Filia Blaze
Os outros dois param, o avanço hesita, pela surpresa e pelo horror. Olham para o companheiro contorcendo-se no chão, depois para mim. Permaneço imóvel, respirando calmamente, minhas mãos agora visivelmente transformadas em garras prateadas e curvas refletindo a luz do fogo.
— Bruxaria! — grita o mais baixo, seu tom agora estridente.
— Não — corrijo, dando um passo à frente. A runa no chão já se apagou, seu propósito cumprido. — Apenas eficiência.
O terceiro homem, mais esperto ou mais covarde, vira-se para fugir. Ele é o perigo real. Testemunhas são complicadas.
Meu corpo se move com uma velocidade que nunca mostrei aqui. Dois passos velozes e um salto usando a bigorna como apoio, estou em seu caminho. Ele tenta esfaquear-me, um movimento desesperado e previsível. Desvio com uma torção de quadril, minha mão esquerda agarra seu pulso e torce. Ouço o estalo seco do osso e vejo a faca cair. Minha outra mão, com a garra ainda exposta, pressiona-se contra sua garganta, não cortando, apenas ameaçando.
— Você não viu nada — sussurrei, meu rosto a centímetros do dele. Meus olhos dourados, agora totalmente verticais na penumbra, fixam-se nos seus. — Você veio, provocou e tropeçou no seu próprio companheiro que caiu no fogo da forja. Entendeu?
Ele balbucia, os olhos cheios de um medo puro e animal. Ele assente freneticamente.
Solto-o. Ele cai de joelhos, agarrando o pulso machucado.
Volto-me para o segundo homem, que continua paralisado.
— Leve seus amigos — ordeno, apontando para o líder, que agora geme baixo, e para o que está no chão. — E desapareça. Se qualquer um de vocês voltar, ou se eu ouvir um boato sobre isso, não será o fogo da forja que visitará vocês. Será o fogo que queima de dentro para fora. Aquele que não se apaga.
Ele não precisa de mais explicações. Agarra o líder ferido e o outro, e os arrasta para fora do pátio, sumindo na escuridão da rua.
Fico sozinha novamente. A adrenalina escoa, deixando para trás um vazio frio e familiar. Entendo minhas mãos, observando as garras se retraírem lentamente, as unhas voltando ao seu comprimento humano e mundano. Há sangue sob uma delas, meu próprio sangue, de onde eu mesma perfurei a palma para manter o foco. Limpo na calça.
Então, sinto.
É como se uma janela se abrisse no meio do deserto. Uma onda de ar frio, cortante, que não tem origem no vento noturno. É um frio consciente. Intencional. Carregado de uma presença tão vasta e calma que faz o ar parar de se mover.
Meu instinto, aquele que foi lapidado em seis anos de sobrevivência e um ano de treinamento tático intensivo com Raymond, grita um alerta silencioso e absoluto: PERIGO.
Não é um perigo comum. Não é um brutamontes bêbado ou um bandido ganancioso. É uma ameaça de uma ordem completamente diferente. É o perigo que vem do topo da cadeia alimentar.
Ergui o olhar, lentamente, controlando cada músculo do meu rosto para não demonstrar nada além de uma cautela cansada.
Ele está parado na entrada do beco, onde a rua principal encontra a sombra. Parece uma ilusão feita de luar e geada. Alto, mais alto que qualquer homem que eu tenha visto, e envolto em uma armadura que não é de ferro, mas de um material que lembra gelo polido e prata lunar. Que não reluz, pelo contrário absorve a luz.
Seus cabelos são tão brancos que parecem feitos da própria neve das montanhas do norte, puxados para trás de um rosto austero e angular. E os olhos… de um azul tão pálido e gélido que parecem perfurar a distância e a penumbra, enxergando não só a cena, mas os seus vestígios. A runa extinta. O cheiro de pele queimada no ar. O terror que ainda paira como um vapor.
É Kael Lâmina Gélida. O príncipe-herdeiro. O presidente do Conselho Estudantil. A lâmina mais afiada do clã mais poderoso do continente.
E ele está me olhando.
Reduzo minha aura ao mínimo possível, um exercício de controle agonizante. É como tentar conter um vulcão dentro de uma caixa de ossos. Meu poder, minha chama, tudo grita para se expandir, para enfrentar aquele frio com calor puro. Mas eu a esmago. Deixo apenas o que é esperado de uma órfã exausta e levemente assustada.
Ele se aproxima. Seus passos não fazem som e isso é assustador.
Para a poucos metros de mim. O frio que emana dele é físico; vejo meu próprio sopro formar uma nuvem branca no ar entre nós.
— Brigas particulares nas áreas sob jurisdição da Academia são proibidas — diz ele. Sua voz é como ele: clara, cortante e sem calor. Não é um grito. É um fato. — A violência fora das arenas regulamentadas é punível com expulsão da cidade ou morte.
Mantenho meus ombros levemente curvados, minha postura um pouco encolhida. Deixo meu olhar pousar nele, depois desvia, como o de alguém intimidado.
— Eles começaram — murmuro, forçando um leve tremor na voz. — Eu só me defendi.
