Atendente - Perdoe senhora. Não me informaram de nenhuma seleção. Vou perguntar e já volto.
Adriana - Tá bem!
A resposta de Adriana veio carregada de uma tensão crescente, oriunda da ansiedade que tomava conta de todo o seu corpo. Desde pequena ela sofria com taquicardias e sudoreses em situações que fugiam de seu controle. Sua mãe a colocou no teatro por causa disso e a arte foi grande aliada, ajudando-a a melhorar bastante. Só que desde o telefonema e a possibilidade de uma nova chance de mostrar o seu valor, ela sentiu-se mais tensa do que o normal. Não conseguira dormir direito e isto estava incomodando-a demais.
Atendente - Realmente Dona…?
Adriana - Adriana! Adriana Amorim.
Atendente - Então, Dona Adriana. Não está havendo nenhuma seleção aqui hoje. Pelo menos, não nos avisaram nada.
Adriana - Está bem… (um tanto decepcionada)
…
Tamara - Adriana!? Perdoe o atraso!
Adriana - Imagine… Acabei de chegar também!
A voz suave, mas também imponente, surgiu como um tiro, daqueles certeiros e causou uma espécie de rebuliço, uma espécie de combustão, que transformou a antiga tensão em um novo tipo de tensão. Uma dessas que não acontecem rotineiramente, nem propositalmente. Uma dessas tensões que chegam sem avisar e que há tempos Adriana não sentia.
Adriana - (Uau! Não sei se fico insegura ou fico excitada… O que eu tô dizendo!? Tá pensando que tem quantos anos? 15?... Foi uma época boa, mas eu era uma criança. Nada a ver agora! Você é uma mulher casada! Para de pensar bobagens)
Tamara - Vamos escolher uma mesa?
Adriana - Claro, claro! Te acompanho.
Tamara - Aquela, naquele cantinho charmoso. Tem uma vibe bem romântica.
Adriana - (Romântica!? O que ela quis dizer com isso?) - Ali tá bom.
Tamara, desde pequena, foi dessas crianças que atraíam todos os olhares. Inicialmente pelas manhas barulhentas que fazia. Filha única, fazia escândalos que envergonhava os pais, que gente da mais alta classe, tentavam resolver tudo com uma boa conversa. A pequena já era muito esperta e se aproveitava disso a seu favor. Na adolescência os meninos babavam por ela e as meninas também. Todas queriam ser ela. Já na vida adulta, as coisas não mudaram muito e ela adorava… Adorava “maltratar” os homens.
Tamara - Perdoe. Sinto que você está um pouco tensa, um pouco nervosa. Eu entendo!
Adriana - (Entende? Como assim!? Será que ela sentiu a mesma tensão que eu senti?) Ah… Só um pouquinho, mas é que a vida profissional tem sido um pouco difícil ultimamente e de repente surge essa ligação… a sua ligação, falando do teste para elenco. Confesso que fiquei um pouco ansiosa… Mas, me diz mais sobre a seleção.
Tamara - Nós chegaremos lá… Tenha calma. Vamos aproveitar o café… Ainda temos tempo pra conversar sobre todo o resto. Agora eu quero é que você pegue o cardápio, análise bem e escolha aquilo que você sempre teve vontade de experimentar, mas por acasos, nunca provou.
Adriana - (Como ela consegue? Me deixar super nervosa e extremamente calma ao mesmo tempo. Que tempero é esse que ela tem que me atrai dessa forma?) Humm… Tentador esse convite, mas não vim preparada para extravagâncias. Vou ficar no cafezinho básico mesmo.
Tamara - Deixa disso, Dri. Eu sinto que você não é dessas que se contentam com o básico da vida. Dá pra notar, te olhando, que você tem uma ânsia por experimentar coisas novas, novos sabores… Então vai! Faz isso, que é por minha conta. É o meu primeiro presente pra você.
Adriana - (encabulada) Primeiro presente!?
Tamara - Sim, presente! E de onde eu venho, presente a gente não questiona. A gente só aceita.
Adriana - Então, tá! Mas me diga, de onde você vem?
Tamara - Eu venho do mundo! Venho de todo o lugar e ao mesmo tempo de nenhum em específico.
Adriana - (Então você é dessas “femme fatale”, toda cheia de mistérios… interessante. Será uma andarilha, que pula de galho em galho sem criar laços… Ah! Como eu queria ser assim) E desse lugar aí que você veio, tem alguma explicação para não ter mais ninguém aqui para a seleção ou está esperando mais alguém? (Ai socorro! Será que eu fui muito grossa? Não devia ter perguntado desse jeito, deselegante.)
