Innocencio
Innocencio
Na manhã do dia 24 de Janeiro do anno corrente de 1861 estava passeando á entrada da estação da estrada de ferro, no campo da Acclamação, á espera do trem que devia a todo instante chegar, um homem de 50 annos de idade, de estatura regular, um pouco gordo, nem bonito nem feio, mas que á primeira vista logo se fazia notar por um sorriso con stante que lhe morava nos lábios, sorriso que nem exprimia bondade, nem toleima ; muito claramente porém uma ironia cruel, e, talvez insolente.
Esse homem chamava-se, ou antes chamase Geraldo ; mas porque muito a miúdo dá ao seu sorriso habitual as proporções de garga lhada, é ainda mais do que pelo seu nome de baptismo, conhecido na cidade do Rio de Ja neiro pela alcunha de — Risota. Geraldo-Risota ri com effeito de todos e de tudo ; mas o seu rir é triste e desconsolador: é um rir que faz mal. Uma longa e dolorosa experiência, uma série de desgostos e decep ções, uma disposição natural do seu espirito, uma mania talvez, ou o quer que fosse, tinha alterado profundamente o caracter d'aquelle homem, tinha-o tornado tão descrente das cousas d'este mundo, que de todo se lhe apa gara a fé e a esperança no futuro da vida, da sociedade e do paiz; mas essa descrença, em vez de tornal-o melancólico e rude em seu pa recer, emprestára-lhe esse rir de mofa, e o fazia soltar gargalhadas a respeito de tudo : era um Democrito grosseiro, que parecia feliz e devia ser desgraçado. Geraldo-Risota passeiava, pois, esperando a chegada do trem de ferro, que emfim annunciou-se por aquelle sibilobem conhecido. Alguns minutos depois, um homem e uma
senhora, que erão sem duvida marido e mu lher, e uma bella moça, provavelmente filha d'elles, sahírão da estação e saudarão amiga velmente a Geraldo, e logo em seguida appareceu um elegante mancebo, que correu para este com os braços abertos. Geraldo-Risota abraçou o mancebo sem enthusiasmo, sem ardor, mas com apparencias de interesse, e tomando immediatamente um carro de aluguel, partio com elle para sua casa. — Pensei que te demorasses mais tempo na tua província, Innocencio, disse Geraldo. — Não, meu padrinho; eu estava ancioso por voltar á capital do Império; brilhantes es peranças , nobres ambições, e agora quiçá também o amor marcão aqui o meu lugar. 0 Risota soltou uma gargalhada. — Que é isso meu padrinho ?... — Foi uma gargalhada muito longa, con fesso; mas era preciso que fosse assim, visto que devia valer por três, pois que a um só tempo me fallaste em tuas brilhantes es peranças, nobres ambições, e em amor... três cousas que me fazem sempre morrer de riso.
Innocencio não respondeu; pôz-se a olhar para a rua, e dahi a pouco disse : — Quando eu observo o desenvolvimento e progresso que teve a cidade do Rio de Janeiro nos oito annos que gastei estudando na Europa, sinto verdadeiro enthusiasmo ima ginando o que será a nossa capital d'aqui a vinte ou a trinta annos!... O Risota achou no que acabava de ouvir motivo para rir-se tanto, que o mancebo de sapontou e não disse mais palavra. O carro parou finalmente á porta da casa de Geraldo, e este, depois de conduzir o seu afilhado ao aposento que lhe destinara, disselhe : — Procede comigo como dantes, Innocen cio : faze de conta que é tua a casa de teu pa drinho ; almoça, descança; que eu tenho que fazer, e vou tratar da vida. Innocencio ficou só: pedio almoço ao escra vo que veio pôr-se ás suas ordens, e logo de pois achou-se sentado á mesa. Emquanto elle almoça, aproveitarei o tempo dizendo o que convém para tornar conhecido o afilhado de Geraldo. Innocencio era filho de um honrado fazen-
deiro da província de... e tendo mostrado desde tenra idade muita disposição para a carreira das letras, seu pai o mandou educar. Geraldo, queera parente afastado, mas tam bém padrinho de baptismo de Innocencio, recebeu em sua casa o afilhado, que fez no Rio de Janeiro os seus estudos de humanida des com applauso geral dos mestres, que ad mirarão a sua intelligencia, e não menos o seu caracter honestíssimo. Aos dezoito annos Innocencio partio para a Europa, e lá, em vez de passear e divertirse, empregou oito annos em estudos assíduos e conscienciosos, de modo que em 1860 vol tou para o Brazil, rico de sciencia e de illustração, podendo ufanar-se de ser um mathematico hábil, um engenheiro pratico e um litterato brilhante. Innocencio perdera seu pai quando estava na Europa, viera porém encontrar uma doce consolação no amor da mais carinhosa mãi. Também tendo, de volta do velho mundo chegado ao Rio de Janeiro em Junho de 1860, apenas se demorou oito dias nesta capital, e logo partio para sua província, onde ficou 13.
ao lado de sua mãi até o fim do anno, época em que tornou para o Rio de Janeiro, che gando á cidade no dia 24 do primeiro mez de 1861, como se acaba de ver. É certo que elle poderia ter chegado alguns dias mais cedo; encontrando porém na fazenda de um velho amigo de seu pai, fazenda pouco distante da cidade, uma família da corte que alli fora passar a festa do Natal, deixou-se captivar e prender pelos encantos de uma interessante moça, amou-a, e não seguio a concluir a sua viagem senão quando aquella família teve também de retirar-se, cabendolhe a dita de embarcar-se com os pais da sua amada e com esta no mesmo trem e no mesmo carro do caminho de ferro de ü. Pedro II. Creio que se adivinhará facilmente que a família de que se trata é aquella mesma que saudou com signaes de amizade a Geraldo ao sahir da estação do campo da Acclamação. Agora que fica já referida a historia do pas sado de Innocencio, é justo dizer duas pala vras sobre o seu physico, e alguma cousamais sobre o seu caracter. Innocencio vai fazer vinte e sete annos: é
alto, delgado, pallido , e sympathico ; tem sobretudo uma fronte elevada, onde se lê claramente uma bella intelligencía, e olhos pardos e cheios de doçura, em que transluz a bondade. Disse que Innocencio vai completar vinte e sete annos, e devo accrescentar que a certos respeitos parece não ter mais de quinze ou dezasseis; une a um enthusiasmo de poeta a inexperiência de um menino. Bom até ao extremo, honrado como os que mais o são, de consciência a mais escrupulosa, severo sempre para comsigo mes mo, indulgente sempre para com os outros, era sobretudo crédulo como a infância, e não calculava jamais nem com a hypocrisia, nem com a perfídia dos homens. Até á idade a que tinha então chegado, vivera constantemente afastado das lutas e das agitações do mundo, e só occupado com os seus estudos, cultivando apenas a sociedade generosa e leal de alguns bons collegas das aulas. Entrava agora finalmente no mundo social com a cabeça cheia de utopias e o coração cheio de amor. Era enthusiasta do bello, da
virtude, e escravo do dever : amava com ardor a pátria e desejava servil-a; amava os homens e desejava ser-lhes útil. Embora fosse modesto, Innocencio tinha consciência de que valia alguma cousa, e ufana va-se dos conhecimentos e da illustração que possuía, porque podia com a sua intelligencia esclarecida prestar serviços ao seu paiz. E emfim para remate completo e perfeito desta natureza tão própria para ser objeeto e victima das zombarias e dos enganos do mundo, Innocencio era poeta, e podia, se quizesse, brilhar como tal aos olhos dos homens. Desculpem-me se deixo em silencio os de feitos deste mancebo : os seus defeitos sem difficuldade se adivinhão, porque naturalmente devem corresponder á exageração das suc^s boas qualidades. Deixei Innocencio ainda ha pouco á mesa do almoço; agora vou encontral-o no seu quarto. Está deitado, mas não dorme, nem descança; medita : em que medita?... Elle lá o sabe; sonha talvez, sonha com um futuro de flores, com triumphos, com amor, com a gloria:
sonha com illusões : não é assim que sonhão todos os poetas?... Levantou-se, e foi sentar-se á uma mesa, abrio a sua carteira de viagem, delia tirou papel, pennas e um pequeno tinteiro, e pôz-se a escrever. Escreve no seu diário as lembranças e impressões do dia, a cujo termo ainda não chegou. Realmente ha n'esse cuidado pressa de mais. Sorrio-se e suspirou escrevendo um nome; esse nome ó Christina. É provável que se chame Christina a moça com quem elle veio no carro do trem do caminho de ferro; não é provável, é certo, porque sem necessidade já escreveu três vezes o mesmo nome, e o repete docemente dez vezes de cada vez que o escreve uma. Melhor! esqueceu a prosa, e compõe versos: é um canto que improvisa, e com tanta faci lidade e promptidão que no fim de duas horas escreve o ultimo verso da vigésima e derra deira estrophe. Mas nesse momento rebentou aos ouvidos do mancebo uma gargalhada homerica.
