Não é que o autista te viu e não quis falar com você; É que ele estava com os olhos em algum lugar de Nárnia, que, neste universo paralelo, dividia as mesmas coordenadas com o espaço onde você estava. Não é que ele não prestou atenção ao que você falava, porque não estava interessado; É Que ele simplesmente estava ouvido todas as vozes que falam mais alto que você (inclusive aquela, do outro lado do vagão do trem). Não é que ele esteja olhando para os seus peitos; Ele está olhando é para o brilho diferente que aquele seu pingente faz sobre a luz. Não é que ele esteja olhando pra sua bunda; O que ele está mergulhado é no amassadinho do botão do bolso de trás, aquele que tem um furo levemente oblongo no meio. Não, ele não está te encarando porque quer te seduzir; Ele só está notando uma simetria entre duas minúsculas pintas ou poros do seu rosto, que formam padrões que podem inclusive ser lidos. Ele não quer te desmentir ou te colocar em situações constrangedoras; Ele só não consegue entender o que você diz, e, então, tenta explorar pra ver se te entende.
Esse é o autista. Mas, lembre-se: às vezes, ele está interessado. Às vezes, ele olha para os seus seios ou seu bumbum, pensando como alguém pode ter um corpo tão perfeito. Às vezes, ele olha para o seu rosto escrutinando a beleza que há nos seus olhos, na sua boca, na comunhão entre ambos. E, às vezes, ele se torna inconveniente apenas porque quer conhecer melhor aquela pessoa que tanto o atrai. Nem sempre ele sabe lidar com o que vê, nem com o que sente. Ele quase nunca sabe...
Releve. Perdoe. Leia-o. Nós somos pessoas adoráveis e apaixonantes, se você nos der a chance.
Eu queria escrever um poema triste Em um papel caríssimo de arroz japonês, Ou num papel Amalfi italiano, Com caneta Meisterstück
E, depois, lentamente, derramar sobre ele O meu melhor perfume, Para que o álcool manchasse a tinta Como se fosse uma aquarela de lágrimas.
E, antes que o álcool evaporasse por completo, Eu o queimaria, e ficaria admirando Minhas palavras tristes se dissolverem Em fumaça e cinzas mornas.
E, então, eu diria em silêncio ao meu coração: "Está feito. Acabou. Essas palavras Não mais irão morar em ti, E, talvez, nem mais na minha lembrança."
Só que o coração, esse sem-vergonha, Não entende símbolos. Ele entende é toque, Ausência, cheiro, gesto interrompido. E esses... não dá pra queimar.
Não, não há ritual. Há resiliência. Às vezes, o próprio poema sabe quando acabou. Mesmo que a gente sinta que ainda falta algo que pode ser só o silêncio.
Às vezes, o melhor ponto final É quando a gente para de escrever porque já disse tudo o que doía. Até fazer esse silêncio virar título.
Esse texto, este poema triste É como uma confissão que termina na exaustão. A respiração curta do arrependimento. O que vem depois... já não é mais poema. É cicatriz.
Meu corpo não gosta de mim. Meu coração faz o que quer. Meus dedos me traem. Minha mente busca o que eu não quero mais pensar.
Fico anos, milênios, controlando os instintos, Suportando o "não querer", Sufocando os suspiros. Mas meu organismo - esse ser de carne e osso e nenhuma razão Esse será de comportamento e moral indizível Sempre está à espreita, Para me desmontar em fraqueza, carência e saudade.
Não é pra ser assim. Não é assim que eu sou. Eu sou alguém com capacidade e potencial. Um potencial que nunca vira realidade, Uma capacidade que nunca transborda. Eu sou... Quem?
Alguém que sabe que causa mal ao outro, Mas que insiste. Alguém que sabe que deve esquecer, Mas não expulsa da cabeça. Alguém que pensa que a vida vai continuar, E sempre, sempre tem razão.
Já devia ter excluído todas as mensagens, Apagado as memórias e conversas, Mas hoje... Hoje, meus dedos me traíram E eu te traí. Traí seu desejo de não falar mais Traí a minha própria ausência, que estava te fazendo tão bem!... Traí a sua expectativa de que seria fácil pra mim.
