O Romance de uma Velha Os Romances da Semana · Capítulo 4 de 7
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O Romance de uma Velha

O Romance de uma Velha

D. Violante, é uma respeitável senhora, veneranda Epaminondas do sexo feminino, que a tal ponto leva o seu amor á verdade que nem ao menos encobre que já completou sessenta e um annos de idade. E uma mulher prodigio que não soffre de ataques nervosos quando sôa a seus ouvidos o nome — velha. Tem havido no mundo velhinhas capazes de abrazar corações, e até mesmo cidades; por uma velha chamada Helena foi abrasada Troya, e Ninon de Lenclós ainda aos oitenta annos de idade inspirou ardente paixão a um mocetão.

Mas as Helenas e as Ninons são raridades, e D. Violante também o é, mas de outro gêne ro. D. Violante aos vinte annos, isto é, na flor da sua mocidade era uma múmia; aos sessenta e um transformou-se no mais feio bicho : é hor rível !... A vista d'esta declaração é positivo, que não ha um só homem bastante animoso para lem brar-se de pedir noticias de D. Violante, e para interessar-se por ella : pobre velha!... está condemnada á morte prévia do geral esque cimento... talvez repitão já a respeito d'ella um epigrammatico parce sepultis! Está morta... não ha duvida. Entretanto essa respeitável senhora, apezar de ser feia como uma fúria, herdou ha alguns mezes uma fortunazinha de trezentos contos de réis! Surrexit!... ressuscitou a defunta. Quantos corações apaixonados não ardem já em desejos de rolar aos pés da bôa velha, a ver se ella os levanta carinhosa e os embrulha no papelorio dos trezentos contos!... Um estudante de dezoito annos, um poeta que nunca pôde aprender as quatro operações

d'arithmetica, e um artista que sonha com a gloria estão jurando que nunca se lembrarião de bater palmas na escada da casa de D. Vio lante. São três anachronismos que não podem representar a épocha actual: uma cabeça de estudante, uma cabeça de poeta, uma cabeça de artista fazem três cabeças que sommadas apresentão em resultado uma grande cabeça cheia de vento e igual a zero. Trezentos contos de réis !... trinta e seis contos de renda annual cahindo na palma da mão sem usura e sem trabalho !... um homem sentado na sua poltrona e no mais doce far niente, fumando o seu coronel — porque hoje em dia já se fumão coronéis, e o dinheiro a chover-lhe em cima!... trezentos contos de reis! isto é, bôa cama e bôa mesa, amigos a fartar, amantes a escolher, um coupé, cavallos de raça, theatros, bailes, uma excellencia de facto, formosura de direito, sabedoria de im proviso, nobreza de encommenda... oh ! eis ahi uma realidade sublime! Vale bem a pena carregar com uma velha fúria por trezentos contos de reis! Mentira! ninguém pôde ser fúria tendo de seu trezentos contos de reis.

D. Violante é um anjo. Vamos fazer uma visita a essa interessante senhora... contemplemol-a de perto... ouçamos a sua voz, que forçosamente deve ter a suavi dade e a harmonia do tinir do ouro. Vamos. D. Violante está com a cabeça mettida em uma toucar e o nariz atravessado por uns ócu los : sentada em uma cadeirinha baixa depuzera sobre a mesa que tem perto de si um livro, a historia do Imperador Carlos Magno e dos Doze Pares de França, que pela duodecima vez estava lendo, e conversava com sua sobrinha, a joven D. Clemência, que viera passar o dia com ella. Dezoito annos, belleza, graça, espirito, faceirice, sensibilidade, inexperiência, credulidade e esperança, eis o que é D. Clemência. Não pôde apezar de tudo ser uma perfeição, e ha de ter por força seus defeitosinhos; sobresahe porém n'ella um único defeitosão; não é um dedo aleijado, nem olho vesgo, nem nariz torto, mas é peior do que tudo isso junto, é uma noiva sem dote; o pai ganha bastante para viver e tratar com decência sua familia; mas por isso mesmo a sua car-

teira anda sempre tão magra como os cofres da câmara municipal da corte. Já se vê que é uma carteira ordinariamente affectada de phtysica. A theoria das compensações estava alli assen tada sobre o elegante penteado da moça e en tre as pregas amarrotadas da touca da velha. Achava-se travada a conversação : D. Vio lante não era impertinente nem severa, D. Clemência não era timida nem hypocrita : fallavão ambas por tanto com expansão e liber dade. A scena passava-se no dia 20 de Setembro, dous dias depois do baile da inauguração do Cassino, e a romanesca joven descrevia com enthusiasmo aquella festa explendida e bri lhante. — Ah Clemência! disse emfim a velha; também por uma noite de baile faltas com um fogo que me parece de mais. — É porque no baile está o maior e o mais bello triumpho da mulher; é porque no baile a mulher é rainha e conquistadora, avassalla corações, faz dos homens escravos, e esquece horas que passão voando, no meio de hymnos e de suspiros, e de apaixonadas confidencias,

que enchem a alma de esperanças e o fu turo de flores... em uma palavra, é porque a mulher tem toda a sua felicidade dependente só de amor, e porque em um baile tudo e a cada instante lhe está repetindo — amor! amor!... — Que dizes tu?... amor?... — Sim, minha tia, e um amor puro e san to, o amor que realisa os seus queridos so nhos, e assegura o seu futuro, o amor que aperta os laços mimosos do hymenêo'. — Estás muito enganada, minha sobrinha; esse amor de que faltas, era, sim, o amor do meu tempo; mas desde muito que fugio es pantado da cidade do Rio de Janeiro... hoje em dia ninguém mais sabe amar... ninguém mais ama n'esta cidade interesseira e prosaica... — Misericórdia, minha tia! — A civilisação e o progresso matarão o amor!... — É um paradoxo... — Vou demonstrar o que digo. Uma velha a raciocinar sobre o amor parece talvez uma alma do outro mundo a querer tomar parte nos gozos dos vivos; não impor ta : devemos ouvil-a. - 95 — D. Violante pretende provar que ninguém mais ama em uma cidade onde ha moças que contão só de primeiros amores ás vezes uma dúzia, e homens que tem cada dia da semana destinado para uma namorada, como os pedintes de irmandades, que tem uma opa differente para cada dia da semana. Já se vê que é injustiça e embirração de velha; mas deixemol-a fatiar. — Minha sobrinha, escuta: o amor é uma espécie de systema representativo que sem opposição degenera, e torna-se em água mor na; o amor vive de desejos que por muito tempo flammejão debalde, de esperanças que morrem e revivem, de saudades que o alimentão na ausência; o amor brilha na adversi dade, redobra de força diante dos obstáculos, e é todo magia e encanto quando se occulta na sombra e no mysterio. O amor foge da luz sem ser coruja, adora o segredo das nego ciações pendentes sem ser ministro dos negó cios estrangeiros, maldiz da publicidade sem ser chefe de policia, e salta por cima das regras ordinárias, do direito e das leis sem ser poder executivo. — E que mais, minha tia?

— No outro tempo, no meu bom tempo, o amor tinha por seu ninho predilecto a cidade do Rio de Janeiro : e porque?... eu te digo : porque o amante para ver a sua amada espe rava um momento propicio roubado á vigilân cia dos pais e tutores desconfiados; e para fazer-lhe chegar as mãos um bilhetinho amo roso, vencia mais trabalhos que Hercules. En tão havia a distancia, a ausência, e portanto a saudade : havia um espaço immenso, um muro enorme que impedia que os amantes se faltas sem, e amor industrioso dava voz e eloqüência ás flores, e o botão de rosa e o cravo branco, a saudade e a sempre viva, a flor de laranjeira e a perpetua, dizião mais e melhor do que um discurso de copo d'água na câmara dos depu tados. Havia emfim opposição e receios, espe rança e temores, sombra e mysterio, e por tanto havia amor. — E agora, minha tia? — Agora tudo isso acabou; os pais mandão as filhas fazer salla aos mancebos que os visitão, e nos bailes empurrão-as para os braços dos namorados-fingidos : d'antes adifficuldade consistia em aproveitar uma hora de conver sação ; hoje um moço e uma moça tratão de

amor em casa, nos theatros e nos bailes, como dous agiotas que na praça do commercio con versão sobre os lucros prováveis das acções de uma empreza, em cujos resultados elles mesmo não acreditão. — É de mais ! — Qual! é de menos : já não se pôde amar no Rio de Janeiro, repito; a civilisação e o progresso espantarão o amor : a ausência e a distancia, e portanto a saudade, desapparecerâo com a estrada de ferro, que em duas horas põe em frente um do outro dous mal chama dos amantes, que vivem separados a dez legoas : já não a noite, nem sombra, nem pode haver mysterio na cidade; a illuminação a gaz dissipou de uma vez para sempre as trevas; ninguém mais se lembra de escrever uma cartinha de amor, nem de mandar um recado dis farçado em algumas flores; hoje quem não tem tempo de dizer em alta voz o que pretende á sua namorada, vai a um jornal, e manda publicar nos artigos a pedido três ou quatro linhas desenxavidas com duas ou três iniciaes em cima, e outras tantas em baixo,e está escrita a missiva de amor!... minha sobrinha, agora não ha mais amor, ha calculo; não ha

mais amantes, ha calculistas; não ha mais ama das, ha. calculadas. — Então actualmente o amor... — É uma operação de arithmetica... — E o casamento... — Un negocio... — Minha tia vive longe da sociedade mo derna, e a julga com uma prevenção que a leva ao erro. Fuja d'este retiro a que se condemnou, volte ao mundo elegante e bello, e mudará de opinião. Resolva-se, minha tia, re solva-se a freqüentar comigo o Cassino, o Club Fluminense, os bailes, ostheatros... — Não... não... — E porque?... A velha desatou uma gargalhada medonha, e respondeu: — Porque não quero roubar-te os namora dos que te requestão'. Por sua vez a moça rio- se, e rio-se tanto que D. Violante enfiou. — De que te estás rindo, louquinha?... — Da sua idéa, minha tia. — Com franqueza, pensas então que seria impossível que chegássemos a ser um dia rivaes?

— Com franqueza, penso. — Quantos pretendentes tens, minha sobri nha? — Três. — É pouco; mas não importa : ficarás sem um só d'elles. — E quem m'os ha de tomar? — Eu. A moça tornou a rir-se, e mais ainda. — Eu; repetio a velha. — Vossa mercê, minha tia? — Eu mesma: vou freqüentar os teus bailes e os teus theatros, e hei-de ir a elles de touca e de óculos, como me estás vendo... — E julga que será amada ?... — Amada, não ; calculada sim. — Que extravagância, minha tia! — Hão-de preferir-me a ti, vel-o has. — A mim?... moça e bella?... — Duvidas?... — Não duvido, estou segura. — Pois bem, apostemos! — Apostar?... — Sim; aposto que ficas sem um só dos teus apaixonados. — Pois bem : aposto. — {00 — — E aquella que perder ? — Recolher-se ha ao convento da Ajuda. — Coitadinha da freira!... exclamou a ve lha.

Era uma noite de baile. Não diremos onde e quando foi celebrada essa festa profana: devemos respeitar as con veniências e esconder entre os véos do mysterio tudo quanto possa revelar os verdadeiros nomes das personagens que figurão na historia, cujo fio vamos seguindo. Estavão no baile a nossa feia velha D. Vio lante e a nossa linda joven D. Clemência, e como satellites d'este bello planeta, achavão-se também no baile os três pretendentes, que ella chamara os seus três namorados, e que D. Viclante reputava três calculistas. Três namorados!... Pois então que admira isso?... uma bella moça não vale menos do que uma pasta mi nisterial, e cada pasta ministerial tem mais de trinta pretendentes que a namorão com deses pero.

E que mal vai em que uma moça seja requestada não só por três, mas ainda por dez ou doze namorados?... a moral fica salva desde que ella não corresponda a mais de um, e é cousa assentada e facto reconhecido que não ha uma única Senhora que attenda aos cum primentos apaixonados de mais de um... de cada vez. Vamos a historia. Mas esperem um pouco : lembra-nos agora que ainda não dissemos uma só palavra a res peito dos taes pretendentes de D. Clemência. Cumpre-nos conhecel-os. Um é o sócio novo de uma casa commercial, que nascera e vivia por milagre do credito: este namorado chama-se Antônio. O segundo é um Doutor, mocetão ainda, e com balda de estadista : chama-se Ambrosio. O terceiro é um elegante do passado, e do presente, e que ainda espera sêl-o no futuro; chama-se Glaudiano. O Sr. Antônio é homem positivo; sente e sabe que tem o coração palpitando por baixo da algibeira onde guarda a carteira; tem seu geito para a poesia, e pretende escrever um poema heróico á arithmetica, reservando o

mais sublime dos seus cantos para a conta de multiplicar; sujeita tudo no mundo ás regras do deve e ha-de haver, e tem consciên cia de que deve uma bôa dúzia de contos de réis e que ha-de haver uma noiva com um dote sufíiciente para arranjar-lhe a vida. O doutor, se é medico não tem doentes, se é advogado não tem clientes, e por tanto cheio de patriotismo deseja curar as enfermidades ou pleitear sobre as causas do Estado; para isso falta-lhe somente uma escada que o leve ás al tas regiões do poder, e não sendo nem afilha do, nem parente de potestade eleitoral alguma, anda á caça de uma noiva rica bastante para com seu dote tornal-o sábio e benemérito. O Sr. Claudiano não quer nem quiz jamais saber de commercio nem de política; foi, é, e será um exclusivo adorador das damas, adoraas a todas, adora as ricas e as pobres, as costu reiras e as fidalgas; mas sobre tudo morre de paixão por quatro, que são as de páos e de espadas, de copas e de ouros. Aos vinte e cinco annos herdara grandes cabedaes, aos trinta e cinco achou-se sem vintém, e aos quarenta e cinco está coberto de dividas; ardendo porém sempre em seu

amor pelas damas, trabalha por encontrar uma dotada, com quem se case, e que lhe proporcione os meios de continuar a ren der tributes de vassalagem ás quatro predilectas. Assim pois a velha D. Violante não andou muito errada em seu conceito; são três calcu listas os três pretendentes da sobrinha. Sendo porém três calculistas, como lembra rão-se elles de declarar-se namorados de uma moça pobre?... A explicação é simples: ha namorar e casar. Os calculistas, e são tantos... tantos!.... não casão com as mulheres que recebem á face da igreja: casão com o dote que ellas lhes trazem; o dote é o essencial, a mulher um annexo que o calculista carrega porque não tem outro remédio; tomando a cousa debaixo de um ponto de vista grammatical, o casamento é um período, no qual o dote é a oração principal, a mulher a oração subordinada, e o amor a oração incidente. Entre os calculistAis quando se trata de algum amigo que acaba de casar-se, nenhum pergunta se desposou alguma senhora virtuosa e bella.

— Casou bem?... pergunta um a outro que lhe entende a giria. — Menos mal responde o parceiro; casou com tantos contos de dote. Então?... digão: quem é a noiva n'este caso?... é a mulher ou o dote? E a esta pouca vergonha chama-se ter juizo. Eis-ahi o que é casar. Namorar é muito differente. Os calculistas namorão muitas vezes para se divertir. O verbo divertir é n'este caso um ver dadeiro insulto feito ás senhoras; mas quem as insulta é somente aquelle ou são aquelles que se divertem com ellas. O caso é que este divertimento é muito commum. Namorão uma moça pela mesma razão por que vão ao theatro, ao jardim botânico, a uma parada da guarda nacional em dia de grande gala; namorão por passatempo; e o amor está em tal caso tão longe do namoro, como estão as idéas religiosas longe do espirito do maior numero d'aquelles que açodem a ver passar uma procissão. Seguindo estas theorias, os calculistas pre-

ferem naturalmente namorar uma moça bo nita a perder o seu tempo com uma feia, e não receião comprometter-se por isso: acabada a hora destinada ao passatempo, os calculistas ficão frios como o gelo : os olhos os mais bellos e mais ardentes do mundo, sendo olhos de moça pobre por mais settas que dardejem, não ferem aquelles corações. Achilles mergu lhado na lagoa Estyge ficou vulnerável pelo calcanhar, porque o calcanhar escapou ao ba nho; os calculistas nem pelo calcanhar podem ser feridos, porque sabem viver perpetua e in cessantemente mergulhados, totalmente mer gulhados no golphão da cubiça, e de um inte resse que muitas vezes é sórdido. Eis-aqui explicado o segredo do namoro dos três pretendentes de D. Clemência. Pobre moça!... está de certo condemnada a entrar para o convento d'Ajuda. Basta de explicações: continuemos a his toria. Era, como dizíamos, uma noite de baile. Antônio, Ambrosio e Claudiano estavão jun tos a conversar perto da porta de um gabinete que se communicava com a sala : sem incommodar-se com o furor do ciúme, todos três

admiravão as graças e a belleza de D. Clemên cia que estava sentada defronte e ao lado de sua tia. D. Clemência mostrava-se mais formosa que uunca : o seu toilette era simples, mas admivel de bom gosto. D. Violante destacava-se no meio de todas as senhoras pelo ridículo de sua figura: trazia n'essa noite óculos de quatro vidros, e uma touca ornada de fitas de todas as cores, e de laços de todos os feitios. Os três namorados conversavão. — Realmente a D. Clemência é sublime! disse Claudiano, sublime como um trinta e um batido de três azes!... que mocetona? é pena ser pobre. — É verdade!... acudio Antônio; é uma flor sem perfume... é como um banco sem fundo de reserva metallico. — Tal e qual, observou o doutor; é como um ministério cujo programma é magnífico, mas que não tem maioria nas câmaras. — E que espécie de macaca enfeitada é aquella que está ao lado de D. Clemência? perguntou Antônio. Os dous em vez de responder desatarão a rir.

D. Clemência acompanhava de longe a con versação dos três : comprehendeu primeiro que era d'ella que tratavão, e logo depois adi vinhou que sua tia era o objecto de cruéis zombarias. Aproveitando aquella opportunidade, convi dou a velha a seguil-a, e sahindo da sala, foi entrar no gabinete por uma outra porta. — Para onde me levas, menina?»., pergun tou D. Violante. — Quero mostrar-lhe os meus três preten dentes. — Ah! os meus três futuros namorados... — Seja assim; mas venha de manso para que elles não nos vejâo logo. D. Clemência parou junto dos três amigos que continuavão a conversar, mal cuidando que as duas senhoras os podião ouvir. — Com effeito! dizia o doutor; é a velha mais feia que tenho visto em minha vida sa hindo ao lado de D. Clemência, parecia-me um demônio arrastado por um anjo! — Devião mandal-a para o musêo como ra ridade, e arrumal-a na sala das múmias; ob servou Antônio. — Se aquella mulher fosse dama de algum

naipe, exclamou Claudiano, eu juro que nunca pegaria em um baralho de cartas. D. Clemência arrancou a velha do fatal ga binete, e disse-lhe ao ouvido. — Eis-ahi os meus três pretendentes, mi nha tia. A moça tinha sido demasiadamente cruel; mas procurava assim vingar-se das pretenções de D. Violante; esta porém impávida, insensí vel aos sarcasmos que ouvira, respondeu á sobrinha dizendo: — Prepara-te para ser freira, Clemência. — Ainda! — Mais do que nunca; aquellcs homens serão meus escravos antes de quinze dias. As duas senhoras entrarão de novo na sala e fôrão occupar as mesmas cadeiras que ti nhão deixado, e quasi ao mesmo tempo uma filha do dono da casa sentava-se junto dos três amigos. — Minha senhora, disse o doutor, será ver dade que V Ex. quiz além de extasiar-nos com a magnificência do seu baile, sorprehender-nos também com a exposição de uma rari dade espantosa, de um animal ainda mais feio do que o gigante Adamastor?...

— Que quer dizer, Sr. Doutor?... — Quer dizer, minha senhora, acudio Antô nio^ que todos nós estamos doudos para saber que bicho é aquelle que está sentado junto de D. Clemência. A moça mordeu os lábios para conter uma risada. — V. Ex. convida almas de outro mondo para os seus bailes? perguntou Claudiano. Mais respeito, meus senhores, respondeu a oven : aquella senhora é tia de D. Clemência, e se nunca achou marido, foi porque somente ha pouco tempo, e depois de velha veio visital-a a fortuna trazendo-lhe de presente trezentos contos de réis. — Trezentos contos de reis!... exclamarão todos ao mesmo tempo. D. Violante percebeu a exclamação, e fat iando ao ouvido da sobrinha, disse-lhe : — Repara bem, menina; os teus três pre tendentes vão começar a achar-me formosa. A musica soou n'esse momonto annunciando uma quadrilha.

III.

— Trezentos contos de réis... tindão excla mado os três calculistas, ouvindo a informação que a respeito de D. Violante lhes dera a filha do dono da casa, E logo depois embebendo os olhos cubiçosos na touca e nos óculos da velha, todos três a um tempo e como de ajuste, murmurarão baixinho, suavemente, e saboreando a doçura das palavras que pronunciavão : — Trezentos contos de réis!... E cahírão em profunda meditação. Não ouvirão mais a musica brilhante que soava, não sentirão o doce contacto dos vesti dos magníficos que passavão roçando ás vezes pelos seus joelhos, não se moverão ao ruído gracioso de confidencias mysteriosas que perto d'elles se fazião... nada mais os occupava nada : os três grandes philosophos da moder-

nissima escola meditavão profundamente.... tendo porém os olhos sempre embebidos na touca e nos óculos da velha. E a sua meditação era a mesma, era idên tica : achavão-se todos abraçados com uma só idéa. Que admirável solidariedade... na essência erão todos três um só : divergião apenas nos detalhes : erão pouco mais ou menos como qualquer dos nossos ministérios, parlamentaT rcs por excellencia, nos quaes os ministros sào solidários em tudo quanto diz respeito ao amor do bello, e brigão sempre entre si nas questões do detalhe. Erão solidários na paixão ardente que já lhes estava inspirando a velha, e pensavão todos três como se fossem um só diáendo cada um comsigo mesmo : — Uma velha bem velha é preferível a uma moça bem moça quando são igualmente ricas, se se trata de casamento : é preferível, porque a velha naturalmente não exclue a moça, e esta naturalmente exclue aquella. — Sim; uma moça tem uma longa vida diante de si, e não morre nem a força de bailes e de theatros, e nem a força de ceias e de vigílias; e portanto

uma moça quer dizer um casamento sem viu vez isto é, um dote só!... Chama-se a isto meia fortuna. A uma noiva bem velha carrega-se de brilhantes, leva-se incessantemente ao theatro e aos bailes, e lá dá-se-lhe sorvetes quando o calor é mais intenso, trata-se de cercal-a de mil fingidos cuidados, na mesa e de noite prin cipalmente pede-se lhe que coma muito, e de muitos pratos, e ás duas por três vem uma bôa indigestão, leva o diabo a velha, fica uma pingue herança, e vai-se procurar então a moça rica: chama-se a isto dous dotes — uma fortuna inteira. — Não ha nada como uma velha bem velha e bem rica!... E portanto o bicho, o animal ainda mais feio do que o gigante Adamastor, a alma do outro mundo, a macaca enfeitada, não é isso, não; nãoé : pelo contrario, é um anjo. Até aqui a solidariedade. A divergência nos detalhes era muito na tural. 0 Sr. Antônio pensa que casando com D. Violante ganhará tanto como se quebrasse duas vezes : vê avultar o seu credito na praça, premedita organisar uma empreza de lucros

problemáticos para os accionistas, e seguros para si, e suspira, lembrando-se dos gozos e das glorias do capitalista. O Dr. Ambrosio vê-se deputado; dá sota e basto na Gamara; arranja empregos para os parentes, e duas ou três sinecuras para si; não vota em opposição nem pelo diabo, e com uma consciência em leilão, e com uma boca aberta e capaz de engulir o mais monstruoso dos pães de lot da mesa do orçamento, alto e bom som declara que é um homem inde pendente, porque tem uma fortuna de trezen tos contos. 0 Sr. Glaudiano imagina-se jogando o lasquenet três noites por semana, e parando con tos de réis em todas as damas; e outras três noites vê-se cercado de jovens espirituosas que o admirão, que o festejão, que o amão, e que o fazem atraiçoar á sua velha. E quem paga tudo isto... as glorias do capi talista — a independência do estadista — as orgias do dissoluto... ea fortuna de trezen tos contos de réis de D. Violante. Ah!... se as velhas tivessem juizo!... A meditação dos três sublimes calculistas tinha durado meia hora.

Hão-de talvez pensar que foi pouco tempo para tão longas reflexões. Ora!... em menos de meia hora também um deputado ou um senador escreve em cima da coxa uma emenda ou um artigo additivo, que põe em desordem a adminis tração publica, ou em largo tributo o suor do povo. Defronte dos três calculistas, D. Violante cuidadosa e attenta os observava, provocando a cada momento a vaidosa sobrinha, que nem se quer tolerava a idéa de uma luta séria com sua velha tia. Pobre moça! acreditava mais no seu espelho do que no cofre de ouro de D. Violante. — Menina! disse a velha; quem já teria ido dizer aos teus três pretendentes, que eu sou solteira e possuo trezentos-contos de reis?... — Porque, minha tia ? — Ora porque!... não ves como elles me estão devorando com os olhos?... — Estão admirando a sua touca, minha tia : respondeu a moça sorrindo-se. — A touca, e também os óculos, embora; mas qualquer dos três morre já de amores por mim.

Clemência olhou para Violante, e vendo a seriedade com que ella fallava, não pôde con ter uma risada. — Ah! tu zombas de mim, infeliz vaidosa? pois bem : eu queria poupar-te ainda esta noite; uma vez porém que me desafias, juro-te que te has de retirar do baile com o desespero no coração. — Que vai então fazer?... — O que tu fazes ; corresponder aos reque bros e cumprimentos dos teus três namorados. — Minha tia... veja o que faz... não se exponha ao ridículo... — Que ridículo! a riqueza é uma cousa muito séria, minha sobrinha, e ninguém se ri de um cofre de ouro ainda mesmo que elle faça caretas. — Já vio algum-cofre fazer caretas?... — Tola, o cofre de ouro sou eu; e quem te vai roubar os três namorados não é a velha, 6 o seu dinheiro. — Minha tia faz uma idéa dos homens... — A mais justa que é possível: o mundo ou a sociedade, Clemência, transformou-se em um immenso mercado, onde tudo se com pra e principalmente maridos.

— Ah! meu Deus! — É verdade: não dansas hoje com aquelles senhores?... — Danso : a terceira quadrilha com aquelle que está calçando as luvas... Era o Sr. Antônio. — A quarta com o que está roendo as unhas... Era Claudiano... — E a quinta com aquelle que está com as mãos sobre a barriga. Era o Dr. Ambrosio : o futuro estadista, o homem de bossa política que já então afagava a barriga!!! A velha começou a cumprir a sua palavra, e com horríveis tregeitos e mal arranjados sorrisos foi pagando os olhares enternecidos, que sobre ella dardejava cada um dos três apaixonados de Clemência. A terceira quadrilha ia principiar. O Sr. Antônio veio offerecer o braço a Cle mência, e aproveitou a occasião para dirigir um eloqüente cumprimento á velha, que lh'o pagou com uma phrase animadora. Antônio e Clemência collocárão-se na qua drilha perto de D. Violante, que ficara sen7. - 118 — tada: Antônio voltando-se um pouco podia vêla e até fallar-lhe: "esqueceu-se pois das contradansas e do seu formoso par... Clemência a principio divertio-se com a contemplação em que estava o seu cavalheiro; em breve porém acabou por irritar-se. O Sr. Antônio perdia pelo menos dous compassos em cada contradansa; uma vez offereceu a mão a D. Violante em vez deofferecêl-aa Clemência, e outra atirou desastra damente com o leque da linda moça no meio da sala. Clemência, acabada a quadrilha, sentou-se visivelmente incommodada. — Que tens menina?... perguntou-lhe a tia. — Eu nada... mas aquelle homem é mais grosseiro do que eu podia suppôr... — Qual grosseiro! é a paixão que já lhe faz andar a cabeça á roda... — Paixão por quem minha tia! — Pelo meu dinheiro, está visto : olha, a lua rival não sou eu, nem a minha touca; é a minha fortuna. Clemência voltou o rosto. Na quarta quadrilha a formosa moça foi ao

menos mais feliz : Claudiano apezar de lançar de vez em quando amorosas vistas para Vio lante, portou-se como um cavalheiro delicado e cheio de cortezia : também acabada a qua drilha Clemência pagou-lhe com usura concedendo-lhe um longo passeio. No entanto a cadeira em que se sentava Clemência, foi por momentos occupada pelo Dr. Ambrosio. — V Ex. não dansa? perguntou elle á velha. E, o que é mais, perguntou sem rir-se. — Oh! não zombe de mim; respondeu ella, quem se animaria a dansar com uma velha ?... — Velha!... exclamou o doutor; V. Ex. calumnia os seus trinta a trinta e cinco annos. — Tenho sessenta e um, meu senhor. —' Sessenta e um ! é incrível !... mas também Ninon de Lenclós era moça aos oi tenta annos, e creio que ainda dansava n'essa idade. — Ora... — Conceda-me V. Ex. a honra de uma quadrilha... — Senhor!...

— V. Ex. deve ser um anjo dansando... e eu julgar-me-hei no paraíso, se tiver a gloria de ser o seu cavalheiro. — Está fallando seriamente! — Eu juro pelos seus encantos, minha se nhora... — Pois bem... dansaremos a quinta qua drilha. Era a quadrilha ajustada com Clemência. — A quinta... balbuciou o doutor; se podesse ser outra... — Ah! eu logo vi que era victima de uma zombaria... — De modo nenhum... mas é que eu estava engajado para a quinta quadrilha com... — Como lhe parecer; mas já agora, ou ha de ser a quinta ou nenhuma. — Pois seja a quinta, minha bella senhora; exclamou promptamente o doutor. Entravão n'esse momento na sala Claudiano e Clemência. O Dr. Ambrosio levantou-se para deixar livre a cadeira de Clemência. A velha lançou os olhos para Claudiano, e vio-lhe no peito um ramozinho de violetas. Ora Clemência tinha na mão um bouquet — 121 - de violetas : a origem do raminho era pois evidente. — Feliz de quem passeia num baile! disse a velha quando Clemência sentou-se. — A felicidade será de quem puder passear com V. Ex., observou Claudiano. — Pois façamo-nos mutuamente felizes, respondeu Violante levantando-se e tomando o braço de Claudiano, que estremeceu ao contacto da mão da velha. Os dous sahírão da sala. O passeio durou cerca de vinte minutos : no fim d'elle Violante veio sentar-se ao lado da sobrinha, e agradeceu com a mais refinada amabilidade a Claudiano, que se retirou enthusiasmado depois debeijar a mão da velha. Passarão alguns instantes de silencio : Cle mência não se ria mais. De súbito D. Violante tocou-lhe no braço, e perguntou-lhe: — Gostas muito das violetas, menina ?... Clemência voltou-se e corou até a raiz dos cabellos, vendo na mão de sua velha tia o ra minho de violetas que estivera no peito de Claudiano. Era a segunda victoria que Violante alcan-

cava n'aquella noite : era a segunda der rota que Clemência experimentava n'aquelle baile. Mas a musica soou... — Ao menos agora trata-se de um homem de letras, disse comsigo a bella moça ; e por tanto o triumpho será meu... Pobre D. Clemência! esquecia-se de que as letras se descontão !... ODr. Ambrosio aproximava-se... Clemência ia já levantando-se para aceitar o braço do cavalheiro, quando vio que sem a menor ceremonia elle offerecia a mão a Vio lante. A moça deixou-se cahir sentada na cadeira como fulminada por um raio. — Não dansas esta quadrilha ? perguntoulhe a velha terrível. — Oh!... ainda bem que a não danso! exclamou Clemência; reconheço que me re baixaria muito se a dansasse!... — Minha Senhora, disse o doutor Ambrosio a Violante, a musica nos chama... a gloria me espera... — Não, não, tornou a velha : minha so brinha está incommodada, e vai de certo

retirar-se : não posso deixar de acompanhal-a. E também por sua vez o Dr. Ambrosio re tirou-se desapontado. Era a terceira victoria da velha, e a terceira derrota da moça. Três vezes o ouro triumphára da belleza n'aquella noite.

IV.

É fácil a qualquer o imaginar que noite amargurada e dolorosa passou a pobre Cle mência, depois da tríplice derrota que soffrêra no baile. A sua vaidade de moça formosa tinha sido profundamente ferida, porque nem lhe era dado rir-se e zombar dos triumphos da velha. Violante, mais habilmente do que se devia esperar, tinha collocado a questão no seu verdadeiro pé, dizendo : cc Clemência, a tua 'rival não sou eu, é a minha fortuna » ou por outra : « a luta é entre a formosura e a riqueza. » E a riqueza estava arrancando todos os lou ros á formosura. Apenas chegada á casa, Clemência correu a fechar-se no seu quarto, e indo buscar um retrato que tinha de sua tia, e em que o daguerreotypo com a sua reconhecida fidelidade — 125 - reproduzira a velha com todos os traços feissimos do seu semblante, e ainda com a touca e os óculos de que usava, a moça fixou-se de fronte do toucador, e ora olhando para a sua própria e encantadora imagem, ora para o re trato de Violante, exclamava de instante a ins tante : — E pôde vencer-me!... e pôde vencer-me! "E uma vez que apertou convulsivamente o retrato em suas mãos, sentio magoados os finos e delicados dedos... Olhou, e vio que essa im pressão incommoda era devida a uma preciosa cercadura de brilhantes que ornava o retrato. — Os brilhantes!... disse ella; é isso mes mo!, são os brilhantes que me ferem e que me fazem gemer; são estas pedras que brilhão mais do que os meus encantos e do que as minhas virtudes!... Oh! minha tia tinha razão! O pranto não pôde correr sempre, a cólera e o despeito abrandão-se pouco a pouco prin cipalmente no coração de uma moça, que nunca deixa de sorrir-se á esperança. Às dez horas da manhã do dia seguinte Clemência levantou-se menos afflicta e mais resignada.

— Agora o que cumpre, disse ella gracejan do comsigo mesma, é não perder a aposta para não entrar para o convento d'Ajuda: sim cumpre que minha tia não ganhe a aposta: porém como? Ora... sempre hei de achar um meio... E desatando os seus formosos cabellos co meçou a pentear-se e a meditar. Ah! uma moça defronte do toucador, quan do não tem um theatro, um passeio, um baile que a espere, e que com suaves e carinhosas mãos principia a brincar, a annellar, a alisar, a festejar seus cabellos,'que sabe que são bellos, é a mais esquecida e também a mais occupada e feliz dascreaturas. É portanto excusado dizer que Clemência meditou até depois do meio dia, e quando concluio o seu penteado estava animada, risonha, e com um ar de malícia que tinha algu ma cousa de sinistro para a velha tia, ou pelo menos para os três calculistas. Quinze dias correrão depois d'aquella noite de baile em que tanto soffrêra a vaidade de Clemência. Violante havia escrito no fim de uma sema na á sobrinha, communicando-lhe que a tri-

plice paixão que a sua fortuna inspirava ia em muito bom caminho: que em breve contava receber três pedidos de casamento, e que por tanto cumpria que Clemência se dispuzesse a entrar com a maior brevidade para o convento da Ajuda conforme a condição da aposta feita entre ellas. A moça não mais se admirou das fáceis conquistas realisadas por sua tia, mas também não se incommodou com a noticia: tinha con cebido um plano que lhe parecia seguro para não perder, ou pelo menos para não deixar Violante ganhar a aposta, e assim limitou-se a responder a Violante, pedindo-lhe que a pre venisse do dia. em que tinhão de effectuar-se os pedidos de casamento. No fim dos quinze dias cujo correr mencio namos, Clemência recebeu de sua velha tia um bilhete contendo estas únicas palavras: cc Vem jantar comigo amanhã, sem falta.» É portanto amanhã, disse comsigo Cle mência. E é desnecessário accrescentar que não faltou ao convite. — Então, minha tia, é hoje o dia feliz do seu tríplice e completo triumpho?...

Sim; hoje receberei os meus três pretenden tes, que cada um por sua vez, ou todos ao mes mo tempo, me hão de pedir em csaamento. — E n'estes últimos quinze dias... — Tenho sido cantada em prosa e verso; já recebi um soneto aos meus óculos, uma ode á minha touca e um dicurso em que se demonstra o poder dos meus encantos. — E gostou? — Do discurso principalmente; achei-lhe no entanto um único defeito : em lugar de encantos, o autor do discurso devia ter escrito em contos. Se assim o fizesse eu o preferiria aos seus dous rivaes pelo merecimento da sin ceridade e da franqueza. — Espera 'por conseqüência os seus três pretendentes hoje... — Sim, os teus três namorados... — ... e para abater-me ainda mais, quiz fazer-me testemunha da sua brilhante victoria, e para isso mandou-me convidar... — Pois não mandaste pedir que o fizesse?.. — Não, minha tia; eu somente pedi que me previnisse do dia marcado para sua dita : não me queixo porém do que praticou comi go, e antes lhe agradeço.

— Ainda bem. — E então Vm. casa-se, minha tia?... casase deveras?... — Não sei; tu que dizes?... — Sou ruim conselheira; mas em todo o caso pretende tomar hoje mesmo uma resolu ção definitiva? — Resolve tu por mim. — Qualquer que seja a sua decisão, se ella hoje fosse dada, estaria decidida a nossa apo sta, e teria de entrar para o convento... — Assim o penso. — porque, ainda quando se não quizesse casar, nem por isso teria menos roubado os meus três namorados... — Exactamente. — Pois bem : eu não resolvo cousa alguma por isso mesmo, mas vou fazer-lhe um pedido. — Qual?... — Ode umadilação... — Como?... — Peço-lhe que hoje receba os pedidos de casamento que lhe vem fazer os seus três na morados, mas adie por oito dias a resposta que lhes deve dar. — E com que fim me pedes isso!...

— Espero por minha vez roubar-lhe os três noivos nos oito dias que vão passar. — Louca! vaidosa!... — Peço-lhe oito dias... — Não, oito dias é muito; dou-te por mi sericórdia três dias. . — Aceito. — E contas?... — Não entrar para o convento. — Porque ? Porque no fim de três dias terei a meus pés os três noivos de minha tia. N'esse momento as duas senhoras sorrirãose ouvindo o rodar de três carruagens que en trarão na chácara. O ruido que Violante e Clemência acabarão de ouvir era com effeito o das carruagens que trazião os três apaixonados da fortuna da velha. O Sr. Antônio, o Dr. Ambrosio e Claudiano ficarão sorprehendidos ao encontrar-se na mesma casa e á mesma hora, e cada um por sua vez olhou curioso e desconfiado para os outros, procurando adivinhar o motivo que alli os reunia, e bem depressa a sorpresa se transformou em vexame, achando-se todo três

em frente da formosa moça de quem se tinhão fingido namorados. A sorpresa era fácil de explicar. Em quanto rendião finezas e falsos juramen tos de amor a Clemência, os três calculistas tinhão vivido em perfeita solidariedade; não havia entre elles ciúme possível, e de accordo commum namoravão a bella moça, como bons amigos que se divertião em sociedade; desde porém que ouvirão a noticia dos trezentos contos da velha, esbarrarão diante da reali dade, e cada qual quiz para si a interes sante noiva dos 61 annos : Violante foi para elles o pomo da discórdia, e cada um tra tou de enganar os companheiros, manejando o seu negocio com o mais profundo segredo. Qualquer dos três se havia apressado a fazer o seu pedido de casamento muito mys teriosa e reservadamente; mas a nossa bôa velha, que parecia conhecêl-os bem, os emprazára a todos para o mesmo dia e para a mesma hora, afim de vêl-os e de apreciai-os reunidos. O vexame é que se torna um pouco difficil de ser comprehendido. O vexame importaria em tal caso pelo menos um resto de pudor, — 132 - e pudor na desmoralisação não é muito ad missível : expliquemos pois esse vexame pelo resentimento da hypocrisia d'aquelles três calculistas, que vião-se desmascarados diante de Clemência. Quem não se sentio vexada e nem se mos trou offendida foi a sobrinha de Violante, que tinha tomado o seu partido e disposto um pla no cujo resultado lhe parecia seguro. Depois dos cfòmprimentos de recepção e de uma hora de conversação cheia de banalidades, reinou silencio na sala por alguns minutos: era o momento critico que chegava; os três pretendentes estavão em brazas : Violante aprazia-se de vêl-os assim. Clemência tomou á si precipitar o desfecho. — Adivinha-se, disse ella, que os senhores vierãoaqui para o mesmo fim. — Para o mesmo fim?!!! exclamarão os três a um tempo. — Sem a menor duvida : pelos vestidos que trajão, pelo ceremonial com que chegarão, e pela emoção que mostrão, é caso grave; é pois questão de enterro, ou de baptisado, ou de casamento, e como felizmente minha tia não morreu, como não é casada, e por

tanto não tem filhos a baptisar, segue-se que cada um dos senhores vêm pedil-a em casa mento. Creio que adivinhei. Antônio olhou para Ambrosio e Claudiano com cara de negociante agiota que* encontra na praça em baixa completa as acções da companhia com que contava arranjar-se, e em sua cólera nem reparou que Ambrosio tinha cara de político ganhador que sente es tar a ponto de perder a fatia de pão-de-lot que devia alimentar o seu acrisolado patrio tismo, e que a cara de Claudiano fazia lem brar a do jogador a quem os parceiros dão o basta logo depois de lhe ganharem todo o dinheiro. Mas era preciso salvar as apparencias, e cada um dos três, procurando fazêl-o, suffocou o seu despeito e repetio o pedido de casa mento á velha, deixando ouvir sublimes pro testos de desinteresse e fervorosas juras de um amor violento e desinteressado. Emfim, ei# indispensável que Violante fallasse. — Meus senhores, disse ella, eu sou sensí vel á paixão que involuntariamente inspirei a tão dignos cavalheiros; estou resolvida a 8.

casar-me com um dos senhores : a escolha po rém étão difficil que somente depois de muito reflectir conseguirei fazêl-a; rogo-lhes pois que voltem aqui no fim de 3 dias, na segunda feira; preciso além d'isso d'esses três dias para tomar algumas disposições. — Essas disposições, accrescentou Clemên cia, hão de importar um grande favor que vou dever á minha bôa tia, e que eu desde já lhe agradeço. Violante entendeu como pôde ou como quiz as palavras da sobrinha, e os três calculis tas, que não as comprehendêrão, nem por isso deixarão de tomar nota do que acabavão de ouvir. Os pretendentes, fazendo-se mutua justiça e reconhecendo que nenhum seria deixado só em campo, levantárão-se ao mesmo tempo para retirar-se. — Os senhores não vão depois de amanha ao Club Fluminense? perguntou Clemência. — Sim, minha senhora, responderão três vozes. — Pois até o club, meus senhores!... Um momento depois estavão sós Violante e Clemência.

— Menina disse a velha, pareceu-me que dirigistes um desafio aos meus três preten dentes. — Não foi desafio, minha tia, foi apenas um emprazamento. — E ousas ainda... — Tudo : minha tia perdeu-se concedendome uma dilação de três dias. — Estais a ponto de endoudecer. — Estou em vésperas de triumphar. — Lembra-te da minha riqueza. — 0 credito também é riqueza, e vossa mercê verá como eu vou ter credito na praça. — Pois bem; virás jantar comigo na se gunda feira. — Sim; e minha tia irá jantar comigo na terça. Ao anoitecer a tia e a sobrinha se sepa rarão.

No dia seguinte Violante recebeu pelo cor reio urbano três cartas anonymas. Na primeira Ambrosio e Claudiano erão gostos pela rua da amargura : suas famílias, seu caracter e seus costumes erão horrivel mente despedaçados : em metade da carta predominava a verdade, na outra metade a calumnia espalhava veneno. Na segunda as victimas erão Antônio e Claudiano, na terceira Antônioe Ambrosio. Cada um dos pretenden tes tinha escrito a sua carta anonyma. O anonymo nunca é generoso, e muitas ve zes é uma indigna mascara que esconde a face abjecta da infâmia e da corrupção. O anonymo é irmão do pasquim. Mas deixemos observações que não vêm ao caso, e prosigamos. As três cartas anonymas demonstrão que os três pretendentes de Violante conservavão-se

firmes no seu propósito, constantes no seu amor; não admira : o amor mais constante que geralmente se conhece é o amor do di nheiro ; é um amor que não esfria, e que pelo contrario se exalta cada vez mais. Entretanto o que não se pôde bem comprehender, o que a própria D. Violante com toda a sua experiência de 61 annos não seria ca paz de explicar, ó a festa, a corte, o agrado, o affecto com que dous dias depois no Club Flu minense foi Clemência obsequiada pelos três pretendentes á mão da velha. Não foi um só, fórão todos três que cercarão e renderão mil finezas á formosa moça, que a principio mostrou-se um pouco resentida, e a final deixou-se commover por elles. Dir-se-hia que cada um por sua vez se exforçava por demonstrar a Clemência que nunca deixara de morrer de amores por ella. Antônio, Ambrosio e Claudiano fôrão iguaes no proceder, no fallar,e no requestar Clemên cia : erão três homens com a mesma alma e o mesmo coração. Cada um d'elles, mereceu da bella moça uma contradança, uma valsa, e um passeio; cada um d'elles como se todos três se houvessem para isso ajustado, declarou a Cle8.

mencia, jurando por todos os santos do céo, que pedira Violante em casamento levado pelo desespero de não poder merecer a mão da for mosa joven; e o que esta respondeu muito em segredo a cada um d'elles foi um doce mysterio, que o Sr. Antônio encobrio cuidadoso do Dr. Ambrosio e de Claudiano, que o Dr. Am brosio occultou com o maior empenho de Antônio e de Claudiano, e que Claudiano não diria a Antônio e ao Dr. Ambrosio, nem mesmo a preço de vinte cartadas felizes e con secutivas no lasquenet. Ainda bem que a velha D. Violante não foi ao Club Fluminense n'aquella noite. Parece que a moça preparava uma batalha decisiva contra a velha. Quaes os seus meios de acção?... o poder dos seus encantos triumpharia em fim da portentosa influencia dos trezentos contos de réis de D. Violante?... Não é licito acredi tai-o. Como então vai Clemência conseguindo operar tão notável transformação no espirito dos três calculistas ?... É um mysterio. Dizem que as moças não sabem guardar

segredo : sabem, sabem : quando lhes faz conta, sabem. Moças!... Pensão alguns que essas borbo letas que adejão ligeiras e inconstantes são in capazes de forjar planos intrincados e difficeis, e mais incapazes ainda de preparar uma vin gança calculada e hábil. Engano : quando se trata de amor, ellas todas são mais astutas do que o mais adextrado diplomata, e feridas em sua vaidade sabem vingar-se dextramente, e ás vezes sem piedade. São rosas, sim; mas por ventura as rosas não tem espinhos ?... 0 dia da segunda feira chegou, e Clemên cia não se fez esperar por Violante. — A que horas devem chegar os seus três pretendentes, perguntou a moça. — Pois já te não lembras?... ás duas horas, minha sobrinha esquecida. — Ainda bem : temos três horas diante de nós. Então conta com elles minha tia? — Não ha duvida possível, visto que não me tornei pobre de rica que era. Conto com elles e até lhes mandei preparar um bom jantar. — Deos queira que não jantemos sós, mi nha tia.

— Incrédula!... A despeito das suas1 esperanças Clemência estava um pouco receiosa; Violante porém confiava na sua boa fortuna. — Já tomou a sua resolução minha tia?... — Caso-me decididamente; respondeu Vio lante rindo-se. — E qual dos três prefere ?... — Na questão de preferencia é que está o meu único embaraço : creio que o melhor dos três é o doutor... Entrou nJesse momento um escravo na sala e entregou uma carta a Violante. — Vê o que contêm esta carta, disse a ve lha á sobrinha. Clemência abrio e leu sem hesitar : « Minha senhora. — Com o mais profundo pezar e cedendo a circumstancias, com que não contava, sou obrigado a desistir das mi nhas pretenções á mão deV. Ex. Não podendo ser o esposo, será sempre o mais obediente escravo de V. Ex. — O Dr. Ambrosio. — E esta !... exclamou Violante tomando a carta da mão de Clemência e lendo-a quasi que com incredulidade.

— É um de menos, minha tia : mas ainda lhe ficão dous. — Sim, e preferirei o negociante que me ha de augmentar a fortuna. 0 escravo entrou outra vez com uma se gunda carta. Violante não deu mais a carta á sobrinha : abrio-a e leu : era do Sr. Antônio, e dizia pouco mais ou menos o mesmo que dissera na sua oDr. Ambrosio. A velha não pronunciou uma uhica pala vra : poz-se a arranjar a touca e os óculos. — Lá se foi o segundo ! mas ainda bem que ainda lhe resta um; observou Clemência. Sim... o peior de todos... o jogador que esbanjaria a minha fortuna em poucos mezes : está visto que esse não me voltará as costas... e... E o escravo entrou na sala pela terceira vez, trazendo uma terceira carta. — Lê... lê, Clemência, porque eu não acre ditaria nos meus óculos. Clemência abrio a carta e leu : tal e qual como as duas primeiras, essa continha uma despedida formal e as desculpas de Clau diano.

— Todos três!... exclamou a velha; todos três!... mas é inacreditável!... — Minha tia, a verdade não é sempre verosimil, — Porém todos três!... ah! sim-., adivi nho ! — Adivinha o que!... — N'estes últimos três dias os calculistas descobrirão uma velha mais rica do que eu sou. Clemência desatou a rir. — De que te ris?... — Da sua derrota, minha tia. — Tu porém não vencestes... — Quem sabe?... — Falia. — Ainda é cedo : o seu dia foi hoje, se gunda feira : o meu é amanhã, terça feira. — Mas então que faremos hoje?... — Jantaremos sós, minha tia. Não é preciso dizer que Violante foi bem cedo apresentar-se no dia seguinte na casa de seu irmão, que aliás deixou-a só com Clemên cia, sahindo a cumprir o seu dever de empre gado publico. A velha nem um só instante nutrira a idéa

de casar-se : pretendeu dar uma lição á sobri nha ; agora porém estava realmente curiosa para terá explicação da sua derrota. Apenas se achou a sós com a sobrinha aper tou-a para que lhe fizesse comprehender a de serção inesperada dos três calculistas. — Ao meio dia saberá tudo, respondeu Clemência. — Mas até o meio dia que faremos?,.. — Vossa mercê já leu os jornaes de hoje? — Eu não perco tempo lendo jornaes, me nina. — Pois faz mal, ás vezes acha-se a explica ção de muitos factos. — Que queres dizer?... — Nada, minha tia. — Mas eu ardo de impaciência... — Porque?... — Porque não admittq que falhasse o meu principio. — Qual?... — O do poder do dinheiro na época actual. — Pois socegue, não falhou. — Então é certo que os três calculistas des cobrirão outra velha mais rica do que eu!... — Não, senhora.

— N'esse caso falia... — Ainda não... mas... está dando meio dia; não ouve ?. — O que? os sinos a darem meio dia?... — Não : o rodar das carruagens que párão. — E então? — São elles. — Elles quem ? — Os três calculistas, sem duvida. — Os três !... e tu pensas... — Que elles vem pedir-me em casamento. — Tale qual como aconteceu comigo?... — Com uma única differença... disse Cle mência rindo-se. — E qual é ella ? perguntou a velha. — É que eu não mandei preparar um ban quete para offerecêl-o aos meus pretendentes. Com effeito o Sr. Antônio, o Dr. Ambrosio, e Claudiano tinhão ao mesmo tempo feito pa rar á porta da casa do pai de Clemência as carruagens em que vinhão, encontrando-se na mesma escada. — É celebre ! disse Antônio. — É incrível! disse Ambrosio. — É inaudito ! disse Claudiano. Apresentárão-se na sala já um pouco desa-

pontados, e ainda mais o ficarão esbarrando com Violante, que os cumprimentou com ar sinistro, e emfim perdêrão-se de todo, vendo um sorriso malicioso brincando nos lábios de Clemência. — Meus Senhores, disse a moça, meu pai não se acha rem casa ; mas eu posso ouvir e responder ás proposições que me quizerem fa zer. — Hão de ser curiosas! observou a velha. Os três calculistas faltando cada um por sua vez, disserão como de costume, absolutamente a mesma cousa. Vinhão todos pedir Clemên cia em casamento, e cada qual animado por uma doce esperança que ella deixara acenderse em seu coração. — É verdade, meus senhores : na ultima partido do Club Fuminense autorisei a cada um dos senhores em particular para vir hoje a esta hora que eu marquei, pedir-me em casamento a meu pai, arrependi-me porém de têl-o feito, e isso por uma razão muito simples. Os senhores fazião-me a corte desde algum tempo, e bem que eu nunca houvesse dado a qualquer dos três direito algum sobre meu coração, vi de súbito e com sorpreza que

todos me voltarão o rosto, e que se declaravão amantes apaixonados de minha tia, e preten dentes á sua mão; outra vez de súbito os senhores voltarão a curvar-se a meus pés, e fallárão-me todos em casamento ; semelhantes mudanças tão completas e tão rápidas devem ter uma explicação, e sem que os senhoresm'a dêem, não receberão da minha boca resposta alguma. Os três calculistas ficarão olhando-se mu tuamente e corridos do papel que estavão re presentando. — Tenhão a bondade de fallar, tornou Cle mência. Antônio, Ambrosio e Claudiano explicarão o seu procedimento pelo poder dos encantos e da formosura de Clemência. — Dizem a verdade?... perguntou ella. Os três calculistas jurarão com enthusiasmo que a paixão que sentião era profunda e inven cível. — E insistem nas suas pretenções ? Elles insistirão mais do que nunca. Clemência voltou-se então para Violante e disse : — Minha tia, vou pedir-lhe perdão de um

abuso que commetti, e provar-lhe que convém muito ler os jornaes. — Que queres dizer?... — Quero dizer que ha dous dias appareceu nos diversos jornaes diários da capital a no ticia que vou repetir palavra por palavra : eil-a : cc Ainda ha almas bemfazejas e paren tes verdadeiramente dedicados. Uma nobre senhora de idade de 61 annos, que possuía uma fortuna de trezentos contos de réis, e ti nha uma sobrinha moça, bella, porém pobre vendo-se ultimamente instada por três pre tendentes, á sua mão, e resolvendo-se a tomar um d'elles para marido, determinou antes de casar-se fazer, e de facto fez doação de duzen tos contos de réis á sua virtuosa e linda sobrinha, que ficou por esse modo ainda mais rica do que a tia. Esta bôa e nobre parente é digna de todos os elogios. » — Que significa então isto?... — Ah! minha tia, quer dizer que eu forjei uma noticia falsa; vossa mercê não me fez doação de um só vintém; mas hoje isso me importa pouco, porque estes senhores amãome apaixonada e desinteressadamente, e por tanto...

— Como está corrompida a imprensa do paiz !... exclamou Ambrosio, eu vou chamar á responsabilidade todos esses indignos jor naes!... E sahio desesperado da sala. — Perdão, minha senhora, murmurouAntonio gaguejando; mas quem improvisa noti cias destas nunca poderá fazer a felicidade de um marido! E tomando o chapéo, seguio a Ambrosio. — Oh! ainda bem que me resta o Sr. Clau diano ! disse Clemência rindo-se muito. — Minha senhora, respondeu este, eu sou um companheiro fiel daquelles dous illustres cavalleiros, e visto que elles sahirão, está visto que não posso ficar... Vendo retirar-se o ultimo dos três calculis tas, as duas senhoras começarão a rir com a melhor vontade. Emfim Clemência pôde conter-se, e per guntou : Então qual de nós duas vai para o convento, minha tia!... — Nenhuma, porque ambas perdemos. — Diga antes que ambas ganhamos. — Concordo; mas a minha opinião ficou — 149 - sempre victoriosa. Hoje em dia não se ama no Rio de Janeiro : já não ha mais casamentos por amor, ha somente casamentos por di nheiro. — Não, minha tia : em todos os tempos houve sempre homens nobres e generosos, e homens indignos e vilmente interesseiros, e o que toda a senhora deve pedir ao céo é que lhe depare por marido um dos primeiros, e que a livre e guarde dos segundos.

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