Rosa mística - II Rosa mística · Capítulo 3 de 7
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Rosa mística - II

Rosa mística - II

uma sombra amiga e um tecto hospe­

deiro que te acolherá. O sol doe

tanto . . . e estás tão desfeito . ..

0 -VIANDANTE

Não . . . de nada careço

gmre1.

EGREGOR

prose-

Porque este amargo desconforto?

que te falta, nieo filho?

o VIANDANTE

Não sei; ... a vontade ...

EGREGOR

Que soffres?

o VIANDANTE

Não sei; ... a vida ...

EGREGOR

Falta acaso o alento para a lucta,

esse fogo que roboresce as almas for­

tes e lhes dá a victoria na vida?

o VIANDANT,E

Deixa-me ... és um louco, um

visionario; acreditas na victoria da

vida ...

EGREGOR

Para que fallas assim, tu que não

sentiste ainda a vida, que ainda não

soffreste?

o VIANDANTE

És velho e não comprehendeste já

qu~ a Dôr é insuperavel, que todo

esforço é inutil e que é na renuncia da

lucta que se acha o Bem na terra?

EGREGOR

' Quem te plantou n'Alma esse nihil­

isrno atroz, esta desillusão aspera que

esterilisa o homem?

. o VIANDANTE

Que importa? . . . Frontes enneve­

cidas na cogitação das coisas actuaes,

Almas maceradas improficuamente no

soffrimento, boccas tG>rcidas por um

travo amargo, mas que não mentem ...

E eu senti a verdade e fujo do mundo

porque ali mora a Dôr.

EGREGOR

Enganas-te; meo filho. Busca a agua

viva lustrai da redempção para lavar

esta mácula com que te sujaram, esta

~ * J

JÓ

peste que te queima e que os !azara ­

dos te contaminaram .

És moço. És forte. Tem animo.

Caminha. A lucta é dolorosa, mas a

inercia é covarde; a uma segue a ale­

gria radiosa do triumpho, a outra tem

o desespero infinito do tedio.

Conserva religiosamente em teo peito

como um ' velaria sempre acceso, uma

alegria para illuminar um instante do ­

loroso.

Quando a Dôr te assaltar ep1 teo

caminho, soluça e chora, mas não de­

sesperes nunca; esse pranto amargo

fará brotar uma confiança mais impe ­

tuosa ainda e um' alegria serena te

transfigurará.

É a Dôr qÚe afina a Alma das

oxydações torruptoras. O Soffrimento

Humano é a fornalha ardente que de­

pura, comburindo-as, todas as peque­

nina s fraquezas, lia vil de nosso caracter.

São quantidades necessarias da equa ­

ção humana. Deve ser assim.

Não vês que os dias mais luminosos

succedem sempre ás noites mais escu ­

ras e que as estrellas luzem ma1s

quando engastadas em uma treva

densa?

o VIANDANTE

És um velho demente. Não sentiste

que a vida é uma longa noite tormen­

tosa e que o dia luzente de que falias

só existe no Nada?

E GREGO R

Elles te enganaram, meo filho. Es­

queceos e amaldiçôasos, porque te

envenenaram a Alma .

o VIANDANTE

Eu já comprehendi a vida como

aquell' Alma inspirada que pensou o

Ecclesiastes: "Tudo é vaidade e affiic­

ção d' espírito.';

EGREGOR

Não. A vida é um dom inestima\ rel

que os homens transformaram em uma

dôr continua; forcejemos para tor­

naia uma alegria eterna. E porque

não serás um operaria dessa transmu­

tação? É o teo dever. É o dever dos

que vivem. A renuncia á lucta é a

continuação da Dôr e tu que és moço

e forte bem podes empenhar a tua

vontade para um dia a.ttingirmos o

iqeal. .'

o VIANDANTE

Mas se todo esforço é doloroso, . se

a vida é uma Dôr continua para que

devo eu quebrar as minhas energias

e depois cançado e soffredor, morrer

de mizeria e de dó tendo embora

n'alma a esperança chimerica de um

triumpho remoto?

