Kael Lâmina Gélida
Encontro-me com o Conselho Estudantil na Sala do Crescente, uma câmara circular com vista para o Pátio Central. Eles já estão lá, os representantes dos seis grandes clãs, o sétimo lugar, o dos Lobos Flamejantes, permanece vazio e empoeirado, um lembrete silencioso. Valen Garra Negra está perto da janela, seu olhar afiado voltado para o pátio, como se já estivesse ensaiando seu domínio sobre ele. Ele se vira quando entro, um sorriso calculado e respeitoso estampado no rosto.
— Presidente Lâmina Gélida — cumprimenta, com uma leve inclinação de cabeça que é quase irônica. — Sua patrulha noturna foi produtiva? Espero que a ralé da fronteira não tenha importunado você.
Ignoro o tom dele. Valen é como um espinho na pata. Um lobo irritante, mas previsível. Sua ambição é tão óbvia quanto a neve no inverno.
— A fronteira está como sempre, Valen — respondo, assumindo meu lugar à cabeça da mesa de pedra negra. — Caótica, mas contida. O que temos na pauta?
A reunião prossegue com assuntos mundanos: alocações de recursos, disputas de treinamento, queixas sobre infraestrutura. Minha mente, no entanto, divide-se. Uma parte gerencia as discussões, dá veredictos, mantém a ordem. A outra… está em um beco sujo, revendo cada quadro daquela interação.
Quando chegamos ao tópico principal, minha voz soa um pouco mais firme e mais intencional.
— O Teste de Recrutamento Público começa em sete dias — anuncio, deixando meus olhos percorrerem cada rosto ao redor da mesa. — Quero os protocolos de segurança reforçados, mas sem interferência tribal. Os mestres de prova serão imparciais. Nenhum clã terá permissão para influenciar os resultados, nem para proteger seus próprios candidatos.
Um murmúrio de desconforto percorre a sala. Thorin Machado de Pedra, um lobo robusto e tradicionalista, franze a testa.
— Vossa Alteza, com todo o respeito — ele começa, suas mãos enormes se fechando sobre a mesa. — Esses testes abertos sempre atraem… elementos instáveis. Loucos por glória, exilados desesperados. No ano passado, tivemos três mortes antes mesmo da primeira prova.
— E quantos desses mortos teriam sido dignos de usar nosso emblema, Thorin? — pergunto, mantendo a voz neutra. — A Academia existe para filtrar força genuína, não para proteger os privilegiados de serem desafiados. A morte é um filtro. O medo da morte é outro. Se eles não podem enfrentar um teste, como enfrentarão os reinos além das montanhas? Como enfrentarão a escuridão que sussurra nas fronteiras do norte?
Valen se inclina para a frente, seus olhos cor de âmbar brilhando com interesse.
— O presidente tem um ponto. Talvez seja hora de temperar nosso aço com um fogo mais bruto. Além disso — ele acrescenta, seu sorriso se alargando um pouco. — Será uma oportunidade para ver quais… talentos inesperados podem brotar do lodo.
Suspeito que os “talentos” que Valen tem em mente são os que ele pode subornar, manipular ou eliminar. Mas sua concordância tática é útil.
— Está decidido, então — declaro, encerrando a discussão. — Protocolos máximos, imparcialidade total. Quero relatórios diários dos preparativos.
A reunião se dispersa. Valen se aproxima enquanto os outros saem.
— Uma patrulha interessante, então? — pergunta, seu tom casual demais. — Rhenn parecia um pouco… tenso.
Valen tem fontes em toda parte. É possível que já tenha ouvido rumores sobre o incidente no beco.
— A fronteira é sempre interessante para quem não está acostumado a ela — respondo, recolhendo meus pergaminhos. — Nada que precise preocupar o clã Garra Negra.
— Oh, nunca me preocupo, Kael — ele sorri, e há uma ponta de verdade nisso. — Eu apenas observo. Como você sabe, meu clã tem um interesse particular em manter a ordem. Qualquer faísca fora do lugar… bem, é melhor ser extinta rápido, não é?
É uma mensagem. Ou uma tentativa de sondagem. Limito-me a um aceno neutro e saio da sala, deixando-o parado ali. O cheiro da ambição dele é enjoativo, algo que lembra o doce e azedo ao mesmo tempo.
Minhas pernas me levam à biblioteca principal, o Coração de Cristal. É o único lugar nesta academia barulhenta e cheia de egos onde o silêncio é uma presença física, espessa e reconfortante. As altas prateleiras de ébano se erguem até o teto abobadado, repletas de volumes encadernados em couro e peles de bestas antigas. Aqui, o mundo se reduz a lógica, história e padrões.