Innocencio voltou a cabeça e vio seu pa drinho encostado á sua cadeira. — Estava ahi meu padrinho ?... — Sim, e li o teu canto, que me fez rir. — Porque?... achou-o máo? — Péssimo, porque me parece excellente. — Não o comprehendo. — Pois é fácil: quem escreve versos como esses... — Está apaixonado, não é isso?.-, confesso que tem razão. — A paixão ó o menos, porque a paixão apaga-se. — Conforme... — Apaga-se. — Admitíamos isso; e que mais então?... — É que quem escreve versos como esses, ainda que nunca mais escreva outros, nem por isso deixará de ser sempre poeta pela ca beça e pelo coração, e está por conseqüência destinado a ser uma alma de outro mundo desterrada neste, onde não encontrará nunca nem o que pensa, nem o que sonha. — Meu padrinho confunde este mundo com o inferno. — Não, meu afilhado; eu não confundo,
digo somente o que elle é : és tu que preten des arranjar o mundo a teu modo, e transformal-o em paraíso. E o peior foi que dessa vez Geraldo-Risota não se rio.
II.
A capital do Império do Brazil compõe-se, por assim dizer, de duas cidades distinctas, mas habitadas pela mesma população : a ci dade da manhã, e a cidade da tarde, a ci dade do trabalho, e a cidade do descanço. A primeira é aquella que especialmente se es tende do campo da Acclamação para os diver sos bairros commerciaes, que fórmão o que ainda se chama a cidade velha : a segunda é immensa, variada e pittoresca e comprehende todos esses subúrbios elegantes, amenos e sau dáveis, que se chamão Cattete, Botafogo, Larangeiras, Santa Theresa, Engenho-Velho, Rio-Comprido, S. Ghristovão, Andarahy, Tijuca, e outros ainda. De manhã, negociantes, capitalistas, funccionarios públicos, advogados, e homens de de todas as profissões, correm a povoar a ci dade do trabalho ; chegada porém a hora em
que o trabalho cessa ou escassêa, voltão apres sados á passar a tarde e a noite na cidade do descanço. É verdade que a grande maioria da população fica sempre na primeira cidade; mas também a grande maioria é composta d'aquelles que não podem ter uma casa para a manhã e outra para a tarde e a noite; e habitão constantemente a cidade do trabalho pouco mais ou menos pela mesma razão por que os prezos habitão na cadêa. Geraldo-Risota pertencia ao numero dos fe lizes, que podem ir jantar e dormir na chá cara, e, muito zeloso d'esse direito, logo que terminou a sua tarefa no dia da chegada de Innocencio, partio para a sua casa de campo, levando comsigo o afilhado. Jantarão ambos como bons amigos, e, aca bado o jantar, fôrão tomar o fresco passeando pelo jardim. Alli estão elles, o padrinho e o afilhado, sentados em frente um do outro, em dous bancos de relva. Innocencio acabava de enunciar-se não sei a respeito de que assumpto com o seu ardor costumado, e Geraldo-Risota havia lhe res pondido com uma gargalhada.
Ficarão depois em silencio por algum tempo; mas Geraldo outra vez encetou a con versação. — Conversemos, Innocencio; mas falla-me em prosa se queres que eu te entenda. — Fallar-lhe-hei do modo que chama prosa, meu padrinho, isto é, sem mostrar in teresse, e ainda menos enthusiasmo, que é o que lhe parece poesia ; fallar-lhe-hei pois as sim, mas ha de ser com uma condição. — E qual é ella? — Que vossa mercê não me interromperá com as suas risadas, que me desapontão. — Oh diabo! — Sim ou não, meu padrinho?... — Mas se és tu que me fazes rir! — Vossa mercê ri-se de tudo. — Foi o melhor partido que pude tomar depois que reflecti seriamente sobre os ho mens e as cousas da nossa época. — Em tal caso não direi mais palavra, nem em verso, nem em prosa. — Está bem : por tua causa suffocarei o riso e tornar-me-hei sério e grave como um de sembargador quando veste a beca. Ora pois, conversemos.