EGREGOR

És egoísta e máo. Recusas o teo

valor, porque não tens a certeza de

triumphar nos dias de uma vida pre­

caria; ama,ldiçôas um dom que des­

conheces e que poderias tornar me­

lhor . . . tu que nunca soffreste, que

nunca encontraste o mal.

E se queres um premio, que melhor

premio, se ao Be:n;J. não basta bem­

fazer, que viver immortal nas paginas

do grande Leccionario onde a Historia

guarda inalteraveis as essencias pre­

ciosas de Augustas Memorias, ter o

nome insculpido na frontaria solemne

do Templo que a Idolatria destinava aos

Deuses e aos Santos e que a Justiça

reservou aos que illuminam a trilha

ensombrada á Humanidade, aos Uteis

á sua progressão atrave~ das edades?

Contempla o mundo: ahi encontrarás

muita dor ' silenciosa, muito pranto

mudo, muitas Almas a quem a For­

tuna nunca sorriu um dia, a quem a

Fatalidade perseguiu sempre infati­

gavelmen.te, para quem a natureza foi

impiedosa e roubou a integridade phy­

sica e deu chagas e dores aos membros

defor .mados, e que entretanto, simples

porém energicos, forcejam noite e dia

no afan da lucta incessante tendo

sempre no mais acerbo de seo soffri­

mento um clarão de esperança, con­

:fiando sempre nesse a11zanhmz impene­

travel: Seos labias nunca se fenderam

numa imprecação queixosa nunca amal­

diçoaram a natureza, nunca blasphe­

maram injurias violentas; são humil­

des, são resignados, soffrem sempre

mas esperam sempre . Não vês ao

longe n'aquella erma solidão um vulto

humano vivificando a paizagem deso­

lada? É um velho curvado sobre a

enxada, cançado e soffredor. mas in­

vencido. Foi moço e foi forte, teve

saúde e beijou muitas boccas ,- teve

alegrias e gerou muitos :filhos .. . hoje,

tem sessenta annos, está cancado, sem

forças, minado pela molesti~, morre-

ram -lhe quasi os affectos, no seo cora­

.ção enxameiam cruzes mortuarias, tem

uma pobre mãe, velhinha e cega e

um pobre filho, um lazaro disforme;

a mizeria bateu-lhe ás portas . .. mas

continúa lá na lida fadigosa , sempre

o mesmo . As aves do ceo rouqam-lhe

as sementes das covas, a terra ingrata

e esteril afoga a semente em seo seio,

o sol, que derrama a fecundidade para

todos, cresta-lhe as plantinhas que vin­

garam . .. . . mas elle é sempre o mesmo,

imagem viva do Soffrimento Humano,

symbolo mudo da Resignação Activa,

nunca deixou abrirem-se os labias num

grito de maldição, nunca renunciou á

vida dolorosa e quando semeia, uma

esperança lhe illumina o rosto . Confia

nessa roesse abundosa da Redempção

que sua Vontade lhe promette ...

Como, pois, começas a v iver desa ­

lentado, sem animo, sem energias, me­

droso e covarde, recusando -te ao dever,

á obra ingente a que és associado?

Que fizeste até hoje por ti e por teos

irmãos?

o VIANDANTE

Eu?! ... fazer o que? Que devo ao

mundo para me sacrificar a elle e lhe

entregar minhas forças? Para vel-as .

desfeitas, impotentes, impro:ficuas? ...

EGREGOR

Assim diz o egoísmo, a avareza pe­

quenina de uma vida mesquinha, assim

devem dizer o parasita e o verme que

se apegam a um organismo exi:ranho

para delle sugar a vida, os que pro­

curam expoliar, arrancar, devastar sem

um esforço para a obra de recons­

trucção, sem uma lembrança terna

para os que no passado lhe prepara­

ram a vida, sem um olhar agradecido

e compassivo para os que no presente

buscam na terra uma alegria inextin­

guível. Despe esta lepra que te afasta

dos homens, porque egoísta mesquinho

e covarde, tu é que és o máo e o

desprezível, porque és o inutil. Em

vez desta tristeza sombria que te de­

vora e que te anihilará, obscuro e

esquecido, levanta e caminha trans­

figurado no apostolo da Esperança,

erradiando em derredor de ti a luz

divina do Bem e deixando na memoria

do Tempo o rastilho de uma Sagra­

ção Immortal.

