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Tiago Bianchini Fidalgo
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Público
Caixas de histórias

Hoje comecei a desmontar o estoque da RHJ em São Paulo. Nós terminamos nossa parceria, e preciso devolver os livros que estão aqui.
O sentimento é de... Não sei. É de que uma parte da vida foi embora.
A cada livro encaixotado, a cada estante esvaziada, me vinha na lembrança a beleza do estoque cheio, dos livros novos que chegavam, e que eu separava sempre um para ler em casa. A cada caixa fechada, o barulho da fita me trazia à lembrança o cansaço acumulado de feiras intermináveis, onde eu conhecia tantas pessoas adoráveis, interessantes, artistas.
Enfim, é duro perceber que a vida é toda feita de ciclos, alguns que nós nunca estamos preparados para fechar, outros que nem ousamos iniciar. Fico pensando no que eu poderia ter feito melhor (e, sim, tenho a autocrítica para saber que podia ter feito muitas coisas melhor). Fico pensando no passado que vivi, mais do que no futuro que preciso decidir.
Sou melancólico. Mais que isso: sou nostálgico. E isso é triste, porque, a cada ano, tenho menos vida para viver e mais coisas para recordar... Não sei lidar com isso. Não sei olhar pra frente. Mesmo que eu precise, porque, mês que vem, tenho prestações vencendo, agora sem o salário com o qual contava.
Não era para eu estar desesperado? Talvez eu esteja. Mas a dor da perda, da nostalgia, do que "poderia ter sido", é complexa; uma pessoa como eu sente muito mais que qualquer outra.
E o pior é que a nostalgia é uma dor doce, uma dor da qual nos alimentamos e nos confortamos. Não é uma dor que nos espeta, da qual queremos nos livrar. É uma amante sedutora e envolvente, que nos prende com a falsa ilusão de que precisamos dela. A nostalgia nos faz achar que é algo bom de se sentir, quando, na verdade, é apenas algo que deve ser guardado.
"Bola pra frente", dizem. "Você é muito mais capaz que isso". "Você tem potencial pra muito mais". Mas não sei ser assim. Vivo num luto sem fim, de tentativas falhas, de dor e saudade e desilusão. Mas me visto com a melhor máscara, com a melhor roupa e com o pouco que há de bom em mim para aparecer e criar e fingir que tenho algum sucesso.
Hoje, com os livros indo embora, sinto que perdi algo intangível, algo que vou ter saudade e vou remoer. Vou pensar milhões de vezes nas vezes em que estava indo para o Box, em que estava arrumando os livros e fazendo planos. Vou deixar doer, mesmo que seja uma coisa muito fugaz e melodramática - pois sou assim, e não sei sentir pouco.
Hoje perdi algo que não cabia em caixa nenhuma. Amanhã volto para desmontar as estantes.
Público
Leia-me como um Poema

Não é que o autista te viu e não quis falar com você;
É que ele estava com os olhos em algum lugar de Nárnia, que, neste universo paralelo, dividia as mesmas coordenadas com o espaço onde você estava.
Não é que ele não prestou atenção ao que você falava, porque não estava interessado;
É Que ele simplesmente estava ouvido todas as vozes que falam mais alto que você (inclusive aquela, do outro lado do vagão do trem).
Não é que ele esteja olhando para os seus peitos;
Ele está olhando é para o brilho diferente que aquele seu pingente faz sobre a luz.
Não é que ele esteja olhando pra sua bunda;
O que ele está mergulhado é no amassadinho do botão do bolso de trás, aquele que tem um furo levemente oblongo no meio.
Não, ele não está te encarando porque quer te seduzir;
Ele só está notando uma simetria entre duas minúsculas pintas ou poros do seu rosto, que formam padrões que podem inclusive ser lidos.
Ele não quer te desmentir ou te colocar em situações constrangedoras;
Ele só não consegue entender o que você diz, e, então, tenta explorar pra ver se te entende.