Mas não fui eu. Eu não sou assim. Foram só meus dedos, meu coração e minha mente, Esses seres involuntários que, insistentemente, Procuram esperanças onde só sobraram cinzas mornas...
Hoje Nelson Mandela estaria fazendo aniversário. Para relembrá-lo, posto aqui um poema que fiz por ocasião da sua morte, em 2013.
Morreu Mandela. Mouro mandatário dos miseráveis. Marco da milícia dos magros, Dos maltrapilhos. Dos mutilados. Dos mortais. Dos muitos que merecem a mudança, Que morrem por mesquinharias Nas mãos de malditos. Miocárdios machucados, Mentes em mordaças, Máscaras de melanina. Morreu Mandela. Mito, Mago, mais-que-humano. Merecedor das maiores mazelas, E das menores máculas. Por mostrar-nos que o mundo é mais O mundo é macro. O mestre é maior que a morte. Morada das minhas Melhores memórias: O Mundo é mudo. Morreu Mandela.
E se um dia, numa esquina: "Oh! Você? Olá, menina!" "Como vai? Você está bem?" E me sorrires também, E, assim, a brisa fina Das paixões que vão e vêm Nos será a heroina De um romance ou algo além.
E se um dia, com esmero, Te mostrar quanto te quero, E o quanto podes ser minha, Mesmo que não estejas sozinha!... Acho que, sendo sincero, Lembrarás do amor que tinha E, nesse dia, eu espero, Tornar-te-ás minha rainha.
Ah! Se um dia, um belo dia, Te chamar com alegria "Oi, sumida!", e você, Aproveitar pra dizer: "Há muito que eu queria Contar que sua eu vou ser: Não fique triste, sorria! Nosso amor vai renascer!"
Ou, se um dia, o seu juízo Lhe aconselhar, sem aviso: "Não apague o seu ardor! Vá atrás dele, onde for!" Você sabe o que é preciso: Me procure, por favor, E me diga, com um sorriso: "O que eu sinto é amor".
Mas, um dia, se pensar Que ainda pode me amar, Não se envergonhe: me chama, Que eu corro pra sua cama!... Mas, até lá, vou esperar, Sem fazer, da vida, um drama, E com a certeza singular Que só se tem quando ama.
Se fosse o que eu procuro Se tu fosses mais maduro Se a boca fosse maior Se o hálito fosse melhor Se o cabelo fosse escuro Ou o olho de outra cor Se não fosse isso, eu juro Te daria o meu amor.
Se a viagem fosse pra longe, Se eu não quisesse virar monge Se meu namoro fosse aberto Se o que sinto fosse certo Se a coragem não me foge Se a viagem fosse pra perto Ah, meu bem, se não fosse hoje Eu seria teu, decerto.
Se eu ficasse com saudade Se eu tivesse vontade Se o que eu sinto por ti Fosse impossível não sentir Se fôssemos da mesma idade Se meu emprego permitir Se eu te amasse de verdade Já estarias aqui.
Se houvesse mais sentimento Se fosse em outro momento Se não fosse só paixão Se não fosse o coração Ou o tamanho do “documento” Se fosse em outra encarnação Sem as desculpas que invento Serias uma opção.
Se não fossem tantos "ses" Marido, mulher, bebês Se eu fosse bi-homo-cis Se fosse em outro país Se fosse essa a nossa vez Se fosse o que eu sempre quis Talvez – e apenas talvez Seríamos um par feliz.
A alegria está aqui. Mora aqui, em mim. Não é estar feliz "apesar de", Não é estar feliz "quando acontecer" Nem estar feliz "ainda que".
É ser feliz sem condicional, Ter um sol interno, a irradiar Em "Bom dia" e "Obrigado". Em sorrisos.
Não há derrota. Há a vontade de viver Que vira versos diários e intensos. Há um dia que vira poesia a cada instante.
