Filia Blaze
O ferro canta quando é bem tratado.
Aprendi isso na minha primeira semana aqui, observando o velho Harn. Seu martelo cai sobre a bigorna em um ritmo que é quase uma respiração: Nunca varia e nunca hesita. Se o golpe for muito fraco, o metal não cede. Se for muito forte, ele racha. A perfeição está no meio-termo, na precisão calculada que transforma o caos em lâmina.
É uma metáfora muito óbvia para a minha situação. Não me importo. A verdade raramente é sutil.
Minhas mãos, agora permanentemente marcadas por sulcos de fuligem e pequenas cicatrizes de brasas, empunham a vassoura com a mesma atenção com que um dia empunhei um estilete tático. Varro o chão de terra batida da oficina, recolhendo lascas de metal e carvão. Cada movimento é previsível e invisível.
— Você pensa demais para alguém que só varre o chão — a voz de Harn rasga o ar quente, vindo da forja, sem que ele sequer vire o rosto.
Continuo varrendo, traçando linhas retas no pó.
— Pensar não custa nada — digo, a voz saindo mais baixa e áspera do que eu pretendia. — Errar, sim.
Ele solta um ruído, algo entre um grunhido e um assentimento. É o mais próximo de um elogio que já recebi dele. Harn é um bloco de granito com olhos. Perdeu a família toda numa batalha de fronteira há décadas. Agora, seu mundo é o ferro, o fogo e o neto. Não faz perguntas. Nem oferece conforto. É o tipo de homem que entende o silêncio como um acordo.
O neto dele, no entanto, é o oposto.
— Filia!
Suspiro fundo, sentindo o meu nome verdadeiro, aquele que carrega o peso de um clã quase extinto, ecoando no quintal da oficina. É um risco, mesmo sendo pequeno. Mas apagar completamente quem eu sou seria uma derrota pior que a morte.
Viro-me lentamente. Leo está parado a alguns metros, segurando um pedaço de carvão como se fosse um artefato precioso. Tem doze anos, ossos pontiagudos e olhos grandes e escuros que parecem absorver tudo ao redor.
— Se você gritar meu nome desse jeito em um campo de batalha… — falo, mantendo o tom plano e didático. — Morre em três segundos. No primeiro, seu inimigo localiza você. No segundo, ele calcula a distância. E no terceiro, ele ataca. Fim.
Seus olhos se arregalam, mas não vejo medo. Vejo… fascinação. Uma centelha de curiosidade tática que me aperta o peito de um jeito estranho e doloroso.
— Eu só queria saber… — ele hesita, rolando o carvão entre os dedos sujos. — O professor da escola cívica disse que, se alguém mais forte atacar pelo flanco esquerdo, a única opção é recuar e pedir reforços. Isso está certo?
Olho para ele. Magro, com ombros curvados para a frente, postura defensiva antes mesmo de qualquer ameaça. Mas há uma agilidade potencial em seu corpo, e seus olhos não desviam do meu.
— Está certo se você quiser sobreviver como um cordeiro — respondo. — Errado, se quiser sobreviver como um lobo. Recuar atrai perseguição. Pedir reforços é admitir que você, sozinho, é insuficiente.
Ele franze a testa, processando.
— Então… o que faço?
Apoio a vassoura na parede de pedra, cuja superfície está sempre morna pelo calor da forja. Me agacho, ficando na altura dele. O gesto é um eco distante de outra vida, quando meu pai se agachava assim para explicar as linhas de um mapa de batalha.
— Você não tenta vencer — explico, mantendo a voz baixa, quase confidencial. — Você tenta atrasar. Um passo para trás, não dois. Isso força o inimigo a avançar mais que o planejado, a estender o alcance, a desequilibrar-se. No momento em que o pé dele toca o chão com força excessiva, você ataca o tendão atrás do joelho. Não para cortar. Mas para causar dor e hesitação. E então você desaparece. Sobreviver é vencer quando você não tem força. Vitória não é sobre glória. É sobre estar vivo no final do dia.
Leo fica em silêncio, seus olhos escuros brilhando com a luz da forja. Vejo os conceitos se encaixando em sua mente e as engrenagens girando. É uma sensação estranhamente gratificante.
— Você devia ensinar na Academia Lua Prateada — ele diz, com a convicção absoluta de uma criança. — Você é melhor que o professor cívico.
Um sorriso curto e sem humor escapa dos meus lábios.
— A Academia não aceita ninguém sem clã, Leo. Ou sem uma bolsa de ouro do tamanho da sua cabeça. Conhecimento, por si só, não é moeda de troca lá. Só poder. Simplesmente assim.
O brilho em seus olhos se ofusca um pouco, mas não se apaga.
— Mas o edital… o teste é público… eles dizem que é para todos.
— “Para todos” significa “para todos que conseguirem passar” — digo, levantando-me. — E “conseguirem passar” geralmente significa “sobreviverem”. Impossível, para eles, só é outra palavra para “mortal”.
Ele olha para o carvão em suas mãos, então de volta para mim.
— Mas você vai tentar, não é?
