Rosa mística - I Rosa mística · Capítulo 2 de 7
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Rosa mística - I

Rosa mística - I

crava, pois não teremos abolido a mais

pesada ele todas as servidões que a

degradam - a servidão do amor. Por

ella, pelo amor, nós a teremos sempre

j1-1ngida é\lO carro de nosso triumpho .

E della sobre tudo que é preciso liber­

tal-a.

A miseria economica gerou a incli­

viduacào economica da mulher e trar ­

ilheá, um dia a egualdade aspirada ;

a miseria política gerará em alguma

hora a liberdade redemptora, é tempo

que os novos obreiros se empenhem

neste combate supremo pela fraterni­

dade moral qu~ a libertará da servi ­

dão do amor - o jugo mais pesado que

ainda viu a face da terra.

Sei bem que estas palavras serão

averbadas como a traduccão reve ladora

de um espírito doente . . ~ . As utopias,

as vesanias de um dia, sei tamibem,

que o foram em outros realidades fru­

ctescentes. Não me punge a repulsão

violenta que o estreito bom senso . con­

temporaneo possa lhes dar . . . Os ho­

mens ainda não podem e não querem

ver. Um dos maio r es delles neste

seculo, nos dom ínios do pensamento,

que viu tão longe e tão largo, qrue

nunca recuou diante do mais absurdo

paradoxo, escreveu palavras de uma

opacidade deploravel, de uma curteza

mesquinha. ( 1) "Ü hom em, ens ina Za­

rathustra, deve ser criado para a

guerra e a mulher para desca nço do

guerreiro: tudo o mélJis é loucura ." "A

felicidade elo homem tem nome: eu

quero . A felicidade da mulher tem

nome: .elle quer." Que esperar dos

outros, dessas mediocridades acanha ­

elas que pollúlam ahi affrontosamente

e que dirigem o mundo?

Se não a exprimi bem, ahi está em

todo o caso uma idéa .

(1) FREB. NJETZSCHE, Werke, Leipzig, r895 -

1897 VI, 96.

I *

FIGURAÇOES

_\:nrA

EGREGOR

NEHEnr, um viandante

U71fA VELHINHA CEGA

U)~ LAZARO

Smr:BRAS, vozEs . . .

I

Quam p11lchra es, et quam decorn. ... !

CallfÍCIIJJI Cai!Licori!JJJ,

Gaput YU, 6.

Estende-se no alto

de um azul es­

maec ido, lavado de

uma claridade tíbia

e moribunda, a hea­

titude infinita de

uma. tarde esti val .. .

Nenhum sopro agi­

ta a lacaria dos ra-

s vên:].ej antes e

da~ grinaldas flori ­

das ... O sol meta-

10 -

lisa: ainda o enfo lha­

mento do cimo das

laranjeiras discipli­

nadas numa syme­

tria cuidada, que­

dandose immotas

e abrindo -se em

festões de florescen­

cias brancas e per­

fumosas. No fundo

mna pequena habi­

tacão de uma sim­

plicidade elegante

e exquisita, levanta

para o ar suas pa­

redes alvas e um

minarete soerg uido

immerso ainda . no

oiro fluido do poen­

te. Em frente, um

horto velado por

mão amiga pompea

festivamente nas

cambiantes poly­

chromas de suas

flores. Riem ale­

gres purpuras , or­

gulhosas de rosas

rubescentes, de rai­

nunculos sanguen ­

tos, de era vos es­

carlates; silenciam

humildades mysti­

cas ele lyrios con­

tritos, ele rnagnolias

impollutas, . de ca­

m~1ias lymphaticas,

de jasmins desmaia ­

elos em leitos ele

pequenmas folhas

verdes; entristecem

mirtas de lilazes

tintq.s a espaços

da cor sua ye ele

seos cachos flori­

dos, saudades mace~

radas como viuvas

inconso1a1'eis, viole ­

tas acolhidas no seio

da sombra de suas

folhas, symbolos do

orgulho mudo e sel­

vagem. Olham tris­

temente com olhar

parado e morto os

grandes helianthus,

ele pé, do alto da

umbella a-marellen­

ta de sua enonne

coa. olla.

Um perfume vi v o

e, .n1orno , essencia

requintada e entor-

pecedora embalsa-

I2

ma o ar tranquillo.

Um repuxo semeia

gottas de cristal

11uma bacia glauca

na qual estes dia­

mantes boiam um

curto instante, fun­

dindo-se depois na

massa liquida. Que­

bra a atonià lethar­

gica de:-te recanto

solitario o trillo

persistente e daJ;G,

agudo e firme com'

u:rna ;ppnta de aço,

de um grillo, ani­

nhado na fenda de

uma pedra .e des­

fiando um a risada

continua ele cristal.

ADIA clebrucada

sobre a bacia de mar­

more, contempla

sua imagem no es­

pelbo glauco e con­

serva as duas rn[Los

pequenas ealvasim- .

tnersÇ~.s n'agua rece-

benclo 'Uma ca:ricia

humida e fluida .. .

EGREGOR contem­

pla-a absorto alguns

I , ,1

instantes, irradian­

do em ex tas e e

sem ser percebido

por ella, pensa alto,

olhandoa enterne­

cido.

É minha Yida: a luz e a harmonia

de meos dias. Quando me olha de

seos grandes olhos humidos, não cuido

ver pedaços ele céo profundo e vago

que me envolvem ele sua doce clari­

dade? .J: a sua fronte branca não se

lê a confianca de dia!:> felizes, anhos

de uma ve~tura perfeita? Em seo

labios não erram pensamentos puro~

como os que voam na bocca do anjos?

Não é tão bôa, não é tão perfeita?

Em sua alma nunca poisou uma idea

má; nunca um ve.o toldou a sereni­

dade de suas alegrias. Marcha no

caminho tortuoso da' Vida sem ter

conhecido o mal, sem ter defrontado

o vicio . . . Para ella tem sempre a

Natureza alegrias de luz e risos de

flores, cantos de passarinhos e raios

pallidos de luares mortos.

O mundo que vê de longe, cujo agi ­

tar .convu lso sente como o rumor de

uma onda que se quebra, parece -lhe

um jardim habitado por anjos como

ella, illuminados e santos .

• Ião julga todos os homens ca1uazes

de uma alta cteéhcação e d.e um vasto

amor? dispostos ao sacrificio 111ais

alev.antado pa,ra que a tristeza não a

fira, como faz o pobre velho com as

urzes do caminho, ensangueando a:s

mãos nos cardos que arranca, para

que um espinho não lh.e magõe um

instante alegre com sua agulha .vene­

nosa?

Quando o somno avoeja-lhe sõbre a

cabeça, e sobre o peito envelhecido

em que as amarguras riscaram fu111dos

caminhos de dor; que dorme o pri­

meiro somt'lo, emballacla pelo movi­

mento pausado e lento de um cora­

ção cançado de luctar, mas feli3 porqu e

vive impregnado della, de sua im211gem,

de sua alma . E depois quem lhe sen­

-tinella as noites para que, as sombras

má. , os pesadellos, os sonhos escuros '

não perturbem ins1lantes de paz em

q:ue esvae-se pelo empara .disamento

das felicidades aspiradas?

E o pob11e homem que soube soffrer

tanto não se denuncia feliz, pago ele

todo um passa.do triste, soffreclor, hau-

r5

ríndo no seo h ali to, nas linhas ryth ­

micas ele . seo rosto, nas tranças on­

deantes de seos cabeHos, na calma de

eo som no, no perfume que se des ­

prende de sua alma, todas as alegrias

que podem chover dos ceos sobre uma

alma humana?

Sombra querida da Eterna Ausente

não te sentes satisfeita por encon­

trares numa bella realidade a Perfei­

ção a que aspiraste?

Um pequeno si­

lencio se immedi?>,

durante o qual na

imaginação passa­

lhe a doce sombra

evocada.

E nas horas - em que me sang ra a

tristeza, a lembrança da companheira

de tantos annos, a Dôr, que se me

enviuvou por momentos, mas que me

tecordam sempre os destroços arrui­

nados en1 minh'alm;;~., nestas horas em

€JUe vive no passado não são seGs risos

qu~ debandam esses pezares?_ e se

choro, quand0 suas lagrimas se clerra-

mam e se misturam ás minhas não

parece que o chorar é mais dôce, não

e;.;queço a Dôr, a companheira de tantos

annos e que me abandonou por mo­

mentos?

Bemdito sejas tu, bom Deus que

cicatrizas as chagas de uma vida in­

teira, dando ao pobre um balsamo

para cural-as, uma alegria para esgue­

cel-as, um conforto para animar uma

velhice cançada, como urri raio de sol

doira um canto esquecido na sombra.

Bemdito sejas tu, semeador divino

das dores, que dás aos que soffreram

muito um coração para amar ainda mais!

Bemdito sejas tu, meo Deus!

AnrA tendo-o di-

visado levantase

apressada, sobraça

a cesta de flores

que lh-e fica aos pé

e corre para elle.

Pae . . . Pae . . . buscavate para

contar uma coisa trisi:e ... um pre­

sagio funesto ...

EGREGOR

Um presagio funesto?! ...

ATMA, retirando

da cesta uma ave­

sinha morta, sepul­

tada sob flore :

I7

Vês esta andorinha morta! Doide­

java numa alegria irrequieta, gol­

peando como uma flecha negra o

espaço azul, e depois a illusão da

claridade em bateu - a de encóntro a

parede ele nossa casa e ... cabiu morta.

Pobre andorinha, voava para sua

chiinera branca e a fatalidade tran­

cou-lhe o caminho . . . Não é uma

grande desgraça o Tive o presenti­

mento ele uma enorme desgraça e tive

medo ... muito medo ...

Ecnzu:GOR

É tÚ11a pequena imagem ela vida,

filha! Quantos ele npssos sonhos mor­

rem esboroados de . frente á fatalidade

inexoravel? Quantas vidas clesd.ppare­

cem por não se poder realisar o seo

sonho? O Destino é um tyranno cruel

que corta as mais bellas esperanças,

apara as azas mais fortes, apaga o

'brilho maiSi intenso, destróe a fé, haure

a coragem, desvirisa o animo . . . es­

pera-nos, meio de nossa estrada, ve­

dapclo que nos a.eheguemos elo fim

aspirado. Este muro duro e frio é um

symbolo ela fatalidade f~roz e im­

passiV"el ... susterá muitos outros vóos

Rosa mysticn. 2

..

arrojados e converterá numa .porção

de penas frias muitas esperanç .as ar­

dentes ...

É a vida . . . é a vida.

ATMA

E para que a pobre morta tivesse

uma pequena compensação de sua fe­

licidade cortada sepultei-a sob flores.

Ao menos será feliz na Morte e terei

sempre uma lembrança piedosa para

ella. Cavarei num cantd • do jardim

seo ultimo ninho e um junqui1h9 en­

fl.drirá seo tunmlo.

Passa um silen­

cio, reticenciando

estas palavras com­

movidas . . . Con­

templando o pae

mudo e apprehen-

sivo.

Mas que? Te entristeces?

Minha pequena historia . fez~ te mal?

Doe-te muito a s.orte da pobre ando.­

rinha? . . . Não te quero triste. . . De­

via ser hoje um. dia de festa. Não te

quer© triste . Esqueceste que hoje é

o meo natal . .. não te lembras mais?

Não sabes .que hoje prestigio um ma­

gno mysterio? que a meninice me aban-

rg

dona e que vou trocar loucuras de

criança pela austeridade de senhora?

Responde .

Ec;.REGOR queda -se

silencioso evitando

denunciar uma emo­

ção que o assalta.

Anr.\ ,. abraçando-o

Porque te entristeces? Alguma dor

te lanceia? Diz-me tudo, é preciso

consolar-te. Porque soffres mudo e

só) Esquéces que o sentimento par ­

tilhado é ' men.os doído e que um CG­

raçã ,o feri~lo caPece mão amiga que o

.

com a1 dor ).

EGREGOR

Sim ... tantos pensamentos tumul­

tuarias e tristes que me assaltam .. .

Perdôa-me filha, vieram-me lagrimas,

sem que eu as quizesse, fiz um. esforço

pai a retel-as, mas são insubmissas.

Tenho o coração ckeio, macetado pelo

seG. arclor . . . transbordam, queimam -'

mé a tace.

AT:MA, affl.icta

~Ias porque choras?

EGREGoR, olhando o céo

Ó Deus como em um instante . cavas

um abysmo tão profundo çle tristezr:. e

de dó? Porque ,infernal poder trans- .

mudas um contentamento e1n dor

funda, que parece repFezada ha sécu­

los por um dique agora desatadó? Por­

que ha de a dor ser o extrem,o a:cerb0

da alegria, mais viva?

_\.ntA

Pae! tu 1n.e af:fliges , dizme tua

peua ... porque 'me fazes ~offrer as­

sim? Revela-m,e o ql'Le . sentes para

lavar tuas dores com minhas lagrimas,

enxugar tuas 1agrrimas com meos la­

bios . . .

EGREGOR

Perdôa-me , filha ... foi pensando

nas esperanças que enrosavam teo

natal, que me senti logo prender

tristeza que marcha atraz de nossos

momentos felizes; senti tal-vez pairar

ao longe a sombra da companheira

c1ue volta; o~1vi talvez o surdo - câmi­

nhar de seos passos e inerme e fraco

chorei por ti, fiz -te chorar minha

filha .. .

. 2 r

ATúA, a.ffagan­

do-o docemente.

Esquece tudo isto, leinbra-te só quê

és m~o, que somos felizes hoje, tu

inundado de meos conselh :os, eu aben­

çoada pela claridade doce e infinita

de teq olhar. Esquece; s1m ... .

EGREGOR entdste­

cido ainda, miran­

do o chão persi­

stente.

E amanhan?

ATMA

Amanhan?! qu'irnporta amanhan?

porque não cuidará de nós o Deos que

tinge as aur0ras, qllle chove o perfume

nos lyrios, que ensina notas aos pas­

sarinhos? Sê feliz hoje, homem sem

fé (bei.fa-o z1ezes ?'epetúlas).

EGRillGOR

Homem 'sern fé, disseste; e pode

tel-a um homem ainda, quando ten1

soffrido tanto, quando a Dôr surge

s1;1.bitamente diante de si, no caminho

que seguia; encobrindo a visão que. o

chamava lá no firu da estrada, ace­

nando-lhe com o seo lenço branco-~

22 . -

Pode ainda esperar quem o Destino

feriu com o aspero dos desengános?

ATliLA

Não falles assim. Porque . nãe serás

feliz ele hoje por diam.te como foste

:m.estes rnomeÍ1tos proximos? Porque

has de buscar a lembrança de lilm

passado morto se tens 1illln preEiente

risonho e. um futuro que te acólh-erá

abraçado áque11a a que tens dado a

viela . e que te dará a sua para pou­

par-te um gemido? Não chores mais

(bezj'a- o de 7't.ovo).

Vês .. . hoje nos alegrar _emos muito . ..

estirei de rosas, de lyrios, de horten­

sias, de viGletas rôxas t~da nos&> a casa ...

Iremos ver morrer o sol atraz das

escarpas das rochas e a lua subir paJ­

lida e fria envoÜa no prestigio de {;ma;

ascensão mystica, derramando a prata

de seo olhar languido nas . agu

das do lago somnolento.

Rendilharei na harpa un1 rythmo

lento e novo , uma caricia humilde,

mas ardente, como um beijo que im­

plora e affaga, a historia de um grande

Amor silencioso; desfiarás no violino

uma torrente de vibraçôes frementes

? 1

-.)

em que bordarei uma phantasia ma­

gnífica, o sonho soberbo de un1 des­

tino grandioso e triste, tragico e so-

. brehumano; e juntos, faremos crescer

~una floresta sombria de altos pensa­

mentos musicaes em que nossas almas

se esquecerão a si mesmas. Isto só

te curará.

A musica tem a. revelação dos my­

sterios vedados que conduzem a Alma

alem da Existencia Perecivel na bea­

titude infinita do Sonho, na ess~ncia

reconclita da Viela Universal ...

Nesse lethargo supremo afogaremos

todos os cuidados e acolh1dos ao Ir­

real dormiremos abraçados, tu apoiado

em mim, eu apoiada em ti, tu pen­

sando em mim, eu sorrindo e pensando

em ti.

Agora quero ver-te rindo.

EGREGOR ri -se tris­

temente.

AT:MA

Vou e-nfestar nossa casinha para

vel-a alegre. Um beijo ainda.

Beija-o e corre so­

braçando a cestinha

de flores, derrama,n -

..

do jasmins palliclo::;

pela estrada.

EGREGOR . só, im­

merso em pensa ­

mentos lugubres

tem urna convulsão

acerba nos labios.

Um presagio fune~to . . . im um pre­

sagio funesto ... um aYiso da Dôr ...

Amanhan ... que será amanhan?

Pobre filha, tu não comprehendes

quanta surpreza lastimosa e tragica

nos reserva o dia de amanhan, como

hacle sobre nós descer abafando-no:

em seo seio escuro o nevoeiro funebre

ela desgraça, como nas horas cinzen­

tas do Crepusculo desce, lento e lento,

o véo pardacento da noite solitaria.

Que vento frio . e aspero passará por

nossos ouvidos, crestando nossas po­

bres almas, alegres num dia, lagri­

mosas nos outros.

Não pensas que sommas de triste­

zas pesadas nos guarda o futuro, im­

penetravel, sphingico, que hoje como

o espelhamento de cristal de um lago

retrata nossa imagem vivamente, ma:-.

que amanhan a apagará, morta e per­

dida, para, abrindo a fauce desmedida.

degluti:r-nos no seo ventre lobrego e

frio de abysmo, quando o cyclone da

desdita que nãq tarc].a, nos atitar para,

elie sem piedade.

Vives, pobre flor, esquecida que,

peregrinos da V ia Lacrymosa, os

risos custam prantos de sangue, que

a alegria da hora que passa ~ cm;n­

Ji)rada co1n a Dôr de am~nhan que virá

nos romper a Alma .

E confiante, e descuid -osa, marchas

para a miragem fa::;cinante que te

acena ao longe, que te abre eis braços,

que te estende os labios para um beijo.

mas te abandonará quando abeirares

della, que fugirá em lhe estér;tdendo

os teos braços, e sentirás então o va­

cuo em redor àe ti, um vento frio , so­

prarrá um lamento aos teos ouvidos, e

só, e triste, o coração g6th~ando san­

gue, encontrarás a teo lado a Eterna

Companheira do homem na Terta -

a Dêir - que se assentará sobre tu'

Alma, esmagandoa com se o peso,

macerando tuas palpebras para dellas

expremer ele teos olhos o fel rôxeado

de lagr imas inuteis que cahirão tan­

tas, tantas, deixando em tua face um

rastilho de brazas .

E o que viveu para afastar as sar­

ças espinhentas de teo caminho e te

a_G,cehdeu n' Alma . os vetarias inextin.:

gc1i:reis da Bondade e da Fé, sentir­

se:.á dobrar ao peso desfangustia e

morrerá de desespero, os labias rasga­

dos numa injuria suprema á Miseria

Cruel.

E que será de ti então?

Virás a provar todas as tristezas da

Terra, todas as corrupções dos l Io­

mens, todas as _ lepras d' Alma e nin­

guem, ah ninguem! estará a teGJ ladGJ

pa:ra ckorar ~omtigo ...

Al$m tumulo, na podridão immunda

e fria, inerme e impotente, verrninado

e diluído, mas pensando ainda em ti,

quanto soffrerá a carne morta para ­

quem foste a viela?

Condemnado, pobre velho desfeito,

quantas lagrimas terás ainda ele cho~

rar? E ris? . . . Para que, se nenhum

Conselho Amigo, amanhan t'enxugará

esse pranto inconsolavel e inextiligui­

vel? ..

Emmudece e cho­

ra ... Do ceo se en­

torna a tinta dos

crepes fua1ebres ela

noite. Ardem no

alto .drios mortua­

dos. Um cão sinis­

tro, u~va um lamen­

to prolongado.

Na sombra tra­

gi'ca ha um bater de

dentes e um chôro

convulso ...

Eu tenho frio! ... eu tenho frio!

eu ... tenho ... frii ... ii ... io ...

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

II

.. . hoc vanitas et miseria magna est ...

EcdesiastesCaput Vl, 2.

H

ora morta, de

torpor somno­

lento, de desanimo

invencível. Tudo si­

lencioso , immovel,

triste, como anky ­

losado numa atti­

tude de desalento

e çle magua. Flores

descoradas enlan­

guescem , folhas

brunidas pela luz

pendem de peciolos

flacidos; da terra

J2

sobe um effluvio

estuante, desce do

azul uma caustici­

dadeimplacavel. As

arvores do pomar

projectam a espa­

ços grandes chagas

escuras de sombras

sobre a terra ar­

dente . EGREGOR

apoiado na enxa:da

de trabalho divisa

na estrada poeiren­

ta que se abeira

perto, um viandante

esmorecido, cança ­

do, inerte, sentado

num bloco de pedra

e a cabeca inclina­

da, arri~ada nas

mãos. Em seo rosto

empallecido sulcam

tracos fundos de fa-

diga e de dor. Vem

talvez da Grande

Cidade e traz nos

olhos hum idos, lu­

mmosos e negros

vest1g10s do can­

çaço das longas vi­

gílias de goso e

nos labias a dobra

\.

amarga

com que

distante,

almas.

e aspera

o mal, lá

queima as

O velho approxi ­

ma-se e dá á voz

U):lla inflexão cari-

ciosa .

Em~EGOR

Estás doente?

o VIANDANTE

Sem olhal-o e cus-

tosamente .

Não .. .

EGREGOR:

De onde vens?

o VIANDANTE

De longe .. .

EGREGOR

E para onde vaes?

o VIANDANTE

Não sei ... para longe .. .

EGREGOR

N.ão queres descançar? Não tens

sêde? Ali, além d'aquellas arvores ha

Rosa rnystica.

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