Esse é o autista.
Mas, lembre-se: às vezes, ele está interessado.
Às vezes, ele olha para os seus seios ou seu bumbum, pensando como alguém pode ter um corpo tão perfeito.
Às vezes, ele olha para o seu rosto escrutinando a beleza que há nos seus olhos, na sua boca, na comunhão entre ambos.
E, às vezes, ele se torna inconveniente apenas porque quer conhecer melhor aquela pessoa que tanto o atrai.
Nem sempre ele sabe lidar com o que vê, nem com o que sente. Ele quase nunca sabe...

Releve. Perdoe. Leia-o.
Nós somos pessoas adoráveis e apaixonantes, se você nos der a chance.
Público
...

Eu queria escrever um poema triste
Em um papel caríssimo de arroz japonês,
Ou num papel Amalfi italiano,
Com caneta Meisterstück

E, depois, lentamente, derramar sobre ele
O meu melhor perfume,
Para que o álcool manchasse a tinta
Como se fosse uma aquarela de lágrimas.

E, antes que o álcool evaporasse por completo,
Eu o queimaria, e ficaria admirando
Minhas palavras tristes se dissolverem
Em fumaça e cinzas mornas.

E, então, eu diria em silêncio ao meu coração:
"Está feito. Acabou. Essas palavras
Não mais irão morar em ti,
E, talvez, nem mais na minha lembrança."

Só que o coração, esse sem-vergonha,
Não entende símbolos. Ele entende é toque,
Ausência, cheiro, gesto interrompido.
E esses... não dá pra queimar.

Não, não há ritual. Há resiliência.
Às vezes, o próprio poema sabe quando acabou.
Mesmo que a gente sinta que ainda
falta algo que pode ser só o silêncio.

Às vezes, o melhor ponto final
É quando a gente para de escrever
porque já disse tudo o que doía.
Até fazer esse silêncio virar título.

Esse texto, este poema triste
É como uma confissão que termina na exaustão.
A respiração curta do arrependimento.
O que vem depois... já não é mais poema. É cicatriz.
Público
Corpo de delito

Meu corpo não gosta de mim.
Meu coração faz o que quer.
Meus dedos me traem.
Minha mente busca o que eu não quero mais pensar.

Fico anos, milênios, controlando os instintos,
Suportando o "não querer",
Sufocando os suspiros.
Mas meu organismo - esse ser de carne e osso e nenhuma razão
Esse será de comportamento e moral indizível
Sempre está à espreita,
Para me desmontar em fraqueza, carência e saudade.

Não é pra ser assim. Não é assim que eu sou.
Eu sou alguém com capacidade e potencial.
Um potencial que nunca vira realidade,
Uma capacidade que nunca transborda.
Eu sou... Quem?

Alguém que sabe que causa mal ao outro,
Mas que insiste.
Alguém que sabe que deve esquecer,
Mas não expulsa da cabeça.
Alguém que pensa que a vida vai continuar,
E sempre, sempre tem razão.

Já devia ter excluído todas as mensagens,
Apagado as memórias e conversas,
Mas hoje...
Hoje, meus dedos me traíram
E eu te traí.
Traí seu desejo de não falar mais
Traí a minha própria ausência, que estava te fazendo tão bem!...
Traí a sua expectativa de que seria fácil pra mim.

Mas não fui eu. Eu não sou assim.
Foram só meus dedos, meu coração e minha mente,
Esses seres involuntários que, insistentemente,
Procuram esperanças onde só sobraram cinzas mornas...
Público
Mandela

Hoje Nelson Mandela estaria fazendo aniversário. Para relembrá-lo, posto aqui um poema que fiz por ocasião da sua morte, em 2013.

