Rosa mística - I
Rosa mística - I
crava, pois não teremos abolido a mais
pesada ele todas as servidões que a
degradam - a servidão do amor. Por
ella, pelo amor, nós a teremos sempre
j1-1ngida é\lO carro de nosso triumpho .
E della sobre tudo que é preciso liber
tal-a.
A miseria economica gerou a incli
viduacào economica da mulher e trar
ilheá, um dia a egualdade aspirada ;
a miseria política gerará em alguma
hora a liberdade redemptora, é tempo
que os novos obreiros se empenhem
neste combate supremo pela fraterni
dade moral qu~ a libertará da servi
dão do amor - o jugo mais pesado que
ainda viu a face da terra.
Sei bem que estas palavras serão
averbadas como a traduccão reve ladora
de um espírito doente . . ~ . As utopias,
as vesanias de um dia, sei tamibem,
que o foram em outros realidades fru
ctescentes. Não me punge a repulsão
violenta que o estreito bom senso . con
temporaneo possa lhes dar . . . Os ho
mens ainda não podem e não querem
ver. Um dos maio r es delles neste
seculo, nos dom ínios do pensamento,
que viu tão longe e tão largo, qrue
nunca recuou diante do mais absurdo
paradoxo, escreveu palavras de uma
opacidade deploravel, de uma curteza
mesquinha. ( 1) "Ü hom em, ens ina Za
rathustra, deve ser criado para a
guerra e a mulher para desca nço do
guerreiro: tudo o mélJis é loucura ." "A
felicidade elo homem tem nome: eu
quero . A felicidade da mulher tem
nome: .elle quer." Que esperar dos
outros, dessas mediocridades acanha
elas que pollúlam ahi affrontosamente
e que dirigem o mundo?
Se não a exprimi bem, ahi está em
todo o caso uma idéa .
(1) FREB. NJETZSCHE, Werke, Leipzig, r895 -
1897 VI, 96.
I *
FIGURAÇOES
_\:nrA
EGREGOR
NEHEnr, um viandante
U71fA VELHINHA CEGA
U)~ LAZARO
Smr:BRAS, vozEs . . .
I
Quam p11lchra es, et quam decorn. ... !
CallfÍCIIJJI Cai!Licori!JJJ,
Gaput YU, 6.
Estende-se no alto
de um azul es
maec ido, lavado de
uma claridade tíbia
e moribunda, a hea
titude infinita de
uma. tarde esti val .. .
Nenhum sopro agi
ta a lacaria dos ra-
s vên:].ej antes e
da~ grinaldas flori
das ... O sol meta-
10 -
lisa: ainda o enfo lha
mento do cimo das
laranjeiras discipli
nadas numa syme
tria cuidada, que
dandose immotas
e abrindo -se em
festões de florescen
cias brancas e per
fumosas. No fundo
mna pequena habi
tacão de uma sim
plicidade elegante
e exquisita, levanta
para o ar suas pa
redes alvas e um
minarete soerg uido
immerso ainda . no
oiro fluido do poen
te. Em frente, um
horto velado por
mão amiga pompea
festivamente nas
cambiantes poly
chromas de suas
flores. Riem ale
gres purpuras , or
gulhosas de rosas
rubescentes, de rai
nunculos sanguen
tos, de era vos es
carlates; silenciam
humildades mysti
cas ele lyrios con
tritos, ele rnagnolias
impollutas, . de ca
m~1ias lymphaticas,
de jasmins desmaia
elos em leitos ele
pequenmas folhas
verdes; entristecem
mirtas de lilazes
tintq.s a espaços
da cor sua ye ele
seos cachos flori
dos, saudades mace~
radas como viuvas
inconso1a1'eis, viole
tas acolhidas no seio
da sombra de suas
folhas, symbolos do
orgulho mudo e sel
vagem. Olham tris
temente com olhar
parado e morto os
grandes helianthus,
ele pé, do alto da
umbella a-marellen
ta de sua enonne
coa. olla.
Um perfume vi v o
e, .n1orno , essencia
requintada e entor-
pecedora embalsa-
I2
ma o ar tranquillo.
Um repuxo semeia
gottas de cristal
11uma bacia glauca
na qual estes dia
mantes boiam um
curto instante, fun
dindo-se depois na
massa liquida. Que
bra a atonià lethar
gica de:-te recanto
solitario o trillo
persistente e daJ;G,
agudo e firme com'
u:rna ;ppnta de aço,
de um grillo, ani
nhado na fenda de
uma pedra .e des
fiando um a risada
continua ele cristal.