Caminho até a seção de táticas elementais. Meus dedos, sem luvas agora, passam pelas lombadas gastas. Os manuais da Lâmina Gélida são meticulosos: Defesa em Múltiplas Camadas, A Arte do Contragolpe Perfeito, Geada Eterna: Princípios da Contenção. São a base da minha existência. São eficientes, elegantes e previsíveis.
E, de repente, insuficientes.
Pego um volume mais antigo, menos conhecido: Tratado sobre a Agressividade Controlada, de um autor anônimo do clã Fogo Sombrio, extinto há séculos. As páginas cheiram a mofo e cinzas. Os diagramas mostram ataques fluidos, respostas que são também iniciações, uma filosofia de combate que absorve o impulso do inimigo e o devolve transformado. Vejo o quanto é caótico e arriscado. Mas também é vivo.
E me lembro, com uma clareza irritante, das chamas no beco. Curtas, precisas e mortais. Não eram defensivas. Eram ofensivas e disfarçadas de defesa. Um ataque que parecia uma reação.
— Fogo que não desperdiça… — murmuro para as estantes silenciosas. — Fogo que molda em vez de destruir. Fogo que é… tático, não temperamental.
Isso é o que estava faltando. Não em mim, mas no sistema. Estamos tão focados em ser muralhas invencíveis, em ser o inverno implacável, que esquecemos que o inverno também é estagnação. A geada preserva, mas também paralisa. E às vezes, para que algo novo cresça, o gelo precisa derreter.
Uma faísca precisa cair.
Saio da biblioteca com a mente agitada, uma tempestade de pensamentos gelados se chocando contra essa nova e inquietante centelha de uma nova percepção. O caminho me leva involuntariamente para a varanda que circunda o Pátio Central. É um vasto espaço de pedra clara, marcado com círculos concêntricos para duelos e treinamento. Agora, está quase vazio, apenas alguns aprendizes limpando os vestígios dos treinos do dia.
Em sete dias, este pátio estará transbordando. Com cheiro de suor, sangue e adrenalina pura. Gritos de desafio, gritos de dor, o som úmido de ossos quebrando. A ambição humana e lobina em sua forma mais primitiva e destilada.
E ela estará aqui.
A garota do beco. A loba com olhos de ouro e chamas contidas.
Não consigo ver seu rosto claramente na memória, apenas os olhos e a postura. Mas consigo sentir o espaço que ela ocupava, o vácuo de poder não liberado que parecia distorcer o ar ao seu redor.
— Se você entrar — penso, as palavras formando-se em minha mente com a clareza de um decreto. — Você não será apenas mais uma candidata. Você será uma anomalia. Uma variável não calculada. Você vai virar este tabuleiro previsível de cabeça para baixo.
E, então, acontece.
Pela primeira vez em anos, desde que entendi o peso da linhagem que carrego, desde que aceitei a prisão de ouro que é ser o herdeiro perfeito, sinto algo se agitar no gelo plano do meu ser.
Não é excitação romântica. Isso seria um absurdo, um clichê patético.
É expectativa estratégica.
A sensação de um general que, após anos de manobras conhecidas e batalhas ensaiadas, avista no horizonte um novo tipo de tropa, uma bandeira desconhecida. É o reconhecimento puro e intelectual de que o jogo, afinal, pode ter mais profundidade do que você imaginava. É a antecipação de um desafio que não vem da força bruta, mas da mente. Do fogo que pensa.
O inverno dentro de mim, vasto e eterno, não se assusta com uma chama. Ele a estuda. Ele calcula seu calor, seu combustível e a sua direção. Sei que uma única labareda pode incendiar uma floresta. E ele sabe que, às vezes, para uma nova paisagem nascer da neve, o fogo é necessário.
Eu não pretendo apagá-la.
Ainda não.
Pretendo observá-la de perto. Medir sua temperatura. Compreender seu padrão de combustão.
Porque uma chama que pode queimar tão limpa e tão fria… uma chama assim pode ser a ferramenta que este continente congelado em tradição e ódio precisa para, finalmente, se purificar.
Ou pode ser a fagulha que queima tudo até as cinzas.
De qualquer forma…
O jogo acabou de ficar infinitamente mais interessante.
Eu, o herdeiro da Lâmina Gélida, príncipe do gelo e guardião da ordem, finalmente encontro algo digno da minha atenção.
Uma chama escondida sob a pele mortal.
Um perigo que eu deveria destruir…
Mas que, inexplicavelmente, quero possuir.
Sorrio no silêncio do salão e aceito o desafio:
— Venha, loba de fogo. Vamos ver quem perde primeiro.