— Conversemos, meu padrinho. — Principia tu,pondo-me ao facto dos teus projectos e esperanças; pôde ser que eu te dê algum bom conselho, porque emfim sou teu parente, teu padrinho, e teu amigo. — Com o maior prazer. — Vamos lá : acende outro charuto , e falia; mas falia sem fogo, falia frio, desenxabido e positivo como um deputado ministerial. Innocencio acendeu um segundo charuto e fallou : — Meu padrinho, três grandes esperanças me animão, três bellos pensamentos me occupão actualmente. — É muito : três são demais; devia ser uma só, e ainda assim não seria difficil o de sencanto. — Mas as minhas esperanças baseão-se em seguros fundamentos. — Vamos a ellas. — Espero no dia 30 de Janeiro ser eleito deputado pelo meu districto, na província onde nasci. — Ohlá! — Espero que o governo me confie uma commissão importante, na qual servirei bem
ao meu paiz, e darei uma prova dos meus re cursos intellectuaes. — Excellente ! — Espero emfim casar-me com uma joven que fará a felicidade da minha vida. — Três sortes grandes sem comprar bi lhete !... desconfie de tanta cousa junta : olha que eu desato a rir, Innocencio \ — E eu calo-me. — Não : estás vendo que conservo inalterá vel a minha gravidade de desembargador de beca. Tornemos ás esperanças, e estudemos cada uma por sua vez. Como arranjaste a deputação ? — Muito simplesmente : reuni em minha casa os eleitores do meu município, expuz cla ramente a todos elles as minhas idéas políticas e administrativas, mostrei-lhes quaes erão os meios mais racionaes e capazes de preparar um brilhante futuro á nossa pátria, marquei o procedimento que eu teria se fosse eleito de putado, e conclui dizendo-lhes : eu não vos peço os vossos votos; pergunto-vos se os me reço : se os mereço, deveis dar-m'os : a elei ção não ó uma questão de favor, e sim de in teresse geral e de consciência. Ora, os eleitores
respondêrão-me que as minhas idéas erão excellentes, e que me suppunhão muito digno de uma cadeira na câmara temporária ; por conseqüência não posso duvidar do resultado da minha eleição. — Mas quem toma á peito a tua candida tura? — Creio que todos os eleitores. — Porque?... — Já o não disse?... porque todos elles applaudírão as minhas idéa?, e reconhecerão que erão sãs, conscienciosas e utilissimas. — E o presidente da província protege-te ? — Que tem que ver o presidente da pro víncia com a minha eleição?... eu rejeitaria um diploma que fosse arrancado aos eleitores pela intervenção do governo. —Mas alguma potência eleitoral ao menos... — A única potência eleitoral deve ser o me recimento do candidato; uma eleição não é um favor que se ande mendigando : hei de ser eleito sem empregar esses meios que re provo. Só depois de vêr esse milagre acreditarei n'elle. Desconfio muito que não serás nem o immediato em votos. Rapaz, tu pensas que a
eleição é uma bella realidade política, e ella não passa de uma comedia ou fantasmagoria constitucional. Mas vamos á segunda espe rança: a tal commissão... — Sube, antes de partir para a minha pro víncia, que o governo ia nomear um commissario encarregado de examinar trabalhos im portantes, que se referem á especialidade que foi objecto dos meus principaes estudos: requeri ser escolhido para essa commissão, do cumentando o meu requerimento com todos os meus attestados acadêmicos, declarandcme prompto para exhibir provas da minha ca pacidade em um exame publico, e, visto que sou ainda pouco conhecido, apontando diver sos cavalheiros considerados d'esta capital que podem affiançar á minha probidade. Ora, a commissão é difficil eespinhosa; não creio que muitos a desejem., e portanto espero ser esco lhido para ella. — E quem é o teu patrono n'esta pretenção? — O meu patrono ?... — Sim; quem se empenha a teu favor?... — Meu padrinho é maníaco pelos empenhos !.i. eu não pedi, nem peço a pessoa ai-
guma que se interesse por mim : offereci-me a sujeitar-me a um exame publico, lembrei ho mens conceituados que podem responder pela minha probidade, e é o que basta. — Fallasteao ministro respectivo?... — Procurei-o, e responderão-me que elle estava muito occupado, o que é bem natural, porque um ministro tem a seu cargo uma ta refa onerosissima; deixei pois o meu reque rimento documentado na secretaria, e espero socegadamente o resultado. — Innocencio! disse Geraldo ; uma de duas : ou tu te resolveste a passar a tarde divertindo-te á minha custa, ou és o maior tolo que eu tenho conhecido no mundo. — Porque, meu padrinho?... — Pois tu já viste nomeações sem patronos esemempenhos?... — Oh senhor! exclamou Innocencio : não falto agora de mim, que pouco valho : quando porém se apresenta pretendendo um em prego um homem illustrado, honesto e capaz de preenchêl-o com proveito do paiz... — Em regra não arranja nada, é posto de lado, e morrepagão, se não tem padrinho; — Que blasphemia, meu Deosl...
— Innocencio ! conheces o direito consti tucional do teu paiz?... — Um pouco. — Quantos são os poderes do Império ?... — Ora, meu padrinho! — Responde. — São quatro. — São cinco. — Eu respondo com o direito constitucional. — E eu com o direito consuetudinario. 0 patronato é o quinto poder do Império: ainda não houve ministro que o confessasse em alta voz; mas também nenhum houve ainda que deixasse de reconhecêl-o e dobrar-se a elle. — Então o Brazil... — O Brazil está no caso das outras nações: mais miséria, menos miséria, mais ou menos desmoralisação, todas ellas andão assim. — Portanto... — Aposto que ficarás sem a commissão. — Veremos. — Vamos á esperança do casamento. — Meu padrinho, não vio aquella família que chegou hoje comigo em um carro do trem da estrada de ferro?... — Ah! trata-se da formosa D. Christina,
filha do meu amigo Fagundes... uma bella moça de apparencias sentimentaes, mas fria como uma pedra de gelo, e positiva como um bilhete do banco. — Meu padrinho! eu a amo.... — E ella? — Corresponde ao meu amor. — E os pais ? — Não podem deixar de sabêl-o. — Entendo : o nosso amigo, em cuja casa estiveste, deu-lhes noticias tuas e de tua famí lia, e elles ficarão sabendo que tens uma fortunazinha de cincoenta a sessenta contos de réis. — E que vem isso ao caso ? — Vem muito : vais por ahi melhor do que pelas esperanças de deputação e de em prego. — Creio que não se refere ao meu di nheiro... — Refiro-me; ó mesmo justo que um pai deseje para sua filha um marido que tenha com que tratal-a convenientemente : é verdade que o meu amigo Fagundes não é pobre; mas nem por isso calcula menos com um genro que seja rico. Anima-te pois : a tua
terceira esperança realizar-se-ha contanto que.... — Acabe! — Ora! comtanto que ainda a tempo não appareça algum outro pretendente que, mercantilmenté fatiando, represente uma somma mais avultada do que tu podes representar. — Isto é de mais! — Não é de mais nem de menos, é exacto. Entretanto approvo a tua idéa de casamento, e amanhã á noite iremos tomar chá á chácara do Fagundes, quero apresentar-te como meu afilhado. — Aceito, meu padrinho. — E não tens mais que confiar-me ? — Nada mais. Ouvindo isso, Geraldo-Risota começou a soltar tantas e tão continuadas risadas que esteve a ponto de cahir do banco onde se achava sentado. Innocencio susteve-o, epediolhe que se lembrasse da promessa que fizera. — Deixa-me rir! deixa-me! não sabes quanto me Custou estar sério por tanto tempo; mas disseste cousas que hão de fazer-me rir durante um anno.
III.