Tamara riu, mas não foi daqueles sorrisos fáceis de decifrar. Estaria ela rindo da maneira, sem jeito, de Adriana perguntar? Ou estaria ela rindo de Adriana. Um riso de superioridade de alguém que está no comando da situação, podendo controlar os rumos da conversa, da maneira que quisesse.
Tamara - Não… Não vem mais ninguém. É apenas você que eu quero!
Tá quase pronto e chega primeiro aqui no Literunico. Breve na Loja
Adriana - Bem que eu poderia ter aceito aquele papel no musical do Shrek. Assim teria dinheiro pra fazer as coisas que quero sem depender de ninguém. Mas não. A Adriana sempre sendo Adriana, sempre cheia de ideais e moral e… sempre de bolso vazio. Difícil isso. Fazer arte hoje em dia é morrer de fome.
Adriana sempre gostou de ler, de tudo. Consumia livros e livros e não só em português. Também lia em espanhol, inglês, francês. Não entendia tudo, mas lia, do seu jeito. Já escrever era um problema. Hora era bloqueio criativo, hora era um compromisso inadiável, hora era o último capítulo da novela. Escrever um projeto pra Edital então, nem pensar. Até tentou com amigos e teve uma vez que contratou profissionais pra escrever os projetos pra ela, mas nada ficava do seu agrado. Difícil!
Carlos - Não acho certo isso de “gourmetizar” as coisas, só pra cobrar mais caro. É se aproveitar da bondade das pessoas. Mas sempre foi assim, desde o início dos tempos, gente querendo se aproveitar das pessoas. Vê lá na Bíblia, os comércios nos templos. Um bando de aproveitadores.
A vida dos dois poderia seguir assim, nessa rotina de conversas recheadas de desencontros e entrelinhas não lidas. No entanto, um telefonema mudaria tudo.
Ah! Se Adriana recusasse a ligação daquele número desconhecido. Certeza que a história seria diferente. Certeza!?
Adriana - Telefone tocando!? A essa hora?
Carlos - Quem é que liga no fixo hoje em dia? Só pode ser cobrança! Você tá com alguma dívida que não me disse?
Adriana - Do jeito que você vasculha todas as contas, eu nem conseguiria, Carlos. Estranho! Desconhecido?
Carlos - Atende!?
Adriana - Atendo!?
Carlos - Não deve ser nada importante. Mas se for atender, atende logo que já tocou duas vezes. A pessoa vai desistir.
Adriana - Não sei. Estou com um pressentimento estranho.
Carlos - Me dê aqui! Deixa que eu atendo!
Alô! Sim… É sim… Sobre o quê seria? Uma seleção! Vou passar pra ela.
Adriana - Me dê aqui!
Carlos - Não vai recusar dessa vez!
Adriana - Não me atrapalhe, senão eu não ouço!
Tá bem… Posso sim… Amanhã de manhã no “Le Bistrô”. Combinado. Muito obrigada! Qual o seu nome mesmo? Estranho… Desligou.
Carlos - E aí, me conta. Qual é a arte que vai aprontar dessa vez?
Adriana - Não sei. Ela não me deu muitos detalhes. Disse que amanhã, no café, explica melhor.
Carlos - Vê lá heim!? Se a proposta for boa, não vá recusar. E caso seja furada, nem entre “viu”. Nós não precisamos de mais gastos.
Adriana - Você não confia mesmo, né!?
Carlos - Eu confio! O problema é que eu te conheço e não esqueci ainda da última.
Não é que Adriana não ganhava dinheiro com sua arte. O problema é que ela gastava tudo que ganhava na produção do próximo espetáculo. E sempre havia o próximo e depois o próximo. “Está pronta a obra que vai revolucionar o teatro. Será um sucesso!”. Nunca era, mas ela não desistia.
“Le Bistrô” era um lugar conhecido pela comunidade do teatro. Se reuniam lá atores, escritores, poetas, cantores e toda a bicharada “importante” da cadeia alimentar. Os papos sempre iam até altas horas, regrados de muitas ideias “absurdas”, revolucionárias, filosóficas e de vez em quando até artísticas. Quase sempre as ideias não saíam do papel, mas quando saíam eram um evento inesquecível… até a semana seguinte.
