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@CrisRibeiro

Cristiane Inácio Ribeiro Carneiro
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@CrisRibeiro
há 11 meses
Público
#Desafio 072

Caminho

Entre verdes e luzes
desnuda de certezas, exposta, viva.

Não creio
(quase nunca).

Mas há essa força que me toma
esse fulgor que me molda o dia.

A claridade me lambe
a amplidão me fende:
Sê vasta. Sê inteira. Sê tua.

E então,
um gosto doce no ar…

Uma dança mansa dentro do peito
e o corpo vira paz.

Mas é na mente que tudo se alarga
se rasga, se cria.

Por um instante um lampejo:
sou imensa.

E nunca me basto.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 071

No Escuro do Meu Parque

Te espero
e esperar
é esse ir sem chegar
voltar sem ter sido

A ansiedade risca a ida
feito faca desafiada
o cansaço sombreia a volta
com a precisão de um erro

No impulso, voo
e quase invento o céu
no recuo, desabo
sem nem tocar o fundo

Suspensa entre o já
e o ainda não
sou bicho em cio
sou prece sem som
sou corpo gangorra
e nunca aterriso…
tenho medo do chão

Mas o céu também me cansa.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 070

Circoração

Sangue no picadeiro
segue, volta
malabares no ar

arde, solta
leva tudo
deixa nada

nasce em cambalhotas
dança na corda
parte sem rede

quer o fim
e recomeça:
sem nunca chegar

corre, insiste
salta, persiste
é vida febril
trapézio sem mãos

é morte que arde e espera:
riso trágico
em face de bufão.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 069

Insônia

Pássaro preso no peito
bate, bate, bate
não encontra a saída.
Pensamento voa, voa…
perdido no oco da noite.

O relógio, implacável
tic-tac, tic-tac
é juiz, julga sem juízo:
não há indulto
não há clemência.
Para o corpo cansado
não há perdão.

Ironia irônica
ironiza a vida:
quando a cama é ninho
o martelo sentencia a prisão:
levanta!
Raiva rasga, ruge na garganta
até o vazio me engolir.

A cama chama, clama engana.
As horas não param
atrasada estou.
Tenho que chegar a um lugar
que não sei se busco
não sei se desisto.

Não sei se vou.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 068

Ao sul do Equador
onde Natal arde em chamas
renego a língua dos anjos…

Quero gritar “aleluia!”
quando me tocares nua
e me fizeres tua
escrava indócil do teu querer.

Rendida no altar do teu caos
escolho ser, sem receios
estilhaços de mim
no gozo da tentação.

Toma-me, perdição?
contigo peco inteira.

Com devoção.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 067

Ser Mulher

Apesar dos pesares
bendigo-me mulher.
No ventre da dor
semeei-me em flor.

Cada espinho cravado
fez-me amanhecer.
Do pranto vertido:
o amor a florescer.

Aos sonhos perdidos
às mãos que foram rudes
respondi com virtude:
fiz-me candura.

Quando o mundo feroz
quis ser meu algoz
atirando-me ao chão,
ergui-me estrela.

Da vida, gerei vida
mistério e luz.
A esperança guia-me
meu sentir é gratidão.

A faca cortou-me, bem sei!
Dois gumes cruéis:
mágoa e renascer.

Ardeu-me a alma
mas não recuei.
Na ferida aberta
aprendi a viver.

Ser mulher é incêndio
chama insana:
queimar de amor,
de raiva e paixão.

E quando a realidade
covarde
nos profana…
sopramos mais forte:
ventania em ação.

No peito,
levamos um mar bravio
que nunca esmorece:
nunca se dobra
nunca se curva
nunca se rende,
força latente que
ao espelho de si
se reconhece.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 066



Na costura sensível do teu prazer

Teu hálito quente me fustiga. A respiração entrecortada te entrega: tua fragilidade, tua ânsia. Teus olhos cravados nos meus trazem uma súplica velada, um desafio silencioso. Minhas mãos deslizam em tua pele, decifram-te sem pressa. És território aberto, entregue, mas ainda resistente. Essa tensão me fascina.