No dia seguinte, das seis para as sete horas da tarde, Geraldo e Innocencio dirigirão-se á chácara de Fagundes. Era curta a distancia que tinhão de vencer, mas ainda assim o padrinho e o afilhado apro veitarão o tempo conversando. — Innocencio, disse Geraldo, preciso que me previnas do papel que pretendes repre sentar para com a família de Fagundes. — Que papel pretendo representar! essa é bôa, meu padrinho; eu quero e hei de sempre apparecer e mostrar-me tal qual sou : dir-sehia que vossa mercê suppõe que se trata de representar alguma comedia! — Rapaz, o mundo e um theatro immenso, onde os homens, quer em relação á política quer em relação ás suas profissões, ás socie dades que frequentão, e até á própria religião são cômicos mais ou menos habilidosos. Todos
representão, e muitos ou quasi todos o fazem até mascarados. — E com que fim? — Com o fim de ver quem mais engana os outros e mais se aproveita da credulidade alheia. — E meu padrinho queria então que eu também por minha vez voltasse as costas á verdade, esquecendo o dever da lealdade e da franqueza, e me desfigurasse com a men tira?... — Eu não disse que o queria; apenas per guntei o que pretendias fazer : não te acon selho que te deixes corromper e que te desmoralises, mas também se te visse já enfeitado com uma certa perfídia e desmoralisação ele gante, que tanto aproveitão aos grandes e po derosos da terra, não trataria de corrigir-te, porque vejo que ó com esses enfeites que melhor se arranja a vida e se passa bem no mundo. — E meu padrinho pratica também assim?.. — Eu não, mas eu já não sou desse mundo; ou mesmo quem sabe se as minhas repetidas gargalhadas não são uma espessa mascara com que escondo o pezar de mil decepções e de-
senganos?... Está dito : eu também represento o meu papel de Democrito. -Ah! — Mas ainda ha pouco disseste uma grande asneira perguntando-me se eu queria que te desfigurasses com a mentira : as mentiras do bom tom não desfigurão, esmaltão, e era pos sível, que te quizesses esmaltar com algumas dessas mentiras aos olhos da família do meu amigo Fagundes. — Por exemplo... — Por exemplo, podias querer passar por fidalgo, e em tal caso inventarias dez historias a respeito da sublime procedência de teus avós : para um moço que deseja recommendar-se á sua noiva e aos pais delia, isso não era de todo novo nem mal pensado. Actualmente a fidalguia vai creando azas e tomando uns ares que fazem medo, o que vale é que os nossos fidalgos arranjão-se ás dúzias e apresentão-se tão caricatos que fazem rir. Po dias também, .e isso era mais importante ainda, querer passar por herdeiro futuro de uma ri queza colossal, dizendo em tal caso que tua mãi possue dez fazendas em vez de uma só : em questão de casamento uma mentira deste 14.
gênero esmalta admiravelmente um noivo e mpressiona de um modo indizivel os pais da moça. — E depois?... — Depois de arranjado o negocio, os illudidos que engulírão a pílula, calão-se porque se se animassem a fallar e protestar... — Que aconteceria?... — O mundo rir-se-hia deites, e eu mais que todos soltaria enormes gargalhadas. — Pois eu nunca me servirei da men tira nem da perfídia para alcançar o que desejo. — Farás bem e farás mal; alcançarás uma coroa no reino do céo, mas has de levar muita pateada nos reinos da terra. — Então a virtude já fugio espantada e corrida deste mundo?... — Não : ainda se sustenta nelle, resistindo ao triste espectaculo da prepotência, do pa tronato, da traição, da infidelidade, e do vicio, que muitas vezes campeão triumphantes; ainda resiste e resistirá sempre, e é por isso que é virtude. — Ainda bem ! meu padrinho já acredita em alguma cousa!
— Pois eu deixei algum dia de crer na vir tude, na honestidade e na honra ?... 0 que eu digo é que, sendo poucas os virtuosos, ando sempre a rir-me e sempre desconfiado ao ver a multidão de gente que anda a toda hora impondo de virtuosa. Geraldo e Innocencio chegarão nesse mo mento ao portão da chácara de Fagundes, e dahi a pouco baterão palmas á porta, e o pri meiro exclamou: — Licença para um padrinho que traz comsigo o seu afilhado ! É inulil dizer que Geraldo e Innocencio fôrão recebidos com a maior alegria. — 0 Sr. Innocencio não precisava de apre sentação, disse Fagundes, é já nosso amigo e deve-nos muita estima. — Mas folgamos bastante por saber que é seu afilhado, accrescentou Garlota, a mãi de Christina. — E além de afilhado, parente, disse Geraldo. — Parente chegado?... perguntou com in teresse a bôa mãi da menina. — Não; tenho outros mais próximos, res pondeu Geraldo desatando a rir.
Bem depressa a conversação tornou-se geral, sendo Innocencio objecto de extraor dinários elogios da parte de Fagundes e de Carlota. Quem menos fallava era Christina. O rosto desta moça era regular e bonito, attrahia porém a attenção ainda mais por uma certa expressão de suave melancolia do que pela sua belleza; seus olhos principalmente, seus olhos negros e humidos erão cheios de um languor que captivava; sua voz parecia um canto harmonioso, cada um de seus sorrisos um triumpho de amor: a graça morava nos lábios de Christina. Innocencio devorava com olhos ardentes a sua encantadora amada. Fagundes e Carlota conversavâo com Ge raldo de modo a deixar ao mancebo tempo e occasião de sobra para fallar em liberdade a Christina. Mas os dous namorados entendião-se ainda mais com os olhos e com os suspiros do que com a palavra. — Canta alguma cousa, disse emfim Carlota a Christina. A moça fez-se rogar um pouco, e acabou
por levantar-se, sendo acompanhada por Inno cencio ao piano. — Permitte que eu tenha a honra de acompanhar o seu canto?... perguntou o mancebo. — Com muito prazer, disse corando e tre mendo a moça. Escolhião a musica... folheavão-se os li vros... os dedos côr de rosa de Christina encontravão-se com os de Innocencio, e ao doce contacto ambos se sorrirão. Emfim Christina preferio entre outras a ária de Eleonora do Torquato Tasso, e can tou-a com sentimento e paixão. Acabado o canto, os dous namorados fica rão conversando junto do piano. — Gosta muito d'aquella musica minha se nhora?... — 0 mais que é possível. — Tem razão; a musica do Torquato é um verdadeiro triumpho da arte. — Talvez que a arte seja o que menos influe na minha predilecção por esta ária. — Então... — Arrebata-me o pensamento que alli do mina, arrebata-me aquelle amor que faz
esquecer a distancia que separa o poeta da princeza : o sentimento transborda alli com a mais sublime pureza. É um amor que não parece da terra, e que é no entanto o único que eu posso reputar verdadeiro e santo. Innocencio teve desejos de ajoêlhar-se aos pés de Christina e adoral-a como um anjo. — Oh! tem havido tantossacrilegos ousan do emprestar o nome sagrado de amor a sen timentos ás vezes tão baixos!... o interesse tem tantas vezes manchado esse nome bello e puro envolvendo-se com elle que... — Acabe... — Senhor.... estou dizendo loucuras... — Oh! não.... está fazendo ouvir a lição da virtude, da generosidade, do amor do céo! — Pois bem : tantas vezes tem-se observado aquelle sacrilégio abominável, que pela minha parte eu preferira ser victima delle a parecer suspeita de haver pensado em commettêl-o! Oh! eu desejara que o homem a quem eu amasse.... e que tivesse de ser meu esposo fosse tão pobre, tão completamente pobre que somente me pudesse dar o thesouro do seu coração. Então eu ostentaria o meu amor pro fundo, desinteressado, virgem, divino pela
sua essência, divino ainda pela sua duração sem termo... porque o meu amor, eu o sinto, não poderá acabar nunca! Com uma com moção violenta, Innocencio agitado, nervoso, tremulo e receioso de atraiçoar-se, correndo com os dedos pelo teclado do piano, executou alguns compassos de uma musica estridente, ao mesmo tempo que Chris tina, commovida também, mas observando-o cuidadosa e disfarçadamente, vio cahirem-lhe dos olhos duas grossas lagrimas. — Incommodei-o ? chora ?... perguntou ella. — Não! não! estas lagrimas que cahírão de meus olhos são mais doces do que todos os risos da felicidade, Christina.... Christina... o seu amor é como o amor que eu sinto, e o seu,., eu o quero para mim... é meu... pertence*me... Ah! diga-me ainda uma\ez que me ama... A moça deixou cahir sua mão esquerda sobre as mãos de Innocencio, e apertando com a outra o coração, murmurou docemente ; — Amo-o! 0 chá começou a servir-se naquelle mo mento.
