Filia Blaze
O frio permanece depois que ele se vai.
Não é o frio da noite. É de uma qualidade diferente o vácuo deixado por uma presença tão densa que sua ausência se torna uma coisa palpável. O ar parece mais leve, mas minha pele se lembra da pressão.
É como ser tocada pelo inverno e depois abandonada no degelo. A consciência aguda, latejante, de que fui avaliada. E não como uma exilada qualquer. Mas como uma variável. Uma incógnita.
Essa sensação ficou parada nas bordas da minha consciência por vários segundos. Eu não me mexo. Respiro fundo, enchendo os pulmões do ar comum e sujo da cidade fronteiriça, tentando apagar o último traço do gelo dele.
Uma, duas e somente na terceira vez é que consigo relaxar os dedos, um por um, do punho cerrado em volta da pulseira de osso. A dor surge fina e quente e quando olho para minha pele. As marcas das unhas, pequenas meias-luas vermelhas, denunciam minha falha.
Idiota.
Controle emocional não é filosofia. É uma tática e é a primeira linha de defesa e o último recurso do fraco. E eu, mesmo que por um instante, deixei a brasa da raiva brilhar através das cinzas da minha persona.
— Filia…?
A voz de Leo chega até mim como um fio de seda, frágil, vindo da porta entreaberta da oficina. Há um tremor nela. Não de medo por mim, pelo menos é o que acho. Acredito que seja medo devido a mim. Medo do que represento agora, diante dos seus olhos.
Viro-me, mantendo o rosto relaxado, os ombros ligeiramente curvados. A máscara da trabalhadora cansada se encaixa de novo, um hábito mais forte que qualquer emoção.
— Está tudo bem — digo, a voz sai neutra e plana. — Eles não vão voltar.
Isso não é um consolo para ele. É muito mais uma análise para mim. A afirmação brota de um cálculo rápido: homens como aqueles são predadores de oportunidade. Foram derrotados, humilhados e ameaçados por algo que não entendem. O instinto deles agora será se afastar, lamber as feridas em algum buraco escuro e renovar a história para si mesmos.
Eles não são uma ameaça recorrente. São pontas descartadas.
Fico sozinha no pátio outra vez. Mas a solidão agora tem um gosto diferente. Tem o sabor residual do gelo de Kael.
Caminho, quase flutuando, até o ponto exato onde ele esteve parado. Ajoelho-me, não por reverência, mas por análise. Estendo a mão e toco a terra batida. Ela está fria e não é a friagem úmida do solo noturno, mas um frio seco, penetrante, que ainda resiste ao calor que irradia da forja a poucos metros.
Não foi um acidente, nem um vazamento de poder. Isso é uma assinatura deixada para trás, tão deliberada quanto um selo. É uma amostra do seu controle absoluto e da precisão cirúrgica. Também noto que não houve nenhum desperdício de energia.
Kael Lâmina Gélida.
Ele não apenas o príncipe-herdeiro e o presidente do Conselho Estudantil. É também o tricampeão da Copa da Lua Sangrenta. O padrão de excelência contra o qual todos os outros são medidos. O herdeiro perfeito de uma linhagem que nunca conheceu a fraqueza, a traição ou a queda.
E ele estava atento. Perigosamente atento.
Ele percebeu a instabilidade da minha aura. Me fez perceber que o meu disfarce não era perfeito. Sob o stress do confronto, minha contenção vacilou por alguns segundo, mas o suficiente para um predador do calibre dele sentir… algo.
Uma simples textura diferente no ar. Ou um potencial não realizado.
Fecho os olhos, ali mesmo, ajoelhada no chão frio. Recalibrando minha concentração e o meu poder no meu interior. Refaço as barreiras mentais, uma por uma, como Raymond me ensinou. Não é sobre suprimir o poder. É sobre harmonizá-lo com o ambiente, torná-lo indistinguível do fundo. É como afinar um instrumento para uma frequência que ninguém ouve.
Diminuo mais um nível, afundo a chama que arde no meu peito um pouco mais fundo no abismo do meu ser.
Um erro assim não pode se repetir. Na Academia, entre centenas de lobos famintos por status, um erro desses seria uma sentença de morte assinada e carimbada.
Levanto-me e entro na oficina. O calor me envolve como um cobertor pesado. Harn está no fundo, martelando uma foice, completamente absorto. Ele nem levanta a cabeça. Leo, perto da bigorna de treino, me lança um olhar rápido e depois desvia os olhos, concentrando-se com força excessiva em limpar uma ferramenta.
Vou até a bacia de água fria no canto. Mergulho as mãos. A água é turva e cheia de partículas de fuligem e ferro. Esfrego as mãos, uma contra a outra, com uma força quase violenta. Quero apagar o cheiro de metal queimado, a sensação pegajosa do poder rudimentar que soltei, o frio fantasma que ainda gruda na minha pele.
Levanto as mãos molhadas e as observo gotejar. No reflexo distorcido e tremido na superfície da água, meus olhos me encaram. Estão dourados demais. A pupila vertical está muito definida e muito… presente. Um traço de excitação residual ainda brilha neles, um brilho que não combina com o rosto sujo e cansado da órfã.
— Se continuar assim — murmuro, baixinho, as palavras se perdendo no som constante do martelo de Harn. — Você vai chamar atenção. E atenção, para você, é o mesmo que uma corda no meu pescoço.
Naquela noite, deitada no colchão fino de palha do meu quartinho acima da oficina, não durmo.
Não é o medo que me mantém acordada. Medo é um luxo de quem tem algo a perder. Eu já perdi tudo. O que me mantém acordada é a máquina da minha mente, rodando em velocidades perigosas, processando variáveis, construindo e demolindo cenários.
Três perguntas giram, persistentes, no escuro:
Por que um príncipe-herdeiro, com deveres administrativos e treinamentos de elite, estava patrulhando pessoalmente um beco esquecido de uma cidade fronteiriça?
Por que, tendo claramente desconfiado de algo, ele não me interrogou, não me testou, não exigiu provas da minha linhagem ou das minhas intenções?
Por que, simplesmente, ele me deixou ir, com nada mais que um aviso e uma observação afiada?
As respostas não vêm fáceis. A primeira talvez seja dever, um senso de responsabilidade rígido e frio. A segunda… talvez desdém. Talvez eu não seja considerada uma ameaça digna de investigação. Essa possibilidade fere o meu orgulho, mas é útil. A terceira… é a mais interessante.
Ele me deixou ir porque viu um jogador em potencial? Por que talvez queira me ver no tabuleiro? Ou porque, genuinamente, acredita no mérito do Teste Público e estava, de forma distorcida, me incentivando?
Não sei. A incerteza é um prato que como diariamente, mas esta tem um sabor novo. Metálico e estimulante.
Quando as primeiras faixas cinzentas da madrugada riscam o céu, minha decisão está tomada, sólida e fria como uma lâmina forjada.
Se a Academia Lua Prateada é o coração do poder, o cérebro do continente, o lugar onde meu clã foi condenado em segredo… então é para lá que eu preciso ir. Não como uma intrusa furtiva. Mas como uma concorrente. Uma jogadora.
É hora de entrar no jogo.
Lasthelm desperta diferente naquela manhã. Não com preguiça, mas com expectativa. O burburinho corre pelas ruas como fogo em palha seca.
Na praça, a multidão se reúne em silêncio tenso.
O anúncio oficial.
Meu coração acelera antes mesmo de entender por quê.
Porque quando o mensageiro sobe no palco e desenrola o pergaminho, eu já sei: é assim que os jogos da Lua Sangrenta começam.