NONO CAPÍTULO
NONO CAPÍTULO
NO DOMO
K. recebeu a incumbência de mostrar alguns monumentos artísticos a um amigo comercial italiano do banco, muito importante para este e que se encontrava pela primeira vez naquela cidade.
Em outra época, sem dúvida teria considerado essa incumbência uma honra; agora, porém, quando só com grande esforço ainda conseguia preservar sua reputação no banco, aceitou-a de má vontade. Cada hora que lhe era tirada do escritório lhe causava aflição. É verdade que já não conseguia aproveitar o tempo de escritório nem de longe como antes; passava muitas horas apenas sob a aparência mais precária de trabalho real. Mas tanto maiores eram suas preocupações quando não estava no escritório.
Então acreditava ver o vice-diretor, que sempre estivera à espreita, entrando de tempos em tempos em seu escritório, sentando-se à sua escrivaninha, examinando seus papéis, recebendo clientes com os quais K. estivera quase em amizade havia anos e desviando-os dele; talvez até descobrindo erros, pelos quais K. agora, durante o trabalho, se sentia ameaçado de mil direções e que já não conseguia evitar.
Por isso, se alguma vez recebia, ainda que de modo honroso, uma incumbência externa ou até uma pequena viagem de negócios, e tais incumbências haviam se acumulado ultimamente por puro acaso, sempre ficava próxima a suspeita de que se queria afastá-lo por um tempo do escritório para verificar seu trabalho, ou ao menos de que o consideravam facilmente dispensável no escritório.
Ele poderia ter recusado sem dificuldade a maioria dessas incumbências, mas não ousava, pois, se seu receio tivesse o menor fundamento, a recusa da tarefa significaria a confissão de seu medo. Por esse motivo aceitava tais encargos com aparente indiferença e, quando devia realizar uma cansativa viagem de negócios de dois dias, chegou até a esconder um forte resfriado, apenas para não se expor ao risco de ser impedido de viajar com referência ao tempo chuvoso de outono então dominante.
Quando voltou dessa viagem com violentas dores de cabeça, soube que havia sido designado para acompanhar, no dia seguinte, o amigo comercial italiano. A tentação de recusar ao menos dessa vez era muito grande. Acima de tudo, aquilo que lhe fora destinado não era um trabalho diretamente ligado aos negócios; mas o cumprimento desse dever social para com o amigo comercial era por si só, sem dúvida, bastante importante, embora não para K., que sabia muito bem que só poderia se manter por resultados de trabalho, e que, se isso não lhe fosse possível, seria completamente inútil, mesmo que inesperadamente encantasse aquele italiano.
Não queria ser deslocado nem por um dia da esfera do trabalho, pois era grande demais o medo de não ser mais deixado de volta. Reconhecia muito bem esse medo como exagerado, mas ele ainda assim o oprimia.
Neste caso, porém, era quase impossível inventar uma objeção aceitável. O conhecimento de italiano de K. não era muito grande, mas ainda assim suficiente; o decisivo, porém, era que K. possuía alguns conhecimentos artísticos de tempos anteriores, fato conhecido no banco de maneira extremamente exagerada porque K. fora, durante algum tempo, ainda que apenas por motivos comerciais, membro da Associação para a Conservação dos Monumentos Artísticos da Cidade.
Ora, o italiano, segundo se soubera por rumores, era amante da arte, e por isso a escolha de K. como seu acompanhante era evidente.
Era uma manhã muito chuvosa e tempestuosa quando K., cheio de irritação pelo dia que tinha diante de si, chegou ao escritório já às sete horas, para ao menos terminar algum trabalho antes que a visita o arrancasse de tudo.
Estava muito cansado, pois passara metade da noite estudando uma gramática italiana para se preparar um pouco. A janela, junto à qual ultimamente costumava sentar-se com frequência excessiva, atraía-o mais do que a escrivaninha, mas ele resistiu e se pôs ao trabalho.
Infelizmente, justamente então entrou o criado e comunicou que o senhor diretor o enviara para verificar se o senhor procurador já estava ali; se estivesse, que tivesse a gentileza de vir à sala de recepção, pois o senhor da Itália já havia chegado.
"Já vou", disse K.
Pôs um pequeno dicionário no bolso, tomou debaixo do braço um álbum dos pontos turísticos da cidade que preparara para o estrangeiro e foi, atravessando o escritório do vice-diretor, até a sala da diretoria. Estava feliz por ter chegado tão cedo ao escritório e por poder estar imediatamente à disposição, algo que provavelmente ninguém esperara seriamente.
O escritório do vice-diretor estava, naturalmente, vazio como em plena noite. Provavelmente o criado também deveria tê-lo chamado à sala de recepção, mas sem sucesso.
Quando K. entrou na sala de recepção, os dois senhores se levantaram das poltronas profundas. O diretor sorriu cordialmente; estava evidentemente muito satisfeito com a chegada de K. e providenciou logo as apresentações. O italiano apertou a mão de K. com força e, rindo, chamou alguém de madrugador. K. não entendeu exatamente a quem ele se referia; além disso, era uma palavra estranha, cujo sentido K. só adivinhou depois de algum tempo.
Respondeu com algumas frases polidas, que o italiano recebeu novamente rindo, enquanto passava várias vezes a mão nervosa pelo bigode espesso, grisalho-azulado. Esse bigode estava evidentemente perfumado; quase se ficava tentado a aproximar-se para cheirá-lo.
Quando todos se sentaram e começou uma pequena conversa introdutória, K. notou com grande desconforto que entendia o italiano apenas em fragmentos. Quando ele falava com toda calma, K. o entendia quase completamente, mas isso eram raras exceções. Na maior parte do tempo, a fala lhe jorrava da boca, e ele sacudia a cabeça como que de prazer por isso.
Em tais falas, porém, ele se enredava regularmente em algum dialeto que, para K., já não tinha nada de italiano, mas que o diretor não apenas entendia como também falava; coisa que K. aliás deveria ter previsto, pois o italiano vinha do sul da Itália, onde também o diretor passara alguns anos.