Morreu Mandela.
Mouro mandatário dos miseráveis.
Marco da milícia dos magros,
Dos maltrapilhos.
Dos mutilados.
Dos mortais.
Dos muitos que merecem a mudança,
Que morrem por mesquinharias
Nas mãos de malditos.
Miocárdios machucados,
Mentes em mordaças,
Máscaras de melanina.
Morreu Mandela.
Mito, Mago, mais-que-humano.
Merecedor das maiores mazelas,
E das menores máculas.
Por mostrar-nos que o mundo é mais
O mundo é macro.
O mestre é maior que a morte.
Morada das minhas
Melhores memórias:
O Mundo é mudo.
Morreu Mandela.
Público
Amor (im)Possível

(poema gêmeo do poema de ontem)

E se um dia, numa esquina:
"Oh! Você? Olá, menina!"
"Como vai? Você está bem?"
E me sorrires também,
E, assim, a brisa fina
Das paixões que vão e vêm
Nos será a heroina
De um romance ou algo além.

E se um dia, com esmero,
Te mostrar quanto te quero,
E o quanto podes ser minha,
Mesmo que não estejas sozinha!...
Acho que, sendo sincero,
Lembrarás do amor que tinha
E, nesse dia, eu espero,
Tornar-te-ás minha rainha.

Ah! Se um dia, um belo dia,
Te chamar com alegria
"Oi, sumida!", e você,
Aproveitar pra dizer:
"Há muito que eu queria
Contar que sua eu vou ser:
Não fique triste, sorria!
Nosso amor vai renascer!"

Ou, se um dia, o seu juízo
Lhe aconselhar, sem aviso:
"Não apague o seu ardor!
Vá atrás dele, onde for!"
Você sabe o que é preciso:
Me procure, por favor,
E me diga, com um sorriso:
"O que eu sinto é amor".

Mas, um dia, se pensar
Que ainda pode me amar,
Não se envergonhe: me chama,
Que eu corro pra sua cama!...
Mas, até lá, vou esperar,
Sem fazer, da vida, um drama,
E com a certeza singular
Que só se tem quando ama.
Público
Amor (in)Condicional

Se fosse o que eu procuro
Se tu fosses mais maduro
Se a boca fosse maior
Se o hálito fosse melhor
Se o cabelo fosse escuro
Ou o olho de outra cor
Se não fosse isso, eu juro
Te daria o meu amor.
 
Se a viagem fosse pra longe,
Se eu não quisesse virar monge
Se meu namoro fosse aberto
Se o que sinto fosse certo
Se a coragem não me foge
Se a viagem fosse pra perto
Ah, meu bem, se não fosse hoje
Eu seria teu, decerto.

Se eu ficasse com saudade
Se eu tivesse vontade
Se o que eu sinto por ti
Fosse impossível não sentir
Se fôssemos da mesma idade
Se meu emprego permitir
Se eu te amasse de verdade
Já estarias aqui.

Se houvesse mais sentimento
Se fosse em outro momento
Se não fosse só paixão
Se não fosse o coração
Ou o tamanho do “documento”
Se fosse em outra encarnação
Sem as desculpas que invento
Serias uma opção.
 
Se não fossem tantos "ses"
Marido, mulher, bebês
Se eu fosse bi-homo-cis
Se fosse em outro país
Se fosse essa a nossa vez
Se fosse o que eu sempre quis
Talvez – e apenas talvez
Seríamos um par feliz.
Público
Valsa

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Público
Hoje

A alegria está aqui.
Mora aqui, em mim.
Não é estar feliz "apesar de",
Não é estar feliz "quando acontecer"
Nem estar feliz "ainda que".

É ser feliz sem condicional,
Ter um sol interno, a irradiar
Em "Bom dia" e "Obrigado".
Em sorrisos.

Não há derrota.
Há a vontade de viver
Que vira versos diários e intensos.
Há um dia que vira poesia a cada instante.

Hoje, o espelho me sorriu,
Não para lembrar daquilo que não ficou:
Mas para me oferecer um café,
E brindarmos o que permaneceu em mim:

Sonhos. Planos. Sentimento a ser vivido.
Presente.

E hoje, quero ler até cair no riso,
Quero rir até que a inspiração ouça,
E, curiosa, venha estar comigo
Para me incentivar até escrever.

