O papel era branco, ingênuo, imaculado até que a caneta – essa serpente – deslizou seu veneno em vai-e-vens molhados, enchendo margens de versos indecentes.
O título? Um disfarce: "Soneto Inocente". Mas o corpo do texto, ah!, traía o enunciado: O verso era quente, a rima, ardente, com trocadilhos que ninguém interpreta errado...
E quando a tinta secou, já era tarde: sem mais pretextos, o sulfite gritava "mais!" em itálico e Caixa-alta, enquanto a caneta, satisfeita, nas folhas abertas
descansava – mas só até a próxima pauta. Moral da história? Até o mais puro dos textos vira pornografia culta nas mãos certas...
Uma camisa. Aberta. Mal esconde os seios. Uma calcinha. Rendas. Delicadamente justa. Você anda como quem desliza ou flutua, Roçando o interior das coxas, pé antes pé...
Debruça sobre mim. Um beijo quente Para aquecer a manhã fria que desperta. Não há sequer uma palavra: o "bom dia" é sorriso, Que, sem dizer, já diz tudo, em melodia.
Deita-se ao meu lado. Com o seu pé Cutuca de leve o meu pé, sobre o edredom: Carícias tão íntimas quanto todas as outras Que trocamos durante a noite.
"Agora, me traz um café. Forte". Tal é o seu pedido, uma ordem, um afago. Um café. Forte. Quente. "Açúcar ou adoçante?" "Nenhum dos dois. Apenas o seu beijo me adoça".
Um gole lento, deixando que eu admire A curva do seu pescoço, onde, há algumas horas, Deixei marcas de mordidas e arranhões, Que serão renovadas daqui a alguns minutos.
Espreguiça-se. Vira o bumbum para mim, E, enquanto isso, estica os dedos em busca De uma caneta e um papel. Inspiração. O café, quente. Seu corpo, mais ainda.
De bruços, rabisca habilmente. Na curva das suas costas, A omoplata banhada pelo sol, que, sobre sua pele, Desliza passeando pelo contorno do seu quadril: Tudo isso é o verdadeiro espetáculo.
Uma calcinha rendada e uma camisa que é minha. Um pouco de perfume de ontem em meio ao meu suor. É tudo o que cobre este corpo, do qual Ainda não consegui me desconectar.
Contorno com os dedos as curvas que a renda faz. "Para", você diz, "Senão não consigo terminar" É um poema, eu sei. Mas, depois de ontem, Nossos poemas não são escritos, são vividos.
Seu café acabou. O meu? Nem chegou a ser tocado. Você se vira e sorri. Cruza as pernas. Lê o poema com os lábios entreabertos, como se cada palavra fosse um toque físico.
"Você me transformou em poema", você diz, Abraçando o papel como se temesse que o poema pudesse escapar. "Foi você quem me fez querer ser musa, Mas é em nós que eu me torno deusa".
"A noite foi sua. A manhã? É minha. Você me trouxe café, mas eu prefiro o sal Que ficou na minha pele quando você foi meu". Nas minhas mãos, o último botão arrancado da camisa.
Enlaça o meu pescoço, me puxa com as pernas, Encosta sua testa na minha, e me invade com os olhos. O café esqueceu de esfriar, mas outras coisas fervem, E o poema? Este já é vida real novamente.
"Não somos poetas", eu sussurro, entre um beijo e outro, "Somos o próprio verso." E assim, entre cafés frios e corpos quentes, Escrevemos - sem palavras - o epílogo perfeito.
A renda da calcinha toca o chão. O café acabou. Os poemas também. Só o que resta é a verdade mais pura: Nós.
Para que serve um poema? Para nada? Para contar uma verdade velada? Para conquistar um coração frio? Para transbordar sentimentos até ficar vazio?
Para quem escrevo um poema, me diz? Para que eu mesmo possa ser feliz? Para que eu me liberte? Me solte? Para que aquele Amor, um dia, volte?
A arte do poema está em transmitir Verdades de de mim que não saberei sentir E esperar que quem o leia o entenda E que, no seu íntimo, uma fagulha se acenda.
O poema cumpriria seu propósito, então: Convidar aquela pessoa à reflexão. Ela o leria e entenderia o que digo: Meu poema, então, seria seu melhor amigo.
E, ao pensar no que eu, calado, lhe diria Através da minha reles poesia, Esta pessoa entenderia que, também, Eu lhe faço pensar, e lhe quero bem.
Mas, e se o que eu tenho pra dizer não lhe apraz? Se ela entender errado, então, como se faz? Se a minha mensagem não lhe for direta, É sinal, então, de que não sou um bom poeta.
E se minha ânsia de verdades indizíveis Me privar de futuros felizes e impossíveis? Então devo guardá-lo para mim, apenas, Porque não quero me meter nos seus problemas.
Então, anjo, não fique brava comigo. Meu poema só pretende ser abrigo Do que eu acho que se deve ter na vida: E, assim, ele terá sua missão cumprida.
Meu poema não pretende dar lição: Está não é, enfim, a sua função. Ele só quer te mostrar que os seus medos Não deveriam te privar de novos enredos.
