Kael Lâmina Gélida
A fronteira não costuma me surpreender.
Estive patrulhando estes limites desde os quatorze anos. Aprendi a ler a linguagem do desespero, a decifrar os hieróglifos da violência que os exilados gravam na terra suja.
O medo tem um padrão. É caótico, desordenado, deixa rastros óbvios como um animal ferido arrastando-se para morrer. O desespero é ainda pior, ele é explosivo, impreciso e queima tudo ao redor na tentativa tola de se manter aquecido por mais um instante.
Mas aquela cena… era diferente.
Observava da entrada do beco, minha presença deliberadamente não tão oculta, mas não anunciada. A escuridão era minha aliada, mas o brilho residual das chamas a traía. Três corpos no chão, contorcendo-se. Ouvia os gemidos abafados, o cheiro agressivo de carne queimada e o pânico suando pelo ar. Nada de novo.
Mas havia algo novo no que observava, acredito que seja a geometria do dano.
Queimaduras limpas e circulares, do tamanho exato de um punho fechado, concentradas nos ombros, panturrilhas, as palmas das mãos que seguravam as armas. Nenhuma marca nas paredes próximas. Nenhuma faísca perdida consumindo a palha seca ao lado. Nenhum morto, apesar da clara vantagem tática de quem atacou. A morte seria mais silenciosa e mais eficiente. Isto era… calculado, foi somente uma demonstração.
Ensinamento.
A palavra ecoou dentro de mim, fria e clara como um cristal de gelo se formando. A maioria dos lobisomens, quando acuada, libera poder em ondas brutais, especialmente os de linhagem flamejante. É instintivo.
O fogo é emoção, paixão, caos controlado. Estes três homens não foram derrotados por uma labareda. Foram desmontados por um instrumento vivo.
Meus olhos, ajustados para ver além do espectro comum, escanearam o local. Traços de energia elemental, sim, mas tão finos, tão direcionados, que mais pareciam linhas de sutura no ar do que explosões. Runas básicas, flamejante primário, o mais rudimentar, mas aplicadas não como um grito, e sim como um ponto final. Era como se estivesse economizando sua força. Tinha controle absoluto do que fazia.
E então, levantei o olhar para a frente.
Ela estava parada no centro do pátio de terra batida, iluminada apenas pelo brilho enferrujado que escapava da forja. Mas a sua postura estava relaxada demais. Ombros soltos, peso perfeitamente distribuído entre os dois pés, coluna ereta sem rigidez. A respiração… estava calma. Muito calma para alguém que acabou de neutralizar três atacantes. E a aura…
Era fraca.
Fraca como a chama de uma vela ao longe. Fraca de uma forma que não era natural. Era uma camada fina, uma folha de gelo sobre um lago profundo. Você não sente a profundidade, mas sabe que ela está lá pela maneira como o gelo não se quebra sob seu peso.
Isso era interessante.
Avancei, meus passos deliberadamente audíveis na quietude pós-confronto. O frio que sempre me cerca não era para afetar, mas é uma extensão natural do meu poder que se adiantou, limpando o ar do cheiro de queimado, substituindo-o por um ar puro.
Ela não se moveu. Apenas os olhos, dois pontos de luz dourada na sombra do capuz, se fixaram em mim.
— Nenhuma briga particular perto da Academia — declarei, deixando minha voz plana e impessoal, o tom de autoridade que aprendi a modular como uma ferramenta. — Se quer permanecer viva, ganhe sua admissão pela força.
Ela sustentou meu olhar.
Isso, por si só, já a separava de noventa e nove por cento dos habitantes desta cidade fronteiriça. A maioria se encolhe ou desvia o olhar. Alguns desafiam com ódio ou arrogância tola.
Ela… apenas sustentou. Era um olhar analítico, de avaliação, como se eu fosse um novo elemento em uma equação que ela já estava resolvendo. Não havia submissão, nem havia desafio aberto.
Havia um tipo de reconhecimento. O reconhecimento de um jogador por outro.
— Então o príncipe patrulha becos agora? — A voz dela foi uma surpresa. Suave, mas com uma lâmina de aço embutida. Não era provocação infantil. Era uma pergunta genuína, carregada de uma ironia seca que quase me fez erguer uma sobrancelha.
Quase sorri.
Quase.
A reação teria sido inadequada e inesperada. Permiti que um canto da minha boca se tensionasse, o movimento mais próximo de um sorriso que meu rosto permite em serviço.
— Patrulho ameaças — respondi.
Era a verdade nua. Ameaças ao equilíbrio, à ordem, ao processo que mantém este continente de lobos famintos de se devorarem inteiros.
Virei-me para partir. A interação deveria ter terminado ali. Um aviso dado, a presença da autoridade estabelecida. Mas algo me prendeu. Um detalhe dissonante, uma nota fora do lugar na sinfonia controlada que ela apresentava.
