Logo cedo, o ar gelado bate em seu rosto. O sol ainda não aquece o que o outono/inverno veio esfriar. Ela sobe as escadas e pega, na rua, um carro, que a levará para outro lugar. Seus olhos procuram o encanto, que se vê, é só procurar . Se você souber , com certeza, irá encontrar. Puxa a respiração lenta, comprimenta a motorista, que a levará. Um coração com a imagem de um cãozinho, balança no retrovisor, e prende seu olhar. Comenta sobre o cãozinho, deixado em casa triste a lhe esperar. A motorista sorri e trocam palavras, sobre amores, que ficam em casa, rabinho a abanar. Ela pensa na vida, de como tem sorte, sempre ao regressar. Marido, filhos e animaizinhos, todos felizes a lhe esperar.
Silêncio, Se perpetua em minha alma cansada. Como sirene, Ecoa, Neste vazio sem fim. Onde a goteira, Dos meus choros, esvaziam, Meus olhos, Pingam. Molham e temperam com sal, Este infinito desgosto. Certamente, Em algum lugar, Entre o desespero e a calma, Que lutam pra me deixar sóbria, Há o conforto do fechar de olhos E o se perder, Na cacofonia dos meus sonhos, Que me parecem, Mais paz do que sono.
Minha vida, Vem sendo feita de lágrimas. Lágrimas de dor, Lágrimas de prazer, De riso, De fé, De medo e de confiança. Algumas delas, saem, Outras, internalizo. Algumas, escorrem em abundância, Outras param, apenas no canto, à espera do desaguar. Salgadas como o mar, Seiva da desesperança. Mas doce mesmo, são aquelas, Que descem na alegria da abundância.
Olhos que vêem, Do que o tempo apagou. Que relembram imagens, Da vida que levou. Dos filhos que viu crescer, E dos que a morte, Tão cedo podou. De tudo que plantou, Colheu e chorou. As lágrimas mais tristes, Que a face enrugada marcou. Olhos hazel, Que mudaram Conforme os sentimentos. Cinza, verde, mel. Carregam o peso da perda, Se alegram com seus descentes. O riso das netas, netos e bisnetas. O dinheirinho sempre escondido, passando de mão em mão. Presente aniversário, Transformando papel em coração.
Quem pudera imaginar Quem ousaria sonhar! Aquele amor, Tão simplesmente, Que acontece na alma da gente. Tem empatia, tem coração, Tem doer, que nunca sentiu, Mas, se na tua alma sangra, Sangro eu e inflama. Mas tem estender, de mãos e abraços. Tem presença, mesmo de longe. Tem permanência. Tem gostar de graça. Tem conversa que é cura. Tem sorriso em meio às lágrimas. Porque tudo que é ela, é força. Força, que por vezes perdemos, E doamos uma à outra. Tem fé, em si mesma. Tem olhar que acolhe. Tem certeza. Quem podia imaginar, Que ao se aproximar O outono da vida, Tanta flor, floresceria.
O simples ato de existir Com sua pura autonomia. Traça sulcos pela terra Como uma sedenta fera. Brota, rasgando tudo pela frente Com seus dedos tementes. E com uma gota suave, Breve chuva, faz irrigar forte, E cresce a flora, com bravura. Colorindo calçadas, Cantos de prédios, Saindo pelas pedras. Enfeitando a visão de qualquer criatura. Dando abrigo quando cresce a todos os seres viventes. Passarinhos, pequenos roedores. E nutrem além de tudo, com frutas e suas sementes. Além de dar ar fresco Ao mundo inteiro, Vida intermitente. E ela que não precisa de nada, nós que somos seus dependentes.
Num surto de reverendíssima besta, Seguem, ludibriando milhares de seguidores. Mente apequenada, desejando ser quem humilha, Desejando ser quem habita, a mansão tão bem quista. Seguem os tolos, iludentes, Picaretas das mais altas patentes. Enriquecem com a burrice alheia, Perpetuando sua própria sementeira. Fofocas, crimes e falsidades. Vendem sonhos em vittines de maldades. Nutrem a si mesmos, iludindo a quem quer que os assista. O importante é ser bem quista, mesmo que o crime se repita. Pousa para holofotes, e os deslumbrados, apequenados, Pedem autógrafo a não bem vista. O que importa é o dinheiro, que afanou "à mão pequena." Investigada, ameninada, fazendo a louca, ri e faz piada. Na certeza de todo rico, Faço de tudo, eu pago isso!
Um dia, eu serei nada. O nada que rasteja entre o musgo da terra, Junto aos vermes e seres minúsculos, Que nutrem a mãe natureza. Um dia, eu serei lembrança. Lembrança doída, sofrida no início, Mas que se dissipará, com o tempo. Um dia, alguém que me conheceu, Verá flores de algum jardim, ou uma borboleta, ou um simples dente de leão, E se lembrará, das coisas que eu amei. Da simplicidade que eu precisava na vida. Da minha risada, das minhas piadas engraçadas e as não tão engraçadas. Do sabor da minha comida. Do meu cheiro. Do meu coração. Do que era mais importante pra mim. Do meu choro. Da minha voz. Por isso, sigo, fazendo memórias, muitas delas gravadas, Caso meu cérebro falhe na velhice. Viver intensamente, tudo que eu sou, e tudo que tenho para dar. Na infinitude do tempo, Tudo desvanece, Mas enquanto eu estiver viva, Tudo que me importa, É plantar sementes. Você as regará?
Sem tua mão, imagino seus dedos traçando os contornos da minha derme. A maciez dos meus lábios. E adentra, minha boca úmida, espalhando, sugando, como se fosse você. Sem pressa, desliza o contorno do meu pescoço esguio, Os dedos molhados Espalhando saliva, até o bico dos túrgidos seios. Picos rosados, arrepiados, arfantes. A imaginação vai longe, num beliscar. A outra mão brinca, abaixo do umbigo. Fabricando desejos, nos meus pensamentos. Desejos que molham e escorrem, por entre as pernas. Que as mãos alcançam. Os nervos tensos, que massageados, explodem orgasmos, Múltiplos, suados. Intensos, aproveitados. Tudo isso com você na imaginação.
Mergulho em tua ausência, Como uma fera sedenta. Me desfaço, no regaço, Inexistente do seu abraço. Desmembro, a alma, E aos pedaços, me embaraço, Na tentativa de me refazer. Sem mim mesma, caminhante, sussurro juras. Traço orações, em papéis rasgados. Peço. Cansaço. Ouço sons, que rastejam, sorrateiros Por entre os dedos, das mãos, vazias, do toque das suas. Como um fantasma, assombro minha tão sensível alma.