Manhã de verão Alma Inquieta · Capítulo 19 de 41
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Manhã de verão

As nuvens, que, em bulcões, sobre o rio rodavam,

Já, com o vir de manhã, do rio se levantam.

Como ontem, sob a chuva, estas águas choravam!

E hoje, saudando o sol, como estas águas cantam!

A estrela, que ficou por último velando,

Noive que espera o noivo e suspira em segredo,

-- Desmaia de pudor, apaga, palpitando,

A pupila amorosa, e estremece de medo.

Há pelo Paraíba um sussurro de vozes,

Tremor de seios nus, corpos brancos luzindo...

E, alvas, a cavalgar broncos monstros ferozes,

Passam, como num sonho, as náiades fugindo.

A rosa, que acordou sob as ramas cheirosas,

Diz-me: "Acorda com um beijo as outras flores quietas!

Poeta! Deus criou as mulheres e as rosas

Para os beijos do sol e os beijos dos poetas!"

E a ave diz: "Sabes tu? Conheço-a bem... Parece

Que os Gênios de Oberon bailam pelo ar dispersos,

E que o céu se abre todo, e que a terra floresce,

-- Quando ela principia a recitar teus versos!"

E diz a luz: "Conheço a cor daquela boca!

Bem conheço a maciez daquelas mãos pequenas!

Não fosse ela aos jardins roubar, trêfega e louca,

O rubor da papoula e o alvor das açucenas!"

Diz a palmeira: "Invejo-a! ao vir a luz radiante,

Vem o vento agitar-me e desnastrar-me a coma:

E eu pelo vento envio ao seu cabelo ondeante

Todo o meu esplendor e todo o meu aroma!"

E a floresta, que canta, e o sol, que abre a coroa

De ouro fulvo, espancando a matutina bruma,

E o lírio, que estremece, e o pássaro, que voa,

E a água, cheia de sons e de flocos de espuma,

Tudo, -- a cor, o clarão, o perfume e o gorjeio,

Tudo, elevando a voz, nesta manhã de estio,

Diz: "Pudesses dormir, poeta! No seu seio,

Curvo como este céu, manso como este rio!"

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