Filia Blaze
A última coisa de que lembro com perfeição não é o rosto da minha mãe. Não é o calor da lareira do salão ancestral. Nem o som dos hinos de guerra dos Lobos Flamejantes.
É o cheiro.
Madeira nobre queimando. Pergaminhos táticos virando cinza. Sangue antigo evaporando sobre runas esculpidas no chão de mármore. E por cima de tudo, aquele odor adocicado e nauseante que só depois entendi: era o cheiro da traição.
Naquela noite, a Lua Sangrenta não parecia apenas um astro no céu. Parecia uma ferida aberta, sangrando luz carmesim sobre tudo que eu conhecia.
Tinha doze anos. Estava escondida dentro de um baú de provisões estratégicas, e meu corpo tremia, não de medo, mas de uma raiva tão densa que parecia gelar meu sangue. Pelas frestas, via botas enlameadas, não de inimigos externos, mas de lobos de pelagem negra e prata. Membros de clãs aliados. Rostos que jantaram à nossa mesa, que beberam vinho do meu pai, que juraram lealdade sob a mesma lua.
Traidores, sussurrou uma voz dentro de mim, quando vi o Conselheiro Relâmpago Prateado cravar uma adaga nas costas do general do nosso clã.
Hipócritas, pensei, ao ver a matriarca dos Ventos Sussurrantes ordenar que seus arqueiros mirassem nas crianças.
Mas o pior veio depois.
Quando as chamas já haviam consumido o grande salão, um vulto alto e familiar entrou na sala dos arquivos táticos. Seus passos eram calmos e medidos. Ele usava uma capa com o emblema de uma garra negra sobre um campo de estrelas, o clã da Garra Negra. O mais ambicioso. O mais sorrateiro.
Era Mentor Valerius. O estrategista-chefe dos Lobos Flamejantes. O homem que me ensinou a ler mapas de batalha antes mesmo de eu aprender a caçar.
Ele não lutou. Não gritou. Apenas recolheu os pergaminhos centrais, os Códigos da Chama Estratégica, os manuais que só a linhagem Blaze podia decifrar e os entregou a um homem mais jovem, de olhos frios e sorriso afiado.
Meu filho, Valen, parecia dizer seus lábios mudos. O futuro.
Prendi a respiração. Minhas unhas afiadas cravaram-se nas palmas das mãos até sangrar.
E então, como se sentisse meu olhar, Valerius virou-se. Seus olhos prateados encontraram as frestas do baú. Por um instante que durou uma eternidade, não vi nele arrependimento. Nem ódio.
Vi… cálculo. Um matemático diante de uma variável inesperada.
Ele fez um gesto quase imperceptível com a cabeça, não para seus homens, mas para a sombra atrás dele. Uma figura encapuzada moveu-se rápido, empurrando uma estante pesada contra a parede, bloqueando a porta secreta de fuga que só a família Blaze conhecia.
E depois, Valerius simplesmente saiu. Deixando as chamas fecharem o cerco.
Sobrevivi porque o baú era à prova de fogo e feito para guardar segredos. Porque, horas depois, quando o silêncio dos mortos já pesava sobre os escombros, uma mão calejada me puxou para fora.
Raymond. O velho ferreiro. O último sobrevivente leal. Seu rosto estava carbonizado de um lado, mas seus olhos brilhavam com uma chama teimosa.
— Eles não levaram tudo, pequena chama — sussurrou, a voz rouca pela fumaça. — Levaram os livros, mas não a mente que os entende. Sua mãe… ela previu isso.
Ele pressionou um pequeno pingente de metal aquecido na minha mão — um lobo flamejante estilizado, com runas minúsculas gravadas nas costas.
— O sistema completo… está aqui. E aqui… — Ele tocou a própria testa, depois a minha. — Agora corra. Viva. Esqueça quem você foi. Até a hora certa.
Não chorei. Apenas concordei com a cabeça, meus olhos dourados refletindo as brasas do meu lar extinto.
O cheiro de cinza e traição grudou na minha pele. Nas minhas roupas e na minha alma.
E prometi, naquele momento, que um dia faria o continente inteiro sentir o mesmo odor.
Seis anos depois.
O vento cortante das Terras Silenciosas carrega farrapos de neve suja e o eco distante de uivos de patrulha. Eu, agora usando somente o meu nome Filia, sem clã e sem história, caminho pelo mercado da cidade fronteiriça de Lasthelm, meu manto de lobo cinzento encapuzado, escondendo cabelos que não ousam ser vermelhos e olhos que aprenderam a não brilhar.
Aos dezoito anos, não pareço uma exilada faminta. Meus movimentos são fluidos. Econômicos e calculados. Meus olhos escaneiam a multidão não com medo, mas com avaliação tática: pontos de fuga, armas escondidas, hierarquias nos grupos, padrões de movimento. Um hábito que adquiri com os anos.
