à disposição com seu sorriso, sobre o qual, infelizmente, a humanidade proibia fazer uma piada.

Naquela primavera, K. costumava passar as noites da seguinte maneira: depois do trabalho, quando isso ainda era possível — ficava sentado no escritório geralmente até as nove horas — fazia um pequeno passeio, sozinho ou com funcionários, e depois ia a uma cervejaria, onde se reunia, a uma mesa cativa, com senhores em geral mais velhos, normalmente até as onze horas. Havia, porém, exceções nessa distribuição, quando K., por exemplo, era convidado pelo diretor do banco, que muito estimava sua capacidade de trabalho e sua confiabilidade, para um passeio de automóvel ou para um jantar em sua villa. Além disso, uma vez por semana K. ia encontrar uma moça chamada Elsa, que durante a noite, até a manhã avançada, trabalhava como garçonete numa taberna de vinhos e durante o dia só recebia visitas da cama.

Naquela noite, porém — o dia transcorrera rapidamente em trabalho intenso e em muitos votos de aniversário honrosos e amistosos —, K. queria ir imediatamente para casa. Em todas as pequenas pausas do trabalho daquele dia pensara nisso; sem saber exatamente o que queria dizer, parecia-lhe que os acontecimentos da manhã haviam causado uma grande desordem em todo o apartamento da senhora Grubach e que justamente ele era necessário para restabelecer a ordem. Uma vez restabelecida essa ordem, porém, todo vestígio daqueles acontecimentos estaria apagado e tudo retomaria seu antigo curso. Em especial dos três funcionários não havia nada a temer; estavam de novo mergulhados no grande funcionalismo do banco, nenhuma mudança se notava neles. K. os chamara várias vezes, separadamente e em conjunto, ao seu escritório, sem outro propósito senão observá-los; sempre pudera dispensá-los satisfeito.

Quando chegou, às nove e meia da noite, diante da casa em que morava, encontrou no portão um jovem rapaz que estava ali plantado de pernas abertas e fumava um cachimbo. “Quem é o senhor?”, perguntou K. imediatamente, aproximando o rosto do rapaz; não se via muito na penumbra do corredor. “Sou o filho do zelador, meu senhor”, respondeu o rapaz, tirou o cachimbo da boca e afastou-se para o lado. “O filho do zelador?”, perguntou K., batendo impacientemente no chão com a bengala. “O senhor deseja alguma coisa? Devo chamar meu pai?” “Não, não”, disse K.; havia em sua voz algo indulgente, como se o rapaz tivesse cometido alguma maldade, mas ele o perdoasse. “Está bem”, disse então, e prosseguiu; mas, antes de subir a escada, virou-se ainda uma vez.

