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#Desafio192A visita indesejada chegou.
Sorrateira, impositiva.
Detentora algoz do tempo,
instiga o seu correr lento:
madrugada contemplativa.
Traiçoeiros — tal qual ela —
os fantasmas do meu pensamento.
Torturam-me de saudade!
Atiram-me ao chão do lamento,
põem em xeque nossa liberdade.
Ai de mim… por saber que o querer
é a delícia que rege o momento
mas não garante que o sentimento
vença as agruras da vida.
Quero a paz, o calor, a leveza
que meu coração, petulante,
insiste em crer merecer.
Crs Ribeiro
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#Desafio 191
Quase nunca,
nem sempre.
Talvez amanhã…
Hoje!
Quando é que você sente a tal da certeza?
O que valida um sentimento?
A seta?
O caminho?
O alvo?
Como saber se a mira vale a flecha?
Se até o que é tangível
escorre
feito areia,
feito tempo.
O que preenche:
ilude.
E a tal da segurança
talvez só seja
uma brisa
fantasiada de chão firme.
Quem manda em você:
a mente que trama
ou o coração que tropeça?
Crs Ribeiro
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#Desafio 190
Convocação Geral: Alinhamento de Performance
( em modo compliance)
Senhoras, senhores,
prezados colaboradores,
A pressão subiu,
a demanda esticou,
o corpo pediu:
encaixe.
A empresa atendeu:
convocamos
entrega urgente.
Sem apego,
sem planilha.
Só potência.
Crua.
Resposta rápida
e foco em performance:
penetrar metas
com estratégia,
sem perder o eixo
nem o ritmo.
Só as cabeças.
Volume crescente
na contenção:
Ejeta.
Respira.
Fluidez consistente,
fluxo e vazão.
Instrumento calibrado,
toque alinhado,
prazo contado
até o último suspiro.
Precisamos da sua
abertura total.
Que cada gesto seja
comunicação clara
ou gemido honesto.
Seremos canal.
Seremos desempenho.
Seremos entrega.
Sem truques.
A jornada irá até onde
o comprimento dá conta
e a carne sustenta
e o resto…
É impulso,
é instinto,
é suor de equipe.
Que role.
Que tudo role.
E se não rolar,
a gente refaz o
alinhamento
com elegância,
com maciez
e com
consentimento.
Com todo o
corpo.
Mais uma vez.
(Atenciosamente)
Crs Ribeiro
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#Desafio 188
Entre o Silêncio e o Grito
Verbo calado,
poeta sem páginas,
adormecido nas dobras do burnout.
Espera que a vida o sopre de volta,
preso no arborecer da própria mente:
pensamentos em galhos,
ramificados, espessos,
impenetráveis.
E eu sou incêndio,
não aprendi a sussurrar.
Labareda de urgência,
abraço que arde,
vontade crua de agora.
Quero estrada,
grito, suor, gozo,
pele que fala
e não apenas o verso.
Nos amamos fundo,
como só os desajustados sabem amar:
atravessando paredes,
entrelaçando mentes brilhantes
e almas esgarçadas.
Mas ele precisa se erguer.
E eu, me conter
(e conter, pra mim,
é sangrar em silêncio).
Entre nós,
o tempo é bicho feroz.
Ele o doma.
Eu o acuso.
Eu grito.
Ele se fecha.
Eu cobro.
Ele se encolhe.
Eu espero em dor.
Ele com esperança.
Nesse nó de dois intensos,
com feridas ainda abertas,
nos reconhecemos,
nos repetimos,
nos ferimos
e tantas vezes,
nos curamos.
Queria dizer:
“Vou ficar contigo.”
Mas ele sussurra em clamor:
“Antes, preciso existir.”
E quem sou eu
para exigir voo
de quem reaprende o chão?
Mesmo assim,
me pego sonhando
com a poesia que ele vai escrever,
com o amor que, se for,
será inteiro.
Quando o tempo
decidir, enfim,
nos sincronizar.
Crs Ribeiro
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#Desafio187Geografia do Teu Riso
Nasce,
no arco enviesado dos teus lábios,
uma covinha linda;
do lado esquerdo,
matreira,
quase vinda
de um capricho do tempo,
um desenho no vento
que me prende
e desafia.
E ali se desfaz,
sem alarde,
qualquer traço do meu juízo:
feito prece sem fé,
feito vinho sem taça,
feito gozo sem riso.
Bem ali,
eu derrapo
no acidente geográfico
do teu sorriso,
desatino pacífico,
meu caos mais bonito.
O sulco do teu rosto
me desnuda sem tocar,
desenha, impiedoso,
o mapa de naufragar
onde cada linha é aposta,
e cada curva, um lugar
que
não
quero
mais
deixar.
Crs Ribeiro
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#Desafio 186
Teu nome
na minha boca
é grito abafado.
Teu dedo entra
antes da tua mão,
que entra
antes da tua boca,
que entra
em mim
inteira.
Me abres.
Me usas.
Me lambes.
Sem dó,
sem freio.
Com a pressa de quem quer gozar,
mas também quer
ficar.
Minhas pernas:
abertas,
trêmulas,
desobedientes.
Meu corpo dança
no teu ritmo:
pancada,
gemido,
pausa.
(pausa)
Outra pancada.
Arqueada.
Mais fundo.
Mais forte.
Me atravessas
como se eu fosse tua.
E eu
sou.
Urgência
bordada
em pernas
trêmulas.
Me escorro em ti.
Me desfaço.
Te imploro:
não para.
O gozo vem:
quente,
sujo,
escorrendo
entre minhas coxas,
te batizando.
Sorrio,
arfando,
despenteada.
Fodida.
Fodendo.
Feliz.
E digo baixinho,
mordendo teu queixo:
me doma
sem freio.
Beba de mim
sem cessar.
Crs Ribeiro
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#Desafio 184
Coração sem norte
bate em desalinho
no peito
onde a sorte
desaprendeu o caminho.
O pêndulo
(frouxo)
oscila
entre o querer que queima
e o temer que paralisa.
Minhas rotas:
borradas
falham
em traços dispersos
desenhados por dedos trêmulos
num vidro
embaçado de dúvidas.
No meio do voo
abandonei minhas asas
por impulso
por susto
por poesia.
Girei em falso
num céu de cacos
onde nenhuma estrela
permanece.
Mas há um fio
tênue
teimoso
que não se parte no vendaval.
Não há névoa
nos olhos da minha alma.
Eles seguem:
verdes
nítidos
obstinados.
o único par que me enxerga
sem disfarces
que me acolhe
quando sou espinho.
Esse olhar
me ancora
me amarra no chão
me acende
me aflora
me refaz
em canção.
E eu cubro de volta
sem medo
sem fuga:
me aquieto
no amor.
Sempre vou.
Crs Ribeiro
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