Hoje, o espelho me sorriu, Não para lembrar daquilo que não ficou: Mas para me oferecer um café, E brindarmos o que permaneceu em mim:
Sonhos. Planos. Sentimento a ser vivido. Presente.
E hoje, quero ler até cair no riso, Quero rir até que a inspiração ouça, E, curiosa, venha estar comigo Para me incentivar até escrever.
E quero escrever até cansar e ficar satisfeito, E, então, com tanta vida já escrita, Me sentar e tornar a ler...
Mas... E se ainda houver cacos no meu coração? Ah, quero, então, pintá-los em cores vivas Fazer um vitral no peito, E deixar que meu sol interior ilumine o meu caminho.
Não caibo mais em métrica nem rima: Hoje, sou meu próprio amor. Hoje, sou meu próprio sol. Meu próprio eu e meu próprio fim. Em mim.
Cavalgada (Pra não perder o jeito - se é que já não perdi...)
Deitado, lendo um livro. Apareces na porta, sorriso maroto. Chemise semi-transparente sobre os ombros Tentando ajudar as rendas negras A esconder o escândalo que é o teu corpo.
A chemise saindo corpo, vai para a ponta dos dedos. Você a gira sobre a cabeça, e joga em mim. Fechou o livro e aproveito a vista: A visão do paraíso que sei ser meu.
*Vem cá, meu bem, quero te contar uma coisinha...* Você vem - dois passos. Sorriso sapeca. Dois polegares entre a pele e a renda da calcinha, Descendo, descendo, a cada passo.
A calcinha na ponta dos dedos, Girando sobre a cabeça, Voando até o meu rosto.
Seu cheiro. Molhada. Deliciosa. Descubro o meu rosto, e me descubro em brasa: Algo se move dentro da minha peça íntima. Crescendo, crescendo, a cada passo.
*Vem, meu bem, quero cochichar no seu ouvido* *Tudo o que pretendo fazer com você... * Você nota o volume se expandindo, E entende que aquela peça já está apertada demais.
Puxa para baixo, seus olhos me encarando, O sorriso ainda preenchendo os seus lábios Mas, agora, disputando espaço Com algo maior, mais quente e mais intenso.
*Isso. Delícia. Beija. Lambe* Mas nem preciso dizer, você é mestra. Especialista em me levar à loucura, Me olhando entre os cabelos desarrumados.
*Vem mais pertinho, Amor, que eu te conto* * o que tá passando pela minha cabeça.* A cueca, nas pontas dos seus dedos, Gira sobre a cabeça e voa pra longe.
Te puxo pra perto. *Senta aqui, senta...* Você apoia as mãos no meu peito. O livro está jogado ao lado da cama, Observando seu quadril procurando o encaixe.
E quando encaixa... Ah!... Peças perfeitas! Um gemido, um grito, cabeça para trás. Minhas mãos seguram sua cintura, Ajudando e regendo o movimento.
O sutiã, na ponta dos seus dedos, Girando sobre a cabeça, Voa, nem sei pra onde: No meu rosto, apenas dois seios suados.
*Mais, poeta, mais!*, você sussurra, Rouca, olhos nos meus Provocando e devorando meus pensamentos. *Vem cá, seu puto, deixa eu te cochichar de novo.*
Eu sou poeta. Teu corpo é verso. Uma cavala que cavalga e chama. Arfa, sobe, desce, geme, grita. Crava as unhas no meu peito e os olhos na minha alma.
O juízo, na ponta dos dedos, Girando sobre a cabeça, voa longe; Teu gozo vem como um frenesi incontrolável, Em teu cavalgar intenso e galopante.
*Ah, poeta, me mata, me inunda!* Você se deita no meu peito já arranhado Suando, arfando, buscando o ar e os sentidos. Corpo amolece, sussurros que conversam:
*– Porra, poeta, você me pegou de jeito.* *– Que striptease! Adoro quando você faz isso.* *– Você me tira do sério, eu não resisto.* *– Quero ser teu pra sempre.* *– Te amo. Cada vez mais...*