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Glauco Freitas

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LITERÁRIA

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25/0216:57
PIZZA PARTE 1/4
Fazia 25 anos que Mary tinha sua pizzaria no mesmo local. Começou como um mero balcão, um cooler de praia com gelo para guardar os refrigerantes, com um forno a gás escondido por uma parede e uma janelinha, e hoje – após comprar a loja ao lado –, era um lugar de respeito, com mesas disputadas no local, forno a lenha, garçons, motoboys próprios e geladeiras carregadas de bebidas.
O negócio cresceu naquele tempo. E não só o negócio, mas o próprio Mary viu sua família crescer naquele lugar. Afinal, sua casa sempre foi no andar de cima – antes alugada, e mais tarde, adquirida –: seus filhos cresceram naquele lugar, aprendendo matemática fechando as contas dos clientes, ajudando o pai a montar as pizzas, abrir as massas e desenvolver novos sabores. Foram eles, inclusive, que lhe deram a dica do catupiry quando o ingrediente ainda não era básico de qualquer pizzaria, e mais tarde, da mesma maneira, com o cheddar.
Naqueles 25 anos, Mary sempre montava as pizzas com o mesmo carinho e devoção à comida como sempre fazia. Um dos pedidos daquela noite, porém, o deixou pensativo. Desconcertado, até.
“Mandar a pizza sem cortar”.
Mary, ficou parado, olhando o pedido, ou melhor, aquela pequena observação no pedido que veio através do aplicativo de entregas. “Mandar a pizza sem cortar”?? Será que tinha feito burrada num pedido anterior, cortado a pizza de forma grotesca e a pessoa queria evitar o incômodo? Se fosse isso, ao menos, era bom sinal a pessoa ter pedido de novo, afinal, tinha se incomodado com o modo com que a pizza tinha sido cortado, mas tinha gostado tanto, que mesmo assim, pediu de novo.
Não era. No pedido estava escrito “Primeiro pedido”. O aplicativo vermelho avisava esse tipo de coisa ao restaurante.
“Mandar a pizza sem cortar”. Bom, ao menos, então, era sinal que a culpa não era sua, não é? O cliente nunca tinha pedido pizza dali! Mas, então, por que pediria para a pizza ir inteira? Todo mundo sabe que pizza se come em fatias...
Ah, claro! Talvez quisesse a pizza “no palito”, como faziam vários dos clientes que iam até a Mary Pizzaria em bastante gente: a pizza cortada em quadradinhos para que todos pegassem no palito de dentes e... Mas se fosse o caso, o cliente pediria a pizza ainda mais cortada, não o contrário!
...
25/0216:57
PIZZA PARTE 2/4
Por falar nisso, a maioria dos clientes que vinham na Mary Pizzaria, achavam que Mary era a senhora atrás do balcão, que comandava o salão e a entrada dos pedidos, mas essa era a Tereza, esposa do Seu Mary, o pizzaiolo. E dos poucos clientes que sabiam que Mary era o bigodudo suando na frente do forno a lenha, quase ninguém sabia o nome real de Seu Mary: Arnaldo.
Sim, não havia qualquer semelhança lógica entre Arnaldo e Mary, mas apelidos são coisas vivas, mutáveis, muitas vezes seguindo uma natureza própria, que escapa a lógica.
O primeiro apelido de Mary, por exemplo, veio devido ao fato de ser bastante gordo na adolescência, ao que os outros meninos o apelidaram de Gelatina de Banha. Claro que ele não gostou, e é óbvio que esse foi o exato motivo de o apelido ter “pegado”. Mas como o idioma é uma coisa preguiçosa, logo Gelatina de Banha se tornou, apenas, Gelatina. Com o passar do tempo, então, Gelatina se tornou Tina. Mais tarde, um desgraçado o chamou de Tina Turner e arrancou risada de todo mundo e, num dia especialmente inspirado – e um pouco alcoolizado – o mesmo desgraçado o chamou de Proud Mary. Não demorou para Proud Mary se resumir a Mary e, como já estavam no fim da adolescência, nunca mais houve um motivo para o apelido de Arnaldo deixar de ser Mary.
Mary que, naquele momento, colocava a pizza forno adentro. Tinha levado o dobro do tempo para montar aquela, afinal, estava distraído com aquela bobagem da pizza não cortada. Era algo tão insignificante que o fazia se sentir um idiota, mas... “Meu Deus, por que caralhos alguém pediria uma pizza sem cortar??”. Será que a pessoa daria a pizza pro cachorro comer?? Não, não podia ser. Ou, ao menos, esperava que não, afinal, a pessoa pediu cebola extra na pizza de portuguesa e cebola fazia muito mal pros cachorros.
“Será que... Será que era isso-...?! A pessoa podia estar querendo matar um cachorro... Talvez o do vizinho...” Deu risada daquela ideia: era algo absurdo demais pra ser verdade. Mas se ele conseguia pensar naquilo, talvez mais alguém também conseguisse e-... Não, era mais provável que a pessoa fosse quisesse apenas, sei lá, dobrar a pizza comer como um sanduíche-... Mas eram 12 fatias, ou melhor, era uma pizza cujo tamanho correspondia a 12 fatias, mas que iria inteira porque a pessoa queria qUE MANDASSE SEM CORTAR! QUE ABSURDO!
...
25/0216:56
PIZZA PARTE 3/4
Tirou a pizza de dentro do forno e a colocou na caixa, admirando o próprio trabalho! O presunto da portuguesa levemente queimado, os quatro queijos levemente gratinados, o bacon levemente tostado contrastando com o amarelo do milho...
Não. Não mandaria uma pizza sem cortar! Que coisa idiota!
Apanhou o cortador e apontou a lâmina circular para a pizza... E paralisou.
A pessoa está pagando, tem o direito de pedir que a pizza vá da forma que quiser...
Vacilou. Recuou a lâmina circular.
Então... Então... Era isso! Ele mesmo levaria a pizza!
Pegou a pizza, pegou o refrigerante dois litros que o cliente havia pedido, atravessou o salão, ignorando os chamados de Tereza, foi até um dos motoboys e pediu para usar sua moto. “Eu te pago a corrida do mesmo jeito”, disse, e o rapaz apenas deu de ombros e lhe entregou o capacete.
Em dez minutos, estava no endereço de entrega: era uma casa bonita, não do tipo que dizia que quem a habitava era especialmente rico, mas bem cuidada, com grama cortada e paredes sem manchas. Desceu da moto e percebeu que havia silêncio na rua: nenhum cachorro de vizinho latindo. Aquilo foi um alívio. Foi até a campainha e tocou. Viu a cortina se mover brevemente e logo a porta da frente se abriu: uma menina, talvez de uns 14 ou 15 anos veio correndo, animada em ver a pizza nas mãos de Mary.
Ela o cumprimentou e Mary, ainda perdido nos devaneios que tentavam arranjar alguma explicação para a observação no pedido, apenas gemeu sua resposta. A menina abriu o portão e Mary hesitou: seu plano era perguntar, interrogar até, mas...
Viu a cortina se abrir de novo e alguém assistir a cena lá de dentro. Era óbvio que aquela cena pareceria estranha: um velho parado no portão, olhando igual idiota para uma menina. Apressou-se em entregar a pizza e voltou para a moto. Tudo aquilo para nada! Nada! Foi até ali e não teve coragem de fazer uma simples pergunta... Mas também, como podia fazer uma pergunta tão ridícula? O que ele tinha a ver com aquilo, se o cliente queria a pizza sem cortar ou não? Mas... Não conseguia não remoer aquela curiosidade.

