Glauco Freitas
@glaucofreitas
PASSAGEM PT 1

Lavou o rosto na pia do banheiro e encarou seu reflexo no espelho. Os olhos estavam fundos, quase não tinha dormido aquela noite, mas o semblante estava leve, tranquilo como há semanas não via. E lá dentro do peito, o coração também estava leve.

Tinha passado a noite em claro, mas finalmente tinha se decidido: daria sua passagem para ele, a passagem que não era só um ticket para embarcar naquela nave cujo destino gente como ele nem tinha o direito de saber, e sim, um meio de escapar daquele lugar desgraçado, de abandonar a sujeira e a fuligem, o ar viciado e a comida insossa, quando havia.

Era uma chance única...

E a daria a ele. Por que, se pensasse bem, o que ele próprio faria com aquela chance? Tinha trinta anos e tanta sujeira incrustada em seus pulmões que, se tivesse sorte, chegaria aos quarenta. Mas ele era jovem, e sua mãe tinha sido esperta em mantê-lo longe das docas. Ele era um guri inteligente, sabia navegar pelas telas desde criança. Não precisou, como ele próprio, perder três dedos e um dos olhos construindo e soldando fuselagens.

Ele tinha um futuro.

Por isso, lhe daria a passagem. A passagem que tinha recebido tanto por sorte quanto por merecimento: foi um dos quinhentos sorteados para tripular a nave que passou treze anos ajudando a construir. Um dos quinhentos dentre os doze mil trabalhadores que tiveram seu suor e sangue servindo como solda para juntar aquele monstro de metal que, dali trinta e seis horas, iniciaria sua viagem de cinco anos para um planeta qualquer.

"Qualquer", porque não importava! O importante era sair dali! "Qualquer" porque nunca estivera em nenhum planeta, então, apesar de terem lhe contado como cada planeta podia ser único, ele próprio jamais tinha visto um! Nem mesmo de longe: nasceu naquela estação, uma doca de reparos e construção estacionada próximo a um grande asteroide, tão longe dos planetas daquele sistema que sequer conseguia vê-los pelas "janelas".

E não veria. Porque daria a passagem para ele. Aquele guri que era filho da mulher que amava...

De certa forma, era justo. Podia não ser pai dele, mas daria uma chance a alguém com a vida toda pela frente e ficaria em seu lugar para consolar a mãe que veria o único filho partir para a escuridão do espaço. Ela derramaria as lágrimas em seu ombro e engoliria o choro com seus beijos. Aproveitariam o pouco tempo que tinham - com sorte, uma década - e morreriam ali, onde sempre viveram.
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