Ele só quer me livrar da necessidade De te contar a mais profunda verdade: Que só existe para o poeta te dizer Que te ama tanto que não quer te ver sofrer.
Ainda está escuro. Tento abrir os olhos, um de cada vez. As pontas dos cabelos me revelam que o frio é intenso lá fora; o frio é intenso mesmo ali dentro do meu quarto, fora do universo que se encerra abaixo do meu edredom. Um dos olhos abertos tenta dar uma esticada até o relógio, para saber as horas; a íris reclama do frio que bombardeia o globo ocular, e a pálpebra volta a protege-la. O outro olho tenta; agora é a sua vez. São seis e quarenta e oito, é o que consegue decifrar a retina. Quarenta e oito! Faço um movimento com a perna. Um mísero movimento. Ela sai do seu lugar de conforto e vai para um canto mais frio da cama, aquele canto que o edredom não aqueceu porque, até aquele momento, não havia nenhuma perna ali para ser aquecida. O edredom é um ser inteligente: usa seu poder de aquecimento em pontos específicos da cama, justamente para proteger aquele que lhe é senhor. Volto correndo com a perna ao lugar de origem; este será o último movimento que farei com esta perna. Estico a mão e pego o controle da TV. Está passando um documentário em alemão sobre a Tchecoslováquia. Deixo o volume no mínimo para não acordar minha amada; ela não gosta de tchecos ou alemães, não gosta de documentários invadindo a madrugada e, como eu, não gosta de ter que acordar em manhãs de frio. No mundo dos sonhos da minha amada, ela nem faz questão de saber que existiu, em algum tempo e lugar, um país que era dois, depois de ter sido vários, e que acabou virando nenhum. Ela não precisa entender alemão em seu träumerei. Tampouco eu preciso entender o que dizem: a mim basta que meus olhos se movimentem um pouco, que os tímpanos se aqueçam, que o cérebro comece a pegar no tranco. As ruas tchecas são tão frias quanto o mundo lá fora. A voz do narrador alemão vem embargada daquele vapor que nos sai da boca nos dias frios; vem sedenta e carente de um bom conhaque para aquecê-la. Hitze, bitte! Há chuva lá fora. As gotas batem na janela e no telhado, e parecem que vão acabar escorrendo ali, na minha cama. Sinto mentalmente o pingar nas roupas, no chão, sinto calafrios imaginários, sinto que preciso me levantar e ir trabalhar logo. Sinto frio e sinto que o mundo lá fora não importa, seja aqui ou na antiga Tchecoslováquia, seja heute, gestern ou langen Zeit. Deixa a chuva lá fora no mundo que imagino ser real; é aqui que quero ficar, com minha amada e meu edredom, no meu universo particular. Quero ficar aqui, abraçado a ela, sentindo o calor do seu corpo a dormir, sentindo que poderia ficar ali por milhares de quarenta-e-oitos minutos, sem me cansar. Mas o despertador desperta. Cumpre sua função, de fazer barulho e se tornar insuportável. Cumpre sua função, de destruir com um ruído todo aquele universo maravilhoso de instantes atrás, e, ao mesmo tempo, fazer o ruído das gotas parecerem um atrativo a mais para sair da cama. O despertador desperta, como a me dizer: “E agora? Vai me dar atenção ou eu vou ter que ficar aqui, gritando com você?”, sendo que o simples fato de prestar atenção em qualquer coisa já me faz entender que estou acordado, que não há mais volta, que chove lá fora e a Tchecoslováquia ficou no passado e o que tenho é o hoje e tenho que levantar. Ele apenas cumpre a função para a qual foi criado, e a cumpre bem, e não o posso condenar por isso. Levanto. Jogo as pernas, o cabelo e os olhos ao frio de fora. Já o dia não está mais tão escuro. Respiro fundo, olho para a cama e para a amada (que neste instante se fundem em uma única aspiração) e lhes digo, em tom de melancolia: Vou ali na Tchecoslováquia. À noite a gente se encontra novamente.
Te amar é terreno fértil; Imensidão de possibilidades e riscos. É como ficar preso em um universo, Ou em um poema que já nos diz tudo.
Te amar, Amor, é ser vassalo De um senhor que não nos cobra nada; De um rei a quem sempre sonhamos em servir. De um Deus que escuta o corpo antes da oração.
Te amar é assim: ficar preso à liberdade De poder ir embora quando quiser, E nunca, nunca ousar querer.
Te amar... Ah, te amar é poder te amar! É poder ser teu e te fazer minha, Sem que nenhum de nós precise ser de ninguém.
Gosto de te ver no dia-a-dia, Através da vida que você deixa à mostra. Gosto de saber que está feliz, Sem saber se, de fato, és feliz.
Gosto de te ouvir sem que me digas, De te saber pelo que contas aos outros. Gosto de pensar que estás bem: É meu consolo e incentivo.
A mim, me apraz sentir seus sentimentos Se condensando em algo mais controlável. Mesmo que, a mim, reste a eterna Ilusão e adaga do "e se".