Exploro-te reivindicando minha conquista. Seguro-te com firmeza, exponho-te sem pudor. A pele esticada revela tua vulnerabilidade latejante sob meus dedos. Dedilho-te como quem toca uma harpa e, a cada movimento, arranco uma nota: um arrepio, um suspiro, uma contração involuntária.

Molho meus dedos na tua boca: um gesto quase sagrado. Te batizo no sal e no desejo. Desço lenta, inexorável, enquanto traço círculos delicados, quase cruéis, na costura onde se concentra tua vontade.

Te beijo como quem se despede antes de uma travessia. Um último gosto teu na minha língua antes do mergulho. E então me ponho a teus pés, não como ato de rendição, mas como quem detém o controle absoluto do teu prazer.

Seguro-te com a reverência de quem segura o inevitável. Minha língua encontra teu frenulum e só ali permanece. Dedicada, obsessiva, negando-te todo o resto. Subo, desço, desenho círculos enquanto minha saliva te marca, te assina, te reclama. Sucções lentas, depois urgentes, depois quase ternas: tortura doce, precisão perversa.

Teu corpo responde como um instrumento afinado: cada fibra, cada músculo, cada estremecimento sob meu comando. Minhas mãos te exploram por baixo, amplificam a tensão enquanto minha língua dita o ritmo. Te vejo sucumbir. Teu olhar se perde, teus lábios entreabertos tentam formar palavras que não vêm. E essa fraqueza só aumenta minha fome.

Tuas mãos se crispam, teu corpo se contrai impotente diante da exatidão da minha língua, da pressão calculada dos meus lábios.

Vês a ti mesmo: ereto, entregue, vulnerável. Me vês devota e faminta, a boca aberta para o teu prazer. A lambida se aprofunda sem que a boca te acolha e não há mais distância. Só a umidade, a textura, o desespero e a rendição.

E quando o prazer te invade uma onda te consome inteiro: olhos, boca, mãos, respiração. E ainda assim, minha língua não para. Minha boca permanece, insaciável. Desejando-te além do gozo, além da carne, além de qualquer fim.

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 065

Viajar

Para fora e dentro de
mim

um desassossego
doce…

Na bagagem, febre e
delírio.

A vida entrando sem
portas,

sem cadeados, sem
avisos.

Relógio? Só o tempo das
marés.

Esse tempo molhado,
distraído

que nem se importa em
passar.

Trafego de peito aberto, alma
nua

vielas de eternidades
miúdas

percorro com sede
absurda

uma fome cruel

de viver até doer,

até ser demais,

até não sobrar
nada.

Crs Carneiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 064

Entre o Salto e o Chão, Você

Abraçou a intensidade dela
sem escudo, sem medo.

Ela, vertigem e furacão
oscila entre êxtase e dor
chama que se desfaz
mar que recua.

Ele, herói improvável
linha tênue entre polos
fio invisível que a sustenta
sem querer prendê-la,
sem conseguir soltá-la.

Ela, à beira do grito.
Ele, suspenso nos entremeios.

No lugar onde os extremos se beijam
nasce o infinito:
um amor que não pousa
mas se recria em voos.

O que seria mais irônica e poética
que a ferida que nos refaz,
nos parte e nos une?

Crs Ribeiro
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@CrisRibeiro
há 1 ano
Público
#Desafio 063

Vela de barco:
tensionada, amarrada, presa.

Nó de azelha
firmando, puxando, enterrando.

Mas quem vai prender o vento?
Quem vai domar a vertigem do mar?

Que me rasgue a carne,
que me curvem os ossos.

Nada estanca o gozo das águas,
o incêndio branco do sol,
o azul que engole a dor e a saudade:
esse chamado obsceno do infinito.

Minha alma desaprendeu a ter bordas:
é fome, é riso de coisa solta.

Guio a direção sem pretender o porto.
Quero a perda, a queda, o voo;
quero o devaneio de nunca chegar.

E, se nunca chegar,
que seja porque me perdi,
que seja porque o chão se fez ilusão.

E eu, vento, me faço mar,
e não há mais volta…

Porque já não sou quem partiu.

Crs Ribeiro
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