Ás dez horas da noite Geraldo e Innocen cio despedirão-se e retirárão-se. — Então! aproveitaste bem o teu tempo, não é assim?... perguntou Geraldo. — Meu padrinho, respondeu Innocencio, Christina é um anjo! — Mas repara que não me asseguras que não seja algum daquelles anjos decahidos que se revoltarão contra Deos e cahírão do céo no inferno. — Não zombe; é um anjo de virtude e de amor! — Qual! é uma moça bonitinha, que tem mais defeitos do que pensas. — Meu padrinho, peço-lhe que respeite aquella que deve ser minha esposa. — Não digo mais palavra sobre ella; creio porém que posso faltar sobre os pais. — E que tem á dizer a respeito d'elles?... — Pouca cousa : digo que se interessão por ti. — Ah! — Não houve pergunta que me não fizes sem : ficarão sabendo a quanto montou a legi tima que te tocou por morte de teu pai e a — 253 - herança que te caberá por morte de tua mãi... — Meu padrinho! — Não acharão máo o que eu lhes disse que foi a pura verdade, mas ficarão menos conten tes quando eu os informei de que não podias esperar ser herdeiro de mais parente al gum... — Sempre a mesma idéa!... — É muito natural; os pais devem pensar no futuro de suas filhas; e assiste-lhes o di reito de serem muito positivos. — Tem razão. — E Christina? o que te disse ella? — Vossa mercê zomba de tudo.... — Não, tomarei este negocio ao sério. Innocencio contou palavra por palavra tudo quanto se passara entre elle e Christina, e o enthusiasmo com que esta lhe fallára do amor da princeza Eleonora, e do amor desinteres sado e santo , único que ella comprehendia. Ouvindo isso Geraldo-Risota pareceu fazer um esforço sobra si mesmo, e de repente co meçou a assobiar muito desafinadamente uma musica que ninguém seria capaz de dizer o que era.
• — Que faz, meu padrinho perguntou Inno cencio. — Assobio, meu afilhado; assobio para não rir.
IV.
Foi tão lisongeiro ou tão animador o acolhi mento que Innocencio recebeu dos pais da sua amada, que não deixou mais passar uma única noite sem ir pagar tributos de amor e colher suaves esperanças na chácara feliz onde habitava Christina. Visitas tão freqüentes poderião offender certas considerações que sempre se devem respeitar; mas Innocencio olhava já Christina como sua noiva, e embora ainda não a tives se pedido formalmente em casamento, já com tanta clareza manifestara as suas intenções a este respeito a Fagundes e sua esposa, que sem vexame e quasi que com uma presumpção de direito ia todas as noites passar duas ou três horas ao lado daquella que devia ser em breve a sua companheira de toda vida. Também de sua parte Fagundes e Carlota recebião sempre com o maior agrado Inno-
cencio, e Christina nunca se despedia delle que ao apertar-lhe a mão não lhe dissesse : — Até amanhã! Tudo isso era muito natural e explicável. A um namorado não faltão jamais pretextos, e nem mesmo razões que lhe parecem muito sólidas para freqüentar assídua e até diaria mente a casa daquella a quem ama. Os pais de uma menina que já tocou a idade de casar-se acolhem sempre com es tudado favor o mancebo que se lhes afigura em boas condições para ser um marido extremoso e capaz de fazer a felicidade da filha. O que porém menos natural poderia parecer era a incansável solicitude com que Geraldo Risota mostrava auxiliar os amores e os projectos de casamento de Innpcencio. Geraldo não deixava de acompanhar o afi lhado uma só noite á chácara de Fagundes, nem de informar-se na volta á respeito do es tado das relações dos dous amantes. Uma vez Innocencio chegou a agradecer ao padrinho os signaes do vivo interesse que lhe devia. — Nada de agradecimentos, respondeu
Geraldo; não quero que te enganes comigo ; o empenho que tomo em informar-me dos teus amores com Christina nasce somente do juizo que faço do coração da tua noiva, e da admiração que me causa a sua constância. — Já vê, meu padrinho, que lhe cumpre reformar o seu juizo e pedir perdão a Chris tina. — Ainda não : deixa primeiro soprar o vento. — Que vento? — Um certo vento que ás vezes faz mudar de rumo a muitos homens, e do mesmo modo a muitas senhoras. — Meu padrinho! já lhe pedi.... — Mudemos de assumpto. — É melhor. — Como vais de esperanças eleitoraes ?.. — Nada posso dizer além do que já lhe disse, não tenho recebido carta alguma da província. — Máo signal! — Não : eu estou perfeitamente tranquillo: a minha eleição é indubitavel. — E a commissão do governo ?... — Fui já três vezes, procurar o ministro
para entender-me pessoalmente com elle, e não consegui uma só vez fallar-lhe. — Talvez o procurasses em horas mal esco lhidas. — Por pensar também assim mudei sempre de hora. — E sempre infeliz, heim ? — A primeira vez fui ás onze da manhã: S. Ex. estava almoçando. — Bom! — A segunda fui ás cineo horas da tarde: S. Ex. estava jantando. — Melhor! — Exasperado ou pelo menos contrariado, á terceira vez fui ás oito da noite, e S. Ex. estava ceiando !... — Optimo, sempre comendo! — Não volto mais ao ministro. — Mas a commissão ?... — Ha de vir a seu tempo : o meu reque rimento está de tal maneira concebido que, ou o governo ha de attender-me, ou esco lherá para o desempenho da commissão um homem mais hábil e mais digno do que eu, e nesse caso não poderei queixar-me.
