Durante a invasão da Fantasia no @literunico quero falar de um livro que li recentemente: "O Timbre Magista", de Cuca Nuñes, publicado pela Lendari, com 184 páginas.
“‘O homem é um poço’, dizia Aara em tempos áureos. Se alguém olhasse para Sigard, o poço, e observasse a parte pedregosa acima do solo, onde se amarra o balde, veria um homem entediado, e esse homem diria que a razão disso é porque não se interessava por seres inferiores como aqueles que o rodeavam. Se olhasse um pouco mais fundo e tocasse a água com a ponta do dedinho, veria que, na verdade, ele tinha inveja de todos aqueles magos graduados por grandes instituições de ensino magista, quando o próprio fora expulso em seu primeiro ano de ensino. Agora, se você ultrapassasse os limites aquáticos e chegasse à terra úmida, no fundão do poço mesmo, e cavasse com uma colherzinha de iogurte, descobriria que Sigard não gostava dali porque, onde todos eram magos, ele era apenas mais um. ‘Que se dane, ele gosta dos holofotes!’, diria uma vozinha no insconsciente do homem”.
Este é um pequeno trecho do quarto capítulo de O Timbre Magista, de Cuca Nuñes. Não é como o livro começa, mas, para mim, bem que poderia ser. Não é, porque não dá o tom exato do livro, que é bem mais leve e divertido, porém, ela me pegou tanto que, quando terminei este parágrafo, só conseguia me perguntar: “Po***, Cuca! Por que você parou?”. Este é o momento quando começamos a entender o protagonista de verdade. O autor prefere nos entregar aos poucos as nuances do personagem, e achei tão forte que decidi começar essa resenha por esta passagem. Pode-se inferir tanto sobre Sigard através deste trecho que ele quase não precisa de explicações. Sigard é vaidoso, ressentido e inseguro, até mesmo blasé — um poço de inseguraças. Cuca foi genial quando a escreveu.
Com capítulos curtos e numerosos (são 45, no total), Cuca nos oferece uma leitura rápida e dinâmica.
O autor não perde tempo. Logo na primeira página somos apresentados ao grande segredo de Sigard: ele é um mago analfabeto e recluso. Vive isolado da sociedade magista em sua torre até o dia em que recebe uma carta de um amigo distante. Com sua magia, Sigard a ouve, e aqui começa o humor ácido do autor: depois de ouvir a carta, Sigard acredita ter descoberto o próprio destino.
Desde o início do primeiro capítulo, as dificuldades pessoais de Sigard se mostram presentes, mas o narrador conta tudo de forma leve, que nos arranca sorrisos enquanto lemos. Ele é debochado, irônico, e faz suas próprias piadinhas.
Aliás, em se tratando de piadas, o livro todo também pode ser visto como uma leve zoeira com todo o gênero de fantasia medieval. Enquanto lia, não pude deixar de lembrar das sessões de 3D&T que jogava na adolescência (jogadores de RPG me entenderão e amarão esse livro). No livro, não se vê nem se fala de elfos e anões, mas temos um dragão de chapisco, por exemplo; temos os dogons (uma referência ou inspiração a Minecraft, talvez); temos os polaris, criaturinhas das tribos que habitam as regiões geladas, além de outras manifestações interessantes e, digamos, diferenciadas, da própria magia. Há um quê de nonsense que permeia o mundo construído por Cuca, uma espécie de caos que não confunde, mas que compele a querer mais dele. Ao fim da jornada de Sigard, quando ele descobre seu verdadeiro destino e potencial, fica aquele gostinho de quero mais; aquela vontade de saber como o velhote ranzinza criado por Cuca vai enfrentar os futuros obstáculos construídos ao longo de O Timbre Magista (sim, isso é uma confissão de que eu quero uma sequência, embora não sei se haverá uma).
Uma das passagens que me marcou mais, ainda no terceiro capítulo, acontece quando Sigard, então no início de sua jornada, se depara com uma pedra falante. A passagem é profunda, carregada de significado — e hilária.
O Timbre Magista é uma obra direcionada ao público infanto-juvenil e é facilmente uma porta de entrada para quem procura uma leitura leve (aconchegante até) de fantasia e que foge um pouco dos padrões que hoje saturam as obras do gênero. O autor não se preocupa em contar uma história original. A ideia de um mago poderoso mas que não se vê como tal não é exatamene nova, apesar de não ser nenhum clichê, mas não é o ponto aqui. O ponto é uma história bem executada, bem contada, bem escrita, que diverte e entretém sem se perder no processo, o que Cuca consegue com facilidade neste que é seu romance de estreia.