...
11/0214:25
PASSAGEM PT 1

Lavou o rosto na pia do banheiro e encarou seu reflexo no espelho. Os olhos estavam fundos, quase não tinha dormido aquela noite, mas o semblante estava leve, tranquilo como há semanas não via. E lá dentro do peito, o coração também estava leve.

Tinha passado a noite em claro, mas finalmente tinha se decidido: daria sua passagem para ele, a passagem que não era só um ticket para embarcar naquela nave cujo destino gente como ele nem tinha o direito de saber, e sim, um meio de escapar daquele lugar desgraçado, de abandonar a sujeira e a fuligem, o ar viciado e a comida insossa, quando havia.

Era uma chance única...

E a daria a ele. Por que, se pensasse bem, o que ele próprio faria com aquela chance? Tinha trinta anos e tanta sujeira incrustada em seus pulmões que, se tivesse sorte, chegaria aos quarenta. Mas ele era jovem, e sua mãe tinha sido esperta em mantê-lo longe das docas. Ele era um guri inteligente, sabia navegar pelas telas desde criança. Não precisou, como ele próprio, perder três dedos e um dos olhos construindo e soldando fuselagens.

Ele tinha um futuro.

Por isso, lhe daria a passagem. A passagem que tinha recebido tanto por sorte quanto por merecimento: foi um dos quinhentos sorteados para tripular a nave que passou treze anos ajudando a construir. Um dos quinhentos dentre os doze mil trabalhadores que tiveram seu suor e sangue servindo como solda para juntar aquele monstro de metal que, dali trinta e seis horas, iniciaria sua viagem de cinco anos para um planeta qualquer.

"Qualquer", porque não importava! O importante era sair dali! "Qualquer" porque nunca estivera em nenhum planeta, então, apesar de terem lhe contado como cada planeta podia ser único, ele próprio jamais tinha visto um! Nem mesmo de longe: nasceu naquela estação, uma doca de reparos e construção estacionada próximo a um grande asteroide, tão longe dos planetas daquele sistema que sequer conseguia vê-los pelas "janelas".