De todo modo, K. percebeu que lhe fora em grande parte retirada a possibilidade de se entender com o italiano, pois também o francês deste era difícil de compreender, e o bigode ainda cobria os movimentos dos lábios, cuja visão talvez tivesse ajudado no entendimento.
K. começou a prever muitos incômodos. Por enquanto, desistiu de tentar compreender o italiano; na presença do diretor, que o entendia com tanta facilidade, isso teria sido esforço inútil. Limitou-se a observá-lo com desgosto: como repousava, ao mesmo tempo pesado e leve, na poltrona; como puxava com frequência seu casaco curto e bem cortado; e como, certa vez, com os braços erguidos e as mãos frouxamente movidas nas articulações, tentou representar alguma coisa que K. não conseguia compreender, embora, inclinado para a frente, não tirasse os olhos das mãos.
Por fim, em K., que permanecia de resto desocupado e apenas seguia mecanicamente, com o olhar, o vaivém das conversas, manifestou-se o cansaço anterior. Certa vez, para seu susto, felizmente ainda a tempo, surpreendeu-se em meio à distração quase se levantando, virando-se e indo embora.
Finalmente, o italiano olhou para o relógio e saltou de pé. Depois de se despedir do diretor, aproximou-se de K., e tão de perto que K. precisou empurrar sua poltrona para trás para poder se mover.
O diretor, que certamente percebeu nos olhos de K. a dificuldade em que ele se encontrava diante daquele italiano, interveio na conversa de modo tão hábil e delicado que parecia apenas acrescentar pequenos conselhos, quando na realidade tornava compreensível para K., em poucas palavras, tudo o que o italiano, interrompendo-o incansavelmente, apresentava.
K. soube por ele que o italiano ainda tinha, por enquanto, alguns negócios a resolver; que infelizmente, no conjunto, teria pouco tempo; que de modo algum pretendia percorrer às pressas todos os pontos turísticos; que antes havia decidido, naturalmente apenas se K. concordasse, pois a decisão cabia só a ele, visitar apenas o Domo, mas visitá-lo com atenção.
Ele se alegrava imensamente por poder fazer essa visita acompanhado de um homem tão erudito e amável, e com isso se referia a K., que não estava ocupado com outra coisa senão deixar de ouvir o italiano e captar rapidamente as palavras do diretor. Pedia-lhe que, se a hora lhe fosse conveniente, comparecesse ao Domo em duas horas, por volta das dez. Ele próprio esperava já poder estar ali com certeza a essa hora.
K. respondeu algumas coisas adequadas. O italiano apertou primeiro a mão do diretor, depois a de K., depois novamente a do diretor, e foi até a porta seguido por ambos, ainda meio voltado para eles, mas sem interromper a fala.
K. ficou ainda por algum tempo junto do diretor, que naquele dia parecia especialmente sofrido. O diretor acreditava dever de algum modo se desculpar com K. e disse, estavam próximos um do outro, em confiança, que primeiro pretendia ir ele mesmo com o italiano; depois, porém, não deu motivo mais preciso, decidira preferir enviar K.
Se K. não entendesse o italiano logo no início, não devia se deixar desconcertar; a compreensão viria muito depressa, e, mesmo que não entendesse muita coisa, isso também não seria tão grave, pois para o italiano não era tão importante assim ser compreendido. Além disso, o italiano de K. era surpreendentemente bom, e ele certamente se sairia de modo excelente.
Com isso, K. foi dispensado.
O tempo que ainda lhe restava, passou-o copiando do dicionário vocábulos raros de que precisaria para a visita guiada ao Domo. Era um trabalho extremamente desagradável. Criados traziam a correspondência; funcionários vinham com diversas perguntas e, ao verem K. ocupado, paravam junto à porta, mas não se afastavam até que K. os atendesse; o vice-diretor não perdia ocasião de incomodar K., entrava várias vezes, tomava-lhe o dicionário das mãos e folheava-o, evidentemente sem o menor sentido; até clientes surgiam, quando a porta se abria, na penumbra da antessala, e se inclinavam hesitantes. Queriam chamar a atenção para si, mas não tinham certeza de que haviam sido vistos.
Tudo isso se movia ao redor de K. como em torno de seu centro, enquanto ele próprio reunia as palavras de que precisava, depois as procurava no dicionário, depois as copiava, depois praticava sua pronúncia e por fim tentava decorá-las. Mas sua antiga boa memória parecia tê-lo abandonado por completo. Às vezes ficava tão furioso com o italiano, que lhe causava todo esse esforço, que enterrava o dicionário sob papéis, com a firme intenção de não se preparar mais; depois, porém, percebia que não poderia caminhar mudo, de um lado para outro, com o italiano diante das obras de arte no Domo, e tirava novamente o dicionário, com raiva ainda maior.
Exatamente às nove e meia, quando estava para sair, houve um chamado telefônico. Leni lhe desejou bom dia e perguntou como ele estava. K. agradeceu apressado e observou que agora lhe era impossível conversar, pois precisava ir ao Domo.
"Ao Domo?", perguntou Leni.
"Sim, ao Domo."
"Mas por que ao Domo?", disse Leni.
K. tentou explicar-lhe em poucas palavras, mas mal havia começado quando Leni disse de repente:
"Eles te perseguem."
K. não suportava uma compaixão que não havia provocado nem esperado. Despediu-se com duas palavras, mas, enquanto recolocava o fone no lugar, disse ainda, meio para si mesmo, meio para a moça distante que já não o ouvia:
"Sim, eles me perseguem."
Agora, porém, já era tarde. Havia quase o perigo de não chegar a tempo. Foi de automóvel. No último instante ainda se lembrara do álbum que não tivera oportunidade de entregar de manhã e que, por isso, levava agora consigo. Mantinha-o sobre os joelhos e durante toda a viagem tamborilava nele, inquieto.
A chuva havia enfraquecido, mas estava úmido, frio e escuro. No Domo, pouco se veria; por outro lado, ali, por causa de permanecer muito tempo em pé sobre as lajes frias, o resfriado de K. se agravaria bastante.