\

Faze a terra sáfara cobrir-se de fruc­

tos, a agua viva brotar dos rochedos

adustos, a fé luminosa boiar no olhar

affiicto e o riso florescer sobre os la­

bios torcidos.

Semêa o bem pela tua estrada; elle

resurgirá cristalisado numa alegria

cantante. O maio _r prodígio elo mundo,

mira digna ele um esforço titan ico,

consiste em fecundar a aridez, extrahir

da magua o riso e buscar a vida no

proprio seio da morte.

É a bella missão . E a Alma Enthu­

siastica não carece para a jornada

difficil mais que um Viatico :-a Es­

perança.

o VIANDANTE

Pobre velho louco ... tuas palavras

são vans; o vento as varre; nenhum

echo as repete; eu as esqueço ... per­

des o teo tempo .. .

EGREGOR

Não impo r ta ... continuarei . . . Di­

zes-me uma palavra? Que esperas de

te o nihilismo, de tua renuncia?

o VIANDANTE

A Paz . ..

EGREGOK

A Paz só existe para os que lucta­

ram. Tu abandonas a lucta e covarde

fugitivo procuras a quietação e o re­

pouso . . . Sabes o que te espera? O

Tedio ' . Sabes o que é o Tedio ...

Ü, V !ANDANTE

Um monstro que devora homens

vivos .. .

EGREGOR

Homens não, transfugas inertes . Elle

te espera .

o VIANDANTE

Abrindo os labios

num sorriso ironico.

Eu o esperare i . ..

EGREGOR

E quando elle te atormentar?

o VIANDANTE

Procurarei nos prazeres, no amor,

a alegria de um esquecimento para o

meo Tedio. O meo philosopho disse­

me: "o homem coisa nenhuma ten1

melhor debaixo do sol, do que comer,

beber e alegrar -se"; "goza da vida

com a mulher que amas".

EGREGOR

11as estes prazeres, este amor cus­

tam esforços e sacrificios inauditos . O

amor que tu conheces é o Arnor-odio ­

tedio, adio .irnplacavel, velado embora

por urna apparencia feliz. As hyenas

têm tarnbern UI!l riso, riso feroz quando

afiam os dentes para cravar na presa.

É feito de estos, arroubos, violencias,

convulsões, suspeitas, duvidas, desespe ­

ros, r~crirni:t:ações, espasmos, desfalle­

cirnentos. E o prazer esteril, ator­

mentado, cançado mas insaciavel, uma

contorsão epileptica do adio, que co­

meça n'uma aspiração fa:llaz, miragem

allucinatoria de uma felicidade dese ­

jada e termina na realidade impassí ­

vel do esgotamento desconsolador do

Tedio.

O amor que tu conheces é o amor­

odio -tedio.

Não conhecerás o amor innocente,

sereno, radioso, o amor fecundo que

cria, que propaga, dissem ina e esparge

sobre a Humanidade a florescenc ia

feliz de todos os gosos .. .

O teo de mundano complicado é o

amor -odio -tedio .

E todo o di o é uma lucta, lucta ac-

cesa e violenta, mais soffredora que

aquella que abandonas no mundo. A

esta seguir-se -á a paz serena da ale­

gria victoriosa, a outra, a do amor

terá como termo o tedio da saciação,

o desgosto do esgotamento, o mesmo

odio ainda, mas já sem a mascara

mentirosa.

O o di o e o tedio - a dôr sem remis ­

são-eis o que te espera. E preferes

os soffrimentos improficuos? As lagri­

mas inuteis são as mais amargas ...

O VIANDANTE

Quando um amor me aborrecer, bus­

carei outro amor, um outro mais, mais

amores ainda . Uns curarão as feridas

dos outros .