Gosto de te fazer carinhos de longe – carinhos que, sei, você não sente mais. Gosto de fingir que és minha Tanto quanto sei que sou teu.
São só poemas, eu sei. Eles conversam sozinhos Com todas as pessoas que os lêem. Não são teus, não são meus, nem.de ninguém São apenas o que podem ser.
Gosto de sentir que a vida é rima Perfeita para o que nos.reserva o futuro; Mas bem sei que nem a métrica, nem a semântica, Tampouco o seu coração me permitem está ilusão.
Mas, nem por isso, sou mais triste; gosto De imaginar que sou feliz, e, às vezes, consigo: Seja na lembrança de uma voz rompendo o sol, Seja nos planos que ainda tenho aqui, guardados.
Gosto de fechar os olhos, e acreditar, Por um momento, que estás aqui. Mesmo que não possa mais sonhar: Gosto de ti.
A caneta desliza no papel, mas arranha. Deixa nele um rastro de sujeira. Insinua, rasga, roça, mela e assanha, Umedece e preenche a folha inteira.
E a folha, desfolhada em poesia, Oferece seu espaço alvo e macio; A caneta, a desfilar em acrobacia Sobre o branco inocente e vazio.
A caneta - mastro rijo e cuidadoso, Deita à folha os mais belos devaneios, A pintar a celulose com saboroso traço de amor e sonhos, sem rodeios.
Mas a folha, já desvirginada em versos, 'Inda anseia por um desfecho sutil: Um soneto, que desbrave os universos Que ela própria jamais ousou nem sentiu.
A caneta é um bastão que faz carinho na suavidade íntima e sem cor de uma folha que recebe em seu caminho Fino traço, a colorir o amor.
❤️O ABRAÇO❤️ (isso era uma crônica, mas converti em versos e rimas... Espero que gostem)
❤️❤️❤️ O ABRAÇO ❤️❤️❤️
Seu perfume não combina com seu vestido: Você deve se despir de um, então. Seu perfume, no nosso suor, dissolvido; Seu vestido ficará melhor no chão.
Ponho o meu peito em suas costas; dos seus ombros Tiro as alças que levam ao chão o pano E por dentro da lingerie, com tesão e assombro, Vejo todo o teu corpo, perfeito, insano.
Meu olhar te devora, ébrio e faminto Em suas curvas, minha alma afoga e inunda. A Sua boca me promete um labirinto, E meu corpo já clama por sua bunda.
Te envolvo: mão direita em seu umbigo, E a esquerda te acariciando o seio. Me encaixo na sua bunda, e consigo Que meu volume se acomode ali no meio.
Seu gemido, qual um anseio, ao sentir-me Respirar na sua nuca, e, afinal, Abre as nádegas com as mãos, para que meu firme Membro em riste, encontre seu orifício anal.
Puxo sua calcinha para o lado, afastando-a do meu dedo, que ora desce, desbravando os pelos, em busca do molhado Vale do prazer que você me oferece.
Seu quadril responde, se elevando, Buscando o toque que o corpo já adivinha. No ritmo do nosso amor, me entregando, O teu calor pulsante, que a mim aninha.
"Arrebita, vadia, esse traseiro", Eu sussurro em seu ouvido, e o arrepio Percorre como um raio o seu corpo inteiro, Como uma loba, como uma gata no cio.
Você obedece, já rendida ao prazer Do seu instinto animal, selvagem, bruto. E, ao sentir meu toque a te estremecer, "Gostoso...", você diz, em fogo absoluto.
E, uma vez senhor das tuas partes desnudas, Eu puxo o seu corpo para mim, e então, procuro Abrir espaço entre suas nádegas carnudas Para invadir com o meu membro forte e duro.
O êxtase toma conta, em gozo profundo, Nossos corpos se torcem, sem mais segredo. Um universo em nós, desfeito e fecundo, Explode em êxtase, sem culpa e sem medo.
Um dedo à frente, um pau atrás, a mão no peito: Você é minha por completo, e, nesse abraço, Eu te envolvo em sexo, e me deleito, Te faço mulher, e, enfim, te satisfaço.
Dura ausência... Fosse o nosso amor, Conto de Fadas, Não teria a nossa História as duras penas, Os momentos de solidão fria, os mais nadas, Os sentimentos de falta das tuas mãos pequenas, A Tua Essência.
Duros enganos... Fosse as nossas vidas, uma somente, Sem os sofrimentos que minh’alma devora, Sem que precisasse plantar, de meu amor, a semente E esperar o fim da tempestade para germinar ante a aurora Longos anos.
Desencontros banais: O Tempo, a distância, uma nova vida, um novo alguém Não são para mim empecilhos para que ainda possa ter Os teus carinhos, pois sei que vou chegar além Até que um dia eu conquistarei você Nada mais.
Mas para que o teu coração eu um dia alcance, Precisarei ser muito mais que um adolescente: Terei que ser homem à altura do teu amor E te fazer feliz, mas para que eu tente, Sem mais ter que suportar tamanha dor, Me dê a chance.