A praça do Domo estava completamente vazia. K. lembrou-se de que, já quando criança, chamara-lhe a atenção o fato de que nas casas daquela praça estreita quase todas as cortinas estavam sempre abaixadas. Com o tempo daquele dia, era certamente mais compreensível do que de costume.
Também no Domo parecia não haver ninguém. Naturalmente, a ninguém ocorria ir ali agora. K. percorreu as duas naves laterais; encontrou apenas uma velha, envolta num pano quente, ajoelhada diante de uma imagem de Maria, contemplando-a. Ao longe, viu ainda um criado manco desaparecer por uma porta na parede.
K. chegara pontualmente. Justamente quando entrou, bateram as dez horas, mas o italiano ainda não estava ali. K. voltou à entrada principal, ficou ali por algum tempo indeciso e depois, sob a chuva, deu uma volta ao redor do Domo para verificar se o italiano talvez esperasse junto de alguma entrada lateral. Não o encontrou em lugar nenhum.
Será que o diretor havia entendido mal a indicação da hora? Como se poderia, afinal, entender corretamente aquele homem? Fosse como fosse, K. precisava antes de tudo esperar por ele meia hora.
Como estava cansado, quis sentar-se. Voltou ao Domo, encontrou num degrau um pequeno trapo semelhante a um tapete, puxou-o com a ponta do pé até diante de um banco próximo, enrolou-se mais firmemente no casaco, levantou a gola e sentou-se. Para se distrair, abriu o álbum e folheou-o um pouco, mas logo teve de parar, pois ficou tão escuro que, quando ergueu os olhos, mal conseguia distinguir algum detalhe na nave lateral próxima.
Ao longe, sobre o altar-mor, cintilava um grande triângulo de luzes de velas. K. não poderia dizer com certeza se já as vira antes. Talvez tivessem sido acesas só agora. Os servidores da igreja são rastejadores profissionais; não se nota sua presença. Quando K. se virou por acaso, viu, não muito atrás de si, uma vela alta e grossa, presa a uma coluna, também acesa.
Por mais belo que fosse, aquilo era completamente insuficiente para iluminar os quadros dos altares, que em geral pendiam na escuridão dos altares laterais. Antes aumentava a escuridão. O italiano agira tanto com sensatez quanto com falta de educação ao não vir; não haveria nada para ver. Teriam de se contentar em examinar alguns quadros, polegada por polegada, com a lanterna elétrica de K.
Para experimentar o que se poderia esperar disso, K. foi até uma pequena capela lateral próxima, subiu alguns degraus até uma baixa balaustrada de mármore e, inclinado sobre ela, iluminou com a lanterna o quadro do altar. A lâmpada votiva suspensa diante dele atrapalhava.
A primeira coisa que K. viu, e em parte adivinhou, foi um grande cavaleiro armado, representado na extremidade do quadro. Apoiava-se em sua espada, que havia cravado no solo nu diante de si, de onde apenas algumas hastes de grama surgiam aqui e ali. Parecia observar atentamente um acontecimento que se desenrolava diante dele. Era espantoso que permanecesse assim e não se aproximasse. Talvez fosse destinado a montar guarda.
K., que havia muito tempo não via quadros, contemplou o cavaleiro por bastante tempo, embora tivesse de piscar continuamente, pois não suportava a luz verde da lanterna. Quando deixou a luz deslizar sobre o restante do quadro, encontrou uma deposição de Cristo no sepulcro, segundo a concepção comum; aliás, era um quadro mais recente. Guardou a lanterna e voltou ao seu lugar.
Agora provavelmente já era desnecessário esperar pelo italiano. Lá fora, porém, certamente chovia torrencialmente, e como ali não estava tão frio quanto K. esperara, decidiu permanecer por enquanto.
Em sua vizinhança ficava o grande púlpito. Sobre seu pequeno teto redondo estavam fixadas, meio deitadas, duas cruzes douradas vazias, que se cruzavam pelas pontas extremas. A parede externa da balaustrada e a passagem para a coluna de sustentação eram formadas por folhagens verdes, nas quais pequenos anjos se enfiavam, ora vivazes, ora em repouso.
K. aproximou-se do púlpito e o examinou de todos os lados. O trabalho da pedra era extremamente cuidadoso; a escuridão profunda entre a folhagem e atrás dela parecia capturada e retida. K. pôs a mão em uma dessas fendas e apalpou então cuidadosamente a pedra. Até então, nem sequer soubera da existência daquele púlpito.
Foi então que notou por acaso, atrás da fileira de bancos mais próxima, um servidor da igreja, parado ali com uma casaca preta, pendente e cheia de pregas, segurando uma caixa de rapé na mão esquerda e olhando para ele.
"O que quer esse homem?", pensou K. "Suspeita de mim? Quer uma gorjeta?"
Mas, quando o servidor se viu notado por K., apontou com a mão direita, na qual ainda segurava entre dois dedos uma pitada de tabaco, para alguma direção indefinida. Seu comportamento era quase incompreensível. K. esperou ainda um pouco, mas o servidor não parou de indicar algo com a mão, e ainda reforçava o gesto com acenos de cabeça.
"O que ele quer?", perguntou K. em voz baixa; não ousava gritar ali. Depois, porém, tirou a carteira e se espremeu pelo banco mais próximo para chegar até o homem.
Mas este fez imediatamente um gesto de recusa com a mão, encolheu os ombros e saiu mancando. Com um modo de andar semelhante àquele mancar apressado, K., quando criança, tentara imitar o cavalgar.
"Um velho infantil", pensou K. "Seu entendimento só basta ainda para o serviço da igreja. Como ele para quando eu paro e como espreita se quero continuar."
Sorrindo, K. seguiu o velho por toda a nave lateral, quase até a altura do altar-mor. O velho não parava de apontar alguma coisa, mas K. de propósito não se virava; o gesto não tinha outro objetivo senão desviá-lo da pista do velho. Por fim, K. de fato o deixou. Não queria assustá-lo demais, nem espantar completamente a aparição, caso o italiano ainda viesse.