Paro diante de um mural de notícias públicas. Pregado sobre decretos velhos e anúncios de caçada, um pergaminho novo brilha sob a luz pálida do sol.
EDITAL OFICIAL DA ACADEMIA LUA PRATEADA
“Por ordem do Conselho dos Sete Clãs, convocam-se todos os lobisomens entre 16 e 21 anos, de qualquer linhagem ou status, para o Teste de Recrutamento do Equinócio.”
Provas de combate, estratégia e resistência.
Os melhores serão admitidos como alunos de pleno direito.
Os sobreviventes serão honrados.
O último verso não é um erro. É um aviso.
Sinto um calor familiar e perigoso latejar no meu peito, logo abaixo do pingente de metal que nunca tirei. A Chama Adormecida. O legado dos Blaze, silenciado por seis longos anos.
— Interessada, garota? — uma voz áspera soa ao meu lado.
É um mercador de armas, obeso, com dentes amarelos e olhos que avaliam meu manto esfarrapado. — A Academia não é lugar para órfãos. Mas por dez moedas de prata, posso te dar um conselho que vale uma vaga.
Viro a cabeça lentamente. Deixo meu capuz deslizar apenas um pouco, o suficiente para que uma mecha de cabelo vermelho-fogo escape e meus olhos dourados, que não piscam, encontrem os dele.
— Seu conselho — digo, a voz tão suave quanto a neve antes da avalanche — É me dizer para desistir. Você vende isso para cinco garotos por dia, cobra dez moedas de cada, e à noite ri no bar sobre como os fracos são previsíveis. Correto?
Ele empalidece.
— Como você…?
— Você tem calos na mão direita de segurar o martelo, mas sua bigorna está fria e sem marcas. Suas botas são caras, mas a sola é nova. Você não caminha muito. Seu estoque de armas é decorativo, não funcional. — Inclino a cabeça, um movimento quase imperceptível. — Você não é ferreiro. É um vigarista que explora sonhos. E hoje não é seu dia de sorte.
Não levanto a voz. Não faço um gesto ameaçador. Mas algo na frieza absoluta da minha análise faz o homem recuar um passo, tropeçando em seu próprio balcão.
Antes que ele possa reunir fôlego para uma resposta, já me afasto, desaparecendo na multidão como a sombra que me tornei.
Meu coração bate rápido, mas não é adrenalina.
É antecipação.
A hora certa.
Raymond me encontrou um ano atrás, estava moribundo numa caverna. Me derrotou em um duelo de táticas puro, sem usar uma gota de poder, apenas para provar uma lição:
“Eles roubaram nosso nome, pequena chama, mas não a nossa mente. Agora você sabe como eles pensam. Agora você pode prever.”
Ele morreu em silêncio, sorrindo e sabendo que a semente estava plantada.
E agora a Academia Lua Prateada abre suas portas. O mesmo lugar onde os filhos dos traidores aprenderão a governar o continente. Onde Valen Garra Negra, dizem os rumores, já é o aluno-modelo. Onde Kael Lâmina Gélida, o príncipe herdeiro do clã mais poderoso, reina como presidente do conselho estudantil.
Onde a verdade pode ser enterrada para sempre… ou desenterrada com garras e fogo.
Paro na saída da cidade, olhando para as montanhas distantes, onde as torres de prata da Academia cintilam sob a Lua Sangrenta, sempre presente. Sempre observando.
Abro a mão. No centro da minha palma, o pingente emite um leve brilho quente e as runas minúsculas se rearranjam, formando uma frase ancestral que queima minha pele:
“A chama que não se apaga, queima primeiro por dentro.”
— Estou indo, mãe — sussurrei, pela primeira vez em anos, permitindo que um fragmento de emoção crua atravesse minha voz. — Vou pegar de volta tudo. Os livros. O nome. O futuro.
Puxei o capuz novamente. E a sombra sem rosto retorna.
O primeiro passo está dado.
O continente Norte dos Lobisomens, preso em seu ciclo eterno de força e brutalidade, não faz ideia do que está prestes a despertar.
Mas a Lua Sangrenta sabe.
E, nesta noite, quando finalmente permito que minha aura reprimida se expanda por um único instante, um clarão de chama dourada e vermelha, invisível para olhos comuns, mas impossível de ignorar para os verdadeiros predadores, corta o véu do mundo.
Em algum lugar, em um salão de estratégia repleto de mapas e ambição, algo desperta.
Uma atenção.
Um frio que percebeu o calor.
Um jogador acaba de me notar.
E nos meus ossos, na chama que agora pulsa em sincronia com a Lua, uma certeza se impõe como uma sentença: o jogo começou no exato momento em que eu fui descoberta.