Poderia ter ido diretamente para seu quarto, mas, como queria falar com a senhora Grubach, bateu logo à porta dela. Ela estava sentada à mesa com uma meia de tricô; sobre a mesa havia ainda um monte de meias velhas. K. desculpou-se distraidamente por chegar tão tarde, mas a senhora Grubach foi muito amável e não quis ouvir desculpa alguma; para ele, ela estava sempre disponível, ele sabia muito bem que era seu melhor e mais querido inquilino. K. olhou em torno no quarto; tudo estava outra vez inteiramente em seu antigo estado; a louça do café da manhã, que cedo estivera sobre a mesinha junto à janela, também já havia sido retirada. Mãos de mulher conseguem muita coisa em silêncio, pensou ele; talvez ele tivesse despedaçado a louça ali mesmo, mas certamente não teria conseguido levá-la para fora. Olhou para a senhora Grubach com certa gratidão. “Por que trabalha ainda tão tarde?”, perguntou ele. Estavam agora ambos à mesa, e K., de tempos em tempos, enterrava a mão nas meias. “Há muito trabalho”, disse ela; “durante o dia pertenço aos inquilinos; se quero pôr minhas coisas em ordem, só me restam as noites.” “Hoje devo ter lhe dado ainda um trabalho extraordinário.” “Como assim?”, perguntou ela, ficando um pouco mais atenta; o trabalho repousava em seu colo. “Refiro-me aos homens que estiveram aqui esta manhã.” “Ah, sim”, disse ela, e voltou de novo à sua calma, “isso não me deu nenhum trabalho especial.” K. observou em silêncio enquanto ela retomava a meia de tricô. Parece espantar-se que eu fale disso, pensou ele; parece não achar correto que eu fale disso. Tanto mais importante é que eu o faça. Só posso falar disso com uma velha senhora. “Mas certamente deu trabalho”, disse ele então, “só que não voltará a acontecer.” “Não, isso não pode voltar a acontecer”, disse ela, confirmando, e sorriu para K. quase melancolicamente. “A senhora diz isso seriamente?”, perguntou K. “Sim”, disse ela mais baixo, “mas, antes de tudo, o senhor não deve levar isso tão a sério. Que coisas não acontecem no mundo! Já que o senhor fala comigo com tanta confiança, senhor K., posso confessar-lhe que escutei um pouco atrás da porta e que também os dois guardas me contaram algumas coisas. Trata-se, afinal, de sua felicidade, e isso realmente me toca o coração, mais do que talvez me caiba, pois sou apenas a locadora. Pois bem, ouvi algumas coisas, mas não posso dizer que tenha sido algo particularmente terrível. Não. O senhor está, é verdade, detido, mas não como se detém um ladrão. Quando se é detido como um ladrão, então é grave, mas esta detenção... Parece-me algo erudito; desculpe-me se digo alguma tolice, parece-me algo erudito, que eu não compreendo, é verdade, mas que tampouco é preciso compreender.”

“Não foi nenhuma tolice o que a senhora disse, senhora Grubach; ao menos eu também sou em parte da sua opinião, só que julgo tudo isso ainda mais severamente do que a senhora e simplesmente não o considero sequer algo erudito, mas absolutamente nada. Fui surpreendido, foi isso. Se eu, logo ao despertar, sem me deixar perturbar pela ausência de Anna, tivesse me levantado e, sem consideração por quem quer que surgisse em meu caminho, tivesse vindo até a senhora, se desta vez, por exceção, tivesse tomado café, digamos, na cozinha, se lhe tivesse pedido que me trouxesse as roupas do meu quarto, em suma, se tivesse agido sensatamente, nada mais teria acontecido; tudo o que queria vir a ser teria sido sufocado. Mas a gente está tão pouco preparado. No banco, por exemplo, estou preparado; ali algo semelhante não poderia acontecer comigo de modo algum; tenho ali um criado próprio, o telefone geral e o telefone do escritório estão diante de mim sobre a mesa; o tempo todo entram pessoas, clientes e funcionários; além disso, porém, e acima de tudo, ali estou sempre no encadeamento do trabalho, portanto com presença de espírito; seria para mim quase um prazer ser confrontado ali com uma coisa dessas. Bem, passou, e eu, na verdade, já nem queria mais falar disso; queria apenas ouvir o seu juízo, o juízo de uma mulher sensata, e estou muito contente que concordemos nisso. Mas agora a senhora precisa me dar a mão; uma concordância dessas deve ser confirmada com um aperto de mãos.”

Será que ela me dará a mão? O inspetor não me deu a mão, pensou ele, e olhou a mulher de modo diferente de antes, examinando-a. Ela se levantou, porque ele também se levantara; estava um pouco constrangida, pois nem tudo o que K. dissera lhe fora compreensível. Em consequência desse constrangimento, porém, disse algo que não queria de modo algum dizer e que também não vinha absolutamente ao caso: “Não leve isso tão a sério, senhor K.”, disse ela, com lágrimas na voz, e naturalmente também esqueceu o aperto de mãos. “Eu não saberia dizer que levo isso a sério”, disse K., subitamente cansado e percebendo o escasso valor de todas as concordâncias daquela mulher.