Quando entrou na nave principal para procurar seu lugar, onde havia deixado o álbum, notou junto a uma coluna, quase encostada aos bancos do coro do altar, um pequeno púlpito secundário, muito simples, de pedra nua e pálida. Era tão pequeno que, de longe, parecia um nicho ainda vazio, destinado a receber uma estátua.
O pregador certamente não podia dar um passo inteiro para trás a partir da balaustrada. Além disso, a abóbada de pedra do púlpito começava excepcionalmente baixa e subia, embora sem ornamento algum, tão encurvada que um homem de estatura mediana não poderia ficar ali ereto, mas teria de permanecer o tempo todo inclinado sobre a balaustrada.
O conjunto parecia destinado ao tormento do pregador. Era incompreensível para que se precisava desse púlpito, já que havia o outro, grande e artisticamente ornamentado, à disposição.
K. certamente nem teria notado esse pequeno púlpito se não houvesse, lá em cima, uma lâmpada fixada, como se costuma preparar pouco antes de uma pregação. Será que agora haveria uma pregação? Na igreja vazia?
K. olhou para baixo, para a escada que se apoiava à coluna e levava ao púlpito. Era tão estreita como se não devesse servir a pessoas, mas apenas ao adorno da coluna. Mas embaixo, junto ao púlpito, K. sorriu de espanto, estava realmente o sacerdote, com a mão no corrimão, pronto para subir, olhando para K.
Então acenou muito levemente com a cabeça, ao que K. se benzeu e se inclinou, coisa que deveria ter feito antes. O sacerdote tomou um pequeno impulso e subiu ao púlpito com passos curtos e rápidos.
Será que realmente começaria uma pregação? Talvez o servidor da igreja não estivesse afinal tão completamente privado de entendimento e tivesse querido conduzir K. até o pregador, o que, na igreja vazia, de fato havia sido extremamente necessário. Além disso, ainda havia em algum lugar, diante de uma imagem de Maria, uma velha que também deveria vir.
E, se já haveria uma pregação, por que ela não era introduzida pelo órgão? Mas este permanecia em silêncio e apenas brilhava fracamente da escuridão de sua grande altura.
K. pensou se não deveria agora retirar-se depressa. Se não o fizesse agora, não haveria perspectiva de fazê-lo durante a pregação; teria então de permanecer enquanto ela durasse. No escritório perdera tanto tempo. Já não tinha obrigação alguma de esperar pelo italiano. Olhou para o relógio: eram onze horas.
Mas poderia realmente haver uma pregação? Poderia K. sozinho representar a comunidade? E se ele fosse um estrangeiro que queria apenas visitar a igreja? No fundo, também não era outra coisa. Era absurdo pensar que se pregaria agora, às onze horas, num dia de semana, com um tempo horroroso.
O sacerdote, e era sem dúvida um sacerdote, um homem jovem, de rosto escuro e liso, evidentemente subia apenas para apagar a lâmpada que fora acesa por engano.
Mas não era assim. O sacerdote, ao contrário, examinou a luz e ainda a aumentou um pouco. Depois voltou-se lentamente para a balaustrada, que segurou à frente, na moldura angulosa, com ambas as mãos.
Permaneceu assim por algum tempo, olhando ao redor sem mover a cabeça. K. havia recuado um bom trecho e se apoiava com os cotovelos no primeiro banco da igreja. Com olhos inseguros, viu em algum lugar, sem determinar exatamente o ponto, o servidor da igreja, de costas curvadas, encolher-se pacificamente como depois de uma tarefa concluída.
Que silêncio reinava agora no Domo! Mas K. precisava perturbá-lo. Não tinha a intenção de permanecer ali. Se era dever do sacerdote pregar a uma hora determinada, sem consideração pelas circunstâncias, então que pregasse; isso também conseguiria sem a ajuda de K., assim como a presença de K. certamente não aumentaria o efeito.
K. pôs-se, portanto, lentamente em movimento. Apalpou com os pés, na ponta dos sapatos, o caminho ao longo do banco; depois chegou ao amplo corredor central e também ali avançou sem ser perturbado, só que o piso de pedra ressoava sob o passo mais leve, e as abóbadas devolviam o som, fraco mas ininterrupto, em múltiplas progressões regulares.
K. sentiu-se um pouco abandonado enquanto caminhava sozinho entre os bancos vazios, talvez observado pelo sacerdote. Também lhe pareceu que o tamanho do Domo estava justamente no limite do que ainda era suportável para seres humanos.
Quando chegou ao lugar anterior, apanhou quase num gesto rápido, sem deter-se mais, o álbum que deixara ali e o tomou consigo. Quase já havia deixado a região dos bancos e se aproximava do espaço livre entre eles e a saída quando ouviu pela primeira vez a voz do sacerdote.
Uma voz poderosa e exercitada. Como penetrava o Domo preparado para recebê-la! Mas não era a comunidade que o sacerdote chamava. Era inteiramente claro, e não havia escapatória: ele chamava:
"Josef K.!"
K. estacou e olhou para o chão diante de si. Por enquanto ainda estava livre. Ainda podia continuar e escapar por uma das três pequenas portas de madeira escura que não ficavam longe diante dele. Isso significaria apenas que não havia entendido, ou que havia entendido, mas não queria se importar.
Se, porém, se virasse, estaria preso, pois então teria confessado que entendera bem, que era realmente o chamado e que também queria obedecer. Se o sacerdote tivesse chamado mais uma vez, K. certamente teria ido embora. Mas, como tudo permaneceu em silêncio, por mais tempo que K. esperasse, ele virou um pouco a cabeça, pois queria ver o que o sacerdote fazia agora.
Ele estava tranquilo no púlpito como antes, mas era claro que notara o movimento da cabeça de K. Teria sido uma brincadeira infantil de esconder se agora K. não se virasse por completo. Ele o fez, e o sacerdote o chamou para mais perto com um aceno do dedo.
