A Bolsa de Seda Os Romances da Semana · Capítulo 2 de 7
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A Bolsa de Seda

A Bolsa de Seda

INTRODUCÇAO. O tremendo flagello da Ásia que ainda não ha muito annos, Eugênio Sue, personificando-o em uma personagem bíblica, pintou estendendo de balde os braços para America, pois que não podia vencer de um salto o estreito de Bhering, arrojou-se atravez do oceano Atlântico, e desmentindo a imagem do romancista, invadio com hor rível violência o Império do Brazil. Em 1855 o cholera-morbus enchia de luto e lagrimas a cidade do Rio de Janeiro; então porém a população illustrou-se por

uma firmeza , que lhe foi proveitosa e lhe fez honra, e em vez de mostrar-se abatida pelo terror, soube engrandecer-se pela con stância e pela coragem. A pesta flagellava especialmente as clas ses mais pobres : onde havia miséria se hia encontrar a morte. Esta observação foi como um grito doloroso que despertou a caridade publica, e nunca esta santa virtude se demonstrou mais viva e brilhante. Todos á poríia corrião a soccorrer os infelizes atacados pelo cholera : multipli carão-se os hospitaes , e as enfermarias , sobrarão os donativos e abundou o ouro para mitigar os soffrimentos da indigencia. E o empenho da caridade foi tal, que levou-se até á exageração essa sublime vir tude, que uma ou outra vez perdeu o seu caracter pela ostentação e pelo luxo, com que foi por alguns praticada. Foi esta consideração que deu motivo ao brevíssimo romance, a que dei o titulo de — Bolsa de Seda — aproveitando para a acção d'elle a exposição e leilão de objectos curiosos e interessantes offerecidos por muitas senhoras distinctas para com o producto d'essa feira philantropica e cari dosa serem soccorridos os pobres da freguezia de N. S. da Gloria da cidade do Rio de Janeiro. Deve-se acreditar que ainda ninguém es queceu esse interessante e nobre leilão que em 1855 teve lugar no edifício da Acade mia das Bellas Artes. Esta simples exposição servirá para que mais completamente transpareça o pensa mento do nosso romance.

I.

Era o dia 20 de Outubro de 1855 — um sabbado, e por conseqüência a véspera de um Domingo. Creio que sabeis que é nos domingos que appareçe a Semana, o meu folhetim hebdo madário do Jornal do Commercio. Faltava-me matéria para a Semana: sentiame incapaz de satisfazer os leitores do Jornal do Commercio no dia seguinte : estava triste, aborrecido de mim mesmo. Reconheci que não dava conta da mão : ro_ 8 — guei pragas ao publico, atirei com as pennas para baixo da mesa, tomei o chapéo, e sahi. Fui passear. Não sei bem onde me achava; importa pouco para esta minha scena a questão do theatro; pôde representar-se em qualquerrua, em qualquer praça ou em qualquer hotel : é uma scena que serve em qualquer theatro, como ha em certos theatros decorações que servem para todos os dramas. Ia eu indo e não via nada ; tinha a semana pesando-me sobre o coração. Senti de repente que me batião no hombro. — Quid cogitas? disserão-me. Tinha encontrado um homem que sabia la tim, o que não é muito commum no Rio de Janeiro; voltei me para elle ; era o meu amigo Gonstancio, mocetão de vinte e cinco annos, bonito, rico, solteiro, que fuma charutos de Havana, tem bigodes e pera, e tudo, tudo e tudo, menos talvez juizo, o que é muito com mum no Rio de Janeiro. Quid cogitas ?... repetio-me elle. — Penso na semana, que já devia estar feita, e que ainda não comecei.

— Pois então alegra-te ! dou-te mais que uma semana. — Como?... — Dou-te um romance. — Bravo ! oheróe?... — Sou-eu : está entendido. — A heroina?... — Uma moça bonita. Queres?... — O que?... a moça ou o romance?... — O romance, está visto. — Aceito : conta lá isso; mas antes de tudo devemos-lhe um titulo : qual deve ser?... — A bolsa de seda. — Bem escolhido ; começa pois. Constancio deu-me um abraço, e princi piou : — Conheces minha mãe e minha irmã?... — Que tem isso com o teu romance ?... — Conheces minha mãe e minha irmã?... — Não. — Pois é pena; minha mãe é uma senhora muito religiosa e cheia de virtudes; e minha irmã uma moça bonita, engraçada, compassiva e bôa até não poder mais. Ora, sendo ellas assim, ando desgostoso, desesperado, furioso por ver que em um tempo como

I.