A aura era uma caricatura de fraqueza. Bem-feita, sim, mas para quem sabe olhar, era como ver alguém vestindo uma capa transparente e acreditando que está invisível.
Voltei-me, um movimento fluido que parou a meio caminho entre a partida e o confronto.
— Você esconde sua aura — disse, as palavras saindo mais como um diagnóstico do que uma acusação. — Mal. É o esforço que a denúncia. Relaxe ou pare de tentar.
Ela não reagiu.
Isso foi a parte mais fascinante. Nenhum espasmo muscular. Nenhuma pulsação acelerada na artéria do pescoço que meus olhos captaram. Nenhuma mudança no padrão respiratório. Foi essa não-reação, tão perfeita que era, em si, uma reação. Apenas seus olhos, aquelas lâminas douradas, pareceram focar em mim um pouco mais.
— Sou fraca — ela respondeu, a voz mantendo a mesma suavidade cortante. — Preciso esconder o pouco que tenho.
Mentira.
Não uma mentira grosseira, trêmula, de medo. Era uma mentira polida, entregue como um fato inconveniente. Uma peça de teatro onde o ator sabe que você sabe que ele está atuando, mas ambos concordam em não quebrar a encenação.
Se eu insistisse, se eu liberasse um fragmento do meu poder para pressionar aquela aura falsa, ela quebraria. Talvez ela lutasse, ou quem sabe fugisse. Mas não senti hostilidade vindo dela. Nem intenção assassina. Apenas uma contenção monumental e uma muralha de vontade segurando um vulcão.
Ela não estava apenas escondendo poder. Ela estava esperando e aguardando o momento certo, o palco certo e o adversário certo.
Decidi não pressionar. Forçar uma revelação agora seria como quebrar uma lâmina antes de vê-la em combate, o que seria um desperdício de potencial, por mais perigoso que fosse.
Desta vez, afastei-me de verdade, meus passos ecoando no silêncio que se instalou. Levei o frio comigo, não o meu, mas o frio de uma intriga recém-nascida, uma curiosidade que não sentia há anos.
Minha comitiva me aguardava no final da rua principal, um trio de guerreiros veteranos da Lâmina Gélida, seus emblemas de gelo prateado brilhando discretamente. Eles haviam mantido a distância, mas seus olhos haviam visto tudo. O mais velho, Rhenn, um lobo que servia ao meu pai antes de mim, franziu a testa quando me aproximei.
— Meu senhor — sua voz era um rosnado baixo e respeitoso, mas preocupado. — Aquela loba… as queimaduras foram muito precisas para uma selvagem. E ela não se curvou.
— Não se curvou — confirmei, sem diminuir o passo. — E não era selvagem, Rhenn. Selvagem é descontrolado. Aquilo foi qualquer coisa, menos descontrolado.
— Devemos investigar? — perguntou Joran, o mais jovem do trio, sua mão descansando instintivamente no cabo da espada.
Parei e olhei para ele, depois para os outros. O céu noturno acima de nós, a Lua Sangrenta pairando como um juiz silencioso.
— Não — disse, a decisão tomada no instante em que a palavra saiu. — Não é prioridade. Ainda. Ela se inscreverá no Teste. Se tiver a força que suspeito, se revelará lá. Se não tiver… então não era nada além de uma exilada com sorte.
Rhenn trocou um olhar com Joran, um olhar que dizia ele viu algo que nós não vimos. E era verdade. Eles viram uma garota suja e potencialmente perigosa.
Eu vi… um padrão. Um eco de algo que li nos velhos manuscritos, algo sobre fogo que não queima, que apenas molda.
Continuamos a patrulha, mas minha mente já não estava nas ruas sombrias de Lasthelm, nem nos esconderijos de contrabandistas, nem nos bordéis barulhentos. Estava fixada naquela figura imóvel, naquela aura contida, naquela mentira perfeita.
Enquanto caminhávamos, parte de mim, a parte treinada desde o berço para estratégia e análise, começou a construir modelos. Quem ela poderia ser? Uma descendente de algum clã menor com um segredo? Uma assassina de clã rival plantada aqui? Ou algo mais… intrigante?
A Academia Lua Prateada se ergue diante de mim como uma extensão da montanha, bela e implacável.
As torres capturam a luz do amanhecer como lâminas de prata.
O portão se abre.
O ar é frio, limpo… carregado de ambição.
Dou o primeiro passo para dentro e sinto algo diferente atravessar meus sentidos.
Um frio que não vem da pedra.
Um olhar que ainda não vejo, mas já reconheço.
E sem saber por quê, meus instintos sussurram: é aqui que vou encontrar meu maior inimigo… e o homem mais perigoso do meu destino.