Em Breve a obra completa, disponível na Loja do Literunico
Tantos passaram por aqui Tantos iguais e tantos diferentes De viajantes do tempo a lunáticos, Sempre apressados, sempre correndo
Tantos ficaram, tantos partiram Locomotivas arrastando o trem do destino Pelas mais variadas estações, Até mesmo as mais remotas e desconhecidas
Extraterrestres, mutantes, Forasteiros num velho oeste Repleto de sujeitos de olhar torto Repletos de medos.. Medos interiores e interioranos
Mocinhas se derreteram em amores Amores que se perderam nos becos Os que se diziam mais machos Se rebelaram e se revelaram Uma grata surpresa, Honestos consigo mesmos
Tantos esqueceram seus ideais E tantos os acharam De tanto cavucar, encontraram petróleo E o ouro tão sonhado
Tantos morreram na busca E tão logo foram esquecidos Já outros deixaram herdeiros Que transformaram tudo em dívidas
Tantas dívidas, Tantas dúvidas, Tanto de vida… Fora um trem que passara tão veloz E quase sempre desgovernado
(Adriana é atriz. É Sonhadora, engajada, vive questionando o seu papel no mundo. Ela é daquelas que sobe no palanque e grita aos quatro cantos os seus incômodos, as suas dores, as suas ânsias de vômito… Adriana “só” queria ser ouvida o tempo todo, e não só de vez em quando, num mundo governado por homens.)
Adriana - Você já percebeu que todo mundo tem certeza, de tudo, hoje em dia!? Todo mundo acha que tá sempre certo!
(Carlos é contador. Viciado em números, sempre preocupado com as contas a pagar, os gastos “desnecessários”, segundo ele e a forma como a população reclama de barriga cheia, segundo ele.)
Carlos - Estão todos certos! Você viu o que falaram sobre a economia no jornal? Eles estão certos! O povo tem de parar de gastar a toa e comprar do mais barato. Agem como se caviar fosse café da manhã!
(Surpreendentemente, ou não tanto assim, os dois são um casal. Você pode até achar isso a coisa mais normal do mundo. Talvez até seja, mas quem é que tem a certeza disso?)
Adriana - Tô cansada de me mandarem textos superficiais, todos cheios de razão. Tudo mastigadinho pro público, pulando de afirmações e afirmações sem chegar a lugar algum. Será que o mundo virou uma música Pop? Quatro acordes que repetem, vem e vão e todo mundo fica satisfeito porque sabe cantar o refrão?
(Adriana é dessas artistas que odeia histórias infantis. Encenar Chapeuzinho Vermelho ou Cinderela seria um pesadelo, praticamente a morte de sua arte. Na sua playlist toca tanta música que ninguém ouviu falar, que não adiantaria mencionar aqui. Vocês não iriam conhecer.)
Carlos - Eu me contento com meu pãozinho com café pela manhã, meu arroz e feijão no almoço e no jantar, de vez em quando eu belisco algo. Afinal tenho de cuidar do peso. Se bem que, você notou que trocaram o padeiro lá do mercadinho. O pão veio diferente da última vez. Não gostei do sabor!
(Para Carlos, qualquer mudança na rotina é um filme de terror. Ele sabe o valor de cada notinha fiscal que entra em casa, afinal, guarda cada uma delas, desde as da gasolina até às dos supermercados. Não haveria profissão melhor pra ele ou haveria?)
Adriana - O sabor das coisas tá mudando. Já não tem mais o mesmo gosto ir para o teatro, assistir às mesmas peças baratas com os mesmos discursos de sempre. Baratas não. Gratuitas! Afinal, segundo você, a gente nunca tem dinheiro sobrando pra essas coisas. Tô cansada, sabe!? De andar descalça e não sentir a sensação de sujar os pés.
(Adriana é artista desde que nasceu. Segundo ela, já sapateava na barriga da mãe e as primeiras palavras foram “merda”, bem antes de falar mamãe. Sua mãe era dançarina de balé. Adriana tinha horror a balé. Tinha a certeza que era uma dança de elite, uma arte sem propósito. No fim das contas teve de aprender balé para um papel numa novela. Acabou não sendo a escolhida.)
Carlos - Não tenho saudade de nada do passado. As pessoas vivem reclamando e dizendo que antes era melhor. Melhor em quê? Hoje é igual a antes, mas diferente. Um caos como sempre. Mas não aqui em casa! Aqui em casa não!
