Uma Paixão Romântica Os Romances da Semana · Capítulo 5 de 7
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Uma Paixão Romântica

Uma Paixão Romântica

Ura estudante é um homem excepcional que não se parece senão com outro estudante. 0 seu viver, o seu pensar, o seu proceder tem pontos de notável dissemilhança do viver, do pensar e do proceder dos outros ho mens. Um estudante reputa-se membro de uma republica independente, na qual o chefe do Estado é o director da escola, e são ministros os lentes e professores, e não reconhece mais autoridade legal abaixo do bedel. 9.

Um estudante é o mais altivo dos aristocra tas : para elle são nobres os seus mestres, no bres os outros estudantes; e todo o resto da humanidade vale tão pouco a seus olhos que designa com o nome bixo tanto ao mendigo como ao millionario, tanto ao plebêo como ao mais graduado dos titulares. Um estudante é poeta ainda que não faça versos; não é pobre nem mesmo quando não tem um real de seu, e não é bastante rico, embora tenha uma mezada sufficiente para sustentar quatro ou seis estudantes; nunca lhe falta e nunca lhe sobra o di nheiro. Um estudante ri de tudo, e de tudo zom ba : tem um coração tão grande que lhe chega para guardar dez amores a um tempo; tem uma imaginação tão feliz que engendra dez romances em uma noite, e uma esperança tão lisongeira, tão bella e tão fallaz que não enxerga no futuro senão felicidade e glo ria. Um estudante é o Cabrion do inspectorde quarteirão; é objecto de todas as considera ções do subdelegado de policia que não quer graças com elle : é nas platéas dos theatros

uma potência altamente considerada; é sympathico aos olhos de todas as senhoras ainda moças, e temido por todas as senhoras já ve lhas. Um estudante tem sempre uma declaração de amor á flor dos lábios, e um epigramma na ponta da lingua. É franco e leal, mas ao mesmo tempo impertinente e desastrado ; é generoso e ousado; é tão dócil que qualquer o domina, e violento e indomável apenas de leve suspeita a idéa do domínio. Um estudante é em política sempre da opposição, e em litteratura sempre da escola mais exagerada; em regra quer o que os outros não querem. Ama em primeiro lugar a sua inde pendência, em segundo a originalidade, e em terceiro a todas as senhoras. Um estudante ó o melhor e o mais feliz dos homens; sabe que o é, vive como entende que deve viver, não troca a sua casaca velha pela farda bordada de nenhum ministro, nem a mesa de um collega pelo banquete do mais ri co figurão; tira partido de todas as circumstancias para divertir-se, e nunca se lembra de dar satisfações ao mundo. Se nem todos os estudantes são assim, não é

porque toda regra deva ter excepções, é so mente porque ha homens que caminhão em sentido oppcsto da sua vocação. Felizmente o joven, que é o heróe da histo ria que vou contar, é um verdadeiro estudante porque estuda, e porque tem todos os defeitos e todas as virtudes da sua classe. Luciano acaba de ser approvado optime cum laude no quinto anno da escola de Medicina do Rio de Janeiro ; está habituado a esses triumphos acadêmicos; no imperial collegio de Pedro II onde ganhara o titulo de bacharel, tinha sido quatro vezes apontado como o pri meiro entre os seus collegas de aulas, e quatro vezes pela mão do imperador havia sido a sua fronte coroada de louros. É um bello mancebo de vinte e dous an nos : alto, fronte elevada, onde brilha a intelligencia, pallido, olhos ardentes, imaginação exaltada. Corria o anno de 1860. Terminados os seus exames, Luciano deixa a cidade do Rio de Janeiro para ir passar três mezes de férias na casa de seu pai, rico fazen deiro do município de... Luciano vai alegre de "caminho para a roça;

leva porém algumas saudades e um receio no coração. Vai alegre porque ama extremosamente a seus pais e arde em desejos de abraçal-os e de viver junto delles algumas semanas; vai ale gre, porque deve encontrar-se com os seus amigos da infância, respirar doces auras na terra do seu berço, tornar a ver os campos, os bosques, os rios e as fontes que lhe lembrão mil gozos, mil travessuras, mil romancezinhos de criança. Leva porém no coração saudades da escola e dos collegas, dos theatros e das festas, de al gumas moças bonitas, a cada uma das quaes jurara um amor eterno, de uma corista da defunta companhia lyrica italiana com quem cantava duetos, e da confeitaria Carceller, onde todas as tardes costumava ir comer pasteis. 0 receio que o acompanha ó mais sério; desde dous annos seu pai procura convencêl-o da conveniência de um casamento que tem o grande defeito de ser muito prosaico ou poé tico demais, e Luciano teme com razão, que novas instâncias o continuem a obrigar a re sistir á vontade daquelle a quem deve sempre obedecer.

Mas também é muito exigir! Eugênio, que assim se chama o pai de Lu ciano, é intimo amigo de Guilherme, um rico negociante da corte, e possuidor de uma excellente fazenda que confina com a delle; desde longos annos existe a mais perfeita intimidade entre ambos : tinhão-se casado no mesmo dia e aos pés do mesmo altar; suas esposas se tornarão tão amigas, como sabião sêl-o os maridos, e por fim tendo o céo dado um filho a Eugênio, e dous annos depois uma filha a .Guilherme, os dous felizes pais, e as duas extremosas mais compromeltêrão-se mutuamente a casar Luciano com Dyonisia. Esses pais amigos resolverão assim do futuro de seus filhos sem calcular com os caprichos de um coração de moça, com os ardores de um coração de mancebo, e com um ou dous amores possíveis, que poderião fazer Luciano affastar-se de Dyonisia, ou ambos correrem em direcções oppostas. Circumstancias imprevistas vierão tornar os dous pretendidos noivos quasi que absoluta mente estranhos e desconhecidos. Luciano só se pôde lembrar de ter visto

Dyonisia duas vezes: na primeira tinha elie cinco annos de idade, e a menina três, e ficou furioso contra ella, porque fez-lhe em pedaços um lindo carrinho puxado por dous cavallos de chumbo. Na segunda vez, dous annos depois, o encontro não foi mais feliz; a menina ti nha-se tornado admiravelmente traquinas; e além de perturbar todos os brinquedos do noivo, fazia-lhe caretas quando o percebia de sapontado. Então, aos sete annos, Luciano á vista de seus pais, e dos pais de Dyonisia, disse a esta em um momento de briga e de en fado : — Deixe estar que eu nunca hei de casar-me com você! E a menina desatou a rir e a saltar, excla mando : — Que me importa! que me importa!... Os dous noivos nunca mais se tornarão a ver. Se até esse tempo Guilherme apenas uma ou outra vez tinha podido vir passar alguns dias em sua fazenda, dahi por diante uma dis tancia enorme o separou do seu amigo. Nego-

cios da maior importância o levarão á Europa onde se demorou quinze annos. Apezar desta longa separação nem esfriou a amizade de Eugênio e Guilherme e de suas consortes, nem foi esquecido o ajuste do casa mento dos filhos. Os dous noivos mandavão, sem mesmo o saber, lembranças e saudades um ao outro nas cartas dos pais, que parecião namorar-se em nome dos filhos. A menina tornou-se moça, recebeu em França uma educação esmerada, e talvez se tornou um pouco romanesca; o que porém se passava em seu coração, e o que pen sava do projecto de casamento que seus pais acariciavão tanto, é um segredo que eu não posso descortinar. Quando sua mãilhe fatiava de Luciano ella corava, sorria-se e calava-se. Quem não se calava era Luciano. A princi pio e emquanto foi menino, repugnou-lhe a idéa desse casamento, recordando-se das travessuras e das caretas da noiva : depois quando cresceu em annos e acabou de estudar philosophia,. tomou ao serio os direitos do homem, não comprehendeu mais um casamento que não tivesse por base o amor, acreditou que o

fatal projecto era um attentado contra a sua li berdade; revoltou-se pois, e declarou muito respeitosamente a seus pais que não se casaria com a Sra. D. Dyonisia. As insistências provocarão dobrada opposiçãode sua parte, e finalmente Luciano acabou por aborrecer Dyonisia. A pobre moça era para elle um phantasma pavoroso que o perseguia por toda a parte : irritava-se só ao ouvir pronunciar o nome de Dyonisia. E entretanto, e a pezar seu não podia chamal-a feia: recebera o retrato de Dyonisia, e duas ou três vezes que olhara para elle não pôde deixar de reconhecer que a moça era encantadora; teve medo de convencer-se de masiadamente dessa verdade, e fez presente do retrato á sua mãi; nunca mais o quiz vêr, esqueceu a imagem e continuou a aborrecer o original. Esta revolta não era do coração, era da ima ginação, e por tanto mais violenta ainda, e tão violenta que levara Luciano a esquecer os deveres da mais simples cortezia. Um mez antes dos exames do seu quinto anno, Luciano soube com verdadeiro pezar,

que no paquete inglez acabava de chegar ao Rio de Janeiro Guilherme, com a sua família, e foi bastante fraco para nem ao menos ir fazer uma visita ao primeiro amigo de seu pai; e recebendo deste por isso mesmo uma severa reprehensão e uma ordem terminante para ir abraçar o recém-chegado, o estudante inde pendente obedeceu, mas de um modo ainda mais reprehensivel: procurou Guilherme em sua casa de commercio, e merecendo um convite para ir jantar e passar alguns dias na chácara do negociante, desculpou-se com os estudos prolongados do fim do anno lectivo, e nem uma só vez appareceu a Dyonisia. De sua parte Guilherme pagou a Luciano a visita, e não o procurou mais. Entrando no gozo de suas férias e já de ca minho para a fazenda de seu pai, o joven es tudante recebe uma noticia desesperadora: o seu pagem que lhe viera trazer os cavallos para a viagem, annunciou-lhe que h^via em casa grande nlegria; porque Guilherme e sua famí lia tinhão na ultima semana chegado á sua fazenda, e que desde então os dous velhos ami gos quasi que viviâo juntos vingahdo-se de quinze annos de separação.

Oannuncio era pelo menos desagradável. O estudante prévio que tinha de entrar em novas lutas, de ser obrigado a encontrar-se com Dyonisia, de fallar-lhe e de tratál-a com a consideração que todo o cavalheiro deve a uma senhora, e finalmente de resistir ao mes mo tempo ás ordens e, mais do que ás ordens, aos pedidos de seus pais, e aos obséquios de uma família interessada em chamál-o ao seu grêmio. Luciano concebeu mil projectos de opposição e de resistência : lembrou-se de diversos typos que estudara nos romances e nos theatros; pensou em mostrar-se extravagante como o peior dos libertinos, frio como o mais pro fundo dos egoístas, grosseiro como um ba rão que tivesse começado por varredor de armazém ; mas por fim de contas, quando en trou no campo da fazenda de seu pai, despresou como indignos todos esses planos, e disse comsigo : — Nada... nada : hei de mostrar-me tal qual sou, e resistir com um simples — não quero — que é a expressão da minha von tade, e a prova da minha independência.

II.

O tempo das férias ia correndo de um modo inteiramente diverso do que calculara o estu dante, que por isso mesmo começava a sentirse desapontado. Luciano esperara ter de sustentar uma luta incessante, oppondo-se aos projectos do seu casamento com Dionysia, e encontrara seus pais quasi indifferentes a semelhante respeito. É verdade que no dia seguinte ao da sua chegada, Eugênio lhe failára sobre aquelle assumpto; logo, porém, que ouvira suas pri meiras palavras annunciadoras de opposição e de repugnância, não só deixara de insistir, mas ainda lhe affirmára que não se affligia com ÍSASO. E sua mãi abraçando-o, lhe dissera ao mes mo tempo : « Não seremos nós, meu filho, que exigiremos jamais de ti um sacrificio do loroso : um casamento que te repugna, não

poderia fazer a tua felicidade, que é tudo quanto no mundo desejamos. »• Luciano receiára também ser obrigado a entrar em estreitas relações com a família de Guilherme; e ter portanto de cumprir para com Dionysia pelo menos os devêres de cortezia; e no entanto apenas foi com seu pai fisitar uma vez aquelle bom amigo, e ainda nessa occa&ião não encontrou em casa nem Dionysia nem sua mãi; depois um incommodo soffrido por esta impedia as visitas que ella po deria fazer á sua amiga, a mulher de Eugênio, que pela sua parte nunca levou o filho em sua companhia quando ia á fazenda de Gui lherme. Por outro lado o pai de Dionysia encontran do-se muitas vezes com Luciano, jamais deixou de tratal-o com estima, e mesmo com carinho; mas também nunca lhe dirigio uma única pa lavra que fizesse lembrar a idéa daquelle casa mento, que tão afagada tinha sido pelo senti mento generoso da amizade. A principio Luciano applaudio-se desta si tuação pacifica, que elle attribuio a uma victoria brilhante alcançada pela força da sua von tade : em breve porém começou a sentir-se

fatigado de uma paz tão inalterável, e contra riado por não ver uma só demonstração de sentimento pela sua decisão que destruirá um plano de futuro. Em seu orgulho estava convencido de que pelo menos o pai de Dionysia devia mostrar-se exasperado por não ter podido felicitar sua Glha dando-lhe um noivo de tanto mereci mento. O contentamento ou a serenidade das duas famílias pareceu-lhe indifferença, e a inditferença amargou-lhe como um insulto. O estudante incommodou-se, e principiou a aborrecer-se das férias que estava gozando; queria ouvir dizer que Dionysia estava furiosa contra elle, e ninguém lhe fallava delia : dese java que seus pais de novo se esforçassem por obrigal-o a casar com a tal noiva da infância, e seus pais mostravam-se absolutamente esque cidos de semelhante projecto. Os dias foram parecendo a Luciano pesados e tardos, e o máo humor do estudante tornouse bastante sensível para que um dia seus pais lh'o fizessem notar sorrindo-se. Esse sorriso foi um tormento novo; Luciano suspeitou que seus pais adivinhavão a causa

do seu máo-estar, e revoltando-se contra essa idéa, que offendia o seu orgulho, resolveu-se a ostentar uma alegria que estava longe do seu coração, e a procurar no movimento e no tra balho uma distracção. Ganharão com isso os doentes pobres das circumvizinhanças, a quem Luciano prestou com ardor os soccorros dãsua sciencia; e com isso perderão os veados e as pacas dos bosques vizinhos, que fórão perseguidos pelo estu dante, que se tornou em um novo e infatigavel Nemrod. Mas, pobre orgulhoso! a idéa de Dionysia, a lembrança e o nome da Sra. D. Dionysia fó rão perseguil-o no meio das suas nobres occupações de medico dos pobres e das suas ca çadas fatigadores. Na caça, as longas horas passadas em soli dão na espera erão forçosamente aproveitadas pela imaginação dominadora, irresistível, que traçava aos olhos do estudante quadros quasi nunca verdadeiros, e onde sempre apparecia a senhora dona Dionysia zombando dos desprezos do estudante, e essa imagem chegava ás vezes a ser formosa, e podia sem inconve niente parecer tal, visto que Luciano já nem — 168 - de leve se lembrava dos traços physionomicos da sua antiga noiva. Nas visitas dos doentes pobres a perseguição da senhora dona Dionysia tornou-se muito mais séria: parecia haver um accordo geral para recommendar a filha de Guilherme ao co ração de Luciano. Uma vez o estudante encontrara abatido pela enfermidade um pobre velho a quem a miséria privava de todos os meios de trata mento, e quando no dia seguinte ao fazer-lhe a segunda visita, lhe levava todos os soccorros precisos, achou o velho em um excellente leito, e sem mais experimentar a menor privação. Quem precedera o estudante naquella obra de caridade ?... Dionysia. Uma infeliz e pobre viuva, que tinha per dido havia dous mezes seu marido e único protector, morrera dando á luz uma menina. Luciano chegara tarde para soccorrer a mãe, e nem pudera depois cuidar da recemnascida, porque esta tinha sido logo adoptada... por Dionysia. Na humilde cabana a que chegava, o estu dante, emquanto procedia cuidadoso ao exame - 169 — de uni doente, ouvia perto o nome de Dio nysia, abençoado pelos rudes, mas agradeci dos lavradores, que a chamavão. — O anjo dos pobres. Dominando-se ainda, o estudante mostravase indifferente aos elogios que ouvia; nunca dirigia uma pergunta sobre Dionysia; mas a sua imaginação recolhia pressurosa tudo quanto a voz da gratidão espalhava a respeito delia. Um dia perguntárão-lhe : — Tem visto a moça bonita ?... — Quem é a moça bonita?... — Ora! éD. Dionysia. — Não : respondeu Luciano rispidamente. — Pois olhe, Sr. doutor, é tão virtuosa como bella: onde ella chega, entra o encanto dos olhos e a felicidade do coração. — Que me importa! — Ainda hontem vimol-a passeiar a cavallo! como estava linda! levava um chapéo e um vestido... a mulher do Almeida, que sabe de modas como uma franceza, diz que aquella roupa chama-se vestido de Amazona; mas, seja Amazona ou não seja, a moça arrancava os olhos da gente! e como é bôa cavalleira!

o seu cavallo corre que parece um passarinho que voa ! ah! senhor doutor! V. S. e aquella moça... O estudante interrompeu o panegyrista de Dionysia, e retirou-se apressado. De volta para casa, respirando o ar livre, entregue a si mesmo, e pela primeira vez se riamente reflectindo, consultou o seu coração, e estremeceu reconhecendo que não sentia mais a antiga repugnância pela senhora dona Dionysia, e que, pelo contrario, se pudesse ao menos vél-a sem ser visto, fal-o-hia com ver dadeiro prazer. Não amava Dionysia; mas... Este mas era o segredo, a historia e a contradicção do seu orgulho... Luciano teve medo de amar a filha de Gui lherme. Como continuar a desprezal-a, se ninguém mais se lembrava de o querer obrigar a amala?... Agora, porém, como ir procural-a e vêl-a sem o abatimento do seu orgulho ?... E aquelle sorriso de seus pais?... confessarse arrependido e vencido não era fraqueza in* digna de um estudante?...

Luciano ufanava-se de ter sido notável estudante de lógica, e determinou raciocinar sobre o seu estado com todos os preceitos da arte de reflectir : raciocinou pois por duas horas inteiras, e no fim dellas reconheceu espantado que dos mesmissimos princípios tinha tirado cincoenta conseqüências diversas e oppostas. O estudante ainda não comprehendia que a lógica do coração é mil vezes uma inextricavel meada de inconsequencias. Assim, pois, descontente de si mesmo e sem ter acertado com o caminho que lhe compria seguir, Luciano entrou em casa; mas, ao tocar á porta da sala, parou de súbito, ou vindo pronunciar o seu nome e o de Dio nysia. Eugênio conversava com Guilherme e o objeclo da conversação era o projectado casa mento de seus filhos. Luciano escutou attento. — Emfim, meu amigo, dizia Eugênio con cluindo; Deos nos ajude; mas receio muito que a pertinácia inexplicável de meu filho acabe por destruir de todo as nossas esperan ças.

— E eu não receio nada, respondeu Gui lherme : devemos acreditar que Luciano co meça já. a pensar muito seriamente em Diony sia e eu aposto que antes de dous mezes mor rerá de amores por ella. Temos empregado um systema admiravelmente combinado : o rapaz vai ficar preso na rede que lhe armámos. Luciano vio brilhar a seus olhos como uma luz no meia das trevas : o seu orgulho reanimou-se de súbito; saudou a luta que para elle principiava de novo, e ufano e decidido entrou na sala, e, depois de breves momentos de con versação, disse : — Perdão, meu pai; perdão, Sr. Gui lherme : preciso recolher-me e dormir cedo, pois que me preparo para uma importante ca çada amanhã. Dizem-me que o monte vizi nho da fazenda do Sr. Guilherme é rico de pacas soberbas, e se não houver nisso offensa do direito de propriedade, protesto que nestes últimos quinze dias que me restão de férias na roça, o Sr. Guilherme ouvirá diariamente da sua fazenda nos tiros da minha espingarda ossignaes das minhas victorias. — Sabemos que é um excellente caçador. — Determinei sêl-o e fui : quando me de-

cido a qualquer cousa, nem recuo, nem desa nimo. Luciano retirou-se. Eugênio e Guilherme olharão um para o outro e puzerão-se a rir. — Tem uma cabeça de fogo ! disse o pri meiro. — E ao mesmo tempo tem a balda de todos os moços, que pensão sempre que enganâo os velhos, observou o segundo. .0.

III.

O companheiro que nas suas caçadas mais agradava a Luciano, era Baptista, lavrador vi zinho e compadre de seu pai, e que com os seus sessenta janeiros não se trocava em vi gor, agilidade e destreza por nenhum dos ve lhos de trinta annos que vivem no seio dos prazeres da cidade. Baptista era realmente o melhor dos com panheiros que poderia ter encontrado o estu dante : conhecia todas as florestas, como Lu ciano o Jardim Botânico e as ruas da capital: marcava todos os pontos dos bosques por uma arvore mais notável, por alguma fonte, pedra ou furna que nelles havia: designava com cer teza as melhores esperas, e os lugares mais se guros para se fazer uma caçada feliz, e, além disso, era a chronica viva daquellas circumvizinhanças; sabia dez mil historias a respeito da gente da terra, tinha sempre um caso novo

que referir, e mordaz sem que fosse natural mente máo, e somente pelo desejo de parecer engraçado, divertia sempre o estudante na ida e na volta, e nas horas de reunião no fim das caçadas. Baptista applaudíra muito a lembrança que tivera o estudante de ir caçar á floresta vizinha da fazenda de Guilherme, e mais alegre e fallador do que nunca ia de caminho enterrando vivos e desenterrando mortos. Já havia dado conta dos nomes e da vida dos moradores de quantos sitios ião encon trando perto da estrada, quando, ao tomarem por um trilho que os levava á floresta, ao che garem ao sopé do monte que buscavão, disse elle a Luciano: — Este bosquesinho que nos fica á mão di reita separa este monte do campo da fazenda do Sr. Guilherme, e pôde atravessar-se em um quarto de hora : se lhe aborrecer a ca çada, e preferir a dar tiros nas pacas, armar laços a uma moça bonita, a viagem é curta. O estudante fez um movimento de máo hu mor. — Não vá desconfiar : a cousa não é para isso : não gosta da filha do Sr. Guilherme .

já sei : são gostos, e se não houvesse máo gosto, o amarello não teria extracção. — Subamos o monte, ou, se lhe parecer, soltemos já Os cães. — Não : isso ha de ser um pouco mais a cima : veja porém quê sitiosinho bonito va mos deixar aqui á mão esquerda, e logo á su bida do monte : ouve este ruído de água? é de uma pequena caxoeira que vem do alto,e cahe no meio de um grupo de arvores formando um formoso lago junto do sitio. — Fico sciente : subamos... — Sim ; mas o que não sabe é que o sitio pertence ao meu compadre Pereira que é ca sado com a minha comadre Antonia... — A noticia é realmente interessante... — Mete-me a bulha, heim? pois saiba mais que a comadre Antonia tem parentes na ci dade... — Deveras? isso então ó extraordinário! — Morreu-lhe, ha um anno, uma irmã que lá tinha casado com um pobre diabo, e deixou uma filha a quem o pai condemnou a vir mo rar na roça com a tia, receioso de que a rapa riga se extraviasse... — Uma cabecinha de vento... — 177 - — Qual? uma cabeça de fogo : dizem que é capaz até de ler latim como o Sr. reverendo vigário: falia que parece um advogado, e anda sempre com o juizo por esses ares fora... — E feia como um bicho, teve a bôa idéa de vir esconder-se na roça... — Bello como uma rosa, perigosa como uma feiticeira, tentadora como o diabo... — Compadre Baptista, quer me parecer que o senhor tem sua queda para poeta?... — Então?... improviso meus versinhos quando canto em desafio nas nossas noites de fado... — Eu logo vi : e ainda não se soltão os cães ?.... — Agora. Dous escravos approximárão algumas trelas de cães, estes, soltos, sacudirão as caudas, e por alguns momentos andando em torno a rastejar com os focinhos o cheiro da caça, sahirâo logo depois, e desaparecerão. Os caçadores fôrão seguindo, e a breves passos achárão-se juntos de um arroio que corria sobre um leito de pedras. — Fique aqui, disse Baptista, terá uma caçada certa, e para distrahir-se, subindo

aquelle ingazeiro, verá á sua vontade a fa zenda do Sr. Guilherme, e o sitio do compadre Pereira. Até logo. Baptista internou-se na floresta. O dia vinha apenas rompendo. Dentro em pouco os latidos dos cães annunciavão a descoberta da caça, e passada uma hora Luciano disparando o primeiro tiro, al cançou a primeira victoria. Três cães chegarão ao mesmo tempo, arfando de fadiga mas ufanos de seu triumpho: o estudante deixou-os descançar por algum tempo , e logo depois banhou-os na água fresca do arroio e outra vez os lançou na flo resta. Ao longe ouvião-se os gritos de Baptista incitando os cães, que lhe respondião latindo, como para demonstrar que zelosos proseguião na sua empreza ; mas os latidos cada vez se desprendião mais afastados. — Creio que terei de esperar muito tempo; disse comsigo Luciano. E sem o pensar lembrou-se do ingazeiro. Lutou um pouco com apropria consciência; vencido porém, olhou cuidadoso em torno de si, e. certo de que se achava absolutamente só,

dirigio-se para o ingazeiro, e subio a elle. 0 sol brilhava; era a sua primeira hora. Luciano vio um panorama bello e magní fico dilatando-se a seus olhos; indifferente po rém a todos esses encantos da natureza, embebeu suas vistas na casa e no campo da fazenda de Guilherme, e alli as esquecia involuntaria mente , quando estremeceu escutando um canto melodioso entoado por uma voz de mu lher. Olhou... e vio... 0 sitio de Pereira estava por assim dizer debaixo dos seus pés, e a mais curta distancia do que havia calculado, e uma mulher, de fi gura graciosa, e toda vestida de branco diri gia-se cantando para um bosquesinho, onde a cachoeira formada pelo arroio cahia, espraiavase e dava lugar a um lago. Luciano deu um salto do ingazeiro a baixo e sem reflectir um só momento desceu o monte por entre as arvores, desejoso de ver de mais perto a sobrinha de Antonia, que se gundo dizia Baptista, tinha cabeça de fogo, era capaz de lêr latim como o vigário, fallava que parecia um advogado, e andava sempre com o juizo por esses ares fora...

O canto tinha cessado : succêdera-lhe si lencio profundo. A medida que se ia aproximando o estu dante media cauteloso os passos e procurava fazer o menor ruido possível, empregando para isso toda a sua habilidade de caçador : ás ve zes ria-se pensando na decepção por que ia passar esbarrando diante de uma mulher feia, ou pelo menos desgeitosa... Emfim chegou á entrada do bosquesinho, e por entre as arvores olhou, e ficou embeve cido... A sombra de uma arvore frondosa, sobre cujo tronco se sentara, estava uma moça tal vez de vinte annos, delicada, formosa, encan tadora; lendo attentamente um livro, que se gurava com suas mãos pequeninas e brancas; seus cabellos negros cahião em anneis gracio sos e immensos sobre uns hombros e um collo admiráveis; seus olhos, que ás vezes levan tava para o céo, erão grandes, negros e bri lhantes. Baptista não mentira : aquella moça era realmente encantadora. Como porém esta creatura angélica, que pa recia ter sido educada com tanto zelo, com — 181 - tanto extremo, esta moça cujas mãos erão tão finas, e tinhão a côr tão branca, esta menina tão delicada, e por assim dizer de fôrmas tão vaporosas e de espirito quê se dizia tão roma nesco, viera esconder-se, sepultar-se naquelle obscuro cantinho, na casa de tão pobres lavra dores ? Não era, não podia ser uma infeliz mulher perdida pelo vicio, não: a pureza brilhava nos seus olhos e na sua face. Como explicar então o mysterio?... 0 estudante não se movia do lugar onde estava, com as mãos no peito, comprimia a respiração anhelante : dominava-o sobretudo o receio de ver ao mais leve ruido desapparecer como um sonho aquella mulher encan tadora. A caçada estava de todo esquecida : o com padre Baptista como que não existia no mundo : debalde os cães se tinhão aproximado perseguindo as pacas levantadas... Luciano não ouvia o latido dos cães, nem os gritos des compassados de Baptista. E duas longas horas passarão rápidas como um instante para o estudante absorto. Emfim a moça fechou o livro, levantou-se, e .i

com um andar gracioso retirou-se para a hu milde casa de seus tios... Luciano deixou seus olhos irem presos aos pés mimosos da mulher formosa... até que ella desappareceu de todo... — E as pacàs, compadre?... perguntou Baptista rindo-se e batendo-lhe no hombro.

IV.

Aquella joven que de um mod%o sem duvida romanesco apparecêra aos olhos de Luciano, era verdadeiramente bella; mas a imaginação do estudante emprestou-lhe ainda encantos indiziveis, e lh'a affigurou mil vezes mais for mosa. Arrancado do seu êxtase pela retirada da bella incógnita e pelas palavras pronunciadas por Baptista, Luciano sentio que uma flamma violenta lhe abrazava já o coração, e que uma mulher que apenas ha duas horas vira pela pri meira vez, devia fazer a gloria ou o martyrio da sua vida. Pôde ser que houvesse exageração nesse sú bito sentir; um estudante porém raramente se apaixona de outro modo, e trinta vezes que se apaixone* é sempre assim; se poucos são os estudantes que se casão antes de ser doutores, é porque poucas são as moças que sabem aproi

veitar-se opportunamente da violência das paixões que inspirão; o que salva os estudan tes de casamentos imprudentes não é a re flexão, é a duração ephemera de suas paixões: cada um delles quando deixa a academia, leva no coração a lembrança de cem amores e de cem romances, que acabarão antes de tempo ou ficarão por acabar. Ora, aquelle novo amor que começava para Luciano tinha todas as condições de um verda deiro amor de estudante ; porque sobre tudo havia nelle o encanto do romanesco e do mysterio, que abrião espaço aos mais arrojados vôos da imaginação. A belía incógnita tinha-se mostrado inexperadamente. Luciano nem a conhecia, nem ao menoslhe sabia o nome, e a encontrara de súbito no seio da solidão e á margem de um lago. Não era preciso mais para que o estudante morresse de amores por ella. Baptista, encarregado de colher informações mais positivas a respeito da formosa moça, veio ainda mais augmentar o mysterio que a rodeava, porque soube e declarou a Luciano que a bella incógnita não era sobrinha de An-

tonia, como se suppunha, mas uma menina que ainda no berço fora confiada a sua irmã, e cujos pais devião ser bastante ricos, pois que pagavão com uma avultada pensão os cuidados de sua educação. O motivo de sua vinda para aquelle lugar do interior da província não ti nha sido a morte da irmã de Antonia, esim a necessidade de furtar a interessante joven ás pesquizas e talvez á perseguição de parentes ini migos : o segredo da sua vida e do seu retiro era tão profundamente guardado, que nem mesmo Pereira e sua mulher sabião o seu nome. Decididamente Luciano não podia escapar a tanta magia. No fim de três dias amava a sua incógnita, como nunca Petrarca amou aLaura, nem Torquato Tasso a Eleonora. É inútil dizer que nesses três dias fez elle três novas caçadas ao monte, donde corria o arroio que ia lançar-se no lago do feliz bosque vizinho; cumprindo, porém, entender-se que que ao compadre Baptista ficou reservado ex clusivamente o empenho de matar as pacas, emqnanto Luciano limitava o seu prazer a su bir ao ingazeiro, ver a bella incógnita sahir da cabana dos lavradores e dirigir-se para o

lago, e, emfim, depois de têl-a contemplado de longe, correr para o lugar ditoso, donde escondido adorava em êxtase aquella formosa crealura. A lembrança do projectado casamento com Dionysia já nem sequer por um só instante occupava o espirito do estudante : que lhe im portava Dionysia?... Se outr'ora revoltava-se contra a idéa d'aquelle casamento sem um motivo real, desde três dias nem mesmo admittio a possibilidade de sujeitar-se a um laço, que seria uma barreira eterna e insuperável le vantada entre elle e a bella incógnita. Dionysia estava positivamente condemnada ao esquecimento e o esquecimento é ainda muito mais fatal do que o ódio; o esqueci mento é quasi a morte. Mas três dias passados em contemplação e em saudades não podião mais satisfazer o co ração do estudante : Luciano precisava ine briar-se escutando a voz e devorando com os olhos, os olhos d'aquella joven romanesca. Na manhã do terceiro dia, quando no seu posto de extatica adoração estava elle con templando a sua incognitaj chegou um mo mento em que impellido por uma força irre-

sistivel e sem pensar no que ia fazer, lançou-se de súbito para a arvore, a cuja sombra descan sava a bella moça, e cahindo de joelhos aos pés desta exclamou : — Eu lhe amo! A incógnita deixou ouvir um grito de sorpresa e de susto, e levantou-se para fugir; mas, tomada de súbito tremor nervoso deu apenas um passo e sentou-se outra vez dizendo : — Meu Deus!... 0 estudante aproveitou o ensejo, e de joe lhos como estava, tremulo também, inspirado porém pela paixão fez mil protestos de ternura e mil juramentos de amor. Pouco a pouco a moça foi serenando : no ardente discurso que ouvia o respeito domi nava sempre o ímpeto do amor : reconheceu bem de pressa que tinha a seus pés um es cravo e não um seductor, e banindo de sua alma o receio, fitou no mancebo um olhar cheio de angélica doçura, e disse : — Porque vem perturbar a paz do meu re tiro ?... onde e como pude eu inspirar-lhe esse amor?... e esse amor, se um dia eu o tivesse também, que me daria elle ? Luciano quiz fallar.

— É inútil, continuou a incógnita com voz segura, adivinho tudo quanto quereria dizerme. Ama-me, não é assim?... porém como? vio-me por acaso algumas vezes n'esta solidão, agradou-lhe o meu rosto, achou-me bella tal vez, impressionou-o o mysterio da minha vida, e vem cahir a meus pés. Que amoré esse?... sabe se por ventura sou digna d'elle?... se victima de- um erro ou de um remorso vim aqui esconder o meu opprobrio?... sabe se eu mereço reprovação ou piedade?... — A pureza brilha no seu angélico sem blante : não me enganei, não me engano. — E quem sou eu ? — É um anjo ! — Também ha anjos decahidos, Sr. Lu ciano : disse a moça sorrindo-se. — Sabe o meu nome... conhece-me... balbuciou o estudante. •— Oh! sim... conheço-o, e sei um pouco a historia de sua vida. Sei que desde três dias procura descortinar o segredo do meu nascimento, do meu passado, e do meu fu turo. — E quem lh'o disse ?.'.. perguntou Lu ciano sorprendido.

— Dionysia : respondeu a moça sorrindose outra vez. O estudante levantou-se irritado ouvindo o nome da sua pretendida noiva. — Escute, continuou a incógnita : pronun ciei este nome para lembrar-lhe um dever que tem esquecido. — Nunca! — Mas porque?... — Até a três dias porque não tolerava a idéa de casar-me com essa senhora depois de três dias porque lhe amo, e nenhuma outra mulher terá o meu nome. — E seus pais?... , — Meus pais hão de adoral-a desde o pri meiro instante em que chegarem a vêl-a. — E meus pais? — Oh! diga-me quem são, e eu correrei a fallar-lhes... quem são?... — Não sei, balbuciou a moça abaixando ver gonhosa a cabeça. — Pois bem : terá por seus pais os meus e por defensor, amigo, escravo o mais apaixo nado dos esposos. — Não a minha vida está presa a um mysterio que eu mesma não comprehendo : eu \\.

nem devo , nem posso animar o seu amor. — Entendo tudo; disse o estudante exaltando-se; Dionysia adivinhou o meu amor pela senhora, e tratou de perder-me no seu con ceito. — Eu menti ainda ha pouco, senhor; tor nou a moça : não conheço a sua noiva... nada lhe ouvi... vivo longe de todos, e de todos me escondo. — Como pôde então saber que se projectára esse casamento que me repugna ? — Fallou-me disso a mulher do lavrador em cuja casa me asylárão. — E com que fim?... a que propósito?... A moça descansou uma de suas mãos so bre o hombro de Luciano, que estremeceu a esse doce contacto : depois encarou o mancebo com um olhar mágico e suavíssimo, sor rio-se com a mais encantadora graça e disse: — Que lhe importa?... — Meu Deos!... exclamou Luciano cahindo outra vez de joelhos. A joven recuou um passo, como se arrepen dida ficasse da acção que praticara e do tom em que faltara : corou parecendo sentir que deixara insensivelmente escapar dos lábios

uma phrase que começava a atraiçoar um se gredo do coração ; mas logo depois fingindose medrosa, disse: — Sinto rumor... alguém se approxima... Luciano ergueu-se pensando que era Bap tista que o vinha perturbar no momento em que a fortuna lhe concedia um sorriso ainda duvidoso... voltou-se para o lado do monte e ouvio immediatamente o leve ruido dos pas sos ligeiros da incógnita, que fugia correndo. — Oh! por compaixão... disse, elevando a voze estendendo os braços para a fugitiva. Ella parou : volveu o rosto para Luciano, seus olhos brilharão com divino fogo, seus lá bios sorrirão de novo com encanto e doçura e murmurarão emfim: — Até amanhã.

N'aquella simples, mas animadora phrase «. até amanhã ! » e no olhar e no sorriso que a acompanharão, havia um futuro immenso de esperanças e de amor. Luciano passou o dia a sonhar mil venturas: a bella incógnita fizera-lhe adivinhar o paraíso, pronunciando duas palavras. Ao meio-dia um pobre lavrador da vizi nhança viera pedir ao estudante que fosse ver sua mãi que enfermara no dia anterior. Luciano apromptou-se depressa para sahir, e emquanto esperava que lhe trouxessem o cavallo, perguntou ao lavrador : — Suppõe que seja grave o estado de sua mãi?... — Tenho medo que venha a tornar-se tal: hontem cahio com uma febre que parecia fogo, e, bem que ao amanhecer de hoje fi casse livre d'aquella maldita fervura do san-

gue, diz a senhora D. Dionysia, que foi ver a minha bôa velha que é provável ou quasi certa a volta da febre. — Então... a Sra. D. Dionysia... — Aquillo é um anjo, meu senhor! lá fi cou ao pó de minha pobre mãe... Luciano voltou logo ao seu quarto, e tor nando a apparecer ao lavrador, deu-lhe al gum dinheiro, e disse-lhe : — Ha um excellente medico na freguezia: ahi tem com que pagar-lhe até dez visi tas, vá chamai-o; eu não posso ir ver sua mãi. E vergonhoso da acção que praticara, re cusando-se a um serviço de caridade, correu para furtar-se ás vistas do lavrador, que fi cara sorpreso e boquiaberto. Luciano tinha hesitado ante a idéa de en contrar-se com Dionysia; pareceu-lhe que vêla e fallar-lhe n'aquelle dia, chegaria a ser uma offensa feita á bella incógnita, cuja ima gem devia ser a única que occupasse toda a sua alma e todos os seus cuidados. 0 amor suffocou-lhe a consciência. A noite Eugênio perguntou ao filho se pre tendia caçar na manhã seguinte.

— Talvez, meu pai, respondeu o mancebo corando. — Entretanto eu contava poder conversar comtigo alguns momentos amanhã de manhã. — Meu pai se quizesse poderia marcar-me uma hora para... — As nove da manhã. — Ah ! então a minha caçada não será in compatível com a minha obediência. — Tens te tornado um caçador incansável! observou Eugênio sorrindo-se; mas não im porta, aproveita as tuas férias. Ao romper da aurora d'esse dia mimoso que fora aprazado pela formosa incógnita, Lu ciano correu, como era de suppôr, não para o ingazeiro do monte, mas immediatamente para o lago do bosquezinho. A joven romanesca já ali estava. 0 estu dante affligio-se com razão por ser o segundo a chegar : um meigo e carinhoso sorriso socegou-o porém immediatamente. — Eu o esperava, disse com accento commovido a bella incógnita, não dormi... preoccupou-me toda a noite esta hora que vamos passar juntos, e que é uma hora solemne, que vai decidir do meu destino.

Luciano sentio-se fortemente abalado por aquella voz suave e melancólica, que lhe pare cia um canto entoado por um anjo. — Antes de tudo uma observação que o vai penalisar, mas que a minha franqueza não me consente esconder. Hontem o senhor negouse a ir ver uma pobre velha doente : fez mal. Saberei um dia, em breve , romper este mysterio e mostrar-me na altura da posição que apaixonada ou generosamente me offereces. 0 estudante ia fallar; mas a bella incógnita como para obrigal-o ao silencio, poz uma de suas mimosas mãos sobre os lábios do mancebo, que imprimio n'ella um ardente beijo. Recolhendo vergonhosa a mãozinha provocadora, a bella incógnita tirou do seu seio uma pequena imagem de ouro que representava a Mãi Santíssima. — Eis aqui a imagem da Mãi de Deos, o symbolo do mais profundo amor e de celeste pureza; jura-me, Luciano, que serás meu es poso no dia em que eu provar que sou digna do teu amor, digna do teu nome e da benção de teus pais! — Juro! disse Luciano cahindo de joelhos.

A bella incógnita beijou nos pés a pequena imagem; o mancebo depositou no mesmo lu gar um outro beijo. — E quando será esse dia? perguntou Lu ciano, cheio de ardor e de esperança. — Mais cedo do que pensas, respondeu a moça. — Oh! dize!... A bella incógnita levantou os olhos para o céo, procurando o sol, e de novo olhando para Luciano, observou-lhe sorrindo-se. — O tempo correu voando; devem ser mais de sete horas : não te lembra que prometteste a teu pai estar em casa ás nove horas da manhã?... — Quem te pôde referir o que hontem se passou entre mim e meu pai?... — Esqueces que eu te amo, e que a minha alma te acompanha por toda parte?... Minha alma estava comtigo, quando teu pai te fallava... ella disse-me tudo. Basta. A hora se adianta : teu pai te espera. Adeos! E d'essa vez disserão ambos a um tempo: — Até amanhã.

VI.

Às nove horas da manhã Eugênio e Luciano estavão sentados em frente um de outro. — Foste pontual, meu filho, disse Eugênio. Luciano sorrio-se e corou. — Devo hoje occupar-te com um assumpto que a todos nos interessa, e cuja terminante decisão não pôde ser por mais tempo adiada. 0 mancebo fez um movimento. — Ouve-me até ao fim. — Mas, meu pai, eu creio que posso adivi nhar qual seja o assumpto de que pretende tratar, e n'esse caso... — Não importa ; ouve-me sempre. 0 estudante curvou a cabeça. — Uma antiga e verdadeira amizade li ga-me a Guilherme; desejosos ambos de pren der-nos ainda mais estreitamente com novos laços, promettemos ambos um ao outro tor nar de nossas famílias uma só família ca-

sando-te com Diony.sia. Este desejo rebentou em nossa alma quando tu e ella estáveis ainda nos berços. Sonhámos um futuro de immensa felicidade para todos nós, e o dia chegou em que ou devo realizar-se, ou esvaecer-se para sempre esse bello sonho. — Senhor... — Sei tudo quanto me pretendes dizer; ouve-me porém ainda. Tu não conheces Dio nysia : primeiro os cuidados de tua educação, depois uma longa ausência de Guilherme e sua famillia separárão-te d'aquella que te des tinámos para esposa, e que assim ficou sendo para ti inteiramente desconhecida. Sem razão alguma, sem o menor fundamento, demonstraste a mais viva repugnância a este casa mento que projectamos : não foi somente indifferencia por Dionysia, foi um sentimento que não tem nome, porque não posso admittir que seja ódio o que fez rebentar em tua alma a idéa d'esta união. Um homem de juizo, meu filho, nem ama nem tem repugnância a uma mulher sem um motivo para isso, e eu não poderia comprehender que amasses como não comprehendo que desprezes a filhado meu amigo.

— Meu pai tem razão n'este ponto, mas eu também a tenho. 0 casamento é uma alliança perpetua, um laço que só a morte deve rom per ; e em tal caso é justo que aquelles que assim se prendem soldem com o amor essas cadêas, que de outro modo se tornarião pesa das e fataes. — E porque não amarias tu Dionysia? — Ah! meu pai! e porque amal-a-hia eu?.. 0 amor não se obriga, rebenta espontâneo do coração. — Mas esse futuro que faria a felicidade de teus pais e de teus melhores amigos não tem a menor importância no teu espirito ?... — A felicidade de nossos amigos é muito e a de meus pais é tudo para mim : no en tanto eu seria ingrato se desconhecesse que a felicidade de meus pais depende principal mente da minha, e eu seria completamente desgraçado se me casasse com Dionysia. — E porque? — Porque não a amo, nem jamais poderei amal-a. — Quem sabe? — Eu o sei, meu pai. Eugênio sorrio-se.

— Meu pai duvida da força da minha von tade ? O pai tomou pela primeira vez um arsevéro. — Penso que se não trata de força de von tade, e tanto assim que ainda não me lembrou fazer sentir a minha : não creio que meu fi lho fizesse o propósito de contrariar-me pelo simples gosto de parecer forte e indomá vel. — Perdão, meu pai; não era isso o que eu queria dizer. — Ainda bem! disse Eugênio serenando. Insinuava eu que era possível que viesses a amar Dionysia; e porque não?... Affirmo-te que é uma joven cheia de encantos e de prendas, e duvido que haja quem possa vêla sem amal-a. Ensaiemos pois : tu frequentarás d'ora avante a casa de Guilherme e se em oito dias, não te sentires dominado pelos encantos da tua noiva não terei nenhuma palavra que dizer, nenhuma queixa á fazer pela opposição com que procuras tornar im possível este casamento. Era tão razoável este conselho de Eugênio, qucLuciano vio-se verdadeiramente embara çado para negar-se a seguil-o; no fim porém

de alguns momentos de reflexão, levantou a cabeça e disse: — Meu pai, a minha freqüência naquella casa seria inútil ; a alliança que vossa mercê deseja é impossível. — Impossível! e porque?... — Porque eu amo outra mulher, e opportunamente espero que meu pai approve e .abençoe o meu casamento com ella. Eugênio pareceu desagradavelmente im pressionado por aquella franca declaração do filho. — E quem é essa- senhora que deve ser minha filha?... perguntou elle. Luciano corou e não respondeu. — Com se chama ella ? Luciano médio toda a difficuldade de sua situação, e pareceu confundido. — Quem são os pais dessa senhora?... qual é o seu passado ?... sabes se é digna de ti ?... Responde-me. Luciano ficou aterrado. — Guardas silencio, meu filho?... que mysterio ó esse?... Teu pai é o teu primeiro amigo, e deve saber tudo. Que mulher é essa que tu preferes a Dionysia?.. Falia!..

— Mais tarde, meu pai, mais tarde!.. disse emfin o estudante. — Meu filho! — Perdão, meu pai, mas eu não posso ain da satisfazer a sua justa curiosidade; jurolhe porém que nunca me casarei sem prestarlhe a obediência devida, que é para mim ao mesmo tempo uma obrigação e uma gloria. — Luciano, disse Eugênio ; esse mysterio, faria estremecer a qualquer hqmem prudente e ajuizado. O amor de um pai lê no futuro: cuidado, meu filho, ou eu me engano muito, ôu te armão uma cilada ou zombão de ti... — Não, meu pai! — Sim, meu filho. — Gomo pôde assim affirmal-o?.. — O coração m'o está dizendo : felizmente essas intrigas não durão quando a victima escolhida tem bastante consciência do seu dever para não esquecer-se da sua própria dignidade. Luciano, não te fallarei mais de Dionysia. — Oh! ainda bem, meu pai! — Continua em teus loucos amores... vai... repete todas as manhãs as tuas romanescas e interessantes caçadas.*.. - 203 — — Meu pai! — Sim.... mas eu te asseguro que dentro de poucos dias em lugar de pedir-me que approve essa paixão imprudente por uma des conhecida que ninguém pôde dizer que não seja uma mulher perdida, por uma moça astuta e perigosa que se arma com o encanto do mysterio para acender a imaginação de um mancebo exaltado e ardente, eu te asseguro que, em lugar de vir pedir-me que chame essa mulher minha filha , virás arrependido rogar-me de joelhos que^eu me apresse a realizar um projecto que fará a tua e a nossa felicidade. Eugênio sahio, deixando o filho confundido e envergonhado. Apezar disso, ao romper do dia seguinte já Luciano achava-se no lago do bosquezinho. Dessa vez chegou elle primeiro..... Mas o tempo foi correndo... as horas fôrão passando, e a bella incógnita não apparecia. Luciano não sahia como explicar esse es quecimento da promessa que recebera em um doce — até amanhã! Cansado de esperar, veio-lhe á mente cor rer á casa dos lavradores; teve porém medo

de desgostar á bella incógnita procedendo assim. O dia adiantava-se, e finalmente o compadre Baptista veio lembrar-lhe que era chegado o momento de retirarem-se. Luciano levava o inferno no coração. Acabando de descer o monte, os dous ca çadores montarão a cavallo e seguirão. Baptista failava por dous, e fazia bem por que fallava por si e ainda por Luciano que nesse dia guardava um silencio de finados. Ao chegarem a um ponto da estrada em que havia uma encruzilhada, um cavalleiro desconhecido que alli estava parado, chegou-se para Luciano, entregou-lhe uma carta e im mediatamente partio a galope. Luciano abrio a carta e leu com avidez e commoção indizivel: « Luciano ! adeos! Sa bem que nos amamos, e sepárão-nos: arrastãome para bem longe de ti... não sei para onde, provavelmente para a cidade do Rio de Ja neiro. Embora! um dia, talvez bem cedo, me encontrarás inesperadamente. Adeos! deixote a minha alma e levo comigo o teu amor. Adeos! adeos! » — Para que lado tomou aquelle cavalleiro?

perguntou Luciano guardando a carta no seio. — Por alli, respondeu Baptista, espantado do olhar de fogo do mancebo. Luciano enterrou as esporas no ventre do. seu cavallo, que partio á desfilada seguindo a direcção indicada. Baptista sacudio a cabeça, desatou a rir, e continuou o seu caminho, depois de dizer duas vezes, como fatiando comsigo mesmo : — Estes rapazes! estes rapazes!... Luciano chegou á casa ás duas horas da tar de, furioso por não ter. encontrado o cavalleiro portador da carta da bella incógnita.

VII.

Era a terça-feira do carnaval que acabámos de ver passar. Luciano achava-se já de volta na cidade do Rio de Janeiro, e bem que na companhia de seus pais, que com elle tinhão vindo, conser vava-se triste, silencioso e quasi intratável, como um pequeno gentio que do seio da flo resta é á força trazido para o mundo da civilisação. O estudante aborrecera profunda e terrivel mente a vida do campo e as suas caçadas desde que lhe haviao roubado a sua bella incógnita : e attribuindo esse facto á influen* cia ou intervenção de Guilherme, começara a trocar por aversão a repugancia que á prin cipio lhe causara a idéa do seu casamento com Dionysia * Violento como era, esquivou-se a acompa-

nhar seu pai áfazenda de Guilherme, e emfim tornando á cidade, empregou oito dias inteiros a correr todas as ruas da capital, e a tirar in formações, que nenhuma luz lhe derão, para encontrar a bella incógnita, como ardente mente desejava. Aborrecido de tudo, afflicto e inconsolavel, perdida a esperança de descobrir o lugar mysterioso onde lhe escondião a amada, encerrouse no seu quarto, e ahi ficou outros oito dias sonhando com a bella incógnita, e amaldi çoando Dionysia. Alguns collegas que o vinhão repetidamente visitar procurarão debalde chamal-o de novo á vida da alegria e das festas, e declararão á uma voz que Luciano voltara da roça com pletamente embrutecido, e que precisava ser de novo educado, passando outra vez pelas provações impostas aos calouros. Chegou o carnaval. No domingo Luciano revoltou-se contra os collegas que se esforçavão por arrancal-o de casa, e despedio a todos elles no meio de uma tempestade de injurias. Na segunda-feira ainda o estudante deixouse ficar no seu quarto, resistindo aos pedidos

de sua mãi que se empenhava por vel-o sahir e distrahir-se. Na terça-feira emfim Luciano, que não cedera nem aos seus collegas, nem á sua mãi, obedeceu ao impulso de um máo pensa mento. Veio-lhe á mente que indo ao theatro, e podendo lá encontrar a família de Guilherme teria occasião de vingar-se em Dionysia das saudades edas afflicções que estava experimen tando. Cabeça de estudante ! conceber um plano e executal-o é sempre obra de poucos momentos. Immediatamente mandou procurar duas dúzias de trajos e disfarces, e chegados estes, trancou-se no quarto, e depois de muito es colher preferio um bello Pierrot. Apezar de todos os seus cuidados, sua mãi observou tudo quanto elle fazia, espiando-o cuidadosa pelo buraco da fechadura da porta, e sorrio-se ao vél-o trajando as roupas prefe ridas : sorrio-se talvez ou por achal-o bonito, ou por^ver que o filho se resolvia a ir diver tir-se. As dez horas da noite Luciano entrou no theatro de S. Pedro de Alcântara. Realmente era um Pierrot magnifico.

Mas ninguém diria que a sua mascara es condia o rosto de um estudante ! Luciano esteve estúpido, durante duas ho ras completamente estúpido; por que limi tou-se a correr as salas e corredores, e a observar um por um todos os camarotes. 0 estudante perdera o seu tempo : a fa mília de Guilherme não tinha vindo ao the atro de S. Pedro : pelo menos elle não descubrira um só homem que com Guilherme se parecesse. A meia noite lembrou-se Luciano de que bem podia ser que a família que procurava, tivesse preferido ir ao theatro Provisório, e determinando-se logo a realizar ali o seu pla no, descia da terceira ordem dos camarotes, onde então se achava, quando ao chegar á es- • cada da segunda ordem encontrou-se com dous dominós que parárão diante delle. Os dous dominós erão provavelmente um homem e uma senhora, e pelo menos assim parecião pela differença da estatura, do andar, e dos modos. O mais alto dos dous, que era um dominó preto, disse algumas palavras ao ouvido do outro, que era um lindo e gracioso dominó de .2.

setim azul, e em quanto o primeiro se deixou ficar immovel no lugar, em que estava, o se gundo, o dominó de setim azul, avançou dous passos para Luciano, e tocando-lhe no hombro, disse-lhe : — Conheço-te ! — Pouco me importa isso : respondeu o estudante sem attender ao dominó azul, e sem ao menos contrafazer a voz. — Vim procurar - te... escuta : tor nou o dominó azul, tomando a mão de Lu ciano. D'essa vez o estudante estremeceu ao som da voz que lhe fallava. — Quem és?... perguntou. — Prometti que um dia e cedo viria encon trar-te inesperadamente : eis-me aqui! Luciano acabava de reconhecer a voz suave e pura da bella incógnita. — Meu Deos ! exclamou elle, e prendendo entre as suas uma das mãos do dominó, levouo para o fundo do corredor, onde era menos numeroso o concurso. — Es tu ? és tu ? perguntou elle. — Sou eu, sim! respondeu a bella incó gnita atirando para traz o capuz do dominó, e

libertando seu formoso rosto da mascara que ooccultava. Era com effeito ella mesma, e mais encan tadora do que nunca. Luciano não sabia o que dizer-lhe : aper tava-lhe a mão, e chorava. — Falia! conta-me... dize-me tudo quanto comtigo se tem passado! balbuciou elle em fim. — Não; respondeu a joven : a historia fora demasiado longa, e não nos sobra o tempo. Ouve-me, Luciano; amas-me sempre?... — Oh! sempre! sempre! cada vez mais!... — Escuta : não te lembra quando me juravas que me farias tua esposa, e que me darias o teu nome, a tua família e teu futuro, que eu te respondi então que seria tua um dia, e breve, e quando pudesse provar-te que era digna de ti e da benção de teus pais?... — Sim... sim... e então? — Amas-me ainda, Luciano?... — Muito... como nunca se amou no mundo. — Pois o dia afortunado chegou... — Como?... — O dia, Luciano, é hoje ! — Hoje ?...

— Dentro de meia hora, poderás ver meus pais, saber o meu nome, conhecer o meu pas sado e decidir se mereço a dita de ser tua es posa. — Oh é demais! é muita felicidaden'esta vida de soffrimento e de afflicções! — Vem! — Onde! — A minha casa, á casa de meus pais. Luciano não pôde deixar de olhar admirado para a bella incógnita. — Hesitas?... perguntou ella. — Não ; mas teus pais quem são?... — Sabêl-o-has bem depressa... — E elles sabem... — Tudo... — Vamos. O Pierrot deu o braço ao dominó azul, e ao descer a escala passou junto do Dominó preto que

— Como se chama ?... — Pois ignoras o nome do teu maior amigo?... — Intrigas-me. — É uma cousa muito natural em um baile de mascaras. — E que quer elle com nosco ?... — Sem a menor duvida seguir-nos. Os três mascaras tinhão chegado á porta do theatro, e á um signal do dominó preto, que então se adiantou alguns passos, aproximouse um elegante carro. — Seguir-nos?... disse admirado Luciano. — Sim, e entrar comnosco n'esta carrua gem. Com effeito o dominó preto saltou para den tro do carro logo que vio dentro d'elle a bella incógnita, e Luciano, que cada vez mais sorprehendido se mostrava. 0 carro partio. — Para onde vamos?... perguntou o estu dante. —'Que te importa, uma vez que me levas a teu lado?... disse a moça. — Oh! mas parece que durmo e que so nho, e tenho medo de acordar.

— Tranquillisa-te : acordaremos todos no seio da felicidade. — Todos?... — Sim : não posso dizer acordaremos am bos ; porque estás vendo que já somos três... — Mas o nosso terceiro companheiro é mudo?... — Ah! se soubesses como o seu coração palpita de alegria, ouvindo-nos!... — Dominó preto, quem és tu ?... O dominó não respondeu. —• Pergunta-me o que quizeres : eu res ponderei por elle. — Pois começa por dizer-me o seu nome. — Que empenho é esse, se ainda não sa bes o meu?... disse a moça com doçura. — Quem és então?... quem és, mulher encantadora?... perguntou de novo Luciano, beijando com amor a mão da bella incógnita. — Quem sou ? pois não te diz o coração que sou a esposa que elle te escolheu; que sou a mulher que te prendeu e conquistou-te?... — Sim! sim ! é isso mesmo ! — Ves? disse a moça com um tom de irre sistível magia ; eu sou a soberana, e tu és o escravo...

— Sempre! — Ninguém te obrigou a amar-me, e tu amaste-me, e amas-me; ninguém te arrastou para junto de mim, e tu offereceste os pulsos ás minhas cadêas!... és meu! és meu escravo; não éassim?... — Oh ! e como é doce poder sel-o!... 0 carro parou n'esse momento á porta de uma vistosa casa de campo. Luciano nem tinha reparado no caminho, por onde fora trazido. 0 criado abrio a portinhola da carruagem, os dous jovens apearão-se, e logo após elles o dominó preto. Luciano vio a casa brilhante de luzes, como para uma noite de festa. — Vem! disse-lhe a bella incógnita tomando-lhe o braço. 0 estudante não hesitou : o que se estava passando, começava a parecer-lhe um conto das Mil e uma Noites, e sua imaginação exal tada o impellia para ver o fim d'esse romance, em que elle tinha uma parte tão notável. Entretanto o seu coração palpitou mais for temente, quando sentio que chegavão á norta da sala. — 216 - — Emfim ! disse em alta voz a moça antes de entrar. — Quem é?... perguntou alguém, que na sala estava. — Sou eu, meu pai; sou eu que trago o rebelde vencido, e para sempre encadea do! Luciano soltou um grito de sorpreza en contrando-se face a face com Guilherme, a esposa d'este, e sua própria mãi, que o vierão receber com os braços abertos. — Meu Deos! exclamou o estudante cho rando de alegria; e meu pai!... onde está meu pai?... — Disfarçado em um dominó pela pri meira vez na sua vida!... disse o dominó preto, arrancando a mascara. Luciano cahio de joelhos. — Que queres? perguntou Eugênio sorrindo-se. Luciano não poude fallar; mas apontou para aquella que fora a sua bella incógnita, e que acabava de ser incógnita, continuando sempre a ser bella e encantadora. — Não te dizia eu, observou-lhe Eugênio; não te dizia eu, que dentro de pouco tempo

tu me pedirias de joelhos que abençoasse o teu casamento com Dionysia ?... Adivinha-se o resto. O casamento de Lu ciano com a filha de Guilherme vai em breve effectuar-se, o estudante, maldizendo o seu louco orgulho que o fazia voltar o rosto á felici dade, reconhece e diz a todos que a bella in cógnita não perdeu nenhum dos seus encan tos por chamar-se Dionysia.

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