O Veneno das Flores Os Romances da Semana · Capítulo 7 de 7
Obra Menu

O Veneno das Flores

O Veneno das Flores

I.

Cândida festejava o anniversario natalicio de sua querida filha, a bella Juliana. O brilhantismo das luzes, as ondas de m il perfumes entornados pelas flores, a viva ale gria do saráo, a harmonia dos cantos não explicavão a magia indizivel que dava ani mação e enlevo a essa festa que o amor maternal forjara. 0 segredo desse encanto estava na idéa suave de uma aurora que presagiava um for moso dia, na idéa do despontar do décimo

sétimo anno de uma menina de sorprendente belleza, na admiração da graça arrebatadora que enchia de fulgor e de fascinação os tra ços angélicos do rosto, e as fôrmas puras e maravilhosas do corpo de Juliana. Ella brilhava no meio de trinta lindas gentis e faceiras jovens; como Venus no seu esplen dor matutino : não tinha rivaes; era uma princeza formosa cercada de sua corte magní fica. Seus cabellos erão negros, longos e ondeados : seus olhos da mesma côr e de um fixar irresistível: seu rosto de um perfeito oval e de côr moreno-clara finíssima; o seu sorrir era um prodígio de elevadora graça : seu eól io admirava pela magestade; seu peito como suasespaduas, arrebatava pelas flammas volup tuosas que acendia : a sua voz era cheia de uma celeste harmonia; e emfim toda ella os tentava formosura como a dos anjos, delica deza como a das flores, frescura como a do orvalho, ligeireza como a dos passarinhos, ale gria como a da infância. Juliana estava vestida com uma simplici dade magistralmente calculada. Seu vestido de gaze branco, cujo corpinho degollado e

liso concedia a vista de encantos que o pejo não veda, e desenhava encantos que elle res guarda, na saia ampla afigurava nuvem fan tástica e dava á formosa moça um não sei que de aéreo e vaporoso, que lhe requintava a magia da belleza. 0 motivo da festa era um feliz pretexto para uma preferencia que ninguém se lembrava de dissimular. Juliana via-se incessantemente abysmada em um dilúvio de felicitações e de flores.

II.

Cem vezes naquella noite de festivo culto a boca mentirosa da lisonja tinha pronunciado aos ouvidos da bella moça o nome — anjo. Mas Juliana nem tinha as virtudes que emprestão na terra o nome de anjo á mulher, nem as condições para esperai' na vida o gozo da felicidade, que pôde fazer do mundo um reflexo do Paraíso. Ella era o que a educação que lhe havião dado a tinha feito. Filha única, foi objecto de uma idolatria para seus pais; desde criança, sua vontade e seus caprichos fôrão leis de amor no seio da família; desde criança soube que era formosa, mas não aprendeu que alguma cousa ha pre ferível á belleza. Seu pai deu-lhe mestres que abrilhantárão-lhe o espirito, e ensinárão-lhe bastante para que ella aos quinze annos se pudesse re-

putar mais instruída do que em geral o são as senhoras. Completárão-lhe a educação com os encan tos das bellas-artes. 0 pai de Juliana era um homem illustrado, mas discípulo da escola de Voltaire, e enthusiasta do patriarca de Ferney, não que rendo comprehendcr que esse gigante demolidor misturou em suas doutrinas grandes verdades com funestos erros; que em sua gloriosa guerra contra o fanatismo foi em arrojo fatal atacar também a pureza da reli gião ; que no seu facho de civilisador incendiario havia fogo do céo e fogo do inferno; o pai de Juliana enregelou o coração de sua filha com um horrível scepticismo que nelle plantou, e morrendo quando ella tocava o seu terceiro lustro de idade, escapou ao castigo de ver o fructo de seus princípios no tremendo futuro que esperava Juliana ; mas nem por isso deixou de ser punido; pois que embora seu cadáver fosse molhado pelas lagrimas da pobre orphã, sua alma não subio ao céo nas azas puras da oração de sua filha. Passado um anno de luto Cândida levou

Juliana ao seio ardente do mundo elegante. As sociedades abrirão em par suas portas á nova e esplendida belleza que vinha encantal-a; os turibulos da adulação queimarão incenso embriagador aos pés dá donzella : a sensualidade civilisada derramou no coração da menina o seu activissimo veneno misturado com o mel suave e deleitoso das mais odorosas flores. E Juliana, moça engraçada, e lindíssima foi o que a sua educação a tinha feito, caprichosa, altiva, temerária, vaidosa, acreditando inex periente nos homens, incrédula, sem fé em Deos, tudo esperando do mundo, nada espe rando do céo.

III.

Entre os mancebos que mais ardentes e cubiçosos devoravão com olhos ávidos a en cantadora joven , distinguia-se Fábio, tanto pelo seu enlevo, como pelo respeito affectuoso que lhe enfreava a paixão. Fábio era um moço pallido, de olhos bellos e penetrantes, e cuja fronte alta dava teste munho de uma intelligencia feliz. Camarada da infância de Juliana, começou a amal-a em menina, ama-a ainda mais em sua esplendida mocidade, e amal-a-ha toda a vida. Não desconhece os defeitos da mulher que adora, não pôde porém dominar seu coração; ama-a, como também o marinheiro ama o oceano, apezar de conhecer-lhe a inconstân cia, as tempestades e o perigo. Anima-o a luz de alguma esperança?.... sim; mas luz tão fraca e duvidosa, como a flamma extrema e moribunda de uma lâmpada que prestes vai apagar-se.

Fábio é pobre; conta porém enriquecer pelo trabalho, e então correrá aos pés de Juliana, e lhe offerecerá a posição faustosa que ella aspira, e que sem um esposo rico não conseguirá jamais, pois que a fortuna de sua mãi é apenas medíocre. Dóe ao mancebo apaixonado a idéa de que é essa ancora de ouro a única a que se pôde prender seu amor para não ser levado pela corrente do mais triste engano. Dóe-lhe; ama porém ainda e sempre, e zeloso, como um infeliz, da duvidosa esperan ça que lhe sorri no futuro, Fábio estremece ao ver algum cavalheiro approximar-se cubiçoso da bella Juliana, e geme de afflicção escutando as palavras que o galanteio entorna no ouvido vaidoso da donzella, que as recebe ás vezes risonha, ás vezes simulando uma indifferença que não desanima. São onze horas da noite: o saráo está na sua hora de mais vivo fervor. Um novo convidado entrou na sala : ó Jor ge de Almeida. Ao vêl-o apparecer, Fábio empallideceu e acanhou-se, Juliana corou e sorrio-se.

IV.

Jorge de Almeida era um joven de 22 annos de idade, alto, bem feito, e de physionomia insinuante e sympathica, apezar da ousadia do seu olhar magnético e da expressão sensual de seus lábios eróticos. Tinha o rosto claro, já porém um pouco desbotado pela fadiga e pelos excessos de uma vida toda passada em ardentes prazeres, e levada pelo caminho que ensinarão os falsos interpretes das doutrinas de Epicuro. Nada haveria que notar na extrema elegân cia desse mancebo; nas suas maneiras, no seu faltar, nos seus vestidos api'eciava-se esse esmalte da bôa sociedade; não perdia pela affectação, nem pela incúria. Infelizmente o coração de Jorge era frio como o mármore e árido como um solo estéril. 0 pai de Jorge era um abastado e impor tante fazendeiro do interior; mandára-o para a corte afim de preparal-o para entrar em

alguma das academias scientificas do Império; cego porém pelo amor mais extremoso, dei xando-se levar pelos caprichos do filho, facilitando-lhe todos os gozos e todas as distracções com o ouro que fazia chover sobre elle, surdo ou prestando de má vontade o ouvido aos prudentes avisos de amigos dedicados, acabou por carregar a sociedade com o peso de um novo e elegante libertino, em vez de offerecerlhe um cidadão útil e honesto. Que outro resultado podem esperar os pais, que abandonão os filhos aos seus próprios im pulsos, e que, ainda mais, os trazem fartos de ouro na idade em que a inexperiência é um véo que esconde o mal, a paixão um fogo em que os desejos refervem, e a imprudência a si nistra aconselhadora que sempre lisonjeae pre cipita ainda os mais loucos anhelos?... Jorge de Almeida aprendeu pouco ou quasi nada nos livros, alguma cousa na bôa, muito na má sociedade. Os livros derão-lhe apenas em uma lição incompleta e nunca meditada aquellas noções vagas e insufficientes que antes perturbão do que esclarecem o espirito, á semelhança dos raios vacillantes da lâmpada nocturna do tem-

pio, que deixão afigurar-seijuadros chimericos, e imagens fantásticas nos espaços onde não chegão com a sua luz. A má sociedade chegou-lhe aos lábios o nectar da concupiscencia, e de todos os gozos sensuaes, nectar envenenado que elle bebeu até a saciedade; lançou-lhe no coração o germen do vicio, desmoralisou^se emfim. E a bôa sociedade armou-o com as exterioridades que seduzem; além de máo que era, tornou-o perigoso; porque deu-lhe um pare cer de perfeito cavalheiro, e ornou-o com o sorrir que mente, com o olhar que enreda, com o agrado que atraiçôa, com a palavra que perjura. Em sua vida tumultuosa e desregrada, em suas relações naturalmente muitas vezes mal escolhidas. Jorge tinha já contado vinte falsos amigos e outras tantas pérfidas amantes : em breve aprendeu a rir-se de uns e de outras, e não sabendo distinguir as fezes da nata da sociedade, nem os seus espinhos das suas flores, descreu delia e só acreditou no poder e na influencia da riqueza, que lhe abria todas as portas e lhe proporcionava mil deleitosos prazeres. 17. - 298 —

V.

Jorge entrou na sala, dirigio-se logo a Ju liana, e inclinando-se respeitosamente diante delia, offereceu-lhe um formoso ramalhete de violetas. — Porque tão tarde?... perguntou doce mente Juliana. — Ah! praza ao céo que eu me tivesse feito desejar! respondeu o mancebo cravando no rosto da joven um olhar atrevido e cheio de fogo. — Se foi esse o seu desejo, tornou ella abaixando os olhos, realizou-o cruelmente. — Em tal caso receba eu um generoso perdão dessa felicidade que me custou um doloroso sacrifício de metade de uma noite ditosa! Juliana ofereceu a mão a Jorge, que a beijou com respeitosa cortezia para os olhos de todos, e com um ardor que somente a donzella sentio. - 299 — Jorge foi comprimentar a mãi de Juliana, que o recebeu com amizade e confiança. 0 ramalhete de violetas era mais um depois de tantos que bem pudera passar quasi des apercebido ; ficou porém em todo o resto da noite na mão de Juliana, que aspirando sua vemente e a cada momento o doce aroma das flores, parecia querer passal-o todo para o coração. Amava Juliana as violetas de preferencia a todas as outras flores, ou o encanto daquelle ramalhete provinha do mancebo que o offerecêra?... Era fácil adivinhal-o. Todos o adivinhavão talvez, porque os homens murmuravão segredos observando Ju liana, e as senhoras sorrião-se olhando para ella. No entanto a donzella radiava de prazer e felicidade, e tão preoccupada ou embeveciaa se achava que estremeceu ouvindo a voz de Fábio que se approximára sem que fosse sen tido.

VI.

— Fábio! tu me fizeste mal, disse Juliana. O mancebo suffocou no seio um gemido pungente, e ficou alguns momentos sem dizer palavra olhando com tristeza indizivel para a formosa moça. — Que me queres?... dize. — Um passeio, Juliana; balbuciou Fábio. — Não : tu és exigente de mais: já contradansamos, já valsamos, já passeamos : hoje não tornaremos a passear. — Um passeio, Juliana! um passeio ainda menos por mim, do que por ti. Fábio estava tão triste, que a sua camarada de infância, delle se compadecendo, levantouse e tomou-lhe o braço. — Vamos, disse ella sorrindo-se; mas con fessa que faz máo ver. — Não, Juliana; todos sabem que somos

como dous irmãos, e que também como ir mãos nos amamos. — Como irmãos só!... tornou ella rindo-se outra vez. — Juliana, tu zombas de mim como a criança que atormenta aquelle que por amal-a muito se deixa por ella escravisar, e cede sempre aos seus caprichos... — Julgas-me pois criança, Fábio?... — Oh! muito! muito criança es ainda, e precisas bem de um amigo devotado que vele por ti! — Eesse amigo... provavelmente... — Serei eu, e nenhum outro o seria como eu, tu o sabes. — Fábio, esse nosso passeio começa um pouco melancólico, o que não ó muito admis sível em uma festa. — Mas indispensável ó que assim seja; es cuta, Juliana: tu estás ameaçada de um grande perigo... — Aqui?... — Aqui mesmo, e em toda a parte : na tua mão estou vendo um annuncio da desgraça que presinto... — Na minha mão?... será este ramalhete

de violetas?... perguntou a moça, compri mindo uma risada. — Sim, e não rias: tu aspiras com insa ciável deleite essas flores, e não te lembras de que as flores ás vezes têm veneno e ás vezes mátão. — Oh! a violeta é uma flor sem espinhos, e tem um perfume suavíssimo... — Juliana os perfumes das flores podem matar. — Não creio.

— Já se tem visto amanhecer morta a pes. sôa que dormio em uma sala fechada onde se deixarão flores odoriferas. — Agradecida; dormirei com o meu rama lhete de violetas; deixando aberta a porta do meu quarto. Ha porém nas flores venenos de outra es pécie; ha o veneno de seducção, Juliana, o veneno que lança nellas o homem perigoso e fatal que as offerece a uma donzella inexpe riente. — Fábio!... — Jorge de Almeida te faz a corte, e tu o amas... — Que te importa?...

— Que me importa!... meu Deos!... Ju liana, não é o ciúme, é o próprio amor sem esperança que me inspira, e me obriga a fallar. Foge desse homem, repelle-o, porque é indigno de ti; não o conheces: é um li bertino, um miserável estragado, corrompido pelo vicio, que não respeita nem a família que o recebe, nem a honra da mulher pura que o ama. — Fábio, disse com seriedade Juliana, comprehendo o ciúme que despedaça o coração : não comprehendo porém a columniaque man cha os lábios de um amante infeliz. — Juliana! — Estou fatigada : leva-me á cadeira que deixei. — Deos permitta, minha amiga, que não te lembres nunca chorando do que me ouviste nesta sinistra noite! — Sim.... farei por esquecer-me para esti mar-te como dantes. — Juliana!... atira para longe de ti esse ramalhete de violetas! acredita, no que te digo : ha flores que envenenão e mátão. — Deve ser uma morte deliciosa !... uma morte de flores!...

— Criança! louca! — Se um dia resolver-me a acabar com a vida, matar-me-hei com o veneno das flores. — Desgraçada! desgraçada!... Fábio e Juliana entrarão na sala do baile, e puzerão termo á sua conversação; quando porém ella sentou-se e agradeceu ao mance bo, este lhe. repetio ainda com um tom prophetico : — Teme o veneno das flores!

VII.

Nos bailes a hora mais propicia para os namorados é aquella em que a fadiga começa para os indifferentes; então estes olhâo e quasi que não vêm, ouvem e quasi que não escutâo. É a hora da solidão no seio da mul tidão, hora em que o espaço se abre para o amor, que vôa audacioso de coração em co ração. , Jorge de Almeida conhecia perfeitamente a lheoria dos bailes, e foi portanto quando sentio que tinha chegado aquella hora, que foi offerecero braço a Juliana, convidando-a para um passeio. — Dei-lhe, quando chegou, a minha mão a beijar, disse Juliana depois de alguns minutos de conversação apaixonada; diga-me foi um prêmio ou um castigo ?... — Um prêmio que mereci : respondeu Jorge. — 306 - — Porque?... — Porque cheguei tarde ao seu baile pelo cuidado do nosso amor e de minha ventura. — Longe de mim ?... — Apezar disso. — E como?... — Recebi cartas de meu pai e de minha mãi, e tive de entreter o portador que é um bom amigo da nossa família. — E as cartas ? perguntou Juliana anciosa. — Como as desejava. — Então seus pais convém no nosso casa mento ?... — Meus pais approvão a minha escolha; já se informarão a respeito de sua família, e dentro de um mez chegarão á corte para aben çoar sua nova filha. Juliana reteve uma exclamação de prazer; não pôde porém abafar um suspiro. — Suspiras, Juliana?... — Oh! sim ! e este suspiro sahio-me do fundo do coração. — Amas-me então? — Ainda o perguntas?... Jorge apertou o braço de Juliana contra o peito, e a donzella commovida e feliz incli- — 307 - nou a cabeça e quasi que a encostou no hombro do mancebo, que sentio em sua face o brando contacto das madeixas de sua amada. Tinhão ambos entrado em um terraço que dominava um bello jardim : as auras da noite sopravão suaves, e o aroma das flores embalsamava a atmosphera. — Oh! Juliana! disse Jorge; como está formosa a noite, e como é deleitoso o aroma das flores respirado junto de ti!... Juliana sorrio-se. — De que te estás rindo?... — De uma lembrança que tive: passeei ainda ha pouco com um cavalheiro, que me deu uma lição sobre o veneno das flores, e que me aconselhou que tivesse medo dos seus perfumes, que podem matar. — Sacrilego! maldizer das flores ao pé de ti ó um sacrilégio, e alem do sacrilégio, elle mentio. — Mentio?... — Mentio; as flores são os thuribulos do céo; junto das flores ninguém poderá ser máo, Juliana ! uma idéa poética e dulcissima, em bora ousada. — Diz.... — 308 - — Uma prova de confiança e de amor... — Qual?... — Dá-me uma hora, em que só comigo, sem receio de indifferentes nem de importunos, passes ouvindo innocentes juramentos de amor no meiodaquellas flores.... — Jorge! — Sou o teu noivo.... não o podes mais duvidar : eis-aqui as cartas de meus pais que deixo nas tuas mãos autorisando-te a apresental-as atua mãi. Juliana recebeu as cartas tremendo. — Dá-me uma hora! repetio Jorge. — Oh! não!... — Dá-me uma hora, ou ficarei com a cer teza de que não confias em mim. — E o dever, Jorge ?... — E o amor, Juliana ?... — Não; julgar-me-hias indigna. — Eu sou teu noivo, Juliana ! — Embora, ainda não és meu esposo. — Duvidas ao mesmo tempo da tua e da minha virtude. Tens razão... eu desejei mais do que podia merecer...deixemos este terraço... — Jorge! tu te affliges ?... pois nesta noite queres entristecer-me ?...

— És tu que me entristeces, que me offendes, Juliana; és tu que julgas o teu noivo indigno de um innocente favor, e capaz de uma infâmia ; és tu que me abates e me in jurias !... — Jorge!... murmurou ternamente Julia na apertando a mão do amante. — Dá-me uma hora! A moça não respondeu. — De hoje em diante não deixarei de visitar-te um só dia; virei todas as tardes, e amanhã ou depois, quanto as circumstancias mais nos favorecerem, collocarás sobre o teu piano esse ramalhete de violetas, que então estarão murchas, e que ainda assim me parecerão lindíssimas; porque me darão o signal de que me esperas no jardim ás duas horas da noite. E Juliana nem respondeu, nem se lembrou do veneno das flores.

VIII.

A vaidade tinha tornado Juliana ao mesmo tempo loureira e ambiciosa de riquezas. Era loureira, pelo desejo de ser incensada e adorada, pela vangloria de se ver cercada por uma numerosa corte de submissos namo rados, como uma rainha por uma multidão de lisonjeiros cortezãos; pelo maligno prazer emfim de encher de inveja os corações de cem rivaes, jovens vaidosas como ella, e a quem se ufanava de humilhar com o quadro de seus triumphos e de suas conquistas. E ambicionava riquezas, porque são as ri quezas que pagão o luxo, a ostentação e as festas em que ella almejava brilhar, e ser ido latrada ainda depois de casada. E a louca de vaidade não comprehendia que essa ambição de riqueza tendia a rebaixal-a, porque a levava a vender o coração, e as mais puras e suaves affeições, aviltando-se desse

modo aos olhos de sua própria consciência. E a loureira nem via que thesouros que fa cilmente se prodigalisão são desestimados de pressa ; que sorrisos de amor e galanteios que se concedem a muitos perdem o encanto da sua pureza, e ficão sendo antes os brincos das fantasias, do que os enlevos dos corações daquelles que de passagem os vão recebendo. A moça loureira, por mais formosa que seja, desmerece progressivamente e na razão directa das conquistas de que se vai desvanecendo : suas victorias são, como as de Pyrrho, derrotas reaespara a vencedora; que importa que ella desdenhe em um dia do amante que animara na véspera?... é elle sim que rejeita o culto dos escravos e vencidos que já servirão bas tante para o esplendor dos seus triumphos; cada vencido, porém, e cada escravo que se retira desprezado, leva comsigo um despojo de amor, embora fingido, uma historia de ga lanteio finalmente que depõe contra a virgin* dade do coração da conquistadora. Bem cedo nenhum mais a ama deveras, e todos a galanteão por insultuoso entreteni mento de horas; e fazem da joven loureira o recreio dos olhos, a zombaria do amor, a rosa

interessante que mil borboletas festejão um momento , e abandonão sem saudade logo depois. E succede ás vezes que a moça loureira no meio dos seus vôos de inconstância e de ga lanteio, sem o pensar e sem o querer, deixa-se captivar de um homem mais hábil e astuto, e de ordinário de um homem desapiedado, que illudindo-a com traiçoeiras finezas, preparalhe não um altar em que a adore, mas uma pyra vergonhosa em que a sacrifique. E a vaidosa perde-se em um casamento in feliz, ou ainda, peior em um desengano avil tante, e depois vêm as lagrimas, o arrependi mento , os remorsos ; lagrimas, arrependi mento e remorsos, provindos daquelles gozos loucos de funesta vaidade... veneno das flores emfim.

IX.

Juliana aspirava com voluptuosidade e con fiança o perfume daquellas flores, e ainda não sentia os effeitos do seu veneno. Mas o caminho em que ia era o caminho do abysmo e da perdição. Como tantas outras deixára-se prender pelas azas no seu adejar continuo e irreflectido de borboleta galanteadora. Vio uma noite Jorge de Almeida, achou-o elegante, suppôl-o talvez pretencioso, e quiz encadeal-o ao seu carro de conquistadora : irritou-se porque o mancebo ousou ou fingio resistir : soube depois que elle era rico, e teve um pensamento de ambição; provocou-o e exultou, porque chegou a acreditar que o tinha domado. A lucta porém se havia prolongado por al guns mezes, em que a simulada indifferença de Jorge de Almeida inflammára a vaidade da .8

formosa moça : Je quando a contenda chegou ao seu termo, quando Juliana soltou dentro do coração o grito de victoria, o coração respon deu-lhe com uma confissão de derrota. Juliana amava pela primeira vez. O seu amor era puro, não se nodoava nem com um leve pensamento de ambição, nem com o desejo de humilhar seus rivaes; todas essas idéas tinhão passado ; o seu coração es tava exhalando o virginal perfume de um sen timento generoso, nobre, santo. Se Jorge de Almeida fosse pobre como o obscuro artesão, que tem de seu o fructo do seu suor no trabalho de cada dia, Juliana ainda assim o quizera, ou talvez assim o pre ferira. A vencedora estava pois vencida; a conquistadora que procurava ainda um escravo, tinha encontrado um senhor, e dobrava-se contente aos ferros do seu captiveiro. Mas a lembrança do passado, que era um recente passado de hontem, fazia mal a Ju liana. Quem poderia acreditar na sinceridade do amor da moça loureira? Duvida-se ainda mais da mulher do que se duvida do homem.

Jorge de Almeida, libertino, e incrédulo desejava a posse de Juliana : não a amava porém ; descria da paixão de que ella parecia possuída; attribuia ao encanto da sua riqueza a fortuna daquella nova conquista, e fingindose também abrazado nas flammas de um amor irresistível, promettia-se não perder a felici dade brutal que se lhe antolhava provável. Uma grande desgraça annunciava-se por tanto imminente : gota a gota já se estilava o veneno das flores; era horrível, era porém uma conseqüência filha legitima dos princí pios : era cruel, mas era lógico.

X.

Jorge de Almeida tinha pedido a Juliana uma entrevista no jardim e ás duas horas da madrugada. Dous dias havião passado depois da festa dos annos de Juliana e nas tardes de um e ou tro Jorge de Almeida não se esquecera de vir fazer a corte á sua amada e noiva. Cândida recebera e tratara o mancebo como a um filho; tinha lido as cartas dos pais de Jorge, e não podia mais duvidar do próximo casamento e do brilhante futuro de sua filha. Juliana saudava a chegada do seu noivo com um sorriso que se abria em seus lábios, e que aos lábios chegava partindo do coração. Ficando ás vezes na sala a sós com a for mosa moça, Jorge de Almeida reiterava suas instâncias, pedia de joelhos, queixava-se e maldizia-se por não merecer a entrevista, que era o sonho querido do seu amor.

Mas em um e outro dia Jorge de Almeida teve de despedir-se e de retirar-se sem ver o suspirado ramalhete de violetas descansando sobre o piano. 0 angélico sentimento do pejo defendia a virtude da donzella. Juliana apaixonada e amante violentava-se para resistir aos instantes pedidos, ás lagrimas e ás queixas amargas do homem que ia em breve ser seu marido; mas o santo pudor da va-lhe forças para a lucta ; e quando no com bate reconhecia-se quasi vencida, escapava ao vencedor accendendo-lhe uma esperança. — Amanhã, dizia ella. E assim o disse na primeira e na segunda tarde. E ainda no terceiro dia ella repetio tre mendo : Amanhã. is.

XI.

Essa esperança do dia seguinte concedida ao amante era uma sinistra ameaça que á sua virtude fazia a donzella. Porque não comprehendia Juliana que ainda mais do que o seu pudor, devia a sua razão oppôr uma barreira indestructivel ao pedido reprehensivel e indigno do seu amante? Amanhã era uma evasiva inspirada pelo pudor. A resposta única da razão devia ser nunca. Porque não respondia Juliana com a razão?.. É que a razão desampara a joven dominada pelo amor que se desmanda elevando-se á paixão, e só o escudo celeste do pejo fica para impedir.... ou retardar a perda da donzella a quem o seductor procura arrastar para um abysmo. E para quem poderia voltar-se Juliana, pe dindo conselho, protecção, auxilio e luz?...

Para sua mãi?... não se animaria nunca; temeria vêl-a justamente irritada lançar fora o homem insolente que dirigira proposição tão injuriosa á sua filha. A Fábio?... era um rival e um inimigo de Jorge de Almeida, pois que o reputava indigno até de entrar no sacrario de uma família. — Então a quem?... Quando os nossos olhos não achão recurso na terra, levantão-se naturalmente para o céo, e procurão o auxilio de Deos. Falla-se a Deos com a esperança, com a fé, com a oração, e Deos responde, serenando a tempestade que agita o seio do afflícto, e illuminando o seu espirito. Mas Juliana era incrédula; não tinha fé, e zombava, pobre infeliz, do recurso da oração.

XII.

Fábio não tinha mais apparecido na casa de Cândida depois daquella noite de saráo para elle tão triste; no quarto dia porém a saudade, o amor, e um nobre interesse o levarão ao tecto querido. Era de tarde: mas ainda cedo. Juliana estava no seu quarto acompanhada de sua mãi, e ahi mesmo recebeu o mancebo á quem a confiança quasi fraternal dava direito a semelhante liberdade. Cândida estimava Fábio, adivinhara o amor que elle tributava a Juliana, sentia não poder abençoar a união dos dous jovens; mas por isso mesmo e no ponto em que se achavão as cousas, entendeu que lhe cumpria apagar logo e para sempre a débil flamma da esperança que por ventura se conservava ainda accesa na alma do desgraçado amante. Assim, depois de breves momentos de con-

versação, Cândida deu parte a Fábio do ajus te de casamento de Jorge de Almeida com Juliana. O mancebo, ao receber a cruel noticia, tor nou-se pallido como se o véo da morte por seu rosto se houvesse estendido : seus olhos cerrárão-se, e duas lagrimas, expressão elo qüente de uma dôr profunda abafada com es forço no coração, vierâo colar por suas faces. Cândida não pôde resistir sem abalo ao as pecto daquelle mudo e immenso padecer, e sentindo-se fortemente commovida, levantouse esahio. — Fábio! disse Juliana; meu amigo... meu irmão, que ó isso?... — Tu o perguntas, Juliana?... murmurou o mancebo quando pôde fallar. — Não podíamos ser um do outro e... — Oh! exclamou Fábio; pois bem! mas não devias ser delle! devias fazer a felicidade e a gloria de um homem extremoso e hon rado ; nunca porém ser o prêmio concedido á libertinagem e ao cynismo ! — Senhor! — Ainda é tempo de salvar-te, e ninguém me impedirá de dizer a verdade. Juliana I

Jorge de Almeida é um infame, e procura se duzir-te. — Envergonha-te, Fábio, e arrepende-te da calumnia que proferiste! disse Juliana, cor rendo ao seu toucador, e tirando delle as car tas dos pais de Jorge, que ella entregou ao mancebo. — Embora! tornou este depois de ler as cartas e de vencer um primeiro movimento de surpreza: estas cartas me confundem; mas ainda assim eu desconfio das intenções desse homem... embora, sim! elle é sempre um infame. — Fábio! tu ousas insultar diante de mim aquelle que em breve será meu marido ? O mancebo respondeu a estas palavras com um gemido surdo e pungente; não se submetteu põróm, nem guardou silencio. Um pouco exaltado pelo ciúme, e realmente muito inte ressado pela sorte de Juliana, referio um por um todos os factos escandalosos que tornavão ávida de Jorge de Almeida uma longa historia de orgias, de seducção e de desmoralisação. Juliana perdendo emfim a paciência, ferida no seu amante, como uma mãi em seu filho, levantou-se irritada :

— É de mais! bradou, e pois que a con sciência do dever não lhe ensina a respeitarme, ensine-hYo o meu solemne desprezo! E sahio, voltando as costas a Fábio, que indo precipitar-se em seguimento delia, passou por diante do toucador, e vio sobre elle o ramalhete de violetas que Jorge offerecêra a Juliana na noite do saráo, — Oh! exclamou elle, o ramalhete infer nal!... E apoderando-se das flores já murchas, correu como um desvairado, e atravessava impetuoso a sala quando parou a um grito de Juliana. — 0 meu ramalhete!... ah! Fábio? o meu ramalhete!... 0 mancebo voltou-se arrebatado, e vendo diante de si Juliana lacrimosa e supplicante, lançou sobre ella um olhar de commiseração terrível, e atirando o ramalhete em cima do piano, desappareceu.

XIII.

Juliana estava ainda profundamente commovida e immovel, no mesmo lugar em que Fábio a deixara, quando Jorge de Almeida entrou na sala. A presença de seu noivo socegou em breve a donzella que, receiosa de alguma rixa entre os dous mancebos fez um segredo da scena que acabava de passar-se. Jorge vinha radiante de prazer e com indizivel satisfação entregou a Cândida uma carta de seu pai e a Juliana outra de sua mãi, em que ambos manifestavão a sua approvação ao casamento do filho, e promettião estar na corte no fim de dez dias. O resto da tarde e o principio da noite fôrão de suave embriaguez e de encanto para os dous noivos. Juliana embevecida não podia arrancar os olhos do rosto de Jorge; nada mais via nem sentia.

Jorge nunca se mostrara mais carinhoso nem mais terno, As dez horas da noite levantou-se para sahir, e aproveitando um momento em que Cândida por calculada casualidade se dirigira ájanella, aproximou-se do piano, beijou três vezes com apaixonado fervor o ramalhete de violetas, e logo depois retirou-se. Juliana deixou-se cahir quasi desmaiada em uma cadeira, soltando um triste gemido.

Era meia noite. Juliana estava só e velava anciosa em uma sala contigua á do seu toucador e afastada daquella aonde no interior da casa, já a essa hora dormia tranquillameute sua mãi. A sala em que se achava a donzella tinha uma porta que se abria para o salão principal, e que estava trancada; outra pela qual se passava para o terraço, donde se descia ao jardim por uma bella escada de pedra : essa porta estava também fechada; tão de leve porém que seria fácil abril-a sem ruido; uma janella finalmente olhando para o jardim, e que se deixara apenas cerrada e com a vidraça erguida. Uma vela ardia solitária na sala do toucador e derramava fraca e escassa luz pela extensão daquella em que Juliana se conservava mysteriosamente velando.

Sentada junto de uma pequena mesa, sobre a qual descansava um dos braços nús, com seus cabellos soltos em multidão de bastos anneis que cahião sobre as suas espaduas magníficas, trajando um vestido branco que fazia lembrar a mortalha de uma virgem, Juliana esquecida de si mesma no seio da quella meia sombra de uma sala mal esclare cida; mudae só, pensativa e agitada, e apenas exhalando de momento em momento dolorosos e profundos suspiros, podia comparar-se ao cysne, que abandonado no lago, adivinha a águia ainda distante, solta o seu grito pun gente, mas não foge, e, como resignado, es pera a hora do terrível sacrifício. Com os olhos fitos em uma pêndula que distinguia a alguns passos diante de si, não podendo apreciar o movimento regular e progressivo dos ponteiros annunciadores da marcha incessante do tempo, ella escutava aquelle monótono tique-taque, que parecia responder a cada palpitar do seu coração, como se o pêndulo vibrador pudesse estar lendo em sua alma, e marcando de momento a momento uma accusação da sua consciência. E de cada vez que o sino da igreja vizinha,

perturbando o silencio da noite, dava signa! de um quarto de hora já passado, um estre mecimento nervoso agitava o corpo delicado da donzella, e uma gota de suor cahia-lhe pela fronte sobre o collo. Pela janella que ficará entreaberta entravão as auras da noite, que ião cubiçosas brincar com os anneis de madeixa da formosa moça, e perfumal-os com os aromas roubados ás flores, e como thurificadores incensando uma victima prestes a sacrificar-se. E o sino se fez ouvir ao perto quatro vezes seguidamente e logo depois, com o dobre mais grave, ainda uma vez. Juliana estremeceu com mais violência do que até então, e balbuciou convulsa : — Uma hora!...

XV.

Juliana esperava Jorge de Almeida. Um successo imprevisto e não calculado tinha favorecido os projectos audaciosos do seductor, e determinando a concessão invo luntária dessa entrevista nocturna, em que a virtude da apaixonada donzella ia ficar exposta aos maiores perigos. Fábio havia, sem o pensar, arrojado Juliana naquelle abysmo, atirando o ramalhete de violetas sobre o piano. A donzella vendo chegar o seu noivo, es quecera o fatal ramalhete, e somente delle se lembrara quando Jorge de Almeida o fez apparecer a seus olhos, beijando-o três vezes. 0 gemido que então escapou do seio de Juliana foi o grito supremo de sua innocencia terrivelmente ameaçada. Juliana não tinha concedido a entrevista já tantas vezes pedida pelo seu amante; re-

conhecia porém que este devia contar com ella e aproveitar-se do afortunado signal. Se por instantes ella desejava que Jorge de Almeida perdesse a lembrança de uma con cessão para elle tão lisongeira, logo depois sua vaidade despertada, tremia, receiosa de um esquecimento que chegaria a parecer um desprezo. A virtude offerecia a Juliana um único re curso, e determinava-lhe não descer ao jardim á hora aprazada, faltar absolutamente á entre vista, que realmente não fora concedida e no dia seguinte explicar ao seu noivo com fran queza e verdade a causa dessa falta, e o mo tivo daquelle qui-pro-quó, que era tão ofen sivo da sua honestidade e da sua pureza. Mas, preciso é repetil-o, o que tinha até então defendido a donzella não era a razão, era o instincto; não era a consciência do dever, era o sentimento do pudor; e essa barreira que se oppunha á satisfação do em penho criminoso de Jorge de Almeida, tinha desapparecido com o concurso involuntário de Fábio. O pudor soffrêra apenas uma angustia rá pida e instantânea quando Jorge beijara o ra-

malhete de violetas: a angustia estava pas sada, a grande difficuldade vencida. E diante da consciência do dever Juliana apadrinhava-se com um pretexto, dizendo a si mesma que não fora ella a culpada da con cessão da entrevista. A paixão inventava ainda outros sophismas para escusar um passo que era uma falta gra víssima, um erro que ganhava já com um pré vio remorso a alma de quem o commettia. Juliana lembrava-se de que não tivera tempo de esclarecer Jorge de Almeida sobre o caso imprevisto que lhe dava lugar a suppôr que seria esperado no jardim naquella noite, e contando que elle viesse ao encontro tão alme jado, receiava que Jorge, se inutilmente a es perasse, resentido e afflicto, pudesse chegar a fugir-lhe e a esquecêl-a. E demais aquelle extremoso mancebo, que pouco antes viera, tão contente e feliz, apre sentar as cartas em que seus pais abençoavão a escolha do seu coração, e se apressavão a manifestar taes sentimentos á própria familia pela sua amada, aquelle mancebo que assim se prendia pela sua honra e pela honra de seus pais, não deveria alcançar também uma prova — 332 - immensa da mais completa confiança?... A donzella sophismava perante o tribunal justíssimo da sua consciência como uma delin qüente que treme aos olhos do seu juiz. Juliana não comprehendia que uma mulher exaltada por um amor violento e ameaçada pela seducção precisa defender-se ainda mais dos ímpetos de sua mesma paixão do que dos laços que lhe arma a habilidade e a experiên cia sinistra do seductor. E ella ahi estava só, attenta e muda, escu tando o som monótono do pêndulo que vi brava, calculando os minutos que passavão, e ouvindo com abalo e commoção o dobre do sino que marcava na igreja vizinha, de quarto em quarto de hora, a medida do tempo que se adiantava. E ahi ficou immovel, mas anhelante, cheia de anxiedade, de receio e de temores, até que finalmente ouvio o signal da hora aprazada e suprema. — Duas horas!

XVI.

Aquelle dobre de um sino lugubre, que annunciava um prazo de amor desvairado, fez Juliana levantar-se a cahirde novo na cadeira, como ferida por um choque electrico. Logo depois commovida e tremula foi a uma porta da sala do seu toucador encostar o ouvi do temeroso para assegurar-se de que sua mãi dormia, e voltando logo, encostou-se cuida dosa á janella que deixara meia aberta, e es perou agitada e inquieta. Não esperou muito tempo. No silencio da noite distinguio-se o ruido de uma chave com que uma cautelosa mão abria o portão de ferro do jardim procurando abafar o estalo da fechadura. Juliana nem ao menos reflectio que essa chave estranha que facilitava a entrada para o jardim da sua casa era o indicio vehemente de um projecto premeditado com um 19.

desvelo minucioso, que tinha sabido preparar todas as condições para a sua fácil execu ção. Um momento depois de aberto o portão, a areia gemeu sob os passos de alguém que de manso vinha aproximando-se do terraço, eem breve uma voz meiga, mas contida pelo receio murmurou baixinho : — Juliana!... Jorge de Almeida tinha visto ajanella entreaberta, e adivinhou que a sua imprudente noiva o esperava naquella sala. Juliana, temerosameute ainda, como porém se sentisse irresistivelmente attrahida pela voz terna que a chamava, deixou a janélla, abrio de vagar a porta do terraço, deu um passo para fora, e vio em baixo e junto da escada o vulto de um homem embuçado em uma capa negra. A donzella não pôde reprimir um movi mento de temor. — Sou eu Juliana! disse Jorge com amor ; vem ! vem, minha bella noiva ! Juliana agarrou-se ao corremão da escada e desceu com passos mal seguros, parando de degráo em degráo para respirar e alentar-se.

Jorge de Almeida ajoelhou-se, e beijou com respeito a mão que Juliana deixara livre. — Juliana! minha Juliana!... balbuciou elle. Em vez de responder, a donzella chorou. Oh! não derramava ainda lagrimas de acer bo arrependimento ; era a sua innocente pu reza de virgem que se resentia daquelle pri meiro e violento sacrifício. Era a mimosa flor do valle que, tocada pelo primeiro tufão da tormenta que #rugia ao longe, dobrava já sua haste delicada embora não tivesse murchado ainda. — Oh! Juliana! disse Jorge com ternura; o teu pranto é provavelmente uma injuria que fazes á minha honra! No branco céo de tua alma de donzella innocente e puraexpandio-se talvez a nuvem escura e feia de um temor que me avilta ! Quem sabe se confundes um amante respeitoso e dedicado com um seductor in fame ! Juliana!... A voz de Jorge de Almeida era como uma suave harmonia, e penetrando deleitosa na al ma apaixonada da moça estancou-lhe pouco a pouco as lagrimas e dissipou-lhe o medo.

— Oh! minha bella noiva! continuou elle, sempre de joelhos; tranquillisa-te, e confia em mim : tu serás como a imagem de uma santa que se tirou do altar para se adorar de mais perto e beijal-a nos pés com religioso fervor, e que outra vez se colloca em seu sagrado throno, intacta e pura como tinha delle sahido. Oh! amaldiçoado fosse eu por meus pais, se um instante só ousasse levantar olhos sacrilegos para o anjo que deve ser o guarda da minha felicidade futura! tu és minha noiva, serás em breve rainha esposa, e a tua honra é a mi nha honra!... Juliana respirou. — Juliana!... A donzella ergueu a fronte abatida, olhou com olhos de amor para Jorge de Almeida que estava a seus pés, e pousando suas mãos bran cas e leves sobre a cabeça do mancebo mur murou docemente : — Jorge!... A confiança entrara no seio da victima inexperiente. A seducção acabava de alcançar a segunda victoria contra a innocencia e o pudor.

XVII.

A lua brilhava no céo clara e formosa ; as flores exhalavão suavíssimos aromas; a viração soprava brandamente ciciando nas folhas das arvores; a hora era de mysterioso silencio, o jardim uma poética e deleitosa solidão. — Juliana, disse Jorge; abençoada seja a confiança que renasce em teu seio de anjo, e que em mim depositas, levantando-me até á altura da tua virtude !... — Tu és o meu noivo, Jorge, e eu confio em ti, como no protector desvelado que um destino amigo me vai outorgar. — Ainda bem, minha formosa noiva! apoia-te pois no meu braço, e passeemos por entre as flores... — Oh ! porque não ficaremos aqui!... — Porque o sussurro das nossas palavras, embora murmuradas quasi ao ouvido um do outro, poderia talvez provocar a curiosidade de alguém que ainda não dormisse, e que o percebesse; porque através das grades do jar-

dim alguém que pela rua passasse poderia ver-nos; porque emfim um acaso infeliz é pos sível, e se te vissem comigo a esta hora, pade ceria o teu credito, que depois do teu amor é o meu maior thesouro. — Não, Jorge; nós estamos seguros neste lugar; não o deixemos, eu t'o peço !... — Ainda tens medo do veneno das flores, Juliana?... perguntou Jorge sorrindo-se. — Talvez; respondeu sem pensar no que respondia a bella moça. — Oh! Juliana! dir-se-hia que é a descon fiança que de novo apparece no teu espirito. — Jorge! — Paciência; não insisto mais; tornou o. mancebo com uma voz sentida; devo conten tar-me com o que já fizeste por mim : abrindo a porta daquella sala, descendo a escada deste terraço, deste-me muito mais do que eu podia merecer. Juliana sentio-se commovida pelas palavras melancólicas do seu amante, arrependeu-se da resistência que oppuzera ao convite que elle lhe fizera, e tomando-lhe o braço, disse com doçura: — Vamos, Jorge 1 vamos!

XVIII.

E os dous amantes passearão por entre as flores, ao clarão do luar, que cada vez mais brilhante parecia mostrar-se, e no seio da quella solidão deliciosa, em que respiravão per fumes embriagadores, e em que o silencio era somente interrompido por seus juramentos de amor. Juliana ia pouco a pouco banindo de sua alma todo o instinctivo receio que determinara suas fracas hesitações; ia pouco a pouco e sem sentir quebrando os laços do delicado pejo, que ao mesmo tempo a acanhava e defendia; e pouco a pouco ia abandonando-se a uma segurança imprudente, que a tornava cega ao perigo que corria, e surda ao clamor da vir tude que se alvoroçava resentida. Jorge procedia com habilidade consummada : não querendo comprometter-se por precipitado, mantinha-se dentro dos limites

do mais escrupuloso respeito em suas acções; não tinha ousado tocar com seus lábios nem as faces, nem os cabellos de Juliana, nem com um leve movimento do seu braço procu rara apertar ao peito a mão formosa e leve da encantadora moça. Fallando á sua noiva, não lhe dirigira uma só proposição que não pudesse repetir aos ou vidos de todos, ou enunciar em alta voz no meio de uma assembléa; discorrendo porém sobre o amor, e como se deixasse levar por uma inspiração arrebatadora, encadeava sophysmas graciosos que produzião conseqüên cias que parecião verdadeiras, e erão apenas erros perigosos e lições disfarçadas de um sen sualismo vergonhoso; pintava o quadro do amor com as tintas de uma luxuria dissimu lada, de modo que se fizesse contemplar e applaudir sem temor e sem desconfiança pela donzella, que sem o perceber abria o coração á voluptuosidade e deixava accender-se nelle uma flamma traiçoeira e infernal. E assim ião os dous amantes passeando e conversando tão esquecidos do mundo e do tempo, que Juliana sorrio-se ouvindo o signal de três quartos depois das duas horas, e disse :

— Oh! como passou voando esta meia hora de passeio, Jorge!... — Malditas sejão pois as azas do tempo que vôa, quando devia arrastar-se preguiçoso! e gloria ao amor que sabe aproveitar as horas, que fogem rápidas! passeemos... — Sinto-me um pouco fatigada : voltemos; vamos sentar-nos em um dos bancos do ter raço. — Juliana! temos diante de nós um caramanchão que nos offerece um banco de relva! Juliana deixou-se levar como uma pobre cega pela mão do pérfido conductor.

XIX.

O caramanchão era aberto por três lados, e tinha o outro lado e o tecto coberto por um tapete de verdura formado por trepadeiras de flores odoriferas. O banco derelva que havia no caramanchão estava molhado de orvalho. Jorge tirou do braço a sua capa, desdobroua, estendeu-a, sobre a relva, e fazendo sentar Juliana a seu lado, disse pela vigésima ou trigesimavez : — Ah! como tu és formosa, minha que rida noiva!... — Eu quizera parecer sempre formosa a teus olhos Jorge; formosa porém não sou eu: formosa é esta lua tão brilhante e serena! for moso ó este céo tão limpo de nuvens! formoso é este jardim tão coberto de flores que embalsamão os ares! formosa é esta noite tão rica

de encantos ! formosa emfim é esta solidão tão cheia de amor innocente e puro! — Juliana! a tua alma se abre finalmente livre de vãos temores ás emoções enlevadoras e fervidas do mais nobre dos affectos!... falia mais, falia; porque tuas palavras me parecem os échos que respondem ás fallas que do meu coração tem rompido para os meus lá bios! — Jorge! Jorge! o mais que eu sinto não se diz, porque é impossivei; eu te amo! eis tudo. 0 sino do templo vizinho dobrou annunciando três horas da noite. Jorge sentio como um brando choque, pois estremeceu ligeiramente; não dando porém a perceber a impressão que recebera, disse logo : — Juliana, não te esfrie esse enthusiasmo pela solidão : dentro em pouco serás minha esposa : tu és o encanto das mais brilhantes sociedades, és a flor mais bella do jardim ele gante da nossa capital; eu não ousarei roubarte, á admiração e ao culto das nossas assembléas, não te privarei das festas em que és sempre a rainha, não; mas hei de pedir-te

algumas vezes o sacrifício de breves dias em que eu te leve a uma solidão propicia e deleitosa, em cujo seio eu te adore, e ninguém per turbe o meu culto, e ardente e apaixonado eu me farte de beijar os teus olhos que me torna rão escravo, e o teu peito, onde tenho meu throno de amor!... Jorge fallava com vehemencia calculada; alguma cousa porém devia preoccupal-o não pouco ; porque uma ou outra vez sua cabeça se voltava de leve, e o seu ouvido como que procurava um som estranho e longínquo. Juliana muito enleveda para poder notar naquelles ligeiros signaes de uma impaciência inexplicável respondeu ao seu noivo : — Jorge! d'ora avante eu quero ser bella somente para ti, quero a solidão comtigo não para um dia, mas para sempre; porque a minha vida, o meu futuro, e a minha felici dade dependem só e exclusivamente do teu amor! — Juliana!... exclamou o mancebo com paixão e apertando entre as suas uma das mãos da donzella; Juliana!... minha Julia na!... A moça não retirou a mão que o mancebo

apertava, e nesse momento soou não muito longe um canto que pouco a pouco veio-se approximando. Um sorriso quasi imperceptível passou pelos lábios de Jorge de Almeida.

XX.

A voz que cantava era de homem, suave porém e melodiosa, tão cheia de sentimento que passava dos ouvidos ao coração de quem a escutava. E o canto quebrando o silencio das deshoras tinha alguma cousa de irresistível encan tamento. Juliana disse: — Alguém passa cantando, Jorge! E Jorge respondeu apertando a mão da donzella : — Escutemos, Juliana. A voz dizia assim no seu eanto : Esta lua tão formosa, Esta noite deleitosa, Este céo de láctea côr, Este silencio profundo, Este repouso do mundo, É tudo encanto do amor.

O canto parou por momentos. — Como é bello este canto! disse Juliana suspirando. — É porque exprime os puros sentimentos do coração; respondeu Jorge. E o mancebo levou aos lábios a mão que apertava, e beijou-a muitas vezes. A voz continuou a cantar com dobrada suavidade. Emquanto dura este enleio Triumphão de um vão receio Os que se amão com ardor, Vencem do pejo os rigores, » E vão no meio das flores Trocar protestos de amor. — Juliana... minha noiva! exclamou Jorge. Juliana não respondeu antes procurou afastar-se do apaixonado mancebo, que a reteve junto de si, segurando-a pela mão que continuava a beijar, e abraçando-a docemente pela cintura, que o braço, atrevido não aban donou mais. 0 canto ouvio-se ainda : A lua e discreta e nobre, E da noite o manto cobro

Beijo roubado ao pudor; As flores o beijo ouvirão, As auras d'elle sorrirão, Mas ganhou um beijo amor. 0 canto cessou, e ao mesmo tempo Jorge de Almeida abraçou ainda mais ternamente Juliana, e ousou depor nos lábios da donzella um beijo ardente e voluptuoso.

XXI.

Erão onze horas da manhã. Juliana estava pallida e melancólica ; es forçava-se por encobrir a tristeza que a abatia, mostrava-se por momentos alegre e satisfeita; mas logo depois cahia em nova e sombria meditação. Cândida sentada em frente de sua filha observava-a cuidadosa. Ao meio-dia recebeu Juliana um bilhete em que Jorge de Almeida lhe repetia os seus juramentos de amor e de constância. O bilhete dissipou em parte a melancolia de Juliana. Cândida retirou-se mais socegada, vendo a filha dirigir-se serena e quasi contente para a sala e dalli sentar-se ao piano. Mas Juliana tocou apenas durante alguns minutos porque de súbito seus dedos ficarão immoveis sobre o teclado, e seus olhos afogárão-se em pranto.

— 350 - Logo depois ouvirão-se os passos de alguém que subia a escada. Juliana enxugou as lagrimas, e enfeitando o rosto com um mentiroso sorriso de alegria levantou-se para receber a pessoa qui ia chegar. Fábio entrou na sala. — Como vem risonho hoje! disse-lhe Juliana. — Sim, Juliana, respondeu o mancebo; venho contente e feliz, porque achei um meio seguro para salvar-te do perigo que estavas correndo. — Salvar-me!... exclamou a moça aterrada. — Eu não me enganei, continuou Fábio ; Jorge de Almeida procurava seduzir-te. — Seduzir-me! — Juliana, vai buscar as cartas que esse miserável te entregou dizendo que erão escriptas por seu pai. — As cartas?... e para que?... — Para demonstrar-te que são falsas. A moça correu como louca para dentro, e em breve voltou trazendo as cartas. Fábio examinou a letra e repetio com segurança.

— São falsas. — Oh! é impossível!... bradou a infeliz moça. Fábio tirou do bolso algumas cartas que trazia, e mostrando-as a Juliana, continuou; — Estas sim são do pai de Jorge; eu as obtive de um negociante que foi correspon dente delle, e que deixou de o ser aborre cido das exigências e das indignidades desse mancebo. Juliana comparando as cartas, reconheceu á primeira vista a mais completa differença da letra. — E não é só isso, Juliana; ha mais algu ma cousa. — Que mais?... que mais?... perguntou a moça, torcendo com força as suas mãos de licadas. — Jorge de Almeida, proseguio Fábio, deve dentro de dous mezes casar-se com a filha de um rico capitalista desta cidade, e logo depois partir com a sua noiva para a Europa. — Fábio ! Fábio ! bradou Juliana com de sespero ; dize-me que estás mentindo 1... — Não, respondeu Fábio ; não menti; af-

firmo te que é exacto tudo quanto acabaste de ouvir. A moça ajoelhou-se aos pés de Fábio, le vantou para elle mãos supplicantes, e disse chorando : — Oh!... assegura-me que mentiste !... é indispensável que tenhas mentido, Fábio!... essas cartas que me apresentastes não são ver dadeiras; este casamento de que me faltas é uma falsidade.... Oh!.... dize-me que estás mentindo, Fábio !... — Juliana, eu juro pela minha honra, e pela salvação das almas de meu pai e de minha mãi, que te disse a verdade e somente a verdade. A misera joven fitou um olhar desvairado no rosto de Fábio. — E agradeço a Deos, continuou o man cebo, agradeço a Deos o ter-me concedido a gloria de descobrir tudo isso ainda a tempo de salvar-te. — É tarde ! murmurou Juliana, mas em voz tão baixa que Fábio não pôde ouvil-a; é tarde ! agora é muito tarde ! E cahio desmaiada,

XXII.

Juliana estava arrastando longos dias e tormentosas noites de arrependimento e de remorso. Toda a esperança de felicidade e de futuro se apagara de uma vez para sempre no cora ção da infeliz moça. As lagrimas que ella chorava escondida começavão a abrir um sulco em suas faces mimosas e bellas. Seus lábios não se sorrião mais senão com um fingimento que a ninguém illudia. Juliana sentia que era desgraçada, e que a sua desgraça era irremediável. Fábio tinha-lhe dito a verdade. Depois da impressão terrível que produzira em Juliana a noticia do próximo casamento de Jorge de Almeida, e a demonstração de falsidade das carlas que este apresentara em nome de seu pai, a moça concebera uma du20. — 354 - vida consoladora, e abraçára-se com a idéa de que Fábio, inspirado por um vil e indigno ciúme, procurava enganal-a. Em breve porém teve Juliana de reconhe cer que fazia uma novainjustiça ao seu pobre, mas honesto e extremoso amante. Jorge de Almeida appareceu aos olhos da sua noiva, e delia ouvindo tristíssimas queixas de mistura com a relação da sua perfídia e do seu crime, jurou qne era victima de uma negra calumnia, e sahio precipitado, asseve rando que voltaria antes de duas horas com as provas irrecusáveis de sua innocencia. E, Juliana esperou duas horas, et depois dous dias inteiros inutilmente, porque Jorge de Almeida não voltou mais, e só em lugar delle chegou no terceiro dia o desengano. Jorge de Almeida escreveu uma carta a Cândida, mostrando-se resentido das suspeitas injuriosas de Juliana, e retirando por isso a palavra de casamento que lhe tinha dado. O seductor, não ousou escrever uma única palavra a sua victima. A despedida e desenganos erão feitos com selvática rudeza ; mostravâo-se porém dignos da moralidade do algoz.

Cândida acabando de ler a insolente carta, levantou colérica os olhos para o céo e imprecou vingança. Juliana, que ouvira a leitura daquella hor rível sentença que a condemnava, curvou a cabeça, e embebeu os seus olhos na terra, como se quizesse esconder á sua vergonha. — Levanta a cabeça, minha filha, disse em fim Cândida, concentrando a sua cólera; ani ma-te, consola-te : esse miserável não te me recia: levanta a cabeça ! Juliana ergueu a fronte, e olhou tristemente para sua mãi, sem lhe dizer palavra; mas sua consciência lhe estava respondendo que não podia mais levantar a cabeça diante de Jorge de Almeida.

XXIII.

O projecto de casamento de Jorge de Almei da com a bella Juliana fora por alguns amigos sabido; a noticia do triste desenlace da intriga infame forjada por um vil seductor correu logo de bocca em bocca, soffrendo muito por isso a reputação da victima. As murmurações e as injurias levantadas pelas mais terríveis suspeitas marcavão já com o sello da reprovação a infeliz moça. Cândida e Fábio comprehendêrão que era indispensável que Juliana tornasse a apparecer nas sociedades e que assoberbasse a horrivel tormenta que contra ella se des fechava. A situação era realmente tão dolorosa e difficil como positiva e irrecusável. Voltando ás assembléas que costumava fre qüentar, Juliana protestava ao menos com a sua presença e com a sua placidez contra as

indignidades que a seu respeito erão espalha das, e, no caso contrario, fugindo ao mundo elegante e ás festas, e escondendo-se em um retiro, procurando um esquecimento que não estava nos seus hábitos, deixava em pé e vi gorando as suspeitas que lhe despedaçavão a coroa e o véo branco da pureza. Juliana attendeu aos conselhos de Fábio e de sua mãi, e voltando aos bailes, ás festas e aos theatros, abraçou-se com a mentira. Com a mentira, sim ; porque erão mentiras o brilho dos seus olhos, o sorriso dos seus lá bios, a alegria do seu rosto e o encanto da sua conversação. A verdade guardava-a ella no seio : a ver dade era o arrependimento, era o remorso. A mentira acompanhava-a ás sociedades, aos passeios, aos saráos, aos theatros : a ver dade, que aliás não a deixava nnnca, erguiase terrível no silencio da noite e na solidão do seu quarto; erguia-se, e abrazava-lhe a face e os lábios, lembrando-lhe beijos impuros; er guia-se, e cantava-lhe aos ouvidos horas in teiras, e incessante e desesperadamente aquelle canto sinistro que marcara o momento da sua perda e do seu opprobrio.

E Juliana, que tinha horror a essas noites de indizivel martyrio, ainda mais se arreceiava de que viesse alguma vez sua mãi observal-a, temendo que por acaso então adormecida, revelasse em um sonho traidor o segredo fatal da sua vergonha. A misera joven, que em horas de impru dência e de loucura tinha calcado aos pês os preceitos do dever e da virtude, já estava pois sendo severamente castigada. Recebia um castigo, nas justas murmuraçoes de um mundo sempre desapiedado da mulher que se avilta. Recebia outro castigo nesse desassocego e medo que incessantemente sentia. E mais que tudo a consciência, que é como um écho da voz de Deus, a castigava com as torturas horríveis do remorso.

XXIV.

O caracter de Juliana era capaz de empres tar-lhe a audácia necessária para resistir á silenciosa, mas palpitante reprovação com que ella era recebida nas reuniões em que se apresentava. Sua vaidade dava-lhe forças para impôr-se. Quando ás vezes via suas rivaes sorriremse maliciosamente olhando para ella, encara va-as atrevidamente, ou dardejava sobre as inimigas um olhar de fingido desprezo, que chegava a confundil-as. Sem tremer, sem corar e sem empallidecer, Juliana resistia aos olhos perscrutadores dos homens , que paredão querer penetrar em seu coração e ler ahi um segredo cruel e sinistro. E apezar daquelles sorrisos, daquellas vis tas dos olhos insolentes, apesar do murmu rar injurioso que ás vezes sorprendia de pas-

sagem, a pobre moça dançava, ria, folgava como d'antes, trazendo no rosto o céo e na alma o inferno. Em duas noites de reunião, porém, teve emfim Juliana de enfraquecer. Em uma dellas, era um baile, ostentava a pobre moça toda a sua alegria artificial, e no momento em que acabava de levantar-se para aceitar o braço de um cavalheiro com quem ia dansar, vio de súbito apparecer na sala Jorge de Almeida, que fixou sobre ella um olhar cheio de cruelissima ousadia. Juliana estremeceu violentamente, recuou um passo, deixou-se cahir sentada na cadeira de que acabava de levantar-se, e desculpouse com o seu cavalheiro, dizendo-lhe a tremer: — Não posso... é impossível. Esta impressão tão forte e profunda, que recebera Juliana ao ver entrar na sala Jorge de Almeida, foi interpretada pelos curiosos e observadores de um modo muito maligno para a infeliz moça, que logo depois retirou-se do baile. Passados alguns dias, em outra e muito numerosa e brilhante reunião, depois de algu mas horas dedicadas á dança e á musica,

estava Juliana com algumas jovens, não tão bellas, mas tão vaidosas como ella, descançando e conversando em uma pequena sala que communicavacom o toucador. Fallavão sobre musica. Juliana tinha sido muito applaudida pouco antes cantando um romance, que pela pri meira vez fora ouvido. Uma das moças mprdêra-se de inveja por que não pudera agradar tanto quanto esperava executando uma ária já cem vezes cantada no theatro italiano. Depois de longo conversar, a invejosa, can sada de ouvir elogios ao romance de Juliana, disse sorrincfo-se ironicamente : — Sei um romance muito mais bonito do que esse que cantou D. Juliana. — Equalé?... — Não tem nome ainda ; posso porém re petir uma das três estrophes de que consta a sua poesia. — É novo?... — Para quasi todos, mas talvez que D. Ju liana já o conheça, pois que é tão apaixonada de romances. — Conta-o.

E a invejosa cantou baixinho : Esta lua tão formosa, Esta noite deleitosa, Este céo de láctea côr, Este silencio profundo, Este repouso do mundo, É tudo encanto de amor. Um gemido pungente interrompeu o canto da invejosa. Juliana acabava de desmaiar.

XXV.

A mísera victima de um infame seductor não pôde combater por mais tempo contra a sociedade que a repellia e que no entanto con tinuava a abrir o seio ao seu algoz. Voltando daquelle ultimo baile em que des maiara ouvindo um canto injurioso, Juliana adoeceu gravemente. Durante oito dias lutou com a morte, ven ceu-a emfim e talvez apezar seu; ficou-lhe porém uma profunda e acerba melancolia, contra a qual não houve recurso que apro veitasse. Os médicos aconselharão distracções. Juliana não se prestou mais a voltar aos bailes e ás reuniões, e apenas condescendeu em passeiar fora da cidade com sua mãi e Fábio. Os passeios repetião-se inutilmente e sem o menor proveito : a melancolia de Juliana era invencível, e fazia tremer a Cândida e ao seu sempre fiel e extremoso amante.

Um dia Fábio chegou á casa de Cândida ainda mais commovido do que nos anteriores. — Que tens Fábio?... ha alguma novi dade?... perguntou Cândida'. — Sim, mas é preciso não deixal-a per ceber a Juliana. — Então.... — Jorge de Almeida casa-se amanhã. — Silencio Fábio ! pelo amor de Deus silencio ! —Dahi a pouco partião em um carro Fábio, Cândida e Juliana, para um dos bellos arrabal des da cidade do Rio de Janeiro, e apeando-se em um excellente hotel, que não é necessário nomear, seguirão a pé passeiando durante uma hora, no fim da qual voltarão para jantar. Fábio e as duas senhoras acabavão apenas de entrar para a sala que havião tomado, quando em outra que a essa ficava contígua soarão as vozes alegres e ruidosas de muitos mancebos, e no meio dellas, bem distincta entre todas, a de Jorge de Almeida. Um caixeiro do hotel, que veio receber as ordens de Fábio, descobrio o segredo que se occultava a Juliana, declarando que Jorge de Almeida vinha dar a alguns amigos o seu ulti-

mo jantar de moço solteiro, e despedir-se ruidosamente de sua vida de extravagante. Juliana pareceu ouvir aquella noticia sem abalo nem commoção ; pedio porém que se trancasse a porta da sala. O jantar de Jorge de Almeida transformouse bem depressa em uma bacchanal, a que só faltavão, para ser mais completa, essas mulhe res loucas e perdidas cujas relações vergonho sas poucos homens se atrevem a confessar. Os vinhos exaltavão os convivas, que suppunhão fallar de amor fallando de devassidão e de crimes. Juliana tremia ouvindo confidencias feitas em gritos e inspiradas pelo vinho. E no meio daquelle ruido e daquellas fallas immoraes o nome de Juliana foi pronunciado ao som de risadas. Acabavão de contar Juliana no numero das victimas de Jorge de Almeida. Fábio levantou-se inflammado de cólera mas sentio-se preso nos braços de Cândida e de Juliana, que choravão desesperadamente. Um dos exaltados convivas interpellou a Jorge de Almeida a respeito de Juliana. A interpellação era uma infâmia.

Jorge, em vez de responder logo, soltou uma gargalhada indecente. Os convivas instarão com decompassados gritos. Jorge de Almeida obedeceu, fatiou, e o que disse foi ainda mais infame. Fábio fez um esforço violento, e deixando Juliana cahida semi-morta nos braços de sua mãi, abrio a porta, penetrou na sala do banquete, e avançando para Jorge de Almeida exclamou levantando o braço com evidente ameaça : — Mentes, miserável!... Jorge de xUmeida empunhou uma faca, e ia bradando: — Repito... Mas não pôde acabar porque Fábio irritado imprimio-lhe na face o maior insulto que pôde um homem receber. Jorge cambaleou e cahio atordoado no assoalho. Vinte adversários levantárão-se para vingar a offensa recebida por Jorge de Almeida, mas ao mesmo tempo, a sala encheu-se de gente que acudio ao estrepito, e que conseguio im pedir uma luta desigual e terrível.

XXVI.

O esquecimento de um grande insulto e de uma injuria vehemente pôde ser aconselhado por uma santa virtude ensinada por Jesus Christo, e então ó digno da admiração dos homens, porque aquelle que sabe tanto per doar se eleva pela sua humildade a uma altura que o aproxima do céo. Mas também muitas vezes esse esquecimen to ó apenas a expressão do aviltamento e da miséria moral do homem corrompido pelos vicios; porque a corrupção mata o pundonor e o brio. Jorge de Almeida não se atreveu a vingarse da enorme affronta que recebera de Fábio ; a sua cólera porém não foi desarmada pela virtude da humildade, elle não perdoou, teve medo. Entretanto era-lhe necessário salvar as apparencias, e suppoz salval-as representando

uma comedia que nem ao menos teve o mérito da originalidade. Fábio foi provocado a um duello, e uma hora depois a policia tinha já conhecimento do praso e do lugar do encontro, que assim ficou sem resultado tornando-se impossível o duello, esse crime que debaixo de certo ponto de vista pôde bem dizer-se um crime civilisado. 0 pai de Jorge temendo por seu filho único, o pai da noiva deste receiando ver também compromettido o credito de sua filha, apres sarão o casamento que fora adiado por alguns dias, e que se effectuou promptamente. Assim, pois, uma família honesta abrio o seio, e nella recebeu o homem indigno, o li bertino que acabava de seduzir uma donzella e de tornal-a para sempre desgraçada. Um pai que se ufanava de ser extremoso, entregara sua filha bella, innocente e pura, a um miserável que fora o algoz de outra mu lher bella, innocente e pura. Muitas e respeitáveis famílias correrão a comprimentar os noivos e a pedir as relações e a amizade de Jorge de Almeida. As mais, as esposas, as donzellas esten-

dêrão suas mãos, e apertarão nellas a mão do mancebo corrompido e corruptor que trou xera para o leito nupcial, ainda fresca, a lem brança de uma seducção infame. Todos se sorrião para Jorge de A^lmeida, todos o festejarão, todas as casas se abrirão para recebêl-o, e ninguém se lembrou de pe dir-lhe contas do seu crime. E no entanto Juliana, a victima de Jorge de Almeida, vivia escondida em triste solidão e gemia ferida pelo desprezo publico. As sociedades a enxotavão do seu seio com a injuria, que nem mais procuravão disfarçar. Os pais e as mais tinhão recommendado á suas filhas que fugissem da companhia de Ju liana. Os mancebos atrevião-se a olhal-a de um modo que eqüivalia a um insulto. E a infeliz recuara diante dessa manifesta ção terrível, e, não tornando mais a apparecer no mundo das festas e dos prazeres, es condia a sua vergonha no interior do lar do méstico. 21.

XXVII.

Juliana recebia o castigo de uma grave falta. Uma sociedade moralisada, que se respeita e que se estima, não pôde receber a mulher que se deixou seduzir, pondo-a em contacto com as donzellas e com as senhoras honestas, cercando-as dos mesmos respeitos. A distincção entre uma e outras é um justo prêmio devido á virtude. Mas não pôde haver seducção sem que haja seductor, e se a seducção é um crime, o seductor não é menos, ou ainda é mais crimi noso do que a mulher seduzida. Na seducção a seduzida é uma victima, o seductor ó um algoz. E entre uma victima e um algoz, a equi dade, a generosidade e a moral não podem hesitar. A victima de uma seducção delinquio diante

da virtude, calcou aos pés um dever, merece uma punição; seja punida pois. A bôa sociedade rejeita a mulher seduzida, a victima; ainda bem. Mas o seductor?... mas o algoz?... A sociedade que se chama bôa, a sociedade que pune a victima, abraça o algoz ; a socie dade que repelle a mulher seduzida, festeja o seductor !... Não ó moralisada uma tal sociedade; não, e não. E uma sociedade injusta e cruel, escrava da tyrannia dos homens, corrompida e ignóbil. 0 crime é sempre um crime, seja elle prati cado por um homem, como por uma mulher. Como se explica a contradicção de se osten tar uma justa severidade com a mulher que é fraca, e uma inexplicável condescendência com o homem que é forte?... Não; tal sociedade não é moralisada,epara que o seja deve estender o castigo das seducções aos seductores e ás seduzidas ; deve repellir os algozes como repelle as victimas; deve também trancar suas portas aos liberti nos que sacrificão ao seu infame sensualismo a reputação, a felicidade e a vida inteira da

pobres jovens que por elles se deixão enganar. Mas a nossa brilhante e ufanosa sociedade não somente tolera, como chega a parecer que applaude os seductores, ouve as historias dos seus horríveis triumphos, e se sorri ouvindo-as; não se envergonha da companhia dos algozes, e aperta-lhes a mão !... E o pai que acaba de dizer á sua filha—não te sentes ao pé daquella mulher, não lhe faties, porque está manchada pela seducção! — vê logo depois, e não acha que dizer vendo sua filha dansar ao lado do seductor, e ser por elle levada em prolongado passeio pelas salas do baile !.,. E chama-se moralisada uma sociedade que assim procede !

XXVIII.

Emquanto Jorge de Almeida brilhava no meio das festas, alegre e ufanoso, a sua victi ma experimentava todas as afflicções de um opprobrio irremediável. Juliana ia definhando aos poucos, tal como a flor que vai murchando depois de ter sido ferida pela tempestade. Todas as embriagadoras esperanças da bel leza e da mocidade tinhão se apagado no coração da infeliz moça. Aquella que pouco antes era a donzella vai dosa que se suppunha a mais bella de entre as mais bellas das suas rivaes, reconhecia agora que lhe era impossível collocar-se a par da menos bonita das jovens , que apenas a olhavão com inveja nos seus dias de triumpho. E, torturada assim na sua vaidade, Juliana sentia que lhe entrava no coração o desespero, vendo que ás adorações e ao culto suave e de-

lei toso de que tinha sido objecto, succedêra o desprezo de muitos e a compaixão de al guns.' Que podia ella esperar ainda?... todo o futuro de uma moça acha-se exclusivamente ligado ao seu casamento; mas haveria no mun do um homem não indigno e que fosse bas tante generoso para arrancar Juliana do abysmo da vergonha em que tinha cahido, dandolhe a sua mão e o seu nome ?... e se um ho mem desses lhe apparecesse, Juliana, ainda mesmo depois de ser sua esposa não teria de côrar de cada vez que levantasse para elle os olhos ?... Tudo pois estava acabado : nada mais de festas e de alegria, nada mais de adorações, de culto, de perspectiva de felicidade, nada mais de sonhos de brilhante futuro; tudo es tava acabado : havia só uma realidade terrível, inevitável, perpetua : era o opprobrio!... A moça que sacrifica o seu pundonor e a sua honra torna-se como uma leprosa no meio da sociedade, em que todos lhe voltão as costas. O mundo era um inferno para Juliana; o mundo rejeitava-a, ou só a aceitaria para im-

pôr-lhe um papel ainda mil vezes mais ver gonhoso. A situação era horrível. E a misera, a misera, a quem uma falsa educação fizera incrédula, nem ao menos tinha a doce consolação de voltar os olhos para o céo, e de encorajar-se com a fé e com o amor de Deus. No coração do crente nunca se apaga de todo a esperança : o coração do incrédulo é um negro abysmo, em cujo fundo mora o de mônio do desespero. Esse demônio começava a fazer-se sentir no coração de Juliana. A scena repugnante e vergonhosa passada no hotel viera naturalmente redobrar os soffrimentos da pobre victima. A noticia do próximo casamento de Jorge de Almeida, que ella recebera sem manifestar notável commoçâo, porque conseguira com um esforço violento suffocar a mais pungente dôr, esgotara todos os recursos da sua von tade. 0 que depois e em seguida se passara aba teu-a, aviltou-a a seus próprios olhos de modo a fazel-a considerar-se a ultima das mulheres.

Desde então a infeliz vivia a chorar dia e noite e incessantemente. Juliana tinha chegado a amar apaixonada mente a Jorge de Almeida, e vendo-se tão ultrajada por elle e já tão repellida pelo mun do, tocara o extremo de aborrecer o mundo e de aborrecer a si própria. O seu padecer era tão acerbo e tão profun do, havia em seu olhar ás vezes desvairado, em suas palavras ás vezes insensatas, em seus modos ás vezes singulares um não sei que de tão sinistro, que Cândida começou a receiar as mais falaes conseqüências. A infeliz mãi seguia e observava cuidadosa sua filha; desejava consolal-a, não sabia que dizer-lhe, e limitava-se a chorar com ella. Fábio era o único amigo que não tinha desamparado a triste moça; era o compa nheiro único que vinha diariamente tomar uma parte naquelle viver de lagrimas, que estavão passando Cândida e Juliana. Fábio era mais do que um mancebo gene roso e nobre, era o typo do amigo dedicado; tinha um coração cheio dessas grandes vir tudes que tornão o homem capaz dos maiores sacrifícios ou da abnegação mais completa.

E naquellas circumstancias elle não esque cia que o pai de Juliana fora o seu protector desvelado, que em Cândida achara uma se gunda mãi, que Juliana era a sua amiga da infância. E ainda mais, Fábio tinha amado extremosamente Juliana. 0 que se passava na alma desse mancebo ninguém o poderia explicar : era uma luta horrível, e um soffrimento que excedia as mais despedaçadoras torturas. Fábio fingia duvidar do opprobrio de Ju liana; mais acreditava nelle : comprehendia que a situação era intolerável, e não se podia sujeitar á idéa de ver morrer Juliana, nem de vêl-a carregar o peso de uma vida ignominiosa. Uma noite Fábio chegou á casa de Cândida quando já não o esperavão. Erão 10 horas da noite. Cândida estava só na sala, e nem procurou esconder as lagrimas que derramava, quando vio aproximar-se o mancebo. — Onde está Juliana?... perguntou elle. — Está no terraço e pedio-me que a deixas se em liberdade.

— Como passou ella o dia?... — Peior do que nunca; exclamou a pobre mãi, Fábio! — Fábio !... aquelle homem matou minha filha; nós vamos perder Juliana !... — O amor maternal ás vezes exagera os perigos que receia. — Oh! não ! é a pura verdade : esta noite, e já muito tarde, fui observar Juliana... ella tinha adormecido escrevendo... cheguei-me de manso e li... Ah ! tinha escripto a historia dos seus soffrimentos do dia que passara, e as suas ultimas idéas erão uma horrível sauda ção ao suicídio !... cahi de joelhos, soltei um grito, acordei-a, e pedi-lhe chorando que vi vesse para mim !... — Eella?... — Perguntou-me de que me servia a sua vida !... Oh ! Fábio ! uma filha pôde fazer tal pergunta a sua mãi?... — E depois?... — Acabou promettendo-me que não se ma taria ; mas disse-me isso sorrindo-se com um desses sorrisos que só se vêm nos lábios de um louco! Ah! ella vai morrer, Fábio! aquelle homem matou minha filha !

— Aquelle homem casou-se hoje, balbuciou Fábio. — E hoje ella está pensando em matar-se! repetio Cândida soluçando. Fábio passeou ao longo da sala durante meia hora, parecendo engolphado em profun da e dolorosa meditação ; parou emfim de súbito ouvindo um longo gemido, que fizera estremecer a afflicta mãi. — Que é isto?... — Um gemido de Juliana! exclamou Cândi da desatando a chorar ; é minha filha que vai morrer.... aquelle homem matou minha filha! — Juliana não ha de morrer, disse Fábio : eu vou fallar-lhe... não me acompanhe : quero conversar a sós com ella. E com ar grave e solemne Fábio dirigio-se para o terraço.

XXIX.

A noite era formosa; a lua plena e formosa brilhava no céo branco e bonançoso; as auras sopravão brandas e suaves; o jardim era como um thuribulo immenso que enchia de deleitosos perfumes o templo da natureza. Era pois uma noite como aquella noite de loucura, de embriaguez e de conseqüente ar rependimento. E vestida de branco também como naquella noite, mas com os seus admiráveis cabellos negros soltos e em desalinho, Juliana estava debruçada sobre o parapeito do terraço e mar cava com as suas lagrimas a lembrança do seu grande erro e do seu cruel infortúnio. Seus olhos estavão fitos no caramanchão, que divisava ao longe, e que por entre o pranto consideravão com uma expressão indefinivel de angustia. Dir-se-hia que Juliana era então como a

alma de um suppliciado que em deshoras vinha contemplar o patibulo, onde ao golpe do algoz se separara do corpo que animara. Naquelle lugar e naquella hora comodevião ser tormentosas as reflexões da pobre moça!.. Ella chorava sompre, e se durante breves momentos não chorava, succedia nos seus olhos ás lagrimas um brilho infernal, que era o reflexo de um pensamento sinistro e cri minoso. A moça vaidosa revoltava-se contra a sua desgraça, e não queria por modo algum sujei tar-se a ella. E o recurso único que lhe suggeria o espi rito exaltado era horrível. Juliana estancava o pranto somente quando se sorria para a morte. A idéa do suicídio preoccupava-a desde alguns dias, e se á principio a fizera estre mecer, acabara bem depressa por não aterrala mais. Juliana chegara ás conseqüências fataes da sua infeliz educação. Acreditara no mundo, contara com os gozos da vida transitória; o bello mundo trancára-lhe as suas portas, e a vida não lhe offe-

recia mais do que um futuro negro, feio e afflictivo. Para Juliana viver era gozar : de que lhe servia pois uma vida em pranto, em soffrimentos e torturas ? A sepultura era pelo menos um descanso. Além da sepultura nada mais havia para ella. Tinhão-lhe ensinado que a eternidade era uma illusão. Juliana sabia demais que o arrependimento não podia regeneral-a diante de Deus. A infeliz não acreditava que na paciência e na humildade tinha as chaves com que lhe serião abertas as portas do céo. Ferida pois pela desgraça, e repellida pelos homens, sem crenças religiosas, sem amor e sem temor de Deus, que não lhe tinhão ensi nado a conhecer, com o desespero na terra, e sem a fé no coração, como recuaria ella ante a idéa do suicídio ? O suicídio era pois a conseqüência da edu cação, que a misera tinha recebido. E ás vezes a pobre moça lutava contra as falsas doutrinas que a impellião ao crime; ás vezes pensava na eternidade, no céo, em

Deus; era porém tarde ; a luz passava quasi imperceptível por diante dos olhos da infeliz cega. A onda impetuosa da descrença arrancava das mãos da desgraçada naufraga a providen cial taboa de salvação que ainda podia con servar-lhe a vida. Juliana não estava louca, era incrédula.

XXX.

Quando Fábio entrou no terraço, Juliana chorava, e tanto e tanto que nem vio approximar-se delia o mancebo. Fábio esteve por alguns momentos junto delia contemplando-a em tristíssimo silencio, até que, sentindo que por de mais se estava commovendo, e que precisava poupar as for ças do próprio animo, tomou-lhe uma das mãos e murmurou : — Juliana!... A moça estremeceu ; logo porém voltou-se e respondeu perguntando : — És tu,Fábio?... que queres?... — Padeces muito?... Juliana sorrio-se com um desses sorrisos que despedaçao corações. — Minha irmã, disse Fábio, ó necessário deixar de soffrer e de chorar... — Eu?...

— Não ha mal que não tenda remédio; Deus é grande e omnipotente. — Deus?... — Sim, Deus. — Oh Fábio! Fábio! faze-me crer... fazeme crerl... olha : o qne eu tenho na alma ó horrível; mas vejo bem que muito menos o seria se eu pudesse crer!... — Juliana !... — Sou muito desgraçada, Fábio. — Podes porem ser feliz ainda.... — Nunca. — E se o homem que te iiludio se apresen tasse de novo... Juliana fez um movimento de horror. — Não o amas então mais?... perguntou Fábio hesitando. —Aborreço-o! murmurou Juliana com uma profunda expressão de verdade. — Pois bem, disse Fábio; sabe que Jorge de Almeida casou-se hoje. Juliana estremeceu tão violentamente que Fábio teve de sustê-la em seus braços. — Estremeceste, Juliana !... — Fábio ! disse a moça com voz sentida; o criminoso que conta com o patibulo, ainda •22

assim estremece quando ouve o annuncio da sua sentença de morte. — Então... — Nada, Fábio ; não concluas cousa al guma. — Juliana, uma barreira eterna te separa desse homem. — Estávamos já eternamente separados an tes de levantar-se a barreira de que falias. — O teu coração está portanto livre e pôde dar-se a um outro homem que te mereça e te faça feliz... — Um outro homem... — Sim, Juliana. — E que outro homem se abaixaria até á posição em que me acho ?... — Aquelle que te amou sempre: eu, Ju liana. — Fábio!... — Juliana, eu te offereço a minha mão e o meu nome. Juliana deixou-se cahir de joelhos, e levan tada nos braços de Fábio, tomou-lhe uma das mãos, e cobrio-a de beijos e de lagrimas. — Aceitas, J uliana ?... A moça ficou por muito tempo sem poder

fallar quando porém os soluços não lhe embar garão mais a voz, respondeu resolutamente: — Não. — Oh Juliana ! sê minha esposa. — Não : tu és o mais generoso dos ho mens : eu tenho porém consciência de que sou indigna de ti. — Juro-te, que não te lembrarei nunca uma paixão funesta e louca que tantas lagri mas tem feito correr de teus bellos olhos! amo-te como d'antes, e quero que sejas minha: aceita-me, Juliana, aceita-me!... Juliana commovida, tremula, e vivamente agitada, tomou entre as suas uma das mãos de Fábio, levou-o para um dos ângulos do terraço, onde brilhavão menos os raios da lua, e alli, curvando a cabeça, balbuciou com voz lugubre : — Fábio... o que Jorge disse no hotel era verdade... Fábio... Jorge de Almeida deshonrou-me... E Fábio com voz ainda mais tremula e mais lugubre respondeu : — Ainda assim... E encostou-se á píirède para não cahir.

XXXI.

Juliana levantou a cabeça, fixou seus olhos no rosto de Fábio, e comprehendeu toda a immensidade do sacrifício que o generoso man cebo se offerecia a fazer para salval-a. As lagrimas, a confusão, a dôr profunda que sentia a infeliz moça, parecerão dissiparse como por encanto ; mas a tranquillidade que ella affectou subitamente era ainda mais tremenda e ameaçadora. — Sim Fábio, disse ella; a noite não pôde mostrar-se mais formosa; a lua brilha, as flo res rescendem odorosas... é uma noite de ma gia... vem, Fábio, desçamos ao jardim... E, tomando o braço de Fábio, desceu a es cada do terraço, e adiantou-se com o mancebo pelas ruas do jardim. Fábio estava triste, mas sentia-se ao mesmo tempo dominado pelo irresistível poder da quella mulher formosíssima.

De repente Juliana parou diante de um ma ciço onde abundavão as violetas, e, depois de contemplal-as por alguns instantes, disse : — Tu tinhas razão, Fábio; as flores têm veneno : as violetas envenenárão-me! aquelle ramalhete de violetas foi o principio e a causa da minha desgraça. — Ainda te lembras disso?... — Sempre... mas lembro-o com horror; o que porém me lembra ainda mais, Fábio, é a lição que me deste sobre o veneno das flores, e que então loucamente não quiz ouvir... — Esqueçamos o passado, Juliana; disse Fábio, obrigarido-a a continuar o passeio. — Não posso : a sua lembrança é mais forte do que a minha vontade. Sobretudo desde três dias ouço incessantemente repetidas pelo meu coração as palavras que me disseste na noite da festa dos meus annos. — Juliana! — Tu me dizias : — Juliana, os perfumes das flores podem matar... — E eu ousei res ponder-te : — Deve ser uma morte delicio sa!... — uma morte de flores!... — Que queres dizer? — Que eu era uma louca, Fábio! 22.

— E hoje que dizes tu, Juliana?... — Que és um homem generoso... mais do que isso, que és meu anjo, Fábio! o meu anjo de amor e de consolação; e que eu hei de mostrar-me digna de ti. Os dous jovens tinhão chegado ao caraman chão ; e Juliana quasi arrastada por Fábio, fora sentar-se ao lado do amante, no banco de relva. — Sim! exclamou Fábio; eu serei o teu protector, o teu amigo, o teu esposo; e tu has de viver para minha felicidade... Juliana! jura que serás minha esposa !... — Eu disse que seria digna de ti Fábio... — Sê-lo-has sempre, eu o sei; jura-me, porém, que serás minha esposa!... eu o exijo! — Jurar que serei tua esposa?... aqui? perguntou Juliana aterrada. — Sim... aqui... aqui mesmo ! — Oh! Fábio! tu sabes o que me estás pedindo? — Jura... eu o exijo! — Aqui?... neste lugar? perguntou de novo Juliana com uma expressão de dòr pro funda, cuja causa Fábio não comprehendia. — Sim! aqui mesmo, repetio o mancebo. — .391 — — Não... não... só á face dos altares pres tarei o juramento que me pedes : aqui... não; aqui... oh!... aqui eu juro-te somente que me mostrarei digna de ti. — Faz-se tarde, Fábio ; e eu quero dormir esta noite o melhore o mais bello dos somnos, para que amanhã venha o meu noivo encontrarme digna delle; voltemos pois. A voz de Juliana tinha-se tornado tão doce e tão terna, o seu rosto tão sereno e apenas cheio de uma melancolia alias naturalmente explicável, que Fábio ia pouco a pouco socegando. De volta do jardim, os dous jovens demo rarão ainda os passos para conversar mais algum tempo, Fábio procurando accender sua ves esperanças no coração de Juliana, esta manifestando-se reconhecida a um amor tão generoso, e teimando sempre em dizer que se mostraria digna delle. Ao entrar na sala encontrarão Cândida que os esperava anciosa : — Minha filha! exclamou ella. — Minha mãi, disse Juliana, amanhã man dará apromptar o meu vestido de noiva. Cândida olhou para Fábio.

— Peço-lhe sua filha em casamento ; disse o generoso mancebo. A pobre mãi íupertou Fábio nos braços. — Estás contente, minha filha?... Oh! muito! respondeu Juliana ; e agora abençôe-me, minha mãi! ha longo tempo que não sei o que é dormir, e hoje dormirei mui to... muito!... — Oh! ainda bem !... Juliana ajoelhou-se e repetio : — Minha mãi, abençôe-me! — Que é isto ? de joelhos?... — Sim, esta ó solemne... Fábio veio dar uma nova direcção ás minhas idéas, tornou-me outra... minha mãi, abençôe-me ! Cândida abençoou Juliana, e levantou-a em seus braços. — Agora Fábio, tu, disse a moça, tu és o meu noivo... beija-me, Fábio, beija-me... Fábio approximou-se de Juliana, e beijoulhe a fronte. — Oh! beija-me ainda na face, e beija-me nos lábios para que eu te beije também 1 Os dous jovens beijárão-se ternamente. — Agora... bôa noite... adeos! disse Ju liana, e retirou-se apressada para seu quarto.

— Estará louca ?... perguntou Cândida con fundida. — Não, respondeu Fábio; Juliana está salva.

XXXII.

Reinava silencio profundo em casa de Cân dida. Fábio antes de se retirar tinha referido á extremosa mãi quanto se passara entre elle e Juliana, excepto somente a confissão que re cebera do segredo fatal, e Cândida illudida como o mancebo pela tranquillidade da infeliz moça, concebera também por sua vez uma es perança de felicidade. Fábio retirára-se pouco depois de meianoite, e, passada uma hora, Cândida indo observar sua filha, achou-a já no leito e dor mindo um profundo somno. Satisfeita, alegre, feliz, a pobre mãi retirou-se para o seu quarto, e adormeceu abençoando Fábio o anjo que salvara Juliana. A noite adiantava-se. As duas horas da madrugada Juliana ergueuse, e cautelosa foi assegurar-se de que sua

mãi dormia, e logo de volta desceu pressurosa ao jardim. Juliana não tinha dormido um só instante, e apenas simulara habilmente um somno tranquillo e pesado quando vira entrar sua mãi para observal-a. Agitada por um tremor nervoso, com um olhar ardente e desvairado, com a respiração anciosa, a moça adiantou-se pelo jardim, co lheu com tanto cuidado como rapidez, grande cópia de rosas odoriferas, de angélicas, de rosedás, e de quantas flores encontrou notáveis pelo seu perfume activo e forte. Quando vio que tinha já colhido tantas flores que serião de sobra para vinte ou mais ramalhetes, e que ella ia depositando no banco do caramanchão, tratou de conduzil-as em porções para o seu quarto. Sem pronunciar uma palavra, sem soltar um gemido, sem derramar uma lagrima, Juliana recolheu-se emfim e vio-se no meio de uma en chente de flores. Então com a mesma rapidez e com o mes mo zelo cobrio de rozas, de angélicas, de bugaris, de jasmins do Cabo e de rosedá francez todo o seu leito, encheu de ramalhete o seu

toucador , e espalhou o resto das flores pelo assoalho; sentou-se depois e escreveu duas cartas. Levantou-se emfim a pobre moça, fechou cuidadosamente e trancou as portas do seu quarto, deitou-se vestida como estava sobre as flores , apagou a luz, e desatou a cho rar. Erão lagrimas acerbas e não de piedade; era o ultimo pranto do desespero de uma moça formosa que tinha amado loucamente os pra zeres e os gozos da vida. Breves minutos depois, o ar viciado pelos aromas activissimos que exhalavão as flores, começou a produzir os seus effeitos... Juliana teve medo; mas, fazendo um es forço supremo, deixou-se ficar immovel no seu leito, e como para animar-se e ainda mais desejar a morte, foi cantando baixinho : Esta lua tão formosa, Esta noite deleitosa, Este ceio de lactéa côr, Este silencio profundo, Este descanço do mundo É tudo encanto de amor.

Cantou as três estrophes do canto da se ducção repetio-as ainda três vezes... quiz repetil-as ainda quarta vez, mas parou no meio da primeira estrophe , como se tivesse adormecido.

XXXIII.

No dia seguinte Cândida achou trancada a porta do quarto de sua filha, e de balde cha mou por ella em a. tos gritos. Fábio acudio immediatamente a um recado instante da mãi afflicta e aterrada, e logo que chegou comprehendeu que uma horrível catastrophe tivera lugar. A porta do quarto foi arrombada, e Cândi da e Fábio virão Juliana vestida de branco e morta, estendida no seu leito e no meio de um dilúvio de flores. 0 ar que se respirava ainda era umaatmosphera de perfumes. Juliana estava pallida; a morte porém não tinha ainda ousado desfigurar seu rosto encan tador e formoso. Cândida cahio desmaiada sobre o cadáver de sua filha. A^lguns momentos depois Fábio encontrou

sobre a mesa as duas cartas escriptas por Ju liana ; uma era dirigida a elle, outra a Cân dida. A carta de Fábio dizia assim : « Fábio, querias sacrificar a tua reputação e o teu futuro para salvar-me, e eu jurei de mostrar-me digna de ti; cumpro esse jura mento matando-me. Lembra-te aquella noi te da festa dos meus annos, em que me fallaste do veneno das flores?... eu te disse en tão : — Fábio, se um dia resolver-me a acabar com a vida, matar-me-hei com o veneno das flores.—A prophecia verificou-se , Fábio. Eu morro, e... morro amando-te. Adeos. » Na carta que deixara a sua mãi, Juliana assim se exprimia : cc Perdão, minha mãi! é preciso que eu morra : não ha no mundo regeneração pos sível para a mulher que se deixou seduzir. O mundo que tolera e talvez affaga o algoz, não perdoa a victima. Não ha para mim esperan ça, nem mesmo aceitando a mão e o nome do joven que generosamente se avilta preten dendo salvar-me. A morte aniquila tudo : a morte é o meu único recurso. Adeos, minha querida mãi, adeos para sempre! »

Cândida ouvindo a leitura desta carta, ex clamou desesperadamente : — Oh! minha desgraçada filha teve um accesso de loucura. — Não teve um accesso de loucura, disse Fábio : sua filha era incrédula... a descrença levou-a ao desespero, e o desespero levou-a ao suicídio.

1/1
Menu

Fazer anotação