E não veria. Porque daria a passagem para ele. Aquele guri que era filho da mulher que amava...

De certa forma, era justo. Podia não ser pai dele, mas daria uma chance a alguém com a vida toda pela frente e ficaria em seu lugar para consolar a mãe que veria o único filho partir para a escuridão do espaço. Ela derramaria as lágrimas em seu ombro e engoliria o choro com seus beijos. Aproveitariam o pouco tempo que tinham - com sorte, uma década - e morreriam ali, onde sempre viveram.
11/0214:24
PASSAGEM PT2

E o guri, com sorte, estaria entre os sorteados para descer ao planeta. Viveria sua vida sob a luz de um sol, construiria um mundo novo para viver, beberia água que não fora reciclada milhares de vezes e respiraria ar que não tinha saído de uma garrafa. Se ele próprio teve a sorte de receber a passagem, por que o guri não teria a sorte de ser escolhido para uma vida mais decente?

Lhe daria a passagem. E isso lhe pôs um sorriso no rosto.

Por isso escovou os dentes, penteou a barba e os cabelos, vestiu a única roupa que tinha que não estava semi-destruída pelo tempo ou pelo trabalho e foi. Dobrou a direita dois corredores seguidos e tocou a campainha.

Quando a porta abriu, ela o recebeu com um sorriso, mas ele percebeu a tristeza em seus olhos. Desde o sorteio, perguntou-se se ela choraria ao se despedirem e, não conseguia evitar a satisfação ao ver que sim. Porém, sabia que ela choraria mais dali a pouco, quando se despedissem do guri.

Ela permitiu que ele entrasse e ele perguntou pelo guri.

- No banheiro - ela respondeu.

- Quero me despedir dele - ele disse, dando-lhe as costas para que ela não visse seu sorrisinho matreiro, de quem tinha uma surpresa para revelar.

Surpresa maior foi a dor lancinante que lhe roubou todo o ar dor pulmões, impedindo até mesmo que qualquer gemido lhe escapasse. Caiu no chão e a ouviu chorar. "Me perdoa, me perdoa", ela dizia e repetia.

- É a única chance que eu tenho de tirar ele daqui - ela justificou-se enquanto o revistava em busca do PAD: precisaria dele para transferir a passagem para o nome de seu filho - Eu amo você, eu juro que amo, mas... Eu não quero que meu filho viva a nossa vida. Me perdoa...

Sentiu ela mover sua mão para usar sua digital para desbloquear o PAD. Sentiu as lágrimas escorrendo pelo seu rosto e percebeu que não chorava pela traição ou por arrependimento. Tampouco lamentava a vida de merda que levou...

Sua única tristeza era saber que teve o momento de maior alegria da vida de uma pessoa em suas mãos e o desperdiçou por não ter conseguido se decidir até o último momento.
01/0222:11
- É importante? - perguntou o menininho.
- Acho que depende - respondeu o pai, pensativo, deixando o olhar subir até o céu azul - Tudo depende. Sempre vai ter coisas que são muito importantes pra alguém, e que não significam nada pras outras pessoas.
- Mas e faz diferença? Digo, por onde eu começo?
- Diferença? Não. O resultado vai ser o mesmo no final.
- Então por que eu tenho que decidir isso?
- Porque é você quem vai fazer. Quer que outra pessoa decida tudo o que você vai fazer pelo resto da sua vida?
- Não, mas... Você disse que não era importante.
- Exatamente! É por isso que você tem que decidir. Se não conseguir decidir algo tão banal, o que vai acontecer quando você tiver que decidir algo que realmente importa?
- Hm. Você não quer decidir pra mim dessa vez? Prometo que na próxima-...
- Não. Você decide. Eu não vou estar aqui pra sempre, entende? Eu posso estar muito longe, pode ser que não permitam que eu decida por você, pode ser que eu nem esteja mais aqui... Você tem que tomar as decisões. A partir de hoje.
- Mas e se eu decidir errado?
- Então você vai ter de lidar com as consequências do que escolher, mas saberá que foi você quem decidiu. O pior que pode acontecer com uma pessoa é tirarem dele o poder de decisão e obrigarem-no a sofrer com consequências de coisas que decidiram em seu lugar. Nunca deixe isso acontecer! Pior que do que não tomar uma decisão, é deixar que outros decidam no seu lugar. Você entendeu?
- Entendi.
Em silêncio, o menino baixa os olhos para a fonte de sua indecisão por mais um tempo.
- E então? Decidiu?
- Acho-Acho que sim.
- Então faça! Não adianta chegar numa decisão e não agir!
- Certo!
O menino aquiesce e morde a pata direita de sua Tortuguita.
"Pelas patas, hein?!", pensou o pai, sorrindo orgulhoso. "Ousado".