EGREGOR

E as almas soffredoras que enga­

nardes para alcançar um bem men­

tido e q ue deixarás mizeraveis depois?

o VIANDANTE

Que importa? Soffram. A v~da não

é uma dor continuada? .. . Basta - me

que eu pense em mim.

EGREGOR

Oh! tu 'és abominavel, máo, infame! ...

ae, vae te o caminho ! . . .

Pallido e tremu lo

afasta-se apressada­

mente murmurando .

Está perdido ... a peste o devora .. .

está perdido . . .

VIANDANTE

Ri-se do effeito de

suas palavras e sen­

tindo -o affastar - se,

chama -o.

Velho ! . .. velho! .. . volta . . . nem

tudo está perdido ainda. V em, diz-me

mais algumas palavras de fé .

EGREGOR voltan­

do-se em sua direc­

ção.

Não . .. não ... tu estás perdido . ..

O VrANDANTE in-

sistente.

em . . . vem . . . és um homem bom.

Dá-me mais uma palavra amiga, um

conselho.

EGREGOR

Já te disse tudo. Não ha mais nada ...

o VIANDANTE

E recusas por um momento, por

algumas palavras salvar talvez uma

Alma? (d parte) Estes termos vasios

de sentido exercem sempre uma grande

influencia sobre os ingenuos. Elle virá.

EGREGOR volta e

fita-o suspeitoso.

Não queres rir de um velho rude,

mas sincero? Não sena nobre.

o VIANDANTE

Não, não sou tão vil . ..

Falia-me mais. Diz-me agora o que

deveria eu fazer; uma rota a seguir,

mostra-me ...

EGREGOR

Já disse tudo ... Entrega ,•as reve­

lações da Energia em ti accumuladas

á obra que os teos maiores te deixa­

ram ... Congrega-te aos homens de

bôa vontade para destruir os o bices

que atravancam o trilho por onde a

Humanidade terá de enveredar no Fu­

turo. Conheces os Revoltados? É

delles que dependem todas as trans­

formações sociaes, porque são os que

não se curvam nunca ás abominações

..j-8

dos homens e insurgidos contra a l\1en­

tira buscam o dia em que possam can­

tar a Ode Triumphal da Reivindi -ca­

ção. Cada dia um tem o seo trium­

pho. Empenha teo esforço para que

o triumpho seja de todos.

Lucta, cança, morre, mas ao tom­

bar, mesmo esmagado e vencido, ale­

gra-te com a esperança que, tua raça

colherá de teo sangue a flor de teos

sonhos . As grandes Utopias são flo­

res que só vicejam em sangue. Dá o

teo para que embora tardiamente ellas

sejam um dia realidades fructescentes.

O mundo carece desse sacri:ficio e desse

holocausto.

As idéas são fecundadas pelo san­

gue dos Martyres.

O mm1do não se convence só com

a pala,vra e com a razão. Ha entre

os homens uma vasa poderosissima,

estanque e immutavel, ha indivíduos

obstinados que mesmo vendo não cree;m,

que ouvindo esquecem, que sentindo

negam e só um meio existe de evitai­

os, anniquilalos para seguir avante.

Se as montanhas fossem respeitadas

quando poderia transpol-as a locomo­

tiva? Com o alvião, com a alavanca,

com a dynamite desfaçamos os obsta­

cuias, cavemos o tunnel, para ir-se

adiante. F oi preciso correr o sangue

de uma extensa litania de martyres

para que o homem conhecesse oideal ­

o Bem, que a espada, a forca, a gui­

lho~ina agissem para surgir essa flor

de sangue: a aspiração da liberdade

política.

O socialismo se debate nos comi ­

cios, nos pleitos, na imprensa, nos par ­

lamentos .. . talvez seja preciso a pro­

paganda-pelo-facto do anarchista, a

depredação pela dyn.amíte, explodindo

e fazendo ruir o edificio social, para

se conseguir o nivelamento da egual ­

dade economica.

