jennyrugeroni
@jennyrugeroni
A Feira do Livro, em São Paulo, teve abraços, reencontros, e momentos de muita emoção. Sábado passado, no sarau da @lhsider, li um trecho do conto autoficcional "À sua imagem e semelhança", que faz parte do livro "Jaguari", escrito a partir de uma tentativa de feminicídio sofrida há mais de trinta anos, e dos pesadelos que às vezes ainda me assombram.
Mais tarde, um jovem que estava presente me relatou que a leitura o fez chorar. Respondi que eu sempre disse aos meus filhos que chorar não é motivo de vergonha. Que chorar é humano. Chorar libera a pressão que a gente carrega por dentro. E se ela não tiver por onde sair, vai acabar explodindo de outra forma.
Ainda no sábado, acordei depois de duas horas de sono, com a já conhecida urgência de escrever para acalmar a mente. Não conseguia parar de pensar no elo entre as duas coisas: a cultura patriarcal que aceita a violência "em defesa da honra", e um menino que sente vergonha de chorar.
Me pediram para falar mais sobre isso, porque urge levar a informação a quem necessita. Mas como falar, quando envolve revirar o passado de outras pessoas que já sofreram bastante? Quando escrevi o conto, uma pessoa de minha família perguntou: você vai mesmo mexer nesse vespeiro? Tenho visto muito ódio nas redes sociais, e me pergunto se meras palavras conseguem amenizar a violência. Se vale a pena me expor, se realmente é possível salvar alguém. Preciso pensar.
Quando toco nesse assunto, é inevitável alguém comentar que sente muito por eu ter passado por isso. Eu não sinto. Sou grata por ter chegado até aqui. Talvez isso seja, por si só, um bom motivo para falar.

#afeiradolivro #mulheresqueescrevem #literaturanacional #contos #contospremiados
Link copiado!