Filia Blaze
Eu já sei, sinto nos meus ossos, no calor do pingente contra meu peito. Mas o protocolo exige a encenação. Então, visto meu manto mais surrado, puxo o capuz bem para a frente e misturo-me à periferia da multidão. Meu passo é arrastado, meu olhar vago. A personagem da órfã desinteressada e sobrecarregada pela mera luta do dia a dia.
Leo aparece ao meu lado como um fantasma. Ele não diz nada. Apenas fica parado ali, sua inquietação é um campo de energia ao meu redor.
No centro da praça, sobre o velho estrado de madeira usado para anúncios e, em tempos mais sombrios, para execuções, está um mensageiro da Academia. Suas vestes são de um branco prateado imaculado, tão fora de lugar nesta terra de lama e fuligem que quase doem aos olhos. Uma runa de amplificação e um glifo prateado delicado está pendurado em seu pescoço, projetando a sua voz clara e impessoal sobre todos nós.
— Por decreto do Conselho da Academia Lua Prateada e com a sanção do Conselho dos Sete Clãs… — a voz soa como sinos de gelo, cortando o burburinho instantaneamente. — Será realizado, daqui a sete dias, no Campo de Provas da Lua Cheia, o Teste de Recrutamento Público do Equinócio de Outono.
Um murmúrio coletivo, cheio de esperança e terror, varre a multidão. Vejo rostos iluminarem-se, jovens principalmente, alguns com marcas de clãs menores nas bochechas, outros, como eu, com o olhar vazio dos sem-tribo. Vejo outros empalidecerem, pais puxando seus filhos para mais perto.
— O teste será composto de três etapas: Prova de Força, Prova de Estratégia e Prova de Resistência. — O mensageiro continua, seus olhos percorrendo a multidão sem ver ninguém em particular. — As regras são as das areias ancestrais: é permitido tudo, exceto intervenção externa. O resultado é soberano. Os aprovados ingressarão como alunos de pleno direito nos Ramos correspondentes aos seus talentos. Os reprovados…
Ele faz uma pausa dramática, calculada.
— Não ingressarão.
Não “serão expulsos”. Não “retornarão às suas casas”. Não ingressarão. A frieza do eufemismo é mais assustadora que qualquer ameaça. Significa que alguns, provavelmente muitos, não sairão vivos do Campo de Provas.
Ao meu lado, Leo estremece. Sinto o braço dele roçar no meu, um toque breve e inconsciente em busca de confiança.
— Filia… — a voz dele é um sopro, quase engolido pelo silêncio pesado que se instalou. — Você… você vai mesmo tentar, não vai? Está claro que isso é o mesmo que a morte.
Olho para frente, para o grande estandarte hasteado atrás dele: a Lua Sangrenta, estilizada, sobreposta a uma lua crescente prateada. O símbolo da Academia. É frio, é preciso e é impiedoso. Tudo o que o continente venera.
E é tudo o que preciso conquistar.
Viro a cabeça e olho para Leo. Meus olhos, sob o capuz, encontram os dele. Não suavizo minha expressão. Não ofereço um sorriso tranquilizador, ele merece a verdade.
— Vou. — digo. A palavra sai simples. Como o baque de uma pedra caindo num poço sem fundo.
Ele arregala os olhos. Há medo neles, sim. Mas também, surpreendentemente, um brilho de algo mais. Acredito que seja compreensão. Como se, naquela palavra única, ele visse toda a minha história de dor e decisão.
— Por quê? — ele pergunta, e não é uma criança questionando.
É alguém tentando entender um princípio fundamental do universo.
Penso por um momento. Como explicar?
Como colocar em palavras a promessa feita sobre cinzas, o peso do meu legado, a fúria silenciosa que é meu único combustível?
— Porque alguém… — começo a dizer, escolhendo cada palavra com cuidado — Precisa provar para esse continente que eles estão errados. E porque a única coisa pior que a morte é viver sabendo que você poderia ter lutado e não lutou.
Ele me observa por um longo momento. O burburinho retorna ao redor, as pessoas comentando, especulando e temendo. Mas entre nós dois há um silêncio compacto.
— Eu vou torcer por você — ele finalmente diz, e a simplicidade da declaração e da sua fé absoluta me atinge num lugar que eu achava que já estava petrificado.
— Não conte a ninguém — respondo, meu tom mais suave agora. — E não tente me imitar. Sua batalha é outra. É crescer forte e sábio nesta oficina. É ser melhor que seu avô. Entendido?
Ele assente, seriamente.
— Entendido.
Naquela noite, no cubículo escuro que chamo de lar, realizo meu ritual final de preparação.
Tranco a porta. Empurro o único móvel, um baú desgastado, contra ela. O mundo exterior desaparece. Aqui, não há Filia, a órfã. Aqui, há apenas a última herdeira dos Blaze.
Tiro as botas pesadas. Deixo a jaqueta de couro manchada cair no chão. Solto os cabelos do rabo de cavalo baixo e os cachos vermelho-fogo caem sobre meus ombros como uma cascata de brasas vivas. Por um instante, fico só respirando, deixando a persona se desfazer, camada por camada.
Então, fecho os olhos.
E permito.
A chama no meu peito, tão contida e tão disciplinada, responde com um alívio quase animal. Um calor começa a irradiar do pingente, depois do meu próprio peito, espalhando-se por meu corpo em ondas suaves. Não é uma labareda selvagem. É um brilho interno, um sistema que desperta.
Abro os olhos e levanto as mãos. Sob a pele, linhas de luz dourada e carmesim acendem-se, formando padrões complexos, rodopiando desde meus dedos até meus ombros. São as Linhas de Forja, o mapa interno do sistema tático dos Lobos Flamejantes. Não está completo. Grandes seções permanecem escuras, aguardando o conhecimento perdido, despertar no futuro. Mas o núcleo está ali. Pulsante e vivo.
Visualizo os movimentos. Os contra-ataques. As formações de runas de fogo e ilusão. A dança letal da Chama Estratégica. Reviso cada lição de Raymond, cada princípio que ele martelou em mim até fazer parte dos meus ossos.
A Academia Lua Prateada não é apenas uma escola. É uma fortaleza e um campo de batalha social e físico. E eu vou entrar lá, não como uma plebeia grata, mas como uma invasora silenciosa. Como um doença traiçoeira.
— Academia Lua Prateada — murmuro para as sombras do quarto, e meu reflexo no pequeno espalho quebrado na parede me devolve um olhar de ouro puro e determinação absoluta. — Seis anos atrás, você e os clãs que a governam queimaram minha família e chamaram de justiça. Vocês apagaram nosso nome dos livros e chamaram de progresso.
Minhas mãos se fecham. As linhas de luz sob minha pele intensificam-se, iluminando o quarto escuro com um brilho sobrenatural.
— Agora, eu vou pisar no coração de vocês. Vou respirar o ar que vocês respiram. Vou aprender as regras que vocês usam para oprimir. E vou usar tudo isso.
Um sorriso, lento e desprovido de qualquer calor humano, se abre em meu rosto.
— Para derrubar cada um de vocês.
As chamas dançam sob minha pele, invisíveis, contidas, esperando.
Esperando que eu cometa o erro de libertá-las.
Quando isso acontecer…
Ninguém neste continente vai conseguir apagar o que eu começar.
O jogo começou.
Dou um sorriso lento na escuridão.
E pela primeira vez, o tabuleiro deveria ter medo de mim.