À porta, perguntou ainda: “A senhorita Bürstner está em casa?” “Não”, disse a senhora Grubach, e sorriu, diante dessa informação seca, com uma participação sensata que chegava tarde. “Está no teatro. O senhor queria alguma coisa dela? Devo transmitir-lhe algum recado?” “Ah, eu queria apenas trocar algumas palavras com ela.” “Infelizmente não sei quando ela chega; quando vai ao teatro, costuma voltar tarde.” “Isso é inteiramente indiferente”, disse K., já voltando para a porta a cabeça baixa, para ir embora, “eu queria apenas desculpar-me com ela por ter usado hoje o seu quarto.” “Isso não é necessário, senhor K.; o senhor é atencioso demais, a senhorita não sabe absolutamente nada, ela ainda não voltou para casa desde cedo, e tudo já foi posto em ordem; veja o senhor mesmo.” E abriu a porta do quarto da senhorita Bürstner. “Obrigado, acredito”, disse K., mas ainda assim foi até a porta aberta. A lua brilhava em silêncio no quarto escuro. Pelo que se podia ver, tudo estava de fato em seu lugar; também a blusa já não pendia da maçaneta da janela. Estranhamente altos pareciam os travesseiros na cama, em parte iluminados pela luz da lua. “A senhorita volta muitas vezes tarde para casa”, disse K., e olhou para a senhora Grubach como se ela fosse responsável por isso. “Como são os jovens!”, disse a senhora Grubach, desculpando-a. “Certamente, certamente”, disse K., “mas isso pode ir longe demais.” “Pode”, disse a senhora Grubach, “e como o senhor tem razão, senhor K. Talvez até neste caso. Decerto não quero caluniar a senhorita Bürstner; ela é uma moça boa e querida, amável, ordeira, pontual, trabalhadora, aprecio muito tudo isso, mas uma coisa é verdade: ela deveria ser mais orgulhosa, mais reservada. Já a vi duas vezes este mês em ruas afastadas, e sempre com um senhor diferente. Isso me é muito penoso, conto-o, por Deus verdadeiro, apenas ao senhor, senhor K., mas não poderei evitar falar também com a própria senhorita a respeito. Aliás, não é a única coisa que a torna suspeita para mim.” “A senhora está num caminho inteiramente falso”, disse K. furioso e quase incapaz de escondê-lo; “além disso, evidentemente compreendeu mal também a minha observação sobre a senhorita, não era esse o sentido. Chego até a adverti-la com toda a franqueza contra dizer qualquer coisa à senhorita; a senhora está completamente enganada, conheço muito bem a senhorita, nada do que a senhora disse é verdade. Aliás, talvez eu esteja indo longe demais, não quero impedi-la; diga-lhe o que quiser. Boa noite.” “Senhor K.”, disse a senhora Grubach, em tom suplicante, e apressou-se atrás de K. até a porta dele, que ele já abrira, “eu ainda nem quero falar com a senhorita; naturalmente quero antes observá-la um pouco mais, só confiei ao senhor o que eu sabia. Afinal, deve ser do interesse de cada inquilino que se procure conservar limpa a pensão, e não é outra a minha intenção nisso.” “A limpeza!”, gritou ainda K. pela fresta da porta, “se a senhora quer conservar limpa a pensão, deve primeiro despedir-me.” Então bateu a porta; a leve batida que se seguiu já não mereceu sua atenção.

Em compensação, como não tinha vontade alguma de dormir, decidiu permanecer acordado e, com essa ocasião, também verificar quando a senhorita Bürstner chegaria. Talvez então ainda fosse possível, por mais inconveniente que fosse, trocar algumas palavras com ela. Quando estava deitado à janela e apertava os olhos cansados, pensou por um instante até em castigar a senhora Grubach e convencer a senhorita Bürstner a rescindir o aluguel junto com ele. Mas isso logo lhe pareceu terrivelmente exagerado, e teve até a suspeita contra si mesmo de que pretendia mudar de moradia por causa dos acontecimentos da manhã. Nada teria sido mais insensato e, sobretudo, mais inútil e desprezível.