A pergunta paira no ar, carregada de uma intuição que vai além de seus anos. Ele não pergunta se eu posso. Pergunta se eu vou. Como se já soubesse que a resposta está escrita em cada linha tensa do meu corpo, no modo como meus olhos sempre voltam para as torres distantes no horizonte.
Antes que eu possa responder, ou sequer decidir qual seria a resposta, o ar muda.
É uma coisa sutil. Uma pressão que se altera. O cheiro do vento, que antes trazia fuligem e o rio distante, agora traz suor nervoso e couro mal curtido. E sons: passos. Três conjuntos. Sincronizados demais para serem de trabalhadores bêbados ou de mercadores distraídos.
São pesados, deliberados e estão vindo pela rua lateral, a estreita e mal iluminada que contorna a oficina.
Meu corpo reage antes que minha mente precise ordenar. A postura relaxada desaparece. Cada músculo se alinha e fica alerta. Meus sentidos se expandem, mapeando o espaço: a bigorna a três metros, uma pilha de barras de ferro a dois, a porta aberta da forja, a sombra profunda atrás do depósito de carvão.
— Leo — minha voz é um fio de aço, baixo e inegável. — Entre na oficina. Agora. Feche a porta traseira e não saia até eu dizer.
Ele abre a boca para protestar, mas vê algo no meu rosto, uma frieza e a ausência de negociação, então ele obedece. Em segundos, desaparece no interior escuro e ouço o baque surdo da porta de madeira sendo encaixada.
Fico sozinha no pátio, a vassoura ainda apoiada na parede. A noite desceu completamente, e a única luz vem do brilho avermelhado que escapa pela fresta da forja. É luz suficiente para mim.
Os três homens entram no espaço aberto.
Conheço o tipo. Ex-militares de clãs menores, provavelmente expulsos por indisciplina ou covardia. Agora, trabalham como cobradores de dívidas ou guarda-costas baratos para comerciantes sem escrúpulos. Roupas gastas, mas com marcas de onde insígnias foram arrancadas. Armas mal conservadas. Um machado de lâmina cega, uma faca longa com manchas de ferrugem. E os olhos… de predadores que só caçam presas que julgam indefesas.
O que está à frente, um sujeito com uma cicatriz que lhe corta o lábio superior, sorri. É um sorriso vazio, que não atinge seus olhos mortiços.
— Ei, loba — diz, a voz arrastada pela bebida ou pela preguiça. — A cidade é pequena. Dizem que você é boa de serviço, mas não gosta de conversar. É verdade?
Inclino a cabeça, um movimento mínimo. Meus olhos calculam: a distância entre eles está muito próxima e eles confiam demais no número em que estão, o terreno é desnivelado perto da pilha de carvão, a rota de fuga deles está bloqueada pela própria estupidez. A raiva que sempre lateja no meu peito, sob o pingente, ergue-se, mas eu a domino e a transformo em foco gelado.
— Não converso com lixo — respondo, a voz tão calma quanto a de Harn explicando sobre o grão do aço. — O lixo só serve para ser queimado.
O sorriso dele desaparece. A ofensa é calculada. Preciso que ataquem, que o façam aqui e agora, onde eu controle as variáveis.
— Sua boca vai custar caro, órfã — rosna o segundo, um homem mais baixo e largo, com mãos como presuntos.
Eles avançam. Os três ao mesmo tempo. Amadores.
Suspirei. É quase um alívio.
Meu primeiro movimento é para trás. Dois passos rápidos que me colocam contra a pilha de barras de ferro. Eles interpretam como medo, como encurralamento. O que é um erro fatal.
Enquanto o líder avança com o machado erguido num golpe lateral preguiçoso, minha mão direita toca o chão de terra. Meus dedos traçam um símbolo rápido e preciso: a runa Ignis, a mais básica do fogo ofensivo.
Não uso minha chama interna. Roubo apenas uma centelha do calor que irradia da forja, direcionando-a com uma vontade mínima, quase despercebida. O traço no chão brilha por uma fração de segundo, invisível para quem não sabe olhar.
O machado desce. Eu me agacho, não para recuar, mas para girar. A lâmina passa a centímetros do meu ombro e crava-se na barra de ferro atrás de mim com um som metálico. O homem fica exposto, desequilibrado.
Minha garra não está totalmente estendida, apenas as pontas das unhas alongadas e afiadas cortam o ar em um arco curto. Não atinjo o seu corpo. Atinjo o ar logo acima da runa que desenhei.
O ar incendeia.
Não é uma labareda colossal. É um jato concentrado, brutalmente quente, que atinge seu rosto e peito.
Ele grita, um som agudo de puro terror e cai para trás, abandonando o machado. As mãos se pressionam contra a pele, já formando bolhas.
O cheiro de carne queimada invade o ar.
O pátio inteiro fica em silêncio.
E então alguém sussurra, horrorizado, atrás de mim:
— Fogo…
Meu coração falha uma batida.
Porque naquele instante eu entendo, com clareza absoluta: acabei de revelar um poder que deveria estar morto.