Público
Dentre todos os textos da série "12 Textos p/ Teatro", com certeza este é um dos mais desafiadores. Recorrer à poesia para contar uma história tão dolorida a tantos é, talvez, o desejo interno de suavizar o que não pode ser suavizado, mas que nunca pode ser esquecido.

>> E CONTINUAMOS CONTANDO...

Abri os olhos,
Mil corpos, deitados à minha direita, mil corpos à minha esquerda.
Aos poucos eles se levantaram. E fomos seguindo, caminhando, feito uma criação que
nasce, cresce e se alimenta, até que chega o dia do abate.

Ian - Já vou! Mas você tem mesmo certeza que é seguro lá fora?

Edwiges - Tenho sim! Não precisa se preocupar! Eu já falei com o Vladimir e também com o Hans e eles prometeram te deixar em paz. Aliás, também disseram que não vão mais brigar.

Ian - E você acreditou neles?

Edwiges - Eles pareceram sinceros. Pareceu-me um acordo sério… De cavalheiros!

Ian - Tá bem! Eu vou com você, mas pra onde vamos?

Edwiges - Vamos brincar de esconde nos campos de trigo? Eu adoro e dá pra gente chamar todo mundo.
Como era lindo brincar nos campos de trigo. O Sol iluminava os cabelos ruivos da Edwiges e eles brilhavam… feitos estrelas. O Hans e o Vladmir, sempre brigando, com todos e às vezes entre eles. E quando isso acontecia, todo mundo se envolvia e não tinha como ficar de fora. Estava feito no mundo o estrago.

Hans - Ei Ian! Nós fizemos um trato!

Vladmir - Isso mesmo! E chegamos a uma conclusão.

Hans - Nós prometemos a Edwiges que te deixaremos em paz!

Vladmir - E que não vamos mais brigar entre a gente!

Ian - Nossa! Fiquei surpreso, com tal decisão. Tão adulta.

Hans - O que você quis dizer com isso!? Está zombando da gente, seu…

Vladmir - Calma Hans! Olha a promessa! E a Edwiges tá olhando.

Hans - Você tem razão! E quer saber!? Nós estamos nos tornando adultos sim e não podemos perder tempo com essas bobagens.

Vladmir - Isso mesmo! Chega de perder tempo com bobagens.

Edwiges - Vocês vão se esconder ou não vão!? Faz meia hora que estou contando aqui!

Hans - Tinha até esquecido!

Hans / Vladmir - Vamos!!!

Ian - Eu vou também!

CONTINUA EM BREVE...
Público
O 8º texto da série "12 Textos p/ Teatro Que Escrevi Enquanto Estava Falido" se chamará "Os Cartazes de Ontem".

Que tal uma espiadinha no prólogo da história!?

-- PRÓLOGO

Acordo no meio da noite e ela está lá… na borda da ponte olhando pra baixo. As águas correm ferozes, devido às fortes chuvas dos dias anteriores, expressando sua fúria pelos lixos acumulados por toda sua extensão.

Ela segue lá, imóvel e olhar fixo… perdido.

Só me passa uma coisa pela cabeça, uma dúvida… A salvo ou a empurro?



A cama estava molhada. A roupa molhada do suor frio que reinara na madrugada.
Que alívio! Era só um sonho…

Era só um sonho, né!?



Uma carta sob a escrivaninha, com a assinatura dela e os dizeres:

Nunca te perdoarão pelo que você fez, mas obrigada por acatar o meu último desejo.

O papel velho e amassado, ainda cheirava a tinta… Tinta e chuva.



As ruas estão encharcadas. A chuva se foi, mas nossas lágrimas demorarão muito para secar. Já os cartazes de “desaparecida”, apenas alguns sobraram inteiros. Os demais se foram assim como tudo na vida que se vai… como nós, que um dia também fomos ou será que poderíamos ter sido. A mente já cansada me confunde às vezes e já não sei o que é hoje, ontem ou amanhã… Nem sei mais se a gente é verdade.



Ainda me lembro do dia em que você partiu, mudando-se pra tão longe. As crianças inseparáveis que corriam pela rua de terra, ignorando a presença do tempo, deixaram de existir ali, só restando um fragmento esquecível. Fragmento este que ficou guardado durante tanto tempo.

Anos depois ouvi notícias de que estava internada à beira da morte. Havia cortado os pulsos, num pedido de socorro, um clamor por algo ou alguém e eu não estava por perto.

E foi um pouco antes de saber desse acontecido, é que os sonhos começaram… Malditos pesadelos!
Público
Hoje não estou a fim
De estar aqui ou ali,
Ou em qualquer outro lugar

Hoje só não quero estar,
E já é um bom começo, eu acho
Saber o que não se quer

Sequer pensei, por um segundo, estar presente
Mas parte das obrigações da vida
Ter essa fagulha de nada, dividida
Com semelhantes, entes pensantes

Que provavelmente pensam o mesmo
Desejo de não estar a fim de compartilhar
Com alguém igual a mim, o nada
Que deveria saborear na solitude
Público
Que grosseria, nos tempos atuais, desejar pra alguém um bom dia!
Violentar assim o direito do outro em se contentar com o que é pouco
Querer para ele a alegria, que talvez, mesmo você não queria

E quem é gostaria?