ADIA clebrucada
sobre a bacia de mar
more, contempla
sua imagem no es
pelbo glauco e con
serva as duas rn[Los
pequenas ealvasim- .
tnersÇ~.s n'agua rece-
benclo 'Uma ca:ricia
humida e fluida .. .
EGREGOR contem
pla-a absorto alguns
I , ,1
instantes, irradian
do em ex tas e e
sem ser percebido
por ella, pensa alto,
olhandoa enterne
cido.
É minha Yida: a luz e a harmonia
de meos dias. Quando me olha de
seos grandes olhos humidos, não cuido
ver pedaços ele céo profundo e vago
que me envolvem ele sua doce clari
dade? .J: a sua fronte branca não se
lê a confianca de dia!:> felizes, anhos
de uma ve~tura perfeita? Em seo
labios não erram pensamentos puro~
como os que voam na bocca do anjos?
Não é tão bôa, não é tão perfeita?
Em sua alma nunca poisou uma idea
má; nunca um ve.o toldou a sereni
dade de suas alegrias. Marcha no
caminho tortuoso da' Vida sem ter
conhecido o mal, sem ter defrontado
o vicio . . . Para ella tem sempre a
Natureza alegrias de luz e risos de
flores, cantos de passarinhos e raios
pallidos de luares mortos.
O mundo que vê de longe, cujo agi
tar .convu lso sente como o rumor de
uma onda que se quebra, parece -lhe
um jardim habitado por anjos como
ella, illuminados e santos .
• Ião julga todos os homens ca1uazes
de uma alta cteéhcação e d.e um vasto
amor? dispostos ao sacrificio 111ais
alev.antado pa,ra que a tristeza não a
fira, como faz o pobre velho com as
urzes do caminho, ensangueando a:s
mãos nos cardos que arranca, para
que um espinho não lh.e magõe um
instante alegre com sua agulha .vene
nosa?
Quando o somno avoeja-lhe sõbre a
cabeça, e sobre o peito envelhecido
em que as amarguras riscaram fu111dos
caminhos de dor; que dorme o pri
meiro somt'lo, emballacla pelo movi
mento pausado e lento de um cora
ção cançado de luctar, mas feli3 porqu e
vive impregnado della, de sua im211gem,
de sua alma . E depois quem lhe sen
-tinella as noites para que, as sombras
má. , os pesadellos, os sonhos escuros '
não perturbem ins1lantes de paz em
q:ue esvae-se pelo empara .disamento
das felicidades aspiradas?
E o pob11e homem que soube soffrer
tanto não se denuncia feliz, pago ele
todo um passa.do triste, soffreclor, hau-
r5
ríndo no seo h ali to, nas linhas ryth
micas ele . seo rosto, nas tranças on
deantes de seos cabeHos, na calma de
eo som no, no perfume que se des
prende de sua alma, todas as alegrias
que podem chover dos ceos sobre uma
alma humana?
Sombra querida da Eterna Ausente
não te sentes satisfeita por encon
trares numa bella realidade a Perfei
ção a que aspiraste?
Um pequeno si
lencio se immedi?>,
durante o qual na
imaginação passa
lhe a doce sombra
evocada.
E nas horas - em que me sang ra a
tristeza, a lembrança da companheira
de tantos annos, a Dôr, que se me
enviuvou por momentos, mas que me
tecordam sempre os destroços arrui
nados en1 minh'alm;;~., nestas horas em
€JUe vive no passado não são seGs risos
qu~ debandam esses pezares?_ e se
choro, quand0 suas lagrimas se clerra-
mam e se misturam ás minhas não
parece que o chorar é mais dôce, não
e;.;queço a Dôr, a companheira de tantos
annos e que me abandonou por mo
mentos?
Bemdito sejas tu, bom Deus que
cicatrizas as chagas de uma vida in
teira, dando ao pobre um balsamo
para cural-as, uma alegria para esgue
cel-as, um conforto para animar uma
velhice cançada, como urri raio de sol
doira um canto esquecido na sombra.
Bemdito sejas tu, semeador divino
das dores, que dás aos que soffreram
muito um coração para amar ainda mais!
Bemdito sejas tu, meo Deus!
AnrA tendo-o di-
visado levantase
apressada, sobraça
a cesta de flores
que lh-e fica aos pé
e corre para elle.
Pae . . . Pae . . . buscavate para
contar uma coisa trisi:e ... um pre
sagio funesto ...
EGREGOR
Um presagio funesto?! ...
ATMA, retirando
da cesta uma ave
sinha morta, sepul
tada sob flore :
I7
Vês esta andorinha morta! Doide
java numa alegria irrequieta, gol
peando como uma flecha negra o
espaço azul, e depois a illusão da
claridade em bateu - a de encóntro a
parede ele nossa casa e ... cabiu morta.
Pobre andorinha, voava para sua
chiinera branca e a fatalidade tran
cou-lhe o caminho . . . Não é uma
grande desgraça o Tive o presenti
mento ele uma enorme desgraça e tive
medo ... muito medo ...
Ecnzu:GOR
É tÚ11a pequena imagem ela vida,
filha! Quantos ele npssos sonhos mor
rem esboroados de . frente á fatalidade
inexoravel? Quantas vidas clesd.ppare
cem por não se poder realisar o seo
sonho? O Destino é um tyranno cruel
que corta as mais bellas esperanças,
apara as azas mais fortes, apaga o
'brilho maiSi intenso, destróe a fé, haure
a coragem, desvirisa o animo . . . es
pera-nos, meio de nossa estrada, ve
dapclo que nos a.eheguemos elo fim
aspirado. Este muro duro e frio é um
symbolo ela fatalidade f~roz e im
passiV"el ... susterá muitos outros vóos
Rosa mysticn. 2
..
arrojados e converterá numa .porção
de penas frias muitas esperanç .as ar
dentes ...
É a vida . . . é a vida.
ATMA
E para que a pobre morta tivesse
uma pequena compensação de sua fe
licidade cortada sepultei-a sob flores.
Ao menos será feliz na Morte e terei
sempre uma lembrança piedosa para
ella. Cavarei num cantd • do jardim
seo ultimo ninho e um junqui1h9 en
fl.drirá seo tunmlo.
Passa um silen
cio, reticenciando
estas palavras com
movidas . . . Con
templando o pae
mudo e apprehen-
sivo.
Mas que? Te entristeces?
Minha pequena historia . fez~ te mal?
Doe-te muito a s.orte da pobre ando.
rinha? . . . Não te quero triste. . . De
via ser hoje um. dia de festa. Não te
quer© triste . Esqueceste que hoje é
o meo natal . .. não te lembras mais?
Não sabes .que hoje prestigio um ma
gno mysterio? que a meninice me aban-
rg
dona e que vou trocar loucuras de
criança pela austeridade de senhora?
Responde .
Ec;.REGOR queda -se
silencioso evitando
denunciar uma emo
ção que o assalta.
Anr.\ ,. abraçando-o
Porque te entristeces? Alguma dor
te lanceia? Diz-me tudo, é preciso
consolar-te. Porque soffres mudo e
só) Esquéces que o sentimento par
tilhado é ' men.os doído e que um CG
raçã ,o feri~lo caPece mão amiga que o
.
com a1 dor ).
EGREGOR
Sim ... tantos pensamentos tumul
tuarias e tristes que me assaltam .. .
Perdôa-me filha, vieram-me lagrimas,
sem que eu as quizesse, fiz um. esforço
pai a retel-as, mas são insubmissas.
Tenho o coração ckeio, macetado pelo
seG. arclor . . . transbordam, queimam -'
mé a tace.
AT:MA, affl.icta
~Ias porque choras?
EGREGoR, olhando o céo
Ó Deus como em um instante . cavas
um abysmo tão profundo çle tristezr:. e
de dó? Porque ,infernal poder trans- .
mudas um contentamento e1n dor
funda, que parece repFezada ha sécu
los por um dique agora desatadó? Por
que ha de a dor ser o extrem,o a:cerb0
da alegria, mais viva?
_\.ntA
Pae! tu 1n.e af:fliges , dizme tua
peua ... porque 'me fazes ~offrer as
sim? Revela-m,e o ql'Le . sentes para
lavar tuas dores com minhas lagrimas,
enxugar tuas 1agrrimas com meos la
bios . . .
EGREGOR
Perdôa-me , filha ... foi pensando
nas esperanças que enrosavam teo
natal, que me senti logo prender
tristeza que marcha atraz de nossos
momentos felizes; senti tal-vez pairar
ao longe a sombra da companheira
c1ue volta; o~1vi talvez o surdo - câmi
nhar de seos passos e inerme e fraco
chorei por ti, fiz -te chorar minha
filha .. .
. 2 r
ATúA, a.ffagan
do-o docemente.
Esquece tudo isto, leinbra-te só quê
és m~o, que somos felizes hoje, tu
inundado de meos conselh :os, eu aben
çoada pela claridade doce e infinita
de teq olhar. Esquece; s1m ... .
EGREGOR entdste
cido ainda, miran
do o chão persi
stente.
E amanhan?
ATMA
Amanhan?! qu'irnporta amanhan?
porque não cuidará de nós o Deos que
tinge as aur0ras, qllle chove o perfume
nos lyrios, que ensina notas aos pas
sarinhos? Sê feliz hoje, homem sem
fé (bei.fa-o z1ezes ?'epetúlas).
EGRillGOR
Homem 'sern fé, disseste; e pode
tel-a um homem ainda, quando ten1
soffrido tanto, quando a Dôr surge
s1;1.bitamente diante de si, no caminho
que seguia; encobrindo a visão que. o
chamava lá no firu da estrada, ace
nando-lhe com o seo lenço branco-~
22 . -
Pode ainda esperar quem o Destino
feriu com o aspero dos desengános?
ATliLA
Não falles assim. Porque . nãe serás
feliz ele hoje por diam.te como foste
:m.estes rnomeÍ1tos proximos? Porque
has de buscar a lembrança de lilm
passado morto se tens 1illln preEiente
risonho e. um futuro que te acólh-erá
abraçado áque11a a que tens dado a
viela . e que te dará a sua para pou
par-te um gemido? Não chores mais
(bezj'a- o de 7't.ovo).
Vês .. . hoje nos alegrar _emos muito . ..
estirei de rosas, de lyrios, de horten
sias, de viGletas rôxas t~da nos&> a casa ...
Iremos ver morrer o sol atraz das
escarpas das rochas e a lua subir paJ
lida e fria envoÜa no prestigio de {;ma;
ascensão mystica, derramando a prata
de seo olhar languido nas . agu
das do lago somnolento.
Rendilharei na harpa un1 rythmo
lento e novo , uma caricia humilde,
mas ardente, como um beijo que im
plora e affaga, a historia de um grande
Amor silencioso; desfiarás no violino
uma torrente de vibraçôes frementes
? 1
-.)
em que bordarei uma phantasia ma
gnífica, o sonho soberbo de un1 des
tino grandioso e triste, tragico e so-
. brehumano; e juntos, faremos crescer
~una floresta sombria de altos pensa
mentos musicaes em que nossas almas
se esquecerão a si mesmas. Isto só
te curará.
A musica tem a. revelação dos my
sterios vedados que conduzem a Alma
alem da Existencia Perecivel na bea
titude infinita do Sonho, na ess~ncia
reconclita da Viela Universal ...
Nesse lethargo supremo afogaremos
todos os cuidados e acolh1dos ao Ir
real dormiremos abraçados, tu apoiado
em mim, eu apoiada em ti, tu pen
sando em mim, eu sorrindo e pensando
em ti.
Agora quero ver-te rindo.
EGREGOR ri -se tris
temente.
AT:MA
Vou e-nfestar nossa casinha para
vel-a alegre. Um beijo ainda.
Beija-o e corre so
braçando a cestinha
de flores, derrama,n -
..
do jasmins palliclo::;
pela estrada.
EGREGOR . só, im
merso em pensa
mentos lugubres
tem urna convulsão
acerba nos labios.
Um presagio fune~to . . . im um pre
sagio funesto ... um aYiso da Dôr ...
Amanhan ... que será amanhan?
Pobre filha, tu não comprehendes
quanta surpreza lastimosa e tragica
nos reserva o dia de amanhan, como
hacle sobre nós descer abafando-no:
em seo seio escuro o nevoeiro funebre
ela desgraça, como nas horas cinzen
tas do Crepusculo desce, lento e lento,
o véo pardacento da noite solitaria.
Que vento frio . e aspero passará por
nossos ouvidos, crestando nossas po
bres almas, alegres num dia, lagri
mosas nos outros.
Não pensas que sommas de triste
zas pesadas nos guarda o futuro, im
penetravel, sphingico, que hoje como
o espelhamento de cristal de um lago
retrata nossa imagem vivamente, ma:-.
que amanhan a apagará, morta e per
dida, para, abrindo a fauce desmedida.
degluti:r-nos no seo ventre lobrego e
frio de abysmo, quando o cyclone da
desdita que nãq tarc].a, nos atitar para,
elie sem piedade.
Vives, pobre flor, esquecida que,
peregrinos da V ia Lacrymosa, os
risos custam prantos de sangue, que
a alegria da hora que passa ~ cm;n
Ji)rada co1n a Dôr de am~nhan que virá
nos romper a Alma .
E confiante, e descuid -osa, marchas
para a miragem fa::;cinante que te
acena ao longe, que te abre eis braços,
que te estende os labios para um beijo.
mas te abandonará quando abeirares
della, que fugirá em lhe estér;tdendo
os teos braços, e sentirás então o va
cuo em redor àe ti, um vento frio , so
prarrá um lamento aos teos ouvidos, e
só, e triste, o coração g6th~ando san
gue, encontrarás a teo lado a Eterna
Companheira do homem na Terta -
a Dêir - que se assentará sobre tu'
Alma, esmagandoa com se o peso,
macerando tuas palpebras para dellas
expremer ele teos olhos o fel rôxeado
de lagr imas inuteis que cahirão tan
tas, tantas, deixando em tua face um
rastilho de brazas .
E o que viveu para afastar as sar
ças espinhentas de teo caminho e te
a_G,cehdeu n' Alma . os vetarias inextin.:
gc1i:reis da Bondade e da Fé, sentir
se:.á dobrar ao peso desfangustia e
morrerá de desespero, os labias rasga
dos numa injuria suprema á Miseria
Cruel.
E que será de ti então?
Virás a provar todas as tristezas da
Terra, todas as corrupções dos l Io
mens, todas as _ lepras d' Alma e nin
guem, ah ninguem! estará a teGJ ladGJ
pa:ra ckorar ~omtigo ...
Al$m tumulo, na podridão immunda
e fria, inerme e impotente, verrninado
e diluído, mas pensando ainda em ti,
quanto soffrerá a carne morta para
quem foste a viela?
Condemnado, pobre velho desfeito,
quantas lagrimas terás ainda ele cho~
rar? E ris? . . . Para que, se nenhum
Conselho Amigo, amanhan t'enxugará
esse pranto inconsolavel e inextiligui
vel? ..
Emmudece e cho
ra ... Do ceo se en
torna a tinta dos
crepes fua1ebres ela
noite. Ardem no
alto .drios mortua
dos. Um cão sinis
tro, u~va um lamen
to prolongado.
Na sombra tra
gi'ca ha um bater de
dentes e um chôro
convulso ...
Eu tenho frio! ... eu tenho frio!
eu ... tenho ... frii ... ii ... io ...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
II
.. . hoc vanitas et miseria magna est ...
EcdesiastesCaput Vl, 2.
H
ora morta, de
torpor somno
lento, de desanimo
invencível. Tudo si
lencioso , immovel,
triste, como anky
losado numa atti
tude de desalento
e çle magua. Flores
descoradas enlan
guescem , folhas
brunidas pela luz
pendem de peciolos
flacidos; da terra
J2
sobe um effluvio
estuante, desce do
azul uma caustici
dadeimplacavel. As
arvores do pomar
projectam a espa
ços grandes chagas
escuras de sombras
sobre a terra ar
dente . EGREGOR
apoiado na enxa:da
de trabalho divisa
na estrada poeiren
ta que se abeira
perto, um viandante
esmorecido, cança
do, inerte, sentado
num bloco de pedra
e a cabeca inclina
da, arri~ada nas
mãos. Em seo rosto
empallecido sulcam
tracos fundos de fa-
diga e de dor. Vem
talvez da Grande
Cidade e traz nos
olhos hum idos, lu
mmosos e negros
vest1g10s do can
çaço das longas vi
gílias de goso e
nos labias a dobra
\.
amarga
com que
distante,
almas.
e aspera
o mal, lá
queima as
O velho approxi
ma-se e dá á voz
U):lla inflexão cari-
ciosa .
Em~EGOR
Estás doente?
o VIANDANTE
Sem olhal-o e cus-
tosamente .
Não .. .
EGREGOR:
De onde vens?
o VIANDANTE
De longe .. .
EGREGOR
E para onde vaes?
o VIANDANTE
Não sei ... para longe .. .
EGREGOR
N.ão queres descançar? Não tens
sêde? Ali, além d'aquellas arvores ha
Rosa rnystica.