E quero escrever até cansar e ficar satisfeito,
E, então, com tanta vida já escrita,
Me sentar e tornar a ler...

Mas... E se ainda houver cacos no meu coração?
Ah, quero, então, pintá-los em cores vivas
Fazer um vitral no peito,
E deixar que meu sol interior ilumine o meu caminho.

Não caibo mais em métrica nem rima:
Hoje, sou meu próprio amor.
Hoje, sou meu próprio sol.
Meu próprio eu e meu próprio fim.
Em mim.
Público
Cavalgada

(Pra não perder o jeito - se é que já não perdi...)

Deitado, lendo um livro.
Apareces na porta, sorriso maroto.
Chemise semi-transparente sobre os ombros
Tentando ajudar as rendas negras
A esconder o escândalo que é o teu corpo.

A chemise saindo corpo, vai para a ponta dos dedos.
Você a gira sobre a cabeça, e joga em mim.
Fechou o livro e aproveito a vista:
A visão do paraíso que sei ser meu.

*Vem cá, meu bem, quero te contar uma coisinha...*
Você vem - dois passos. Sorriso sapeca.
Dois polegares entre a pele e a renda da calcinha,
Descendo, descendo, a cada passo.

A calcinha na ponta dos dedos,
Girando sobre a cabeça,
Voando até o meu rosto.

Seu cheiro. Molhada. Deliciosa.
Descubro o meu rosto, e me descubro em brasa:
Algo se move dentro da minha peça íntima.
Crescendo, crescendo, a cada passo.

*Vem, meu bem, quero cochichar no seu ouvido*
*Tudo o que pretendo fazer com você... *
Você nota o volume se expandindo,
E entende que aquela peça já está apertada demais.

Puxa para baixo, seus olhos me encarando,
O sorriso ainda preenchendo os seus lábios
Mas, agora, disputando espaço
Com algo maior, mais quente e mais intenso.

*Isso. Delícia. Beija. Lambe*
Mas nem preciso dizer, você é mestra.
Especialista em me levar à loucura,
Me olhando entre os cabelos desarrumados.

*Vem mais pertinho, Amor, que eu te conto*
* o que tá passando pela minha cabeça.*
A cueca, nas pontas dos seus dedos,
Gira sobre a cabeça e voa pra longe.

Te puxo pra perto. *Senta aqui, senta...*
Você apoia as mãos no meu peito.
O livro está jogado ao lado da cama,
Observando seu quadril procurando o encaixe.

E quando encaixa... Ah!... Peças perfeitas!
Um gemido, um grito, cabeça para trás.
Minhas mãos seguram sua cintura,
Ajudando e regendo o movimento.

O sutiã, na ponta dos seus dedos,
Girando sobre a cabeça,
Voa, nem sei pra onde:
No meu rosto, apenas dois seios suados.

*Mais, poeta, mais!*, você sussurra,
Rouca, olhos nos meus
Provocando e devorando meus pensamentos.
*Vem cá, seu puto, deixa eu te cochichar de novo.*

Eu sou poeta. Teu corpo é verso.
Uma cavala que cavalga e chama.
Arfa, sobe, desce, geme, grita.
Crava as unhas no meu peito e os olhos na minha alma.

O juízo, na ponta dos dedos,
Girando sobre a cabeça, voa longe;
Teu gozo vem como um frenesi incontrolável,
Em teu cavalgar intenso e galopante.

*Ah, poeta, me mata, me inunda!*
Você se deita no meu peito já arranhado
Suando, arfando, buscando o ar e os sentidos.
Corpo amolece, sussurros que conversam:

*– Porra, poeta, você me pegou de jeito.*
*– Que striptease! Adoro quando você faz isso.*
*– Você me tira do sério, eu não resisto.*
*– Quero ser teu pra sempre.*
*– Te amo. Cada vez mais...*

(O livro? Depois eu compro outro...)