— Defesa é uma coisa — ele replica, seus olhos escaneando meu rosto, minhas mãos, minhas roupas simples. — A precisão do seu contra-ataque foi outra. E o uso de energia elemental rudimentar, sem licença, é estritamente proibido por lei tribal.
Meu coração dá um único baque forte contra as costelas, mas nada se altera na minha expressão. Ele viu. Claro que viu. Não a runa, mas o resultado. E o seu cheiro.
— Não uso energia elemental, senhor — digo, erguendo um pouco a cabeça, encontrando seus olhos gelados. Deixo um fio de desafio, muito bem dosado, entrar na minha voz. — Só usei o que a forja ofereceu. Calor é só calor. Se o príncipe-herdeiro agora patrulha becos para policiar o fogo de ferreiros, as coisas devem estar bem pacíficas nas fronteiras.
Um silêncio pesado desce. O olhar dele se intensifica. É como ser espetada por duas adagas de gelo. Ele não parece irritado. Parece… interessado. Como um estudioso diante de um espécime raro e contraditório.
— Patrulho, ameaças… — ele responde, a voz ainda plana, mas há uma nuance nela agora, uma sutileza que não estava lá antes. — E potenciais irregularidades. Você esconde sua aura.
A afirmação é jogada como uma pedra num lago, para ver as ondulações.
— Todos os fracos escondem o que podem, senhor — respondo, soltando o título com uma ponta de ironia tão sutil que pode ser interpretada como respeito. — É a única maneira de não parecerem um alvo mais fácil. Se eu tivesse poder para mostrar, você acha que estaria aqui, varrendo cinzas por um prato de sopa?
Minto com cada fibra do meu ser, e cada palavra soa verdadeira porque é a verdade de toda uma vida de exílio. É a máscara mais convincente: a verdade parcial.
Kael me observa por um longo momento. O silêncio se estica, carregado pelo contraste entre seu frio e o calor residual da forja atrás de mim. Posso senti-lo analisando: a postura, a respiração, o pulso na minha garganta que mantenho deliberadamente acelerado, os detalhes das minhas roupas remendadas.
Ele parece chegar a uma conclusão ou, pelo menos, a uma pausa em seu julgamento.
— O Teste de Recrutamento é em quinze dias — diz ele, de repente, virando-se para partir. — Se você quer uma chance de não varrer cinzas pelo resto da vida, ganhe seu lugar pela força. Mas faça-o dentro das regras. O próximo beco escuro pode não ter testemunhas tão indulgentes.
Está quase saindo do círculo de luz quando para. Não se vira completamente, mas sua voz chega até mim, mais baixa, quase pensativa.
— E você esconde sua aura… mal. É o esforço que faz a denúncia. Relaxe ou pare de tentar.
E então, ele se vai. Seu frio desaparece gradualmente, sugado de volta para as sombras de onde veio.
Só quando o ar normal, quente e sujo da cidade fronteiriça volta a prender meus pulmões é que percebo que estou parada como uma estátua. E que minha mão direita está cerrada com tanta força ao redor da pulseira de osso no meu pulso esquerdo que os nós dos meus dedos estão brancos.
Lento, muito lentamente, começo soltando-a. Trago a mão à frente do rosto que está tremendo. Não por ter medo.
Mas por sentir uma excitação.
Um sorriso lento, verdadeiro e perigoso se abre nos meus lábios. Não havia testemunhas indulgentes. Havia um jogador. E ele não comprou totalmente a minha farsa. Ele farejou algo. E, ao invés de me expor, me deu um aviso. Melhor, ele me deu um desafio.
“Ganhe seu lugar pela força.”
Ele não sabe. Ele não tem ideia.
A força é a única coisa que me resta. E eu não a usarei pelas regras dele. Usarei para reescrevê-las.
A porta da oficina range ao se abrir. Leo aparece, seu rosto pálido e preocupado, espiando.
— Filia? Está tudo bem? Quem era aquele? Parecia… gelo.
Olho para o garoto, para os olhos que ainda brilham com a curiosidade do mundo, não com a cinza da vingança. Mas com uma ponta estranha de algo que quase parece proteção, esquenta em meu peito, brevemente, antes que eu a empurre para baixo.
— Era ninguém importante, Leo — digo, minha voz voltando ao seu tom normal, áspero. — Apenas um lembrete.
— Um lembrete do quê?
Pego a vassoura do chão. Volto a varrer, varrendo as últimas marcas de conflito, as cinzas do fogo emprestado, os rastros do meu quase erro.
— De que o jogo começou — murmuro. — E desta vez… eu não pretendo perder.
O martelo de Harn volta a soar, ritmado, paciente, moldando o ferro incandescente.
O canto da lâmina nascendo no fogo.
Ergo os olhos para a escuridão do pátio e sinto, sem saber por quê, um arrepio atravessar minha espinha.
Como se alguém, em algum lugar, também estivesse se preparando.
E antes mesmo de conhecer seu rosto, meus instintos já sussurram a verdade: o homem que vai tentar me derrotar… também vai ser o mais difícil de esquecer.