— E se escolher uma pessoa sem capacidade nem habilitações?... — Não admitto semelhante hypothese. — Podes contar com a salvação eterna
— Porque? — Porque dos innocentes é o reino do céo. Na noite que se seguio aquella em que teve lugar este breve dialogo, Innocencio e Ge raldo-Risota encontrarão na chácara de Fa gundes quatro outros visitantes. Erão elles Antônio Cubas, um ancião commendador e trimillionario, e Anselmo, Victorino, e Carlos, todos três também Cubas, pois que erão filhos do rico capitalista. Antônio Cubas é um bom velho mas orgu lhoso, porque orgulhoso o tornarão os aduladores da sua fortuna. Dos seus três filhos Anselmo era atilado, astuto, ambicioso e dotado das melhores con dições para fazer fortuna depressa : seu pai o amava muito, depunha nelle a maior confiança, e o escolhera entre os outros para ajudal-ò a dirigir os seus negócios. VictorinQe Carlos tinhão estado em Paris
onde havião encontrado por vezes a Inno cencio. Victorino fora estudar a sciencia do direito e Carlos a engenharia; divertirão-se ambos o mais que puderão, e voltarão pouco mais ou menos com a instrucção com que tinhão sahido do Brazil. O doutor em direito ainda não distinguia bem os diversos systemas de governo por que são regidos os povos-, e sustentaria que a Inglaterra e a Rússia têm idênticas fôrmas de governo. O engenheiro não sabia desenhar, nem seria capaz de construir uma ponte; ambos porém tinhão os seus diplomas muito regulares. Entretanto Victorino e Carlos havião sem pre aproveitado alguma cousa em Paris: nada se podia notar na perfeição com que retorcião as pontas dos seus bigodes; no tom com que se vestião; na amabilidade com que fazião a corte ás senhoras e no ar de solemne desprezo com que olhavão para quem não tinha pelo menos um cavallo inglez, um phaetonte, e uma dúzia de historias de conquistas e de seducções de que se ufanar. Innocencio olhou com indifferença e Geral-
do-Risota com muita attenção para os quatro Cubas. A noite não correu inteiramento ao gosto de Innocencio. Os no vos hospedes tinhão vindo perturbar os gozos innocentes e suavíssimos do seu coração. Christina, obrigada sem duvida pelas exigên cias de uma perfeita cortezia a obsequiar a todas as pessoas que em sua casa se achavão, não pôde como até então occupar-se exclu sivamente de Innocencio; mas pelo menos olhou mil vezes, mil vezes sorrio-se para elle, e mil vezes ainda tornou a olhal-o corando, e certamente afflicta por não poder escapar de um modo conveniente ás insistências de Victorino, que especialmente lhe fazia a corte. Ás dez horas da noite levantárão-se Antô nio Cubas e seus filhos para se retirarem, e logo depois Innocencio e Geraldo-Risota despedírão-se também. —Até amanhã,disseChristinaa Innocencio apertando-lhe como sempre a mão. Aquelle doce — até amanhã — foi para o apaixonado mancebo uma indizivel consolação. 0 padrinho e o afilhado voltavão para casa caminhando em silencio. Iri.
Mas Geraldo não podia conservar-se por muito tempo em silencio. — Não dizes nada, Innocencio ! observou elle um pouco maliciosamente. — Nada tenho que dizer, meu padrinho. — Pareces-me um pouco pensativo. — Quasi sempre ando reflectindo. — Um pouco melancólico.... — Creio que não. — Sou capaz de jurar que esta noite voltasto da chácara do Fagundes menos satisfeito do que das outras... — Talvez. — Porque ?... — Não sei. Geraldo sorrio-se; mas conteve-se para que o afilhado não se apercebesse disso. — Conhecias já aquelles Srs. Cubas ?... — Conheci em Paris aos dous mais mo ços. — Victorino e Carlos... — Esses mesmos. — Que me dizes delles ?... — Não convivi com elles; nada posso infor mar das suas qualidades. — Aproveitarão muito na Europa?...
— Não estou no caso de responder affirmíitiva nem negativamente. Ignoro. — Muito bem, Innocencio! muito bem! gosto aindamais de ti quando não me fazes rir. — Não o comprehendo, meu padrinho. — Comprehendcs.... comprehendes : como não te é possível elogiar aquelles dous petitsmaitres, preferes guardar silencio : isso é generoso; eu porém que sou máo e fallador, direi o que tens e escondes na consciência. Victorino e Carlos fôrão para França, demorárão-se por lá cinco annos, gastarão cincoenta contos de réis ao tolo do pai, voltarão com dous diplomas que mandarão comprar na Allemanha, e chegarão ao Rio de Janeiro sabendo de menos a própria lingua e somente sabendo de mais uma lingua, nova e desco nhecida, que se parece um pouco com a franceza; mas que em ultimo resultado não o é. Acertei ou não?,.. Innocencio sorrio-se e não respondeu. — Sabes que mais? disse Geraldo : gosto muito de fallar; mas aborreço-me de o fazer quando não me respondem : se eu fosse mu sico, detestaria as árias, e só cantaria duetos. Tu hoje estás intolerável, Innocencio.
— Porque, meu padrinho ? — Queres que te diga o que te tornou assim silencioso e aborrecido de tudo?... — Diga. —. Foi o vento. — Que vento ?... — O vento que começa a soprar, meu afi lhado; aquelle que ás vezes faz mudar de rumo a muitos homens e a muitas senhoras. É um vento que os marinheiros não conhecem, vento que tem um nome geral que eu agora não quero dizer, e que pôde também chamarse por todos os nomes que tomão os homens: desta vez o vento chama-se... — Como?... — Victorino.
O mez de Fevereiro ia correndo e approximando-se do seu termo. Ninguém ignora que o mez de Fevereiro de 1861 foi no Brazil um mez cheio de alegria para alguns e de tristeza para muitos, conforme trouxe a satisfação ou o desengano das esperanças que em Janeiro sorrião a quasi todos os pretendentes de cadeiras no parla mento. Innocencio andava triste desde muitos dias mas convém saber que não era a sua tristeza a conseqüência de uma derrota eleitoral. Dis tava muito da corte o circulo por onde elle esperava ser eleito ; não tinha ainda recebido noticias da eleição, e continuava pois, como até então, a contar como seguro e indisputá vel o seu triumpho. Também não era a demora da nomeação que do governo esperava que o fazia mos-
trar-se melancólico : maldizia das delongas com que a administração publica atrazava a decisão e despacho do seu requerimento, mas insistia sempre em que o governo o esco lheria para desempenhar a commissão de que se tratava , ou escolheria para ella alguma outra pessoa de merecimento bastante para não lhe dar motivo de queixa. O que entristecia Innocencio era unicamen te a situação em que se achava a respeito do seu amor e suas pretenções de casamento. Depois daquella noite em que encontrara os quatro Srs. Cubas em casa de Fagundes, conti nuara durante uma semana a freqüentar com a mesma assiduidade o tecto querido onde vi via a sua amada, tendo sempre o desprazer de achar ao lado de Christina ou o velho Cubas e seus três filhos, ou pelo menos o pretencioso Victorino, que não cessara de fazer a corte aquella que elle já considerava sua noiva. A principio julgou aquellas visitas apenas impertinentes; logo depois porém incommodou-se muito seriamente com ellas. Por mais que quizesse cerrar os olhos á luz da evidencia, não pôde deixar de reconhecer que Christina em vez de procurar furtar-se
aos comprimentos demasiado significativos de Victorino, parecia antes excital-os e corres ponder a elles. Innocencio teve pejo de mostrar-se ciumen to, mas não lhe foi possível disfarçar o seu desgosto. Christina ou não comprehendeu ou fingio não comprehender o sentimento que despe daçava o coração de seu amante. Geraldo-Risota, que era o companheiro infallivel de Innocencio, ria-se muito do que se estava passando, e repetia sempre ao afi lhado : — É o vento que está soprando. Na ultima noite daquella semana, que foi a derradeira de assiduidade, Christina, aper tando a mão de Innocencio no momento da despedida, limitou-se a dizer-lhe cc bôa noite! » e não lhe disse mais , como dantes cc até amanhã ». 0 nobre mancebo resentio-se, e passou três noites sem voltar á chácara de Fagundes. Na quarta noite não pôde vencer-se e correu aos pés de Christina. A bella e desinteressada joven estava sen tada junto de Victorino, e, cortejando com
sensível frieza a Innocencio, nem lhe pergun tou se estivera doente. Era muito: era claro, era evidente : o vento estava soprando. O filho do riquíssimo Sr. Cubas fazia vol tar a cabeça á joven romanesca, que uma noite dissera com enthusiasmo a Innocencio que desejava que o homem a quem amasse eque tivesse de ser seu esposo fosse tão pobre, tão completamente pobre que somente lhe pudesse dar o thesouro de seu coração. Innocencio retirou-se da chácara de Fagun des uma hora depois de ter lá chegado, e arrastou oito noites seguidas sem voltar a ella. Amando sempre Christina, procurando desculpal-a, desgostoso de si mesmo, gastou dias inteiros a procurar um pretexto para tornar a vêl-a, e a descobrir um meio que puzesse um termo honroso á situação melindrosa em que suppunha achar-se. Está visto que acabou por fazer a desejada descoberta de um e outro. O pretexto foi a inconveniência que resultava, do seu súbito e inexplicável desapparecimento de uma casa onde fora constantemente bem recebido e obsequiado. O meio foi a ne-
cessidade de ter uma explicação decisiva eom Christina. Tomada esta dupla resolução, Innocencio, desejando por um lado não encontrar-se com Victorino, e por outro escapar ao menos uma vez á companhia de seu padrinho, sahio uma tarde ainda cedo, e sósinho dirigio-se á chá cara de Fagundes. Christina estava no jardim e vio o mancebo approximar-se delia : não avançou um passo para encontral-o, nem recuou um passo para fugir-lhe; ao menos porém sorrio-se ao vêl-o chegar. Innocencio abrio o coração para receber aquelle correio. — Até que emfim voltou ! disse Chris tina. — Suppunha então que eu não voltaria? perguntou o mancebo. — Não sei, respondeu a moça ; quem comprehende o coração de um homem ? — Tem-se feito mil vezes essa pergunta, minha senhora, mas sempre a respeito do co ração da mulher. Christina tornou a sorrir-se. — Sim, minha senhora, continuou Inno-
cencio : é somente o coração da mulher que se reputa incomprehensivel; eu porém via em V. Ex. uma bella excepção a essa regra pouco lisongeira para o sexo amável. — E mudou de opinião ? — Não mudei ainda, mas é possível que mude. — E porque?... — V. Ex. o pergunta ?... Se quer zombar de mim, é uma crueldade e um sacrilégio, porque atormentaria o amante e ridiculisaria o amor. — Que amor! que amor é esse tão forte e irresistível que pôde dormir oito dias?... Innocencio sentio brilhar de novo a seus olhos a mais suave esperança : daquellas pa lavras transpirava uma queixa, e essa queixa era para elle a felicidade, a gloria. O crédulo mancebo não sabia que Victo rino não appareçêra na chácara de Fagundes nas duas ultimas noites. — Sentio então a minha ausência? per guntou Innocencio. — Senti e chorei : senti, porque a sua au sência me parecia um desengano cruel; chorei, porque suppuz que ella podia ser aconselhada
por um resentimento infundado, e, dizêl-o, por um ciúme injusto. — Christina!.... — 0 senhor é máo para mim! disse a moça levando o lenço aos olhos. — Oh! não chore! não! exclamou Inno cencio : é verdade... o ciúme torna-me in justo ; eu porém venho hoje merecer o meu perdão, pedindo-lhe licença para dar um pas so decisivo, que deve ser o principio da nossa felicidade. — Equal?... — Se o permitte, pedil-a-hei hoje em ca samento a seus pais. Christina estremeceu e corou. — Permitte-o?.... A moça tinha os olhos no chão e meditava. Innocencio tremia por sua vez. — Permitte-o?.... — Escute, disse Christina commovida : o senhor vem me offerecer uma dita que desde muito desejo ; mas de hoje a três dias eu faço annos,- e ser-me-hia ainda mais agradável que o seu pedido fosse feito no meio da festa do meu anniversario natalicio : concorda?... — Oh! Christina! a felicidade não se adia
aproveita-se no mesmo instante em que se mostra. — Nega-me isso ?... Talvez seja um capri cho, mas eu lh'o peço. — Pois bem : de hoje a três dias virei pedir a sua mão a seus pais. Innocencio retirou-se ao anoitecer, não completamente tranquillo, um pouco porém mais socegado. Se se tivesse demorado até mais tarde po deria ter apreciado devidamente a influencia de sua entrevista com Christina, porque nessa noite Victorino veio acompanhado de seu pai e de seus irmãos á chácara de Fagundes. Innocencio dormio mal: a insistência com que Christina lhe rogara que adiasse o pedi do de casamento, causára-lhe desagradável im pressão. No dia seguinte, logo depois de deixarem a mesa do almoço, Geraldo-Risota levou In nocencio para a sala de visitas, e sentando-se em frente delle perguntou-lhe : — Onde foste hontem á tarde ? — A chácara do Sr. Fagundes. — Adivinho que tiveste uma explicação com a tua namorada.
— É exacto. — E então?... — Pedil-a-hei em casamento depois de amanhã. Geraldo-Risota fez uma careta. — Diabo!... querem ver que o vento dei xou de soprar! — Meu padrinho!... — Não fatiemos mais nisso por ora. É a terceira decepção, que poderá chegar mais tarde. — Como?... — Já leste o Jornal do Commercio de hoje? — Ainda não. — Pois lê; toma-o. — Innocencio recebeu o Jornal, abriò-o e leu a Gazetilha. — É possível !... exclamou o mancebo : Anselmo Cubas deputado pelo meu districto eleitoral!... — Se não acreditas, esfrega os olhos e lê outra vez. — Mas Anselmo Cubas nunca foi aquelle districto, e nenhum dos eleitores o conhece!.. — E o elegerão sem saber se é vegetal ou mineral?que novidade!