Ter um verdadeiro bom dia, pra ficar relembrando e revisitando
Fazendo de todos os outros, perca de tempo, esquecíveis
Covardia essa, transferir para o semelhante essa carga tão sufocante
Só pra satisfazer o teu ego… tão educado ego… tão invasivo ego

E quem não é egocêntrico, hoje em dia?

Tá se enganando e mentindo pra si mesmo. Que vergonha alheia!
Se preocupar com o planeta, as plantas, os animais… e a gente?
Onde é que fica a gente, nessa busca de completar os “bons dias” tão intransigentes?
Até gostaria que fosse diferente, mas como seria plausível dizer que é. Quando?

Quando é que o dia de hoje, deveras seria um bom dia?

Tenho a esperança inocente de ser o amanhã, restando-me apenas sobreviver no silêncio,
Ou na manifestação do meu protesto que lhe entrego toda manhã
Desejando a você um grandíssimo “Bom dia!”
Público
E quem disse que o #sexxxtou acaba!? Mas só vale ler devorando bem devagar cada... palavra.

Proibido,
Que palavra de gosto amargo
Um doce convite

Estar diante das portas do céu
Desejando intensamente
Ver as aréolas caindo

Imaginar buracos escondidos
Querendo entrar em todos eles
Alimentar a fama de bandido

Distribuir palmadas leves
Até receber pedidos de mais força
Convite a ser dos prazeres submisso

Proibido,
Paredes já não existem no ali contido
Rapto da realidade da carne

Imaginação segue longe
Precisa de um freio
Pra não ultrapassar a libido

Um jogo de poder delirante
A gritos que revelam o enlevo
De ser e estar embalado pra presente

Incêndio que arde
Evapora cada líquido
Recende os cheiros e acende cada sentido

O ápice surge,
Proibido dizer não
Ao pé do ouvido

Deliciosa prisão
Estar livre para devorar
Cada centímetro de pele compartido
Público
Estranho, saber que um dia já fomos conhecidos,
Que já moramos na mesma casa e até tínhamos os mesmos objetivos
E quando a casa se foi e com ela, aos poucos a gente se partiu sorrindo

A amizade, na palavra, se manteve… distante,
Mas a convivência, ou melhor, a sua ausência
Tornou-se presente, deixando a substância que dava vida ao substantivo
Apenas morando numa lembrança boa do passado

Que não era perfeito, porém, havia ali mil significados,
Singelos sim, mas vazios nunca e a gente cuidava com tanto esmero
Uma somatória de “queros”, que se juntavam em ondas e se propagava
Até rebentar na areia e se desfazerem feito espuma

Estranhos éramos, até nos conhecermos pouco a pouco
Tantas afinidades, tantas qualidades mútuas, conjuntas,
Esfaceladas pelo propósito, cada um buscando o seu,
Do jeito que tem que ser…
Do jeito que deveria ser...

E desconhecidos tornamos a nos ver
Mas… Um pouco menos desta vez

>> Estranhos Conhecidos, Tiago Andreatto
Público
E se hoje você parasse e sentasse na calçada
E convidasse aquela amiga de longa data
Que você não vê faz tempo e ficassem lá
Jogando conversa fora, falando sobre tudo e também sobre nada

E se somente hoje, sua vida não fosse correr pro celular
Pra tentar esquecer que o mundo já não é mais um belo lugar
E que o tempo, sempre inquieto, não para de passar
E que logo ali, ali pertinho, ele vai te ultrapassar

O “E se” desse hoje, viraria poesia
E então a outra versão sua, aquela lá do futuro,
Enfim teria, mais um dia gostoso pra se lembrar
E esse dia, talvez até se tornasse, um representante perfeito
De todos os “E ses” do tempo.

Que bom seria, se você, só por hoje, lhe desse esse tempo.
Público
E mais uma vez me pego falando às paredes,
Esperando respostas dos amigos imaginários
Nas telas insensíveis ao toque

Sigo buscando uma conexão verdadeira
Num mundo de falsas promessas
No qual o filtro, que não é de barro, está sempre cheio

Sinto um certo desespero no ar
Que vem de todos os lados
Que opera e torna a ópera algo inoperável

Os sintomas, tão conhecidos
Mas ninguém se preocupa
Em se prevenir da doença

Pandemia evidente
Que todo mundo sente e mente
E finge ser indiferente

Nas paredes e nas telas
Fomos pintados e julgados
Subjugados à resposta final
Público
Poema em homenagem ao nosso amigo @literunico, um verdadeiro pavimentador de caminhos e laços.

>> Seresta Maraviósa

Num faz um tempo,
Conheci um amigo de seresta
Proseemo e cantemo,
Até fizemo uns verso bom a beça

Mas como tudo que é bom
Dura pouco,
A vida chamou
E tivemo de correr às pressa

A amizade não se apagou,
Pelo contrário, mesmo longe só se alargou
E a admiração, coisa mútua
Mesmo na labuta, se fincou

E as raiz cresceu e cresceu
E num é que assim se sucedeu
E mais amigos se apercebeu
E foram chegando e chegando,
Até que viremo um bando

Um desajuste perfeito,
Eita som gostoso de afinado
Cada um compondo uma nota
Dessa seresta, mais que maraviósa