Ha de chegar o dia em que os cru­

zados do bem, com a palavra, com o

exemplo, com a violencia se for pre ­

ciso, tragam ao mundo este extremo

em que o ideal humano se confunde

com a promessa divina: - a fraterni ­

dade moral.

A liberdade política não existe

ainda, a egualdade economica é uma

aspiração, a fraternidade moral é um

longínquo sonho ...

O esforço humano deve convergir

Rosa rnystica. 4

5o

para a realisação desses ideaes distan­

tes. O dia tardará, mas ha de vir.

A Verdade e a Justiça serão os

dois pólos da Terra, extremos desse

eixo omnipotentea SolidariedadeHu­

mana, a Paz choverá serenamente dos

ceos e sobre o rimndo florirá uma Ale ­

gria vivaz e imperecivel. Então só

faltará a Morte para integrar a per­

feição da Vida!

O VIANDANTE de­

sata um riso de iro­

nia caustica.

Bem. Já me diverti bastante. Vae

agora buscar quem te ature até a noite.

Mais juizo, meo velho, mais JUIZO ..•

Levanta-se e re­

toma, rindo sempre,

a estrada abando­

nada.

EGREGOR queda-se

entristecido e afas-

ta-se.

Tu chorarás ... está perdido ... está

perdido ...

Volta o velho af­

fiicto ao trabalho

interrompido, pen-

sando neste triste

espectaculo que de­

frentou. Sombras de

pensamentos tristes

passam ...

EGREGOR

É assim. . Está ahi a perfeição es­

tratificada de seculos, a resultante final

de uma longa lucta pela civilisação.

Este deploravel moço é o cimo sub­

tilisado do gosto, da sciencia, da phi­

losophia, da educação de uma epocha.

Insu:B.aram -lhe sciencias inuteis, artes

inproficuas, philosophias anniquilado­

ras, narracões obscenas e envenenadas

e depois ~ Sociedade, a impura cor­

tezan chegou-lhe aos labias o absintho

do prazer inficionado que sorveu até

as fézes. A religião instruiu-o na des­

crença, deslumbrando-o mais pela ex­

pectação apparatosa da sumptuosi ­

dade dos ritos que por verdades, ve­

ladas mysteriosamente; a moral es­

terilisou todas as nobres tendencias

naturaes, substituindo-as pelo egoísmo

arido; a sciencia levouo longe do

caminho das verdades uteis para mos­

trar-lhe a mira de improductivas e ocio-

4*

sas cogitações; a Arte occultou-lhe a

Belleza san e forte para ensinar-lhe o

r~quinte acrobatico da Forma Tortu­

rada; o Livro verteu n'a1ma a essen­

cia amarga do pessimismo; o prazer

impuro roeu a chaga do tedio.

O Coração ficou inculto e cresceram

no terreno sagrado, fadado ás aspira­

ções "" sublimadas, a zizania as pera, a

urtiga caustica, o cardo espinhoso . . .

Aprendeu a desdenhar porque os

desconhece, a dor silenciosa e o pranto

mudo, o sentimento terno e o amor

puro, a affeição simples e a emoção

sincera, a graça natural, o riso franco,

o orgulho nobre, o enthusiasm

dente, a admiração arroubada. E um

producto de estufa, vivendo n'atmo­

sphera artificial da convenção; um

aleijão monstruoso quando poderia ser

um homem forte e bom.

O corpo é desfibrado nas macera­

ções da sensualidade e na sobriedade

degradante da intemperança; o espí­

rito vitriolado por um mixto infernal

de venenos corrosivos.

Incapaz de um pensamento lucido e

de um feito altanado, o mal é som..:

bra constante que o segue por toda

a parte, até a Morte, visonha impla­

cavel que o apavora, como se a Na­

tureza quizesse lançar uma irrisão so­

bre o apparato artificioso de seo pes­

simismo. Está ahi a grande cultura

da Civilisação, o maravilhoso prodígio

que adultos-ingenuos de nosso tempo

.tanto encarecem. Dizei-me agora, vós

todos, Homens que semeaes as urzes

que hão de tornar impraticavel vosso

caminho, que cavaes fundo e fundo o

abysmo em que tereis sepultura, se

não s.erieis mais felizes ," voltando so­

bre vossos passos, retomando outro

caminho, desmontando o manequim

pretencioso para deixar o movimento

livre ao homem simples, são, forte,

procurando na terra o Bem e na Na­

tureza as alegrias inextinguíveis que

são o grande Segredo .