(Carlos não teve uma infância muito fácil, mas não dá pra ter a certeza que foi difícil. O pai era a regra em pessoa e mantinha a casa a cabresto curto. Dizia ele que era assim que as coisas funcionavam e elas tinham de funcionar. No aniversário de 9 anos de Carlos, a mãe foi embora de casa e nunca mais voltou. As coisas tornaram-se ainda mais difíceis e o pai dele desabou por um momento, mas se levantou… E nunca mais se casou.)
Adriana - Queria jantar fora. Experimentar uma comida nova, um restaurante novo. Ou fazer uma viagem, uma cidadezinha qualquer, dessas do interior do Brasil. Conhecer gente, mas gente de verdade, que ainda sente. Você sente falta disso?
(Adriana nasceu no interior do Espírito Santo. Uma cidade pequena, não muito distante de Vila Velha. Mas só nasceu lá, porque logo a família mudou-se pra São Paulo. Na metrópole as coisas mudaram rápido e a mãe logo entrou pra um importante corpo de balé e os pais se separaram. Depois vieram mais dois casamentos, que também não duraram. Adriana aprendeu bastante, conheceu gente bastante, mas não o bastante.)
Carlos - É isso! O pão! O pão era melhor antigamente. Isso eu não posso negar. Aquele pão caseiro que a minha mãe fazia, não tinha pra ninguém. Era o melhor! Não encontro mais esse sabor hoje em dia. E não vou gastar o meu dinheiro suado, nesses gourmetizados que vendem por aí. Nem devem ser bons. Devem ser ruins e com nomes que são cheios de frescura. Croissant, isso lá é nome de coisa gostosa.
(Apesar do abandono, tão cedo. Carlos alimentou durante toda a sua vida um certo carinho, ou melhor, uma nostalgia por pequenos detalhes da infância. Não com uma certeza inabalável de ter realmente vivido tudo aquilo e sim uma certa necessidade de um lugar seguro.)
"Você Tem Certeza?", é a 7ª dramaturgia da série "12 Textos..."
Trata-se de um thriller/suspense, que envolve três personagens principais. Que tal conhecer, só um pouquinho deles:
Adriana sempre gostou de ler, de tudo. Consumia livros e livros e não só em português. Também lia em espanhol, inglês, francês. Não entendia tudo, mas lia, do seu jeito. Já escrever era um problema. Hora era bloqueio criativo, hora era um compromisso inadiável, hora era o último capítulo da novela. Escrever um projeto pra Edital então, nem pensar. Até tentou com amigos e até contratou profissionais pra escrever os projetos pra ela, mas nada ficava do seu agrado. Difícil!
Carlos não teve uma infância muito fácil, mas não dá pra ter a certeza que foi difícil. O pai era a regra em pessoa e mantinha a casa a cabresto curto. Dizia ele que era assim que as coisas funcionavam e elas tinham de funcionar. No aniversário de 9 anos de Carlos, a mãe foi embora de casa e nunca mais voltou. As coisas tornaram-se ainda mais difíceis e o pai dele desabou por um momento, mas se levantou… E nunca mais se casou.
Tamara, desde pequena, foi dessas crianças que atraíam todos os olhares. Inicialmente pelas manhas barulhentas que fazia. Filha única, fazia escândalos que envergonhava os pais, que gente da mais alta classe, tentavam resolver tudo com uma boa conversa. A pequena já era muito esperta e se aproveitava disso a seu favor. Na adolescência os meninos babavam por ela e as meninas também. Todas queriam ser ela. Já na vida adulta, as coisas não mudaram muito e ela adorava… Adorava “maltratar” os homens.
E então? Qual dos personagens te deu vontade de conhecer melhor?
Algo me diz que a gente é foto, tipo polaroid, Que não se apaga totalmente, mas desbota E vai amarelando e ficando, aos poucos, irreconhecível Como aquele VHS velho, com a fita, magnética, toda avacalhada
A imagem, ali gravada, distorce à tela, distorce a vida Que um dia foi e agora é só mais um “não era” O metal evaporado contamina o ambiente fechado Enquanto inalamos produtos tóxicos por todo o lado
O mundo não tinha acabado, mas estava acabado Quando inventaram um novo modo de guardá-lo Modo instantâneo, disseram, tomou conta de tudo Tornamo-nos instantâneos, fajutos, descartáveis
Um reflexo nas fotografias que queríamos guardar, Bem mais próximos de um retrato do que gostaríamos de esquecer