Como agora tudo podia acontecer abertamente, K. correu, e o fez também por curiosidade e para abreviar o assunto, com passos longos e rápidos em direção ao púlpito. Junto aos primeiros bancos, parou; mas a distância ainda pareceu grande demais ao sacerdote. Este estendeu a mão e apontou, com o indicador rigidamente abaixado, para um ponto bem diante do púlpito.
K. também obedeceu nisso. Nesse lugar, já precisava inclinar a cabeça muito para trás para ainda ver o sacerdote.
"Tu és Josef K.", disse o sacerdote, erguendo uma das mãos sobre a balaustrada num movimento indefinido.
"Sim", disse K.
Pensou em como antes sempre dissera abertamente seu nome; havia algum tempo, porém, ele se tornara um fardo para si. Agora também conheciam seu nome pessoas com quem se encontrava pela primeira vez. Como era belo primeiro apresentar-se e só depois ser conhecido.
"Tu és acusado", disse o sacerdote em voz especialmente baixa.
"Sim", disse K. "Fui informado disso."
"Então és aquele que procuro", disse o sacerdote. "Sou o capelão da prisão."
"Ah, sim", disse K.
"Mandei chamar-te aqui", disse o sacerdote, "para falar contigo."
"Eu não sabia", disse K. "Vim aqui para mostrar o Domo a um italiano."
"Deixa o secundário", disse o sacerdote. "O que tens na mão? É um livro de orações?"
"Não", respondeu K. "É um álbum dos pontos turísticos da cidade."
"Larga-o", disse o sacerdote.
K. o lançou fora com tanta força que o álbum se abriu e deslizou um trecho pelo chão, com as folhas amassadas.
"Sabes que teu processo vai mal?", perguntou o sacerdote.
"Também me parece", disse K. "Tenho me esforçado muito, mas até agora sem sucesso. É verdade que ainda não terminei a petição."
"Como imaginas o fim?", perguntou o sacerdote.
"Antes eu pensava que deveria acabar bem", disse K. "Agora, às vezes, eu mesmo duvido disso. Não sei como acabará. Tu sabes?"
"Não", disse o sacerdote. "Mas temo que acabe mal. Consideram-te culpado. Talvez teu processo nem ultrapasse um tribunal inferior. Ao menos por enquanto, consideram tua culpa provada."
"Mas eu não sou culpado", disse K. "É um erro. Como pode um ser humano ser culpado? Afinal, aqui somos todos seres humanos, um como o outro."
"Isso é correto", disse o sacerdote. "Mas é assim que os culpados costumam falar."
"Também tens preconceito contra mim?", perguntou K.
"Não tenho preconceito contra ti", disse o sacerdote.
"Agradeço", disse K. "Mas todos os outros que participam do procedimento têm preconceito contra mim. Também o infundem nos não envolvidos. Minha posição se torna cada vez mais difícil."
"Tu entendes mal os fatos", disse o sacerdote. "A sentença não vem de uma só vez. O procedimento vai se transformando gradualmente em sentença."
"Então é assim", disse K., baixando a cabeça.
"O que pretendes fazer em breve em tua causa?", perguntou o sacerdote.
"Quero procurar ainda ajuda", disse K., erguendo a cabeça para ver como o sacerdote julgaria isso.
"Ainda há certas possibilidades que não aproveitei."
"Procuras ajuda alheia demais", disse o sacerdote, desaprovador, "e especialmente junto às mulheres. Não percebes que essa não é a verdadeira ajuda?"
"Às vezes, e até muitas vezes, eu poderia te dar razão", disse K., "mas não sempre. As mulheres têm grande poder. Se eu pudesse levar algumas mulheres que conheço a trabalhar em conjunto por mim, teria de atravessar. Especialmente neste tribunal, que consiste quase só de caçadores de mulheres. Mostra ao juiz de instrução uma mulher ao longe, e ele atropela a mesa do tribunal e o acusado apenas para chegar a tempo."
O sacerdote inclinou a cabeça para a balaustrada. Só agora parecia que a cobertura do púlpito o oprimia. Que tempestade devia haver lá fora? Já não era um dia sombrio; era noite profunda. Nenhum vitral das grandes janelas era capaz de interromper a parede escura sequer com um brilho. E justamente agora o servidor da igreja começou a apagar, uma após outra, as velas do altar-mor.
"Estás zangado comigo?", perguntou K. ao sacerdote. "Talvez não saibas a que tribunal serves."
Não recebeu resposta.
"São apenas minhas experiências", disse K.
Lá em cima continuou o silêncio.
"Eu não quis te ofender", disse K.
Então o sacerdote gritou para baixo, na direção de K.:
"Não enxergas nem dois passos à frente?"
Foi gritado com ira, mas ao mesmo tempo como por alguém que vê outra pessoa cair e, por estar ele próprio assustado, grita sem cuidado, sem querer.
Agora ambos ficaram calados por muito tempo. Certamente o sacerdote, na escuridão que reinava embaixo, não podia reconhecer K. com exatidão, enquanto K. via claramente o sacerdote à luz da pequena lâmpada.
Por que o sacerdote não descia? Afinal, não havia feito uma pregação, mas apenas comunicado a K. algumas coisas que, se ele as observasse com precisão, provavelmente lhe fariam mais mal do que bem. Contudo, a boa intenção do sacerdote parecia a K. indubitável. Não era impossível que, se descesse, chegassem a algum acordo; não era impossível que K. recebesse dele um conselho decisivo e aceitável, que lhe mostrasse, por exemplo, não como influenciar o processo, mas como escapar do processo, como contorná-lo, como viver fora do processo.
Essa possibilidade precisava existir. K. pensara nela muitas vezes nos últimos tempos. Mas, se o sacerdote conhecia essa possibilidade, talvez a revelasse se lhe fosse pedido, embora ele próprio pertencesse ao tribunal e embora, quando K. atacara o tribunal, tivesse reprimido sua natureza suave e até gritado com K.
"Não queres descer?", disse K. "Não há pregação a fazer. Desce até mim."
"Agora já posso ir", disse o sacerdote. Talvez se arrependesse de ter gritado. Enquanto soltava a lâmpada de seu gancho, disse: "Primeiro precisei falar contigo à distância. Do contrário, deixo-me influenciar com facilidade demais e esqueço meu serviço."