Para isso seria preciso incinerar o

vosso monstruoso egoísmo . .. .. . mas

eu bem sei que preferis antes a pro ­

pria Morte, a sombra que vos ame ­

dronta o animo pusilanime e a cruel­

dade covarde . . . Proseguireis, bem

sei ... mas um dia haveis de voltar ...

Meo :Qeus, permitti que ainda seja a

tempo! ...

Silencía melanco­

lisado apoiando-se

na enxada e volta

depois ao trabalho

amigo, achegando

terra aos troncos

das arvores.

ATMA

Pae! . .. Pae! . . .

EGREGOR

Procura-me . ..

ATMA apparece

guiando uma velhi ­

nha cega e tremula

e uma criança dis­

forme, roxa, entu­

mescida e chagada

pela lepra.

Pae, venho te mostrar os nossos vi-

sitantes . ..

EGREGOR dirigin­

dose á Velhinha

Cega.

Bôa tarde ... bôa tarde ...

A VELHINHA CEGA

Deus te dê tambem bôa tarde.

EGRFGOR

Resolveu sempre vir? Porque já não

veio? Minha porta esteve sempre

aberta . . . Teo filho tem saude?

A 'VELHINHA CEGA

Pobre filho! Trabalha sempre, nem

tempo tem para repousar um instante.

Vive lá a revolver a terra, semeando,

esperando e colhendo decepções e de­

senganos . .. Nem em casa encontra

um conforto para sua fadiga, vem

soffrer mais ainda, vem encontrar uma

velhice cançada, inutil, tacteando nas

trevas e rever o filhinho doente fu­

gindo da luz. Ah! senhor, a vida

cruel , a vida 'cruel! Meos olhos não

tem luz, mas como eu vejo tudo dis­

tinctamente . . . Ha uma segunda vista

da qual a gente não se cegá .. . Como

eu sinto a indezivel angustia de seo

olhar parado no filho amado, na pobre

velha cançada . . . Emmudece du­

rante - muito tempo, talvez para não

denunciar as lagrimas na voz . Mas

as mães adivinham . Para que ver a

dôr se a dôr se adivinha? Elle chora ...

lagrimas mudas longas, inconsolavel­

mente tristes . . . Uma noite ouvi a

treva soluçar . .. ergui-me tacteando pe­

los moveis, pelas paredes lento e lento

e fui surprehendel-o. Pobre filho,

buscava as trevas para chorar. Que

pranto triste o das trevas, meo Deus! .. .

E não pude dizer -lhe uma palavra . . .

chorei tambem. Se as lagrimas des ­

sem a luz e o consolo . . . mas não, ca­

da vez mais sinto maior a escuridão .. .

É que o soffrimento augmenta.

EGREGOR

Mas é preciso esperar sempre .

A vELHINHA CEGA

Sim, é preciso esperar . . . Espero . . .

que? . . . não sei bem , mas espero . . .

Talvez a paz no tumnlo. Ao menos

rezarei a Deus por elles . . .

EGREGOR

Sim, o seo dia chegará . . . As pro ­

vações são necessarias . A paz virá

para um e a saude para o outro .

A VELHINHA CEGA

Deus ouça estas palavras . A saude

para . o meo filhinho ! . . . Podia ser

tão forte, tão são como os outros ...

elle que é tão bom e tão manso! É

o guia da a vósinha cega. Os estra­

nhos repellem o seo mal; guardo-o só

para mim . Os estranhos fogem até

delle, as crianças quando o veem riem­

se do pobresinho. Como é cruel o riso

que insulta a dôr! ... Por isso afasto-o

dos outros, façoo viver para mim.

Vive opprimido, isolado, , definhando

talvez, mas muito peior é despertar

um pensamento triste, dar um mo­

mento máo aos outros. Para encher os

dias, conto -lhe historias encantadas

ou entôo uma cantiga lenta que o faz

adormecer.

EGREGOR

Deus lhe dará saude.

A VELHINHA CEGA

Sim terá pena do po bresinho .. .

senão, que vida triste meo Deus .. .

um homem repellido pela nausea dos

outros . . . A morte é bóa . .. eu terei

feito meos dias em pouco . . . mas o

po bresinho, senhor, que tal vez tenha

longos dias ! ...

Que existencia atormentada, fria e

trevosa . . .

EGREGOR

Não; Deus o sarará ... terá pena

delle ...

A VELHINHA CEGA

Deus te ouca. Falle um anjo por

tua bocca . . .'~se ao menos o~ desgra­

çados encontrassem sempre almas boas

assim . . . ComG as penas seriam cur­

tas!

Mereces bem a filha que tens, se­

nhor. Disse - me umas palavras tão

doces; eu vinha tão af:flicta ...

AnrA

Vinha chorando, Pae. Vi - a lá do

cimo da torresinha . . . Fui esperal -a

ao portão. Os soluços faziam sacudir

todo seo corpo e as lagrimas corriam

sempre. Tive muita pena della e cha ­

mei-a para a consolar . . .

EGREGOR

Que dôr te magua va?

A vELHINHA CEGA

Ah ! .Senhor ! São tão maus! ...

mas Deus os perdoará, dando -lhes u.m

coração compassivo . . . A Mizeria ha

Sg

muito tempo foi morar em nossa casa.

A casinha era já tão pequena para

nós tres e nossa Dôr! ... mas ella veio.

O pão foi minguando . . . Os velhos

não carecem de muito alimento, uma

migalha basta ... mas meo triste filho

que precisa de forças e meo pobre

pequeno chorando com fome? ...

Que agonia, meo Deus! Porque ha

de a dôr dos outros doer-nos mais

que a nossa? .. .

Muitas vezes foi preciso enganai-o

com uma cantilena para adormecer a

fome no somno .

Faltava-me uma resolução. Ha pelo

mundo muit'alma compassiva; terão

piedade de meo infortunio, pensei eu .

Foi assim que como remedio veio-me

a idea de. pedir uma esmola pelo amor

de Deus. Mas eu era cega .. . e quem

me guiaria? Serias tu, me o pobre

filhinho, meo arrimo ainda nesta via

dolorosa? Doeu-me muito arras tal-o

tão cedo á mendicidade. Mas a fata­

lidade ensinava que era preciso . Oc­

cultei meo pensamento a meo filho e

quando elle se foi ao trabalho sahi

com o pequeno. Caminhamos muito,

lentamente, um caminhar de cego

6o

arrastado pela mão até encontrar casas

Já visinho da cidade. ' Bati ás portq.s e pedi uma esmóla

por amor ele Deus .

Muitas se conservaram fechadas,

muitas não me escutaram, muitas não

me responderam.' Outras perguntaram

asperamente o que eu queria. Uma

esmóla por amor de Deus.

Outras respostaram á supplica; Deu.s

favoreça . Foram as melhores, ainda

bem. Mas assim mesmo . . . Ah se­

nhor l ... a caridade dos homens! quando

querem negar, dizem: "Deus favo­

reça!" Estas palavras são muito bôas

quando ditas numa voz mansa, doce,

unctuosa, mas lançadas sem alma, sem

piedade, num tom acre como respon- .

dendo a uma impertinencia . . . doem

muito . .. querem significar : vae-te, tu

és importuna . Eu bem sei, a Mizeria

é importuna, mas que fazer? . . . Deus

quer ass1m. Un.s logo que viam

meo filhinho afastavam-se receiosos.

Outros jogavam moedas de longe . É

a caridade covarde .. . senhor. Nosso

Senhor amou tanto a Lazaro e os ho­

mens desprezam tanto os infelizes .. .

Cospem quando os. veem passar e cