Eu quero começar a trazer meus textos, sabe? Acho que aqui ia ser um lugar bacana.
Bom, nem sei como cheguei aqui. Acho que pode ser uma boa por parecer que tá chegando mais gente e acho que dá pra ir sendo mais intimista.
Eu escrevo sobre coisas do meu passado e não da minha vida atual. Coisas de pé na terra, de cheiro de mato.
Queria muito dividir essas minhas memórias com desconhecidos.
Eu achei que ia ficar aliviada depois de publicar.
Não fiquei.
Agora só fico pensando em duas ou três cenas que talvez eu tivesse escrito diferente se esperasse mais uma semana. O que é uma armadilha, porque eu provavelmente esperaria mais uma semana e acharia outra coisa pra mexer.
Então é isso. Publicar também é aceitar que o texto saiu andando com as próprias pernas. Ou com outras partes do corpo.
Publiquei Depois do Décimo Segundo.
Passei alguns dias com Marina ocupando mais espaço do que eu tinha planejado. Ela entrou pela livraria, subiu para o décimo segundo, foi para Paraty e, quando percebi, já estava discutindo com todo mundo: com Caio, com Ernesto, comigo.
Eu comecei achando que era uma história sobre desejo. Ainda é. Mas no meio apareceu outra coisa: o cansaço de ter que explicar onde termina uma cena e onde começa uma permissão.
Tem sexo. Tem hotel. Tem estrada. Tem uma câmera que nunca é só uma câmera.
E tem uma pergunta que ficou comigo depois do fim: quando uma mulher escreve o próprio desejo, quem se acha autorizado a revisar?
Vou gostar de saber por onde vocês entram nessa história.
Uma coisa que me fascina
tu vive algumas décadas
faz faz faz
não faz não faz não faz
e puft
acaba
era só isso
e tudo isso
sorte de quem
entendeu e viveu
Edu Liguori
Não tenho mais idade para ter sonhos
ou desejos devassos
meus pensamentos estão ligados a imagens que não me pertencem mais
meu tempo já acabou
a moral e os costumes
estes vermes
cada cerveja que bebo
cada ar que respiro
me transformam neste velho poeta
em um mundo que não perdoa
que julga e dilacera
calado cumpro minha pena
a caneta e um coração defasado
sem beijos
suspiros
ou atiros
uma pessoa que se desencaixou
sem lugar neste mundo
a música acabou
Edu Liguori
Não é pecado que tão tarde
ainda não havia lido Machado
há tanto que não sei nesse mundo
nem tenho pretensão de tudo saber
mas agora recente degustei
de tal acervo pequenos exemplos
em um momento em que
demonstrava o tempo
cada minuto parecia
não direi um século
mas uma hora
e outro em que questionava
entro num drama
ou saio de uma comédia
assim quem não estava a fazer lição
cresceu dois tentos
ao digerir que o tempo é assim flexível
e o sentimento deveras controverso
obrigado Joaquim Maria
este humilde poeta agradece
Edu Liguori
Confesso o silêncio que rodeia por aqui
preço alto dos pecados que cometi
som da ausência infinita
que machuca, que irrita
procuro um par de olhos puros
pra banhar de luz e salvar os apuros
mas há escuridão sem alvorada
dor e perdição sem uma morada
tédio, angústia sufocante
corpo embrulhado em fita isolante
os lírios estão perfumados e brancos
inebriam os sentidos aos solavancos
soluços, lágrimas, convulsões
contorcem os músculos, apressam estações
sinto frio, calor, medo, arrepios
um longo emaranhado de fios
desata, desapega, imploro por uma saída
mas nada vejo a não ser tua partida
onde estás, por que não vem
quem sou se não há mais ninguém
grande revolução que revela os perigos
palavras, verbos, conjunções e artigos
texto que brota fúnebre e caótico
percorre os nervos deste poeta sinótico
chega, basta, poupe-me e a todos os amantes
que só desejam reviver as jovens emoções de antes
quero, desejo um pouco de carinho
não há mais sentido em estar tão sozinho
Edu Liguori
#desafio 297
—Me beija—
Com os olhos,
me beija
demorado!
Passa seu olhar
por mim,
encarando
meus lábios.
Mira
minha boca,
molhada
e sedenta.
Imagina
o sabor
da minha saliva.
A textura
da minha língua,
acariciando a sua,
boca adentro.
Sente,
em pensamento.
Entorpecida
no meu hálito
de desejo.
Invade minha boca,
me beija!
Se insira,
olhar adentro.
Me mira!
Me beija!
MarU
Em homenagem ao 06 de Julho que é o dia Mundial do beijo.