Quando se cansou de olhar para a rua vazia, deitou-se no canapé, depois de ter aberto um pouco a porta da antessala, para poder ver, do canapé, qualquer pessoa que entrasse no apartamento. Até cerca de onze horas ficou deitado tranquilamente no canapé, fumando um charuto. A partir daí, porém, já não conseguiu mais suportar ficar ali e foi um pouco para a antessala, como se com isso pudesse apressar a chegada da senhorita Bürstner. Não tinha nenhum desejo especial por ela, nem sequer conseguia recordar com precisão como ela era; mas agora queria falar com ela, e irritava-o que, por chegar tarde, ela ainda trouxesse inquietação e desordem ao desfecho daquele dia. Era culpa dela também que ele não tivesse jantado naquela noite e que tivesse deixado de fazer a visita a Elsa, prevista para aquele dia. Ambas as coisas, contudo, ainda podia recuperar, indo agora ao estabelecimento de vinhos onde Elsa trabalhava. Queria fazê-lo também mais tarde, depois da conversa com a senhorita Bürstner.

Já passava de onze e meia quando se ouviu alguém na escada. K., que, entregue aos seus pensamentos, andava de um lado para outro na antessala, como se ela fosse seu próprio quarto, refugiou-se atrás de sua porta. Era a senhorita Bürstner, que havia chegado. Arrepiada de frio, enquanto fechava a porta à chave, apertava em torno dos ombros estreitos um xale de seda. No instante seguinte teria de entrar em seu quarto, onde K. certamente não podia penetrar à meia-noite; precisava, portanto, falar-lhe naquele momento, mas, infelizmente, deixara de acender a luz elétrica de seu quarto, de modo que sua saída da escuridão dava a impressão de um ataque e necessariamente haveria, ao menos, de assustá-la. Em seu desamparo, e como não havia tempo a perder, sussurrou pela fresta da porta: “Senhorita Bürstner.” Soou mais como um pedido do que como um chamado. “Há alguém aí?”, perguntou a senhorita Bürstner, olhando em volta com os olhos muito abertos. “Sou eu”, disse K., saindo à frente. “Ah, senhor K.!”, disse a senhorita Bürstner, sorrindo. “Boa noite”, e estendeu-lhe a mão. “Eu queria falar algumas palavras com a senhorita; a senhorita me permitiria isso agora?” “Agora?”, perguntou a senhorita Bürstner. “Tem de ser agora? Não é um pouco estranho?” “Estou esperando a senhorita desde as nove horas.” “Bem, eu estava no teatro; como poderia saber que o senhor me esperava?” “O motivo do que quero lhe dizer só surgiu hoje.” “Pois bem, em princípio não tenho nada contra, exceto que estou cansada a ponto de cair. Então venha por alguns minutos ao meu quarto. Aqui, de modo algum podemos conversar; acordaremos todo mundo, e isso me seria mais desagradável por nossa causa do que por causa dos outros. Espere aqui até que eu acenda a luz em meu quarto, e depois apague a luz daqui.” K. fez como ela disse, esperou ainda até que a senhorita Bürstner o chamasse outra vez, baixinho, de seu quarto. “Sente-se”, disse ela, apontando para a otomana; ela mesma permaneceu de pé, apoiada na coluna da cama, apesar do cansaço de que falara; nem sequer tirou o pequeno chapéu, ornado de uma profusão de flores. “Então, o que o senhor queria? Estou realmente curiosa.” Cruzou levemente as pernas. “A senhorita talvez diga”, começou K., “que o assunto não era assim tão urgente para ser tratado agora, mas...” “Sempre deixo de ouvir as introduções”, disse a senhorita Bürstner. “Isso facilita minha tarefa”, disse K. “Seu quarto foi hoje de manhã, por assim dizer por minha culpa, um pouco desarrumado; isso aconteceu por obra de pessoas estranhas, contra minha vontade, mas, como eu disse, por minha culpa; por isso queria lhe pedir desculpas.” “Meu quarto?”, perguntou a senhorita Bürstner, e, em vez de olhar para o quarto, fitou K. atentamente. “É isso mesmo”, disse K., e agora ambos se olharam pela primeira vez nos olhos, “a maneira como isso aconteceu, em si, não vale uma palavra.” “Mas justamente isso seria o mais interessante”, disse a senhorita Bürstner. “Não”, disse K. “Bem”, disse a senhorita Bürstner, “não quero me intrometer em segredos; se o senhor insiste em que isso não tem interesse, também nada tenho a objetar. Quanto ao pedido de desculpas, concedo-o de bom grado, sobretudo porque não encontro o menor vestígio de desordem.” Com as palmas das mãos pousadas bem abaixo, sobre os quadris, deu uma volta pelo quarto. Parou diante da esteira onde estavam presas as fotografias. “Veja só”, exclamou, “minhas fotografias realmente foram remexidas. Que coisa desagradável! Então alguém esteve no meu quarto sem autorização.” K. fez que sim com a cabeça e, em silêncio, amaldiçoou o funcionário Kaminer, que jamais conseguia refrear sua estéril e absurda vivacidade. “É estranho”, disse a senhorita Bürstner, “que eu seja obrigada a proibir-lhe uma coisa que o senhor mesmo deveria proibir a si próprio, isto é, entrar em meu quarto durante minha ausência.” “Mas eu já lhe expliquei, senhorita”, disse K., aproximando-se também das fotografias, “que não fui eu quem mexeu nas suas fotografias;”