— Ê incrível!... — E quantos votos ti vestes? — Dous, meu padrinho! somente dous! — Eu não esperava tantos. — Mas a palavra daquelles homens?... — Em tempo de eleições suspendem-se as garantias da honra e da probidade. — Innocencio deixou cahir das mãos o Jornal. — Apanha o Jornal, disse Geraldo-Risota; apanha-o depressa , e lê a parte official ; anda. Innocencio leu. — Esta é ainda melhor!... Carlos Cubas nomeado pelo governo para a commissão que eu pedia!... — E que tem isso?... — Carlos Cubas é de uma completa inca pacidade... é quasi um idiota... \ — Pateta! já viste algum filho de millionario que não seja sábio?... Geraldo-Risota rompeu em gargalhadas es trondosas emquanto Innocencio lia e tornava a ler o acto official e a Gazetilha, como du vidando ainda dos seus próprios olhos. Nesse momento baterão na escada» e logo
depois um escravo apresentou uma carta a Geraldo e outra a Innocencio. Geraldo apenas abrio a carta que lhe era dirigida, renovou a suas gargalhadas com tanta força que ficou quasi suffocado. Innocencio tinha no rosto a pallidez da morte. As cartas erão assignadas por Fagundes, que participava aos seus amigos o próximo casamento de sua filha Christina com Victo rino Cubas. — Foi o vento que tornou a soprar, disse emfim Geraldo. — Oh ! três desenganos, três decepções num dia!... Povo, governo, e mulher... to dos me enganarão!... Vai aprendendo, rapaz, vai aprendendo : has de acabar, como eu, não acreditando em cousa alguma deste mundo. — Não, meu padrinho; não : o scepticismo é a morte do coração, é a sua gargalhada, é o pranto da alma desfigurado em uma risada de escarneo lançado á face de todos os homens; o scepticismo é uma luz do inferno que con duz o homem ao desespero ou ao vicio : eu nunca serei sceptico; apezar do povo, do
governo e da mulher, nunca serei sceptico. — Pois em tal caso, meu pobre afilhado, volta para a roça e occupa-te em fazer versos: arranja um mundo a teu geito com o encanto da poesia, e vive nelle para sempre que é esse o único recurso que resta áquelles que a des peito de todos os desenganos, ainda tem espe ranças e ainda acreditão nos homens. Geraldo-Risota soltou de novo uma garga lhada homerica. Mas Innocencio não se confundio; antes levantou com toda aquella nobreza que nasce de uma sã consciência e da virtude. O VENENO DAS.FLORES.
WTRODUCÇAO. Dizeis que o suicidio é um acto de lou cura?...^ vossa opinião tem incontestavelmente um duplo merecimento : o da repro vação dessa horrível offensa das leis naturaes e divinas; pois que somente a admittis no homem, cuja razão se aliena ; e o da caridade pelo suicida; porque reputando-o louco, o tornais objecto apenas da nossa commiseracão. Também eu creio que muitas vezes o sui cidio é um acto de loucura; mas quem pode assegurar que em todos os casos o seja?... raciocinaes, apoiando-vos no grito da na-
tureza, que é ouvido e obedecido pelo instincto ?... mas vós chamais a educação uma segunda natureza, e sabeis que ella tem a força e poder de domar, de corrigir, e de corromper o instincto. Os musulmanos são homens, e a facili dade com que se vião alguns delles rece bendo o cordão fatal que lhes era mandado pelo sultão, apertar com as próprias mãos o nó assassino, e a placidez com que al guns outros se suicidavão muito .volunta riamente, explicão-se menos por uma cega obediência, e por um acto de loucura do que pelas idéas do fatalismo e pelas es peranças daquelles gozos sensuaes e eternos que a sua falsa religião estabeleceu e promette. Lastimais a repetição dos casos de suicí dios que ultimamente se têm observado?... não ha lastima que mais justa seja; não sei porém o que mais se deva lastimar, se os suicidas,'se a .sociedade.
Lastimemos pois a sociedade, além de lastimarmos os suicidas : lastimemol-a, menos ainda pelo funesto exemplo que estes lhe deixão, do que pelos vicios profundos que a corrompem, e que são os prepara dores do desespero que determina o suicí dio. Admittindo mesmo em hypothese que o suicídio seja sempre um acto de loucura; é fácil de provar que a depravação dos costumes e uma educação defeituosa e ruim podem levar o homem, por um caminho em cujo termo não poucas vezes a razão chegue a alienar-se, e o abysmo do suicídio abra-se para receber o desesperado. Porque a corrupção e a educação mal regrada não hão d§ produzir, embora por idéas e princípios diversos, o mesmo resul tado que produz a religião dos mahometanos?... Fallarei especialmente a respeito do que se passa entre nós, limitar-me-hei por agora 16.
a uma única, mas sem duvida principal consideração. Como preparamos nós a mocidade de ambos os sexos?... O Estado e os pais de família cuidão um pouco em dar instrucção aos meninos e jovens; inas da sua educa ção e particularmente da educação religiosa tratarão elles tanto como devião?... Ornão-se os espíritos e estragão-se os corações!... Saltamos de um para outro extremo. Outr'ora preparavão-se os meninos para serem padres ou frades, e quando o menino tornando-se homem não conseguia ser nem padre nem frade, ao menos ficava quasi sempre sendo fanático. Corrigio-se o erro; corrigio-se porém de mais : hoje em vez de fanáticos estamos fazendo incrédulos. Esta verdade sente-se a cada momento em todos os dias, e no entanto em lugar de se applicar um remédio capaz de melhorar a situação, nem se attende á educação da
mocidade, nem ao menos se trata de forta lecer a religião, regenerando o nosso clero pela intelligencia e pela moralidade. Quem sabe ?... talvez se conte muito com o po tente auxilio dos frades barbadinhos e de certas corporações que vão lançando raízes no paiz e que não podem senão levar-nos outra vez aos tempos do fanatismo : quem sabe?... talvez se esteja sonhando e dese jando a volta dos Jesuítas ao Brazil como se fossem precisas as suas roupas negras para que ainda mais negro se nos mostre o horizonte do futuro da pátria. Entretanto é positivo que a falta de edu cação religiosa e religiosa sem fanatismo, deixa submergir-se a juventude nas som bras de uma incredulidade fatal. Essa incredulidade,, esse scepticismo apaga a fé, e mata a mais suave e a única infinita das esperanças a fé e a esperança em Deos. Sem a luz da fé, sem o confortovda espe-
rança em Deos que tudo pôde, como não ha de o homem enfraquecer, desesperar, ou se quizerem, enlouquecer quando esbarra diante de uma desgraça que lhe parece irre mediável e irresistível?... Sem a luz da fé, sem o conforto daquella esperança illimitada, infinita, o homem em taes e tão horríveis circumstancias, não se podendo voltar confiadamente para Deos, volta-se para o suicídio ; não acreditando no céo, arranca-se violentamente da terra. Como então vos sorprendeis, vendo avultar o mappa sinistro dos suicídios?... Não vos admireis; a arvore está dando os seus fructos; a desmoralisação e a depravação dos costumes não podião nem po dem produzir outros resultados. Tende paciência i a historia de cada sui cida é a historia intima dos vicios que cor rompem a sociedade. A recordação e o estudo desses horríveis casos são tristes e profundamente doloro-
sos; podem fazer-vos chorar, eu sei; mas deverão por isso deixar de ser referidos? Chorai, embora : não ha lagrimas esté reis senão as da hypocrisia. Vou contar-vos uma dessas historias. Tenho-vos feito ler não sei quantos ro mances alegres e brincões; em compen sação permitti que eu agora vos offereça um outro de um gênero absolutamente di verso Será um romance triste; mas tão simples como breve : tolerai-o : e se nem com a tolerância quizerdes animar-me não o leais. 0 titulo deste romance é O Veneno das flores : porque o intitulei assim?... léde-o, se desejais sabêl-o.