Parte 22 Elogio da Loucura · Capítulo 22 de 45
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Parte 22

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Há outra espécie de canalhas baixos metidos à fidalguia: certos mercadores rapaces que, embora, para melhor escoamento de suas mercadorias, mintam, jurem falso, trapaceiem e pratiquem todos os enredos da desonestidade, ainda assim se julgam em nada inferiores às pessoas da mais alta qualidade, somente porque ajuntaram, a rastelo, uma fortuna abundante. E não faltam parasitas insinuantes que os acariciem e cumprimentem com o maior respeito, na esperança de quinhoar alguns de seus ganhos desonestos. Há outros tão infectados pelo paradoxo filosófico de banir a propriedade e ter todas as coisas em comum, que não fazem caso de consciência em agarrar e furtar tudo quanto possam obter, convertendo-o em seu próprio uso e posse. Há alguns que são ricos apenas em desejos e, contudo, enquanto simplesmente sonham com vastas montanhas de riqueza, são tão felizes como se suas fantasias imaginárias se tornassem verdades reais. Alguns põem para fora o lado mais vistoso e passam fome em casa para aparecer alegres e esplêndidos na rua. Um, com liberdade de mão aberta, gasta tudo quanto toca com os dedos; outro, com avareza de punho lógico e fechado, apanha e agarra tudo que pode alcançar. Um faz macaquices pelas ruas para cortejar a popularidade; outro consulta seu próprio conforto e se prende ao confinamento de um canto junto à lareira. Muitos outros se esfalfam no foro por uma ninharia e arrastam um processo sem fim, apenas para enriquecer um juiz protelador ou um advogado velhaco. Um quer remodelar um governo estabelecido; outro se inclina a alguma notável tentativa heroica; e um terceiro, por todos os meios, deve viajar como peregrino a Roma, Jerusalém ou algum santuário de santo em outra parte, embora não tenha outro negócio senão pagar uma visita formal e impertinente, deixando mulher e filhos a jejuar, enquanto ele próprio, por certo, foi rezar.

Em suma, se — como Luciano imaginou que Menipo outrora fizera — algum homem pudesse agora olhar novamente para baixo a partir da órbita da lua, veria enxames espessos, como de moscas e mosquitos, brigando entre si, empurrando-se, lutando, esvoaçando, saltitando, brincando, recém-produzidos, logo depois decaindo e em seguida desaparecendo imediatamente. E mal se pode imaginar quantos tumultos e tragédias uma criatura tão inconsiderada como o homem dá ocasião, e isso em espaço tão curto quanto o pequeno palmo da vida; sujeita a tantos acidentes que a espada, a peste e outros flagelos epidêmicos muitas vezes varrem milhares inteiros de um só golpe.

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