mas, já que a senhorita não acredita em mim, devo então confessar que a comissão de investigação trouxe consigo três funcionários do banco, dos quais um, que mandarei pôr para fora do banco na primeira oportunidade, provavelmente pegou as fotografias na mão.” “Sim, houve aqui uma comissão de investigação”, acrescentou K., pois a senhorita o olhava interrogativamente. “Por sua causa?”, perguntou a senhorita. “Sim”, respondeu K. “Não”, exclamou a senhorita, e riu. “Sim”, disse K. “A senhorita acredita então que sou inocente?” “Bem, inocente”, disse a senhorita, “não quero pronunciar de imediato um juízo talvez carregado de consequências; além disso, não o conheço, mas, de todo modo, deve-se tratar de um criminoso muito grave para que lhe mandem logo ao corpo uma comissão de investigação. Mas, como o senhor está livre — concluo ao menos por sua calma que não fugiu da prisão —, não pode ter cometido tal crime.” “Sim”, disse K., “mas a comissão de investigação pode ter reconhecido que sou inocente, ou ao menos não tão culpado quanto se supunha.” “Certamente, isso pode ser”, disse a senhorita Bürstner, muito atenta. “Veja”, disse K., “a senhorita não tem muita experiência em assuntos judiciais.” “Não, não tenho”, disse a senhorita Bürstner, “e já lamentei isso muitas vezes, pois gostaria de saber tudo, e justamente os assuntos judiciais me interessam imensamente. O tribunal tem uma força de atração peculiar, não tem? Mas certamente completarei meus conhecimentos nessa direção, pois no mês que vem entro como auxiliar de escritório num escritório de advocacia.” “Isso é muito bom”, disse K., “então a senhorita poderá me ajudar um pouco em meu processo.” “Isso poderia acontecer”, disse a senhorita Bürstner, “por que não? Emprego de bom grado meus conhecimentos.” “Também estou falando a sério”, disse K., “ou ao menos com a meia seriedade com que a senhorita fala. Para recorrer a um advogado, a questão ainda é demasiado mesquinha, mas uma conselheira me seria muito útil.” “Sim, mas, se devo ser conselheira, teria de saber do que se trata”, disse a senhorita Bürstner. “Esse é justamente o ponto”, disse K., “eu mesmo não sei.” “Então o senhor zombou de mim”, disse a senhorita Bürstner, excessivamente decepcionada, “era inteiramente desnecessário escolher para isso esta hora avançada da noite.” E afastou-se das fotografias, onde haviam permanecido reunidos por tanto tempo. “Mas, minha senhorita”, disse K., “não estou zombando. Que a senhorita não queira acreditar em mim! O que sei, já lhe disse. Até mais do que sei, pois não houve absolutamente nenhuma comissão de investigação; chamo-a assim porque não sei outro nome para isso. Não se investigou coisa alguma, fui apenas detido, mas por uma comissão.” A senhorita Bürstner estava sentada na otomana e ria outra vez. “Como foi então?”, perguntou ela. “Terrível”, disse K., mas agora não pensava absolutamente nisso, estava inteiramente tomado pela visão da senhorita Bürstner, que apoiava o rosto numa das mãos — o cotovelo descansava sobre a almofada da otomana —, enquanto a outra mão lhe acariciava lentamente o quadril. “Isso é genérico demais”, disse a senhorita Bürstner. “O que é genérico demais?”, perguntou K. Então se lembrou e perguntou: “Quer que eu lhe mostre como foi?” Queria pôr-se em movimento e, contudo, não ir embora. “Já estou cansada”, disse a senhorita Bürstner. “A senhorita chegou tão tarde”, disse K. “Ora, acaba nisso: agora recebo censuras; e até é justo, pois eu não deveria tê-lo deixado entrar. Necessário também não era, como se mostrou.” “Era necessário, a senhorita só verá agora”, disse K. “Posso afastar a mesinha de cabeceira de sua cama?” “Que ideia é essa?”, disse a senhorita Bürstner. “Claro que não pode!” “Então não posso lhe mostrar”, disse K. agitado, como se com isso lhe causassem um dano imensurável. “Bem, se o senhor precisa dela para a representação, então afaste tranquilamente a mesinha”, disse a senhorita Bürstner, e acrescentou depois de um instante, com voz mais fraca:

“Estou tão cansada que permito mais do que convém.” K. colocou a mesinha no meio do quarto e sentou-se atrás dela. “A senhorita precisa imaginar corretamente a distribuição das pessoas, é muito interessante. Eu sou o inspetor; ali, sobre o baú, estão sentados dois guardas; junto às fotografias há três jovens. Na maçaneta da janela pende, menciono isso apenas de passagem, uma blusa branca. E agora começa. Sim, estou me esquecendo de mim mesmo; a pessoa mais importante, isto é, eu, estou aqui diante da mesinha. O inspetor está sentado comodamente em extremo, as pernas cruzadas, o braço pendente aqui sobre o encosto, um insolente sem igual. E agora começa realmente. O inspetor chama como se tivesse de me acordar, ele praticamente grita; infelizmente, se quero tornar isso compreensível para a senhorita, também preciso gritar; aliás, é apenas o meu nome que ele grita assim.” A senhorita Bürstner, que ouvia rindo, levou o indicador à boca para impedir K. de gritar, mas era tarde demais; K. estava demasiado dentro do papel, chamou lentamente: “Josef K.”; aliás, não tão alto quanto havia ameaçado, mas ainda assim de tal modo que o chamado, depois de lançado de súbito, pareceu espalhar-se pouco a pouco pelo quarto.

Então bateram algumas vezes à porta do quarto ao lado, com força, curto e regularmente. A senhorita Bürstner empalideceu e levou a mão ao coração. K. assustou-se de modo particularmente forte porque ainda por algum tempo foi inteiramente incapaz de pensar em outra coisa que não nos acontecimentos da manhã e na moça a quem os representava. Mal se recompôs, saltou até a senhorita Bürstner e tomou-lhe a mão. “Não tema nada”, sussurrou, “porei tudo em ordem. Mas quem pode ser? Aqui ao lado só há a sala de estar, onde ninguém dorme.” “Há, sim”, sussurrou a senhorita Bürstner ao ouvido de K., “desde ontem dorme aqui um sobrinho da senhora Grubach, um capitão. Justamente não há outro quarto livre. Eu também me esqueci disso. O senhor tinha de gritar assim! Estou infeliz com isso.” “Não há motivo algum para isso”, disse K. e, quando ela agora tombou de volta sobre a almofada, beijou-lhe a testa. “Vá, vá”, disse ela, e endireitou-se de novo às pressas, “vá, por favor, vá, o que o senhor quer? Ele está escutando à porta, ele ouve tudo. Como o senhor me atormenta!” “Não irei antes”, disse K., “de a senhorita estar um pouco mais tranquila. Venha para o outro canto do quarto, ali ele não poderá nos ouvir.” Ela deixou que a conduzisse até lá. “A senhorita não considera”, disse ele, “que se trata, é verdade, de um incômodo para a senhorita, mas de modo algum de um perigo. Sabe como a senhora Grubach, que afinal decide nesta questão, sobretudo porque o capitão é seu sobrinho, praticamente me venera e acredita incondicionalmente em tudo o que digo. Além disso, de resto, ela depende de mim, pois me deve uma soma considerável. Aceito qualquer proposta sua quanto a uma explicação para estarmos juntos, desde que seja minimamente adequada ao propósito, e me comprometo a levar a senhora Grubach a acreditar nessa explicação não apenas diante do público, mas real e sinceramente. A senhorita não precisa me poupar de modo algum nesse ponto. Se quiser que se divulgue que eu a ataquei, a senhora Grubach será informada nesse sentido e acreditará nisso sem perder a confiança em mim, tanto é o apego que tem por mim.” A senhorita Bürstner olhava em silêncio, um pouco abatida, para o chão diante de si. “Por que a senhora Grubach não acreditaria que eu a ataquei?”, acrescentou K. Diante de si via os cabelos dela, cabelos ruivos, repartidos, baixos e ondulados, firmemente presos. Acreditou que ela ergueria o olhar para ele, mas ela disse, sem mudar de posição: “Perdoe-me, assustei-me com a batida repentina, não tanto com as consequências que a presença do capitão poderia ter. Estava tão silencioso depois de seu grito, e então bateram; por isso me assustei tanto, eu também estava sentada perto da porta, a batida foi quase ao meu lado. Agradeço suas propostas, mas não as aceito. Posso assumir a responsabilidade por tudo o que acontece em meu quarto, e diante de qualquer pessoa. Espanta-me que o senhor não perceba que insulto há para mim em suas propostas, além das boas intenções, naturalmente, que sem dúvida reconheço. Mas agora vá, deixe-me sozinha; preciso disso agora ainda mais do que antes. Dos poucos minutos que o senhor pediu, já se fez meia hora e mais.” K. tomou-a pela mão e depois pelo pulso: “Mas a senhorita não está zangada comigo?”, disse ele. Ela retirou sua mão e respondeu: “Não, não, eu nunca fico zangada com ninguém.” Ele tornou a segurar-lhe o pulso, ela agora o tolerou e assim o conduziu até a porta. Ele estava firmemente decidido a ir embora. Mas diante da porta, como se não esperasse encontrar ali uma porta, deteve-se; a senhorita Bürstner aproveitou esse instante para se soltar, abrir a porta, deslizar para a antessala e dali dizer baixinho a K.: “Agora venha, por favor.

Veja” — ela apontou para a porta do capitão, sob a qual vinha um clarão —, “ele acendeu a luz e conversa sobre nós.” “Já vou”, disse K., correu para a frente, agarrou-a, beijou-a na boca e depois por todo o rosto, como um animal sedento que passa a língua sobre a água da fonte enfim encontrada. Por fim beijou-a no pescoço, onde fica a garganta, e ali deixou os lábios demoradamente. Um ruído vindo do quarto do capitão o fez levantar os olhos. “Agora vou embora”, disse ele; queria chamar a senhorita Bürstner pelo nome de batismo, mas não o sabia. Ela assentiu, cansada, já meio voltada para o outro lado, entregou-lhe a mão para que a beijasse, como se nada soubess

O Processo

Sinopse

Tradução integral em português-BR de O Processo, romance de Franz Kafka, preparada pelo Literunico a partir do texto original alemão em domínio público disponível no Project Gutenberg para a Copa do Mundo Literunico.

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