K. esperou-o embaixo, junto à escada. O sacerdote, enquanto descia, já lhe estendeu a mão de um degrau superior.
"Tens um pouco de tempo para mim?", perguntou K.
"Tanto tempo quanto precisares", disse o sacerdote, entregando a K. a pequena lâmpada para que a carregasse.
Mesmo de perto, certa solenidade não se perdia de sua maneira de ser.
"És muito gentil comigo", disse K.
Caminhavam lado a lado, para cima e para baixo, na nave lateral escura.
"És uma exceção entre todos os que pertencem ao tribunal. Tenho mais confiança em ti do que em qualquer um deles, e já conheço muitos. Contigo posso falar abertamente."
"Não te enganes", disse o sacerdote.
"Em que eu haveria de me enganar?", perguntou K.
"Tu te enganas quanto ao tribunal", disse o sacerdote. "Nos escritos introdutórios à lei se diz, a respeito desse engano:
"Diante da Lei está um porteiro. A esse porteiro chega um homem do campo e pede entrada na Lei. Mas o porteiro diz que agora não pode conceder-lhe a entrada. O homem reflete e pergunta então se poderá entrar mais tarde.
"'É possível', diz o porteiro, 'mas agora não.'
"Como o portão da Lei está aberto, como sempre, e o porteiro se afasta para o lado, o homem se curva para olhar através do portão para o interior. Quando o porteiro percebe isso, ri e diz:
"'Se tanto te atrai, tenta entrar apesar da minha proibição. Mas nota: sou poderoso. E sou apenas o porteiro mais baixo. De sala em sala, porém, há porteiros, um mais poderoso que o outro. Nem mesmo eu consigo suportar a visão do terceiro.'
"O homem do campo não esperava tais dificuldades. A Lei, pensa ele, deveria ser acessível a todos e sempre. Mas, quando olha agora com mais atenção para o porteiro em seu casaco de pele, para seu grande nariz pontudo, para sua longa, fina e negra barba tártara, decide que é melhor esperar até receber permissão para entrar.
"O porteiro lhe dá um banquinho e o deixa sentar-se ao lado da porta. Ali ele fica sentado dias e anos. Faz muitas tentativas de ser admitido e cansa o porteiro com seus pedidos. O porteiro frequentemente o submete a pequenos interrogatórios, pergunta sobre sua terra natal e sobre muitas outras coisas, mas são perguntas indiferentes, como as que fazem grandes senhores; e, ao final, sempre lhe diz novamente que ainda não pode deixá-lo entrar.
"O homem, que se equipara com muita coisa para sua viagem, utiliza tudo, por mais valioso que seja, para subornar o porteiro. Este aceita tudo, mas diz:
"'Aceito apenas para que não acredites ter deixado de fazer alguma coisa.'
"Durante os muitos anos, o homem observa o porteiro quase sem interrupção. Esquece os outros porteiros, e esse primeiro lhe parece o único obstáculo para a entrada na Lei. Nos primeiros anos amaldiçoa em voz alta o acaso infeliz; mais tarde, quando envelhece, apenas resmunga consigo mesmo.
"Torna-se infantil, e, como no estudo de anos sobre o porteiro também reconheceu as pulgas na gola de pele dele, pede também às pulgas que o ajudem e convençam o porteiro. Por fim, sua vista enfraquece, e ele não sabe se à sua volta está realmente ficando mais escuro ou se apenas seus olhos o enganam. Contudo, reconhece agora na escuridão um brilho que irrompe de modo inextinguível da porta da Lei.
"Agora já não vive muito. Antes de sua morte, todas as experiências de todo aquele tempo se reúnem em sua cabeça numa pergunta que até então ainda não fizera ao porteiro. Faz-lhe um sinal, pois já não consegue erguer o corpo enrijecido. O porteiro precisa inclinar-se profundamente até ele, pois as diferenças de tamanho se alteraram muito em desfavor do homem.
"'O que ainda queres saber agora?', pergunta o porteiro. 'És insaciável.'
"'Todos aspiram à Lei', diz o homem. 'Como acontece que, em tantos anos, ninguém além de mim pediu entrada?'
"O porteiro reconhece que o homem já está no fim e, para ainda alcançar sua audição que se extingue, grita para ele:
"'Aqui ninguém mais podia obter entrada, pois esta entrada estava destinada apenas a ti. Agora vou embora e a fecho.'"
"Então o porteiro enganou o homem", disse K. imediatamente, muito atraído pela história.
"Não se precipite", disse o sacerdote. "Não assuma uma opinião alheia sem examiná-la. Contei-te a história segundo as palavras do escrito. Nela nada se diz de engano."
"Mas é claro", disse K., "e tua primeira interpretação estava inteiramente correta. O porteiro só fez a comunicação libertadora quando ela já não podia ajudar o homem."
"Ele não foi perguntado antes", disse o sacerdote. "Considera também que era apenas porteiro e, como tal, cumpriu seu dever."
"Por que acreditas que ele cumpriu seu dever?", perguntou K. "Ele não o cumpriu. Talvez sua obrigação fosse repelir todos os estranhos; mas esse homem, para quem a entrada estava destinada, ele deveria ter deixado entrar."
"Tu não tens suficiente respeito pelo escrito e modificas a história", disse o sacerdote. "A história contém, sobre a admissão na Lei, duas explicações importantes do porteiro, uma no início, outra no fim. Uma passagem diz que ele agora não podia conceder-lhe a entrada; a outra, que esta entrada estava destinada apenas a ti.
"Se houvesse contradição entre essas duas explicações, terias razão, e o porteiro teria enganado o homem. Mas não há contradição alguma. Pelo contrário, a primeira explicação até aponta para a segunda. Quase se poderia dizer que o porteiro foi além de seu dever ao dar ao homem a perspectiva de uma possibilidade futura de entrada.
"Naquele momento, parece que seu dever era apenas recusar o homem, e de fato muitos intérpretes do escrito se admiram de que o porteiro tenha feito aquela indicação, pois ele parece amar a exatidão e vigiar rigorosamente seu cargo.
"Durante muitos anos não abandona seu posto e só fecha o portão bem no fim. Está muito consciente da importância de seu serviço, pois diz: 'Sou poderoso.' Tem respeito pelos superiores, pois diz: 'Sou apenas o porteiro mais baixo.' Não é tagarela, pois durante muitos anos faz apenas, como se diz, 'perguntas indiferentes.' Não é corruptível, pois diz a respeito de um presente: 'Aceito apenas para que não acredites ter deixado de fazer alguma coisa.' Quando se trata do cumprimento do dever, não se deixa comover nem irritar, pois se diz do homem que 'cansa o porteiro com seus pedidos.'
"Por fim, também sua aparência indica um caráter pedante: o grande nariz pontudo e a longa, fina e negra barba tártara. Pode haver porteiro mais fiel ao dever?
"Mas no porteiro se misturam ainda outros traços de caráter, muito favoráveis àquele que pede entrada, e que tornam, afinal, compreensível que ele, naquela indicação de uma possibilidade futura, pudesse ir um pouco além de seu dever. Não se pode negar que ele é um pouco simplório e, ligado a isso, um pouco vaidoso.
"Ainda que suas declarações sobre seu poder, sobre o poder dos outros porteiros e sobre a visão deles, insuportável até mesmo para ele, ainda que todas essas declarações em si mesmas possam estar corretas, a maneira como as apresenta mostra que sua compreensão está obscurecida por simplicidade e presunção.
"Os intérpretes dizem a esse respeito: 'A correta compreensão de uma coisa e o mal-entendido da mesma coisa não se excluem completamente.'
"De todo modo, é preciso admitir que essa simplicidade e essa presunção, por mais insignificantes que talvez se manifestem, enfraquecem a guarda da entrada. São brechas no caráter do porteiro.
"A isso se acrescenta que o porteiro, por sua disposição natural, parece ser amistoso; ele não é em todos os momentos um funcionário. Logo nos primeiros instantes, faz a brincadeira de convidar o homem a entrar apesar da proibição expressamente mantida; depois não o manda embora, mas lhe dá, como se diz, um banquinho e o deixa sentar-se ao lado da porta.
A paciência com que ele suporta durante todos aqueles anos os pedidos do homem, os pequenos interrogatórios, a aceitação dos presentes, a nobreza com que permite que o homem amaldiçoe em voz alta, ao lado dele, o acaso infeliz que colocou ali o porteiro; tudo isso permite concluir que há nele impulsos de compaixão. Nem todo porteiro teria agido assim.
E, por fim, ainda se inclina profundamente, a um sinal, até o homem, para lhe dar oportunidade à última pergunta. Só uma fraca impaciência, pois o porteiro sabe que tudo chegou ao fim, se expressa nas palavras: 'És insaciável.' Alguns vão ainda mais longe nesse tipo de explicação e acham que as palavras 'És insaciável' exprimem uma espécie de admiração amistosa, embora não livre de condescendência.
De todo modo, assim a figura do porteiro se fecha de modo diferente do que tu acreditas."
"Conheces a história com mais precisão do que eu, e há mais tempo", disse K.
Ficaram calados por um momento. Então K. disse:
"Então acreditas que o homem não foi enganado?"
"Não me entendas mal", disse o sacerdote. "Mostro-te apenas as opiniões que existem a respeito. Não deves dar atenção demais às opiniões. O escrito é imutável, e as opiniões muitas vezes são apenas uma expressão do desespero diante dele.
"Neste caso, existe até uma opinião segundo a qual justamente o porteiro é o enganado."
"Essa é uma opinião ampla", disse K. "Como é fundamentada?"
"A fundamentação", respondeu o sacerdote, "parte da simplicidade do porteiro. Diz-se que ele não conhece o interior da Lei, mas apenas o caminho que precisa percorrer continuamente diante da entrada. As ideias que tem do interior são consideradas infantis, e se supõe que ele próprio teme aquilo com que quer amedrontar o homem. Sim, teme mais do que o homem, pois este não quer outra coisa senão entrar, mesmo depois de ouvir falar dos terríveis porteiros do interior; já o porteiro, ao contrário, não quer entrar, ao menos nada se sabe a respeito.
"Outros dizem, é verdade, que ele deve já ter estado no interior, pois foi uma vez admitido ao serviço da Lei, e isso só poderia ter acontecido no interior. A isso se pode responder que talvez tenha sido nomeado porteiro por um chamado vindo de dentro e que, pelo menos profundamente no interior, não deve ter estado, já que nem mesmo suporta a visão do terceiro porteiro.
"Além disso, também não se relata que, durante muitos anos, além da observação sobre os porteiros, tenha contado algo do interior. Poderia ser-lhe proibido, mas também da proibição ele nada contou.
"De tudo isso se conclui que nada sabe sobre a aparência e o significado do interior e que se encontra enganado a esse respeito. Mas também sobre o homem do campo ele se encontra enganado, pois está subordinado a esse homem e não o sabe.
"Que trata o homem como subordinado pode-se reconhecer em muita coisa que ainda deve estar em tua lembrança. Mas que de fato está subordinado a ele, segundo essa opinião, deve resultar com igual clareza.
"Antes de tudo, o livre é superior ao preso. Ora, o homem é de fato livre; pode ir para onde quiser. Apenas a entrada na Lei lhe é proibida, e, além disso, apenas por um indivíduo, o porteiro. Se ele se senta no banquinho ao lado do portão e ali permanece a vida inteira, isso acontece voluntariamente. A história não fala de coerção.
"O porteiro, ao contrário, está preso ao seu posto por seu cargo. Não pode afastar-se para fora e, ao que parece, também não pode entrar no interior, mesmo que quisesse. Além disso, embora esteja a serviço da Lei, serve apenas para esta entrada, portanto também apenas para este homem, para quem esta entrada é exclusivamente destinada. Também por esse motivo lhe está subordinado.
"Deve-se supor que durante muitos anos, durante toda uma idade viril, por assim dizer, tenha prestado apenas serviço vazio, pois se diz que vem um homem, isto é, alguém em idade adulta; portanto, o porteiro teve de esperar muito até que seu objetivo se cumprisse, e teve de esperar tanto tempo quanto agradou ao homem, que afinal veio voluntariamente.
"Mas também o fim do serviço é determinado pelo fim da vida do homem; até o fim, portanto, permanece subordinado a ele. E sempre de novo se enfatiza que de tudo isso o porteiro parece nada saber.
"Nisso, porém, não se vê nada de notável, pois, segundo essa opinião, o porteiro se encontra em um engano ainda muito mais grave, que diz respeito ao seu serviço. No fim, ele fala da entrada e diz: 'Agora vou embora e a fecho.' Mas no início se diz que o portão da Lei está aberto como sempre. Se está sempre aberto, sempre, isto é, independentemente da duração da vida do homem a quem se destina, então o porteiro também não poderá fechá-lo.
"As opiniões divergem quanto a saber se o porteiro, ao anunciar que fechará o portão, quer apenas dar uma resposta, ou enfatizar seu dever de serviço, ou ainda lançar o homem, no último instante, ao arrependimento e à tristeza. Mas muitos concordam que ele não poderá fechar o portão.
"Eles acreditam até que, ao menos no fim, também em seu saber ele está subordinado ao homem, pois este vê o brilho que irrompe da entrada da Lei, enquanto o porteiro, como tal, provavelmente está de costas para a entrada e também não mostra, por nenhuma declaração, ter notado alguma mudança."
"Isso é bem fundamentado", disse K., que repetira para si, em voz baixa, algumas passagens da explicação do sacerdote. "É bem fundamentado, e agora também acredito que o porteiro está enganado. Com isso, porém, não abandonei minha opinião anterior, pois ambas coincidem em parte.
"É indecisivo se o porteiro vê claramente ou está enganado. Eu disse que o homem é enganado. Se o porteiro vê claramente, poder-se-ia duvidar disso; mas, se o porteiro está enganado, então seu engano deve necessariamente se transmitir ao homem. O porteiro, nesse caso, não é um enganador, mas é tão simplório que deveria ser expulso imediatamente do serviço.
"Deves considerar que o engano em que se encontra o porteiro não prejudica a ele, mas prejudica o homem mil vezes."
"Aqui encontras uma opinião contrária", disse o sacerdote. "Alguns dizem que a história não dá a ninguém o direito de julgar o porteiro. Como quer que nos pareça, ele é, ainda assim, um servidor da Lei; portanto pertence à Lei, e está, portanto, subtraído ao julgamento humano.
"Também não se deve acreditar então que o porteiro esteja subordinado ao homem. Estar preso pelo serviço mesmo que apenas à entrada da Lei é incomparavelmente mais do que viver livre no mundo. O homem chega apenas à Lei; o porteiro já está lá. Foi nomeado pela Lei para o serviço. Duvidar de sua dignidade significaria duvidar da Lei."
"Não concordo com essa opinião", disse K., balançando a cabeça. "Pois, se a adotarmos, devemos considerar verdadeiro tudo o que o porteiro diz. Mas que isso não é possível, tu mesmo fundamentaste extensamente."
"Não", disse o sacerdote. "Não é preciso considerar tudo verdadeiro; é preciso apenas considerá-lo necessário."
"Opinião triste", disse K. "A mentira é transformada em ordem do mundo."
K. disse isso de modo conclusivo, mas não era seu juízo final. Estava cansado demais para poder abranger todas as consequências da história; eram também caminhos de pensamento incomuns aqueles a que ela o conduzia, coisas irreais, mais apropriadas à discussão na companhia dos funcionários do tribunal do que a ele.
A história simples tornara-se disforme; ele queria sacudi-la para longe de si. E o sacerdote, que agora demonstrava grande delicadeza, tolerou isso e recebeu em silêncio a observação de K., embora ela certamente não coincidisse com sua própria opinião.
Caminharam por algum tempo em silêncio. K. mantinha-se bem junto ao sacerdote, sem saber, na escuridão, onde se encontrava. A lâmpada em sua mão havia se apagado havia muito tempo. Certa vez, bem diante dele, a imagem prateada de um santo brilhou apenas com o reflexo da prata e logo voltou a mergulhar na escuridão.
Para não continuar completamente dependente do sacerdote, K. perguntou:
"Não estamos agora perto da entrada principal?"
"Não", disse o sacerdote. "Estamos longe dela. Queres ir embora já?"
Embora K. justamente agora não tivesse pensado nisso, disse imediatamente:
"Certamente. Preciso ir embora. Sou procurador de um banco, esperam por mim. Só vim aqui para mostrar o Domo a um amigo comercial estrangeiro."
"Bem", disse o sacerdote, estendendo a mão a K. "Então vai."
"Mas sozinho não consigo me orientar na escuridão", disse K.
"Vai à esquerda até a parede", disse o sacerdote. "Depois segue ao longo da parede, sem deixá-la, e encontrarás uma saída."
O sacerdote havia se afastado apenas alguns passos, mas K. já chamou em voz muito alta:
"Por favor, espera ainda."
"Estou esperando", disse o sacerdote.
"Não queres mais nada de mim?", perguntou K.
"Não", disse o sacerdote.
"Antes foste tão gentil comigo", disse K., "e me explicaste tudo; agora, porém, me dispensas como se nada em mim te importasse."
"Mas precisas ir embora", disse o sacerdote.
"Sim", disse K. "Entende isso."
"Entende primeiro quem eu sou", disse o sacerdote.
"És o capelão da prisão", disse K., aproximando-se do sacerdote.
Seu retorno imediato ao banco não era tão necessário quanto havia apresentado; podia muito bem permanecer ali mais algum tempo.
"Portanto pertenço ao tribunal", disse o sacerdote. "Por que, então, eu haveria de querer algo de ti? O tribunal nada quer de ti. Ele te recebe quando vens e te dispensa quando vais."