este, quando todas as senhoras se tem tornado notáveis por actos brilhantes de caridade, só minha mãe e minha irmã, apezar de boas e religiosas como são, se deixão ficar em casa, e não levão nem uma camisa, nem um lençol, nem uma esmola á casa de um pobre!... — Tem paciência. — Qual paciência! queria ouvir abençoa dos os nomes de minha mãe e de minha ir mã : ainda aritehontem á noite tive um combate com ellas por isto, mas foi tempo perdido; depois de lutar em vão duas horas, fui me deitar, esonhei... sabes o que?... — Não. — Sonhei com o anjo da caridade, vi-o, achei-o bonito, apaixonei-me por elle, e por fim de contas reconheci que o anjo era uma moça, e casei-me com ella. — Dou-te os parabéns. — A hora do almoço contei o meu sonho a minha mãe e a minha irmã; ellas rirão-se de mim, e eu jurando que me havia de casar com um anjo como o que sonhara, sahi de casa. — E depois?... — Passei o dia com un amigo, e á rioite dirigi-me ao theatro; mas, cousa celebre!

o meu sonho não me sahia da cabeça; ao passar por uma das nossas ruas-zinhas estreitas e menos freqüentadas, vejo parar um carro e saltar d'elle uma moça coberta com um véo: A moça não vinha só; trazia uma companheira que se deixou ficar no carro, e cujo rosto não pude ver, porque também se cobria com um véo como a primeira. — Bem; continua. — Não pude deixar de admirar o corpo gra cioso e encantador da moça que descera do carro; mas o que sobretudo me impressionou foi o seu mimoso pézinho, que de relance apre ciei á luz do abençoado gaz; está dito... fiquei doudo por aquelle pé; por signal que era o direito, e por conseqüência posso dizer que a moça entrou-me com o pé direito no coração. — Pobre coração! — É verdade : dahi a meia hora eu o tinha completamente acalcanhado. — Continua. — O carro ficou parado, e a moça avançan do alguns passos bateu na rotula de uma casi nha de triste apparencia, e,um momento depois entrou. « O carro era de aluguel, e o maldito cochei-

rou ou era mudo, ou não fallava. A curiosidade sahia-me pelas pontas dos dedos; fui a uma venda da esquina, e informando-me sobre quem morava no pobre casebre, sube que era uma familia indigente. Lembrei-me do meu sonho, adivinhei que tinha encontrado a minha bella sonhada, e de um pulo fui bater, e entrei na casa da pobreza. « Fiz tudo isto com tanda rapidez, que a moça quiz, mas não teve tempo de se esconder, e fui encontral-a sentada ao lado de uma pobre velha: continuava a ter o rosto coberto com o seu véo longo e impenetrável; não me impor tei com o véo, e achei-a formosissima : fiz de conta comoos poetas, e apaixonei-me como elles. — Adiante, adiante... — Fallei-lhe e não me respondeu; não me inconimodei com isso, nem por tal esfriou a minha paixão; tentei approximar-me d'ella; mas immediamente levantou-se, e com tal pressa que lhe cahio uma bolsa de seda. — Ah! a bolsa de seda... — É verdade : uma bolsa quem sem duvida ella estava tecendo, e que ainda não estava acabada. — E que mais?

— A velha apanhou e entregou-lhe a bolsa; vi a mão da moça... fiquei abysmado. — E depois?... — A moça apontou-me para um quartinho escuro e triste, onde gemia uma criança; corri a ver a infeliz; era um menino de quatro annos; condoído de seus soffrimentos e de sua pobreza, começava a examinal-o, quando ouvi rodar uma sege... — Que logro 1 — É certo : saltei para a sala; mas a velha me disse com triste sorriso; — é tarde! já partio. « — E quem é ella?... « — Um anjo de caridade, senhor. « — Exactamente, exclamei eu, era isso o que eu procurava; posso considerar-me casa do. Quando torna ella aqui? « — Não sei; apparece, como a Providen cia,* sempre que se faz necessária. « — E que vem fazer?... « — Que vem fazer?... Ah! senhor, vem vestir a mim e a meus filhos; vem ajoelhar-se aos pés daquella cama velha, e com suas mãos tão finas e mimosas banhar os pés de meu filho doente! vem dizer-lhe palavras de

amor, e fazêl-o tomar remédios sem chorar, nem contrafazer-se; vem animar-nos a fó e accender-nos a esperança, e sempre acha occasião para, sem que ninguém a veja, deixar uma bôa somma de dinheiro em baixo do meu travesseiro. « — E como se chama?... ;< — Ella diz que se chama minha irmã. « — Irmã dos pobres! é isso mesmo: estou definitivamente casado. (( — Ah! senhor! « — Onde mora ella? « — Não o quer dizer. « — É bonita?... « — Oh! se o é... e que graça... e que voz... e que olhos !... « — Exactamente!... eu a sonhei tal e qual. « — Tal e qual, como, senhor?... « — Tal e qual como ella é; bôa duvida! « — E o senhor sabe como ella é?... « A pergunta da velha embatucou-me; como não tive que responder, desviei-me da questão. « — E vós quem sois, bôa mulher?...contaime a vossa historia. « — A minha historia é bem simples, disse a velha; moça pobre tive a fortuna de me casar

com um excellente homem; era um bom car pinteiro que ganhava com a sua encho bastante para sustentar a sua familia; tinha sido vo luntário da independência, bateu-se nobre mente por ella, e ganhou a sua medalha da campanha da Bahia; ha cinco annos adoeceu, e ficando alguns mezes de cama, acabou mais de miséria do que da moléstia; ninguém se lembrou d'elle!... Se eu tivesse uma bandeira nacional para amortalhal-o!... mas não tive : embrulhei o seu cadáver no ultimo lençol que nos restava, e pendurei a seu pescoço a meda lha da independência; a Misericórdia fez o resto, enterrando o corpo do antigo soldado; creio que ninguém reparou na medalha e foi bom isso. « — Porque?... « — Porque os vivos havião de envergo nhar-se do morto. « A velha, apezar de pobre fallava como um deputado. « — E depois?... perguntei. « — Depois, senhor, vivi e sustentei meus quatro filhos como pude: Deus me protegeu até hoje, e continua sempre a proteger-me; mas, confesso o meu grande peccado; quando rebentou esta peste maldita, e vi dous de meus

filhos cahidos, quasi que desesperei!... Feliz mente um anjo de caridade entrou-me em casa, e comsigo me trouxe a esperança e a coragem. « — E esse anjo? « — Sahio daqui ha pouco. « — Sim, bem sei; mas, bôa mulher, eu tenho absoluta necessidade de saber quem elle é, como se chama, e onde mora... « — Como posso eu dizêl-o?... « — Oh! mas se é essencial!... eu devo casar-me com aquella senhora; é uma cousa decidida. « — É possível, senhor!... « — Falta-me só conhecêl-a... « A velha olhou para mim espantanda; sem duvida alguma pensou que tinha diante de si algum doudo; receiando porém oflender-me com o seu olhar, abaixou a cabeça, e apanhan do um fio de seda que encontrara a seus pés, começou a enrolal-o por entre os dedos. « Bem se diz que ás vezes a fortuna pende de um fio! « Vi a minha felicidade pendendo d'aquelle fio de seda. « Lembrei-me da bolsa de seda.

« — Bôa velha, creio que o fio que enrolais nos dedos foi da bolsa de seda que o vosso anjo de caridade tecia. « É verdade. «Então essa bella senhora, quando vem a esta casa costuma trazer algum trabalho para se entreter, não?... « Ah, não senhor: ella ás vezes demorase aqui uma, duas, e até três horas, conforme julga necessário, para prestar-nos soccorro; e ha alguns dias apenas traz essa bolsa que está tecendo, segundo diz, para dal-a de presente a uma amiga que faz annos domingo. « — Domingo? depois d'amanhã?... « — Sim, senhor. « — Bravo! vou saber quem é esse anjo de caridade; domingo é o dia do leilão a favor da pobreza, e a bolsa de seda não se destina a outro fim; já conheço a côr da tal bolsinha... vou encontrar e conhecer minha mulher! « A velha tornou a olhar-me com sorpresa e talvez piedade; e eu que não tenho nem a delicadeza, nem a graça das senhoras, em vez de fazer escorregar algum dinheiro para baixo do travesseiro da velha, lancei-lhe no collo a minha carteira, e sahi pela porta afora meio

atrapalhado com as bênçãos e com os agra decimentos da pobre mulher. cc Em vez de ir para o theatro fui logo direito para casa, onde encontrei minha mãe e minha irmã, que desde que começou o cholera não vão nem á opera lyrica, nem ao baile, e nem sahem de noite com medo do sereno. « Contei-lhes o que me havia acontecido, e ellas mettendo o negocio á bulha, acabarão, como sempre costumão, por me dar o gracioso titulo de doudo. « Mas amanhã é domingo, e a bolsa de seda virá provar que eu sou um rapaz de muito juizo. O meu amigo Constancio fez ponto final e olhou para mim. — E que mais?... perguntei. — Por ora nada mais : deixarás o romance interrompido n'este ponto, e prometterás concluil-o na próxima Semana. — Bem; mas deves ao menos deixar escla recido un ponto. — Oque?... — A côr da bolsa de seda. — N'essa não cahia eu : a côr da bolsa é o meu segredo; ainda não estou casado, e em-

quanto não me casar não darei a ninguém os meios de descobrir quem é a bella do meu sonho. Espera até amanhã, que é domingo. — Mas tu contas de mais com a tua pers picácia; como poderás descobrir no leilão de amanhã quem teceu a bolsa de seda, se os objectos offerecidos para o leilão não trazem os nomes das dignas senhoras que os offertão?... — Tudo se sabe no mundo, meu caro: e a diligencia é a mãe da bôa ventura. 0 que eu quero é ver a bolsa de seda no leilão de amanhã; o mais fica por minha conta. — Bem; mas vê que estás obrigado a darrne a continuação e o desfecho d'este romance. — Está subentendido. — Tu o promettes?... — Palavra de honra! disse Constancio, es tendendo theatralmente a mão direita. — E quando?... — No dia e ás horas, em que tiveres de começar a escrever a tua semana para o pró ximo domingo. — Excellentemente : sabbado ao meio dia. — Sabbado ao meio dia : conta comigo.

II.

No sabbado seguinte pelas onze horas da manhã já eu me achava ancioso esperando o meu amigo Constancio. Esperei inutilmente uma hora, e dei um salto de alegria ouvindo o signal de meio dia dado em uma Igreja vi zinha. Era o momento aprazado. — Até que emfim! disse eu. Soou a décima segunda badalada, e apparece-me vivo e alegre, como sempre, o meu amigo Constancio. — O desfecho do romance?... grito cor rendo para elle. — Sou um tolo, responde-me o pobre Cons tancio. — Ah meu amigo! o que eu queria que me desses, era alguma novidade.

— Escuta : comprometti-me a contar-te o fim da minha aventura; eis-me aqui; mas não sei, se jáestouno meio d'ella. — Seja como fôr, refere-me o que houve. — Fui ao leilão, ou antes á exposição de domingo : corri, examinei um por um todos os objectos... E então?... que viste?... — Nada, porque lá não se achava a minha suspirada bolsa de seda: o meu anjo da cari dade tinha adivinhado o meu plano, e não quiz expor a sua delicada obra : fiquei furioso, e vinguei-me fatiando contra a mesquinhez com que mal corresponderão aos esforços cari dosos de tantas e tão respeitáveis senhoras. -- E depois?... — Esperei até o fim da festa; esperei ainda muito tempo, até que o porteiro da academia mostrou-me com toda a delicadeza a porta da rua, e sahi emfim; mal tinha porém dado alguns passos, chega-se a mim uma pobre velha envolta n'uma mantilha. Eu estava de máo humor e voltei-lhe as costas. — Compaixão, senhor! uma esmola pelo amor de Deos! Lembrei-me da minha desconhecida: metti

a mão no bolso, e tirei uma moeda de prata. A velha estendeu as mãos abrindo uma bolsa para receber a esmola. Oh! era a bolsa de seda ! conheci-a immediatamente pela côr: era a minha bolsa: agar rei-me a ella. — A quem, homem?... á velha?... — Não ; á bolsa. — Ainda bem. — Quanto quer por esta bolsa?... donde lhe veio esta bolsa?... quem a teceu?... quem lh'adeu?... A velha ficou espantada e respondeu-me a tremer. — Esta bolsa... foi uma senhora que me soccorre que a deu de presente a uma netinha que tenho. — Pois eu a quero ; compro-a. — Esta bolsa não se vende, disse a velha. — N'ésse caso tomo-a de graça. — Oh! se é assim, dê o senhor o que quizer por ella ; mas olhe que não é vendida, é trocada, como uma relíquia. Sem ser fidalgo dei pela bolsa mais do que... porém vamos adiante; nada de má lín gua.

— Como se chama, e onde mora a senhora que deu esta prenda a sua neta?... — Chama-se irmã dos pobres, segundo ella diz; e deve morar certamente em alguma casa que ella não diz onde é. — Estou na mesma : e a senhora onde mora?... A velha disse-me o nome da rua e o nu mero da casa em que morava, e sumio-se li geira como um coelho. Eu estava enthusiasmado : não conhecia ainda a bella mysteriosa; mas pelo menos já possuía a bolsa de seda. Corri para casa, e cheio de ardor, tendo nos olhos o fogo da felicidade, e no coração o anhelo da mais terna esperança, apresentei a bolsa de seda a minha mãe e a minha irmã. — Então, que lhes dizia eu?... exclamei; tenho a bolsa ou não?... — Mas.., que vale uma bolsa?... pergun tou-me minha mãe. — Essa agora é bôa!... que vale uma bol sa?... pergunte ao mundo, minha mãe! um homem que tem uma bolsa, tem o segredo da felicidade no amor.

— Vazia assim ?... disse-me rindo-se e sa cudindo com a bolsa minha irmã. — Sacrilega! exclamei. — Entretanto deve-se confessar que está bemfeitinha! continuou ella examinando; eisaqui uma mancha... — Foi dos meus beijos, acudi eu. — Vejamos por dentro, proseguio minha irmã que é das Arábias, voltando a bolsa de dentro para fora. Eu estava em êxtase. — Oh!... exclamou ella soltando uma ri sada. — Então que é isso?... — Constancio, perguntou-me a cruel moça; a tua desconhecida é costureira de alguma casa de modas da rua do Ouvidor. — Invejosa! — Esta bolsa veio de Paris : olha aqui no fundo a marca da casa da rua do Ouvidor. Vi... vi, e, cousa extraordinária, não des maiei ! tive n'aquelle momento pena de não ser mulher; se eu o fosse, teria arranjado um faniquito á propósito. Emquanto minha mãe e minha irmã desfazião-se em risadas, sahi e corri desesperado á

casada velha de mantilha. Lembrava-me per feitamente a rua é o numero; cheguei dei tando a alma pela boca fora, e... tenho ver gonha de o dizer... — Então que foi!... — O numero que a velha me tinha dado era de urna casa de vigésimos. — Bravo! logrado pela moça e pela velha... E depois?.., — Ah! depois? depois! ó que cinco dias inteiros fui victima das zombarias de minha terrível irmã, que não cessa de ridiculisar a minha paixão e ainda mais a minha apaixo nada! — Pois tu ainda estás apaixonado?... —»Sabbado passado estava até os olhos; agora estou até os cabellos! que queres?... o homem é escravo da mulher que mais martyrios o faz soffrer. — E ficoun'isso a historia?... — Não: até aqui o ridículo, até aqui o de sespero, a raiva, e não sei que mais; daqui por diante uma luz-sinha de esperança. — Acende-a depressa aos olhos dos meus leitores, Constancio. — Fui durante a semana toda» as noites á

casa da família pobre onde pela primeira vez encontrara a desconhecida : uma noite fui ás dez horas, outra ás nove, outra ás oito e outra ás sete, desde domingo até quinta-feira. — E a bella mysteriosa?... Foi todas essas noites também; mas sem pre sahia dez minutos antes da minha chegada, como se alguém a prevenisse d'ella! além de formosa, porque o ha de ser por força, é ainda mais feiticeira!... — Enganão-te n'essa casa também. Cons tancio : a desconhecida lá não tornou mais. — Oh se tornou! deixa sempre signaes da sua visita, disse Constancio tirando um em brulho do bolso da casaca : olha! Olhei: Constancio desatou o embrulho que estava amarrado com uma fita verde; vi cinco embrulhos mais pequenos : no primeiro estava escripto—Domingo. — Eis-aqui as pétalas de uma rosa que na noite de domingo ella desfolhou ao pé da cama da velha. Aqui está no embrulho da segunda feira uma luvazinha de mão de criança que ella esqueceu sobre a cadeira; no embrulho da terça-feira uma fita de sapato que se lhe rebentou; «no embrulho da quarta-feira três

alfinetes e uma agulha com que estivera tecendo; e no da quinta-feira emfim um lencinho bordado, mas sem trazer marcadas as iniciaes do nome de sua dona, que é o que sinto. — Ah Constancio! d'esla vez embrulhasteme a semana toda! — E o mais é que a bella mysteriosa me conhece; faltou a meu respeito, disse o meu nome, o de minha mãe e de minha irmã, sabe onde moramos, e asseverou que me ama extremosamente desde muito tempo. — Bravo! e a bolsa de seda?... — Foi.um mono que me pregou a velha de mantilha; a bolsa de seda ella apenas pôde acabar na quinta-feira á noite, e confessou que a destina para a exposição de amanhã. — Oh! então parabéns! — Mas o peior é que ella teima em não dar-se a conhecer, e jura que eu nunca lhe verei o rosto : hontem logrou-me como se logra a um tolo; ao mesmo tempo porém inflammou ainda mais as minhas espei"anças. — Conta-me isso. — Um dos filhos da pobre mulher a quem soccorremos tem estado quasi não quasi a fa-

zer viagem; hontem fui fazer-lhe a minha vi sita ás sete e meia horas da noite; até então tinha lá ido ás sete, oito, nove, dez horas cer tas ; na sexta-feira comecei a fazer as minhas visitas ás meias horas, á ver se me encontrava com a bella da bolsa de seda. Entrei, e logo pelo suave aroma que recendia na sala, co nheci que a desconhecida ha pouco d'ali sahíra; não me animei a perguntar por ella, porque vi a pobre mãe chegar á sala e entrar cho rando na alcova, levando na cabeça uma bacia de pés com água quasi fervendo. — Que ha? perguntei. — O meufilhinho mais novo que acaba de cahir com o cholera. Tive pena da triste mãe; atirei com a ca saca para um lado, arregacei as mangas da camisa e fui dar o escalda-pés á criança. O meu anjo da caridade tinha-me ensinado a ser cari doso. A mãe resistio, e eu teimei e venci: já es tava terminado o pediluvio, quando senti os passos de alguém que fugia : olhei para trás... era a bella mysteriosa, que sahindo do interior da casa, desapparecia pela porta da rua, ati rando sobre mim um papel.

Em mangas de camisa, como estava, não podia seguil-a pela rua; apanhei o papel sus pirando, emquanto a infeliz mãe envolvia o filhinho em colchas de lã. O papel continha um cartuxinho com uma violeta, symbolo da modéstia, e duas linhas com letras escriptas provavelmente com a mão esquerda, que dizião assim : « a caridade não se ostenta ; por isso me escondo: tu me vês to dos os dias, e não me reconheces, nem me- has de reconhecer; amas-me, e eu te amo. » Fiquei, louco de alegria; não dormi toda a noite: fui obrigado a ouvir os gracejos e zom badas de minha irmã desde o almoço até ás onze horas da manhã, e fiel á minha promessa ao meio dia te appareci. — Mas ficas ainda em divida. — Sabbado espero pagar-te toda a minha conta. — Excellentemente! E amanhã?... — Amanhã terei a minha bolsa de seda, e não me fiarei mais em velhas de mantilha. Dizendo isto, Constancio tomou o chapéo e sahio.

III.

Confiado na pontualidade do meu amigo Constancio, eu esperava pelo sabbado ao meio dia para receber a continuação ou a conclusão do romance da Bolsa de seda, quando casual mente encontrei esse namorado da bella mysteriosa dous dias antes d'aquelle em que contava vêl-o apparecer. Sabe-se que ultimamente alguns observado res curiosos da capital descobrirão no céo uma estrella brilhante á hora em que se parte o dia, e acharão n'esse facto uma novidade, que os encanta. Uma autoridade competente declarou que a estrella que se via era o planeta Venus, e que não havia nada de extraordinário no phenomeno; mas a despeito de tal declaração não diminuio o numero dos curiosos, que se entre-

gão com vivo interesse á observação da estrel la do meio dia (1). E quinta feira, ao dar o sino de S. Francisco de Paula o signal do meio dia, passava eu pela Praça da Constituição, e eis que vejo uma columna cerrada de improvisados astrônomos de olhos fitos no céo. Aproximei-me, e qual não foi a minha surpreza, quando descobri no meio dos curiosos o meu amigo Constancio! Cheguei-me á elle e chamei-o ! tempo per dido!... o rapaz estava com o juizo acima do mundo da lua. — Diabo! exclamou emfim; atrapalhasteme no instante mesmo em que Venus começa va a brincar com as meninas dos meus olhos! — Constancio! pois assim te deixas pren der pelos encantos de uma Venus que nunca ha de ser tua, e esquecendo talvez a bella mysteriosa?.i. Apenas pronunciei as palavras bella miste riosa, vi o meu amigo Constancio mudar de feição e ficar assim com uma cara de noivo (1) O facto, a que alludo n'este lugar, passou-se com effeito então no Rio de Janeiro.

logrado, ministro demittido, candidato ma mado, actor pateado, que vem tudo a dar na mesma cara. Gomprehendi logo que o aman te da bella mysteriosa tinha feito fiasco. — Constancio, disse-lhe eu, adivinho que chegaste ao desfecho do teu romance. Fez-me com a cabeça um signal affirmativo. — Pois então faze de conta que hoje é sab bado, e vamos ao caso. — Infandum, regina, jubes renovare... Não o deixei acabar o verso de Virgílio. — Tenho a tua palavra: paga-me o que me deves. — Pois sim estou preso pela minha palavra... não ha remédio... — Vamos a isso : que tens á dizei'-me?... Primeiro que tudo digo-te o que já te tenho dito dez vezes : sou um tolo! — Sim; mas tens consciência :é uma conso lação; porém a historia, a historia?... — Vais rir... vais zombar de mim! — Como?... pois a bella mysteriosa não disse á velha e depois não te escreveu num bilhete que te amava extremosamente?... — Disse, e até fallou a verdade. — Pois que mais queres, coração insaciável?

Constancio soltou um suspiro magoado. — Ah! já sei: a tua bella mysteriosa é alguma velha feia, e... — Ao contrario é moça, e bella. — Já aviste?... — Vi-a sim; e repito que é moça e bella. — Mas desenxavida... pretenciosa... — Também não; é espirituosa e modesta. — Então agora acertei: depois que a viste e a conheces, a tua razão, que é calculista como um agiota, te está de continuo cantando aos ouvidos aquella velha cantiga que acaba assim : Casar com mulher sem dote É remar contra a maré. — Ainda te enganas: ella é tão rica como eu. — Em tal caso dou as mãos á palmatória, e confesso que cão decifro o enigma. Constancio pensou cm momento, e depois disse : — Visto que sempre terei de te contar o fim da historia, tanto faz hoje como sabbado. — Digo-te que estás criando juizo, Cons tancio.

— Pásseiemos. Dei-lhe o braço: começámos a passeiar e elle tomou logo a palavra. — Creio que não preciso dizer-te que domingo não faltei á exposição dos objectos offerecidos pelas senhoras á favor da pobreza. Eu! eu, que estou habituado a levantar-me da cama ás dez horas do dia, fui domingo amanhecer á porta da Academia das Bellas Ar tes : jejuei até e pela primeira vez na minha vida, pois sahi de casa sem me lembrar de almoçar. O amor e a política, tirando ambos igualmente o juizo ao homem tem um novatel ponto de dissimilhança : o amor sacrifica a barriga ao coração, e a política de muita gente é um sacrifício do coração á barriga. — Não te afastes da questão principal, Constancio. — Emfim!,.. estava lá! descobri final mente a minha querida bolsa de seda entre os interessantes objectos expostos! reconheci-a logo... immediatamente : era ella mesma, era a bolsa de seda! — Que rapaz afortunado! — Foi minha, e havia de sêl-o por força! eu teria preferido aquella simples bolsa de

seda á própria Estrella do Sul, ou á Montanha da Luz! — Parolas de namorado. — Em uma palavra, achei-me de posse da minha bolsa de seda, e apenas a vi nas minhas mãos, esquecendo a exposição, e não querendo saber de mais nada, atirei-me para casa a galope. — A galope?... penso que deves retirar a expressão, Constancio. — De modo nenhum : a palavra foi admi tida ha alguns annos nos mais brilhantes salões; não havia ninguém que pretendesse as honras do grande tom, que não galopasse nos bailes; por conseqüência não retiro a expressão e repito, galopei. — Perfeitamente! — Entrei por nossa casa enthusiasmado e delirante, bradando : c< eil-a aqui! eil-a aqui!... » minha mãe e minha irmã acudírão aos meus gritos; mostrei-lhes a minha suspirada bolsa; era de seda verde (tinha a côr da esperança) e primorosamente trabalha da. Minha mãe achou-a perfeita, e a ta minha irmã, depois de examinal-a cuidadosa mente, depois de viral-a e reviral-a umas

poucas de vezes de dentro para fora e de fora para dentro, tornou-me a entregar a minha encantada bolsa de seda, contentando-se com fazer um bico. — Um bico!... — Sim, um momo : as moças quando depois de examinar uma obra, um trabalho devido á habilidade e delicadeza de outra moça, não lhe põem defeitos, e acabão fazendo simplesmente um bico, é porque não têm nada, nada absolutamente que dizer. — Bravo! es um novo La Bruyère. — Eu tinha jurado não me separar mais nunca da bolsa de seda; guardei-a pois junto do coração no bolso do peito da casaca. — E foi muito justo que guardasses uma bolsa por cima do coração; porque o coração dos homens bate de ordinário por baixo da algibeira, e a algibeira não é cousa melhor do que uma bolsa. — Estava emfim senhor da bolsa de seda; faltava-me porém ainda saber quem era a bella mysteriosa: na exposição eu havia per guntado debalde e em vão procurado descobrir qual a senhora que tinha offerecido a bolsa de seda verde: perdi o meu tempo; ninguém

sabia, ou ninguém me quiz responder.^Não desanimei; no meu galope para casa deli neei um plano admirável, que me devia fazer penetrar o segredo que me roubava e escondia o nome de minha apaixonada; jurei a mim mesmo que antes da noite saberia o nome da bella mysteriosa, e decifraria a dif— ficil charada; mas de que se havião de lem brar minha mãe e minha irmã! determinarão ir ver o balão aerostatico, e apezar de tudo quanto disse e das observações que fiz teima rão e declarárão-me em estado de sitio por todo o resto do dia. — Sim; mas... — Fomos ver o tal balão : ás 3 horas achavamo-nos installados nos nossos lugares da primeira ordem e o demoninho de minha irmã que encontrou logo quatro ou cinco camaradas tão demoninhos como ella, ajuntouse com as amigas e faltando todas a um tempo, disserão cobras e lagartos contra a minha bella mysteriosa; mas eis que de repente cahe a estaca que suspendia o balão, fura-se este o povo grita e se amotina e... (1). (1) Deixou com effeito de effectuar-se essa ascen3

— E ficas tu em disponibilidade e aproveitas a tarde. -^Qual! espera: no fervor d'aquella de sordem, as moças assustão-se, e minha irmã com as suas amigas, tremendo e gritando, abração-se comigo. — Feliz Constancio! — Minha mãe ralha, e eu procuro socegalas.... mas ellas não me deixão senão quando o ruido serena e o povo se resolve a retirar-se: emfim dou parabéns á minha fortuna ao ver me de novo em casa; despeço-me de minha mãe, e vou sahir; lembro-me porém de minha bolsa de seda, e dá-me vontade de beijal-a ainda uma vez : metto a mão no bolso, e... — E o que?... — Oh! tinhão-me furtado a bolsa de sedai... — Deveras? .. — É como te digo : aproveitando a de sordem que succedeu á catastrophe do balão» uma mão subtil furtou-me a bolsa de seda\ não sei como não morri de desespero! — E com razão. ção de um balãfc aerostatico em conseqüência do desarranjo, á que allude o romance.

— E queres saber quem foi que furtou a bolsa?... — Quem?... — Foi ella. — Ella? — Sim, a bella mysteriosa, ella mesma. — Estás sonhando, Constancio. — Ora!... deixou-me uma prova d'isso. — Como? — Furtando-me a minha querida bolsa, dei xou em lugar d'ella um bilhete escripto com uma letra tão habilmente descaracterisada que nem o diabo seria capaz de adivinhar a mãozinha que o escreveu. — E esse bilhete?... — Continha estas breves palavras; « Furtote a bolsa de seda, que recorda as nossas lou curas. Uma barreira indestructivel nos separa. Adeos para sempre. D'ora avante náo serei mais a tua bella mysteriosa. » — E acabou-se a historia. — Oh! antes acabasse ahi! ficaria ao me nos sendo um bello sonho da minha vida. — Pois continua ainda?... — Sim ; depois de reflectir um pouco, en tendi que o bilhete era um novo logro que me

estava preparado, e que a bella mysteriosa pretendia somente, tirando-me a esperança de tornar a encontral-a, afastar-me da casa da família pobre, para ella poder ir lá a seu gos to ; determinei portanto continuar a fazer tudo por vêl-a e conhecêl-a. — Mas, Constancio, tu já podes desconfiar de quem ella seja: olha, provavelmente quem te furtou a bolsa foi uma das moças que se abraçarão comtigo; o bilhete falia em bar reira indestructivel, o que quer dizer que a bella mysteriosa ó casada, e por conseqüên cia... — Tudo isso pensei eu; e por fim de con tas lembrei-me de que todas as sujeitinhas que me abraçarão andão doudaspor achar marido, o que óo mesmo que dizer que todas ellas são solteiras. — Continua a tua historia. cc — Com a minha idéa na cabeça, logo que anoiteceu parti para a casa da família pobre : entrei e vi a velha e seus filhinhos chorando. « — Que novidades ha ?... perguntei: o menino perigou?... « — Ao contrario, senhor, respondeu-me a

velha; está quasi bom, graças aos seus dous bemfeitores. « — E então porque chorão?... cc — Oh! senhor! é a nossa bemfeitora, é o nosso bom anjo, que hontem á noite nos fez as suas despedidas, e que não volta mais. cc Senti andar-me a cabeça á roda : disse adeos á velha, e sahi; eu estava suffocado,.. precisava de ar. » — Pobre Constancio! — Os obstáculos accendião ainda mais a paixão que me devorava; era-me indispensá vel tornar a encontrar-me com a bella myste riosa, com essa mulher singular, cujo véo eu quizera queimar com o fogo dos meus olhos, com essa mulher poética, romanesca, vaporosa que se fazia amar sem mostrar o rosto! De súbito parei, e reílecti. — Quem sabe?... disse comigo mesmo : quem sabe se as despedidas feitas á velha não são tão mentirosas como as do bilhetinho que me pôz no bolso?... quem sabe se não é ainda o mesmo systema empregado para me arredar d'aquellacasa? cc Voltei para traz e então mais cauteloso, escolhendo as ruas e osbeccos menosfrequen-

tados, e por onde eu nunca passava, tornei a dirigir-me á casa da família pobre. « Quando me achei perto, approximei-me nas pontas dos pés... cheguei-me á rotula, que por signal abria-se para dentro , conforme o disposto nas posturas da câmara munici pal. » — Ora, Constancio!... que posturas tão sem pés nem cabeça!... esfriaste a narração com ellas. — Tens razão; deita fora as posturas. — Pois sim; não façamos caso d'ellas... também ninguém faz. Vamos á historia: tinhas chegado á rotula. — Cheguei... olhei para dentro,.. e vi... oh! — O que?... — Era ella!... — Quem?... a bella mysteriosa?... — Sim ; não contava mais comigo, e tinha esquecido todas as precauções que costumava tomar. O seu véo estava deposto sobre uma cadeira ao pé da porta; e ella conversava com a velha, sentada com as costas voltadas para a rua. — Etu?... — Eu?... que pergunta! eu estava olhando,

e por conseqüência estava com a cara voltada para dentro. — Não é isso : que fizeste?... — Primeiro tomei uma larga respiração... depois empurrei a porta de repente, lancei-m para dentro, e apoderei-me do véo, bradando: — emfim!... — Eella?... — Soltou um grito de espanto... Voltouse para ver quem era... esbarrou-se comi go... e... — E... o que?... — E desatou uma risada. — Uma risada ... então?... — Sou um tolo!... sou um pedaço d'asno! — Mas emfim ella... quem era!... — Era... sou um pateta!... confesso que sou um bobo!... — Mas ella... ella... — Era minha irmã.

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