Vilfredo Alma Inquieta · Capítulo 34 de 41
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Vilfredo

LENDA DO RENO, GRANDMOUGIN

I

O castelo.

Sobre os rochedos, longe, o castelo aparece,

Dominando a extensão das florestas sombrias.

A tarde cai. O vento abranda. O ar escurece.

E Vilfredo caminha entre as neblinas frias.

Vai vê-la... E estuga o passo. Alto e silencioso,

Abre o castelo, em fogo, os vitrais das janelas.

Nas ameias, manchando o céu caliginoso,

Aprumam-se perfis de imóveis sentinelas.

Vilfredo vai ouvir a voz da sua Dama...

Mas, no seu coração perturbado, parece

Que vive, em vez do amor, essa ligeira chama,

Que arde apenas um dia, arde e desaparece...

E o arruinado solar, refletido no Reno,

Sobre o qual paira e pesa um sonho sobre-humano,

Sobe, entre os astros, só, furando o céu sereno,

Com a calma e o esplendor de um velho soberano.

II

As fadas da lagoa.

Vilfredo conheceu o amor nos braços d'Ela...

Teve-a nua, a tremer, nos braços, nua e fria!

Teve-a nos braços, louca, apaixonada e bela!

Mas parte, alucinado, antes que aponte o dia...

É que uma outra paixão o descuidado peito

Lhe entrou. Paixão cruel, loucura que o atordoa,

Desde o momento em que, formosas, sobre o leito

Das águas calmas, viu as fadas da lagoa.

Parte... À margem fatal da lagoa das fadas

Chega, e em êxtase fica, a riba em flor mirando.

Um ligeiro rumor de vozes abafadas

Aumenta... E exsurge da água o apaixonado bando.

Corre Vilfredo, em febre, a apertá-las ao seio,

E despreza o passado e esquece o juramento:

Beija-as, e, na expansão do carinhoso anseio,

Imola toda a vida aos beijos de um momento.

Para os seus corpos ter, toda a alma lhes entrega:

E, na alucinação do gozo em que se inflama,

Por esse amor, por essa embriaguez renega

O Deus dos seus avós, o amor da sua Dama...

III

O remorso.

Delira. Mas, depois do delírio sublime,

O remorso, imortal, nasce com o arrebol.

E ele mede a extensão do seu monstruoso crime,

E esconde a face à luz vingadora do sol.

Busca assustado a paz, busca chorando o olvido...

À volúpia infernal o coração vendeu,

E o inferno lhe reclama o coração vendido,

Cobrando em sangue e pranto o gozo que lhe deu.

Quer rezar, quer voltar ao seu fervor primeiro,

Quer nas lajes, de rojo, abominando o mal,

Ser de novo Cristão, Fiel e Cavaleiro:

Mas não encontra paz na paz da catedral.

Pobre! até no palor das faces maceradas

Das monjas, cuida ver as faces que beijou;

Ah! seios de marfim! ah! bocas perfumadas!

Recordação cruel de um Éden que acabou!

Parte só, sem destino, errando, a passo incerto,

Por montes e rechãs, no inverno e no verão,

E por anos sem conta habitando o deserto,

Sem lágrimas no olhar, sem fé no coração.

Das florestas sem fim sob a abóbada escura

Ouve, nos alcantis de em torno, a água rolar;

Sobre ele, a longa voz das árvores murmura,

E o vendaval retorce os ramos negros no ar.

Mas à fera, ao inseto, ao limo verde, ao vento,

Ao sol, ao rio, ao vale, à rocha, à serpe, à flor

É em vão que Vilfredo implora o esquecimento

Do seu amor cruel, do seu horrendo amor...

IV

O castigo.

Volta... Nem luta já contra o crime que o atrai.

Velho e trôpego vem, mendigo esfarrapado,

E exânime, por fim, num calefrio, cai

Sem consciência, ao pé das águas do Pecado.

Calma. A noite caiu. Nem um pássaro voa.

Não piam no silêncio as aves agoireiras.

Mas palpitam, luzindo, à beira da lagoa,

Fogos-fátuos subtis sobre as ervas rasteiras.

E, então, Vilfredo vê, presa de um medo

Do denso turbilhão dos fogos repentinos,

Com tentações no olhar e convites na voz

Surgirem turbilhões de corpos femininos.

E o Inferno pela voz dos fogos-fátuos fala!

Vilfredo foge. O horror vai com ele, inclemente!

Foge. E corre, e vacila, e tropeça, e resvala,

E levanta-se, e foge alucinadamente...

Em vão! pesa sobre ele um destino fatal:

E o louco, em todo o horror dos campos tenebrosos,

Vê fechar-se e prendê-lo a cadeia infernal

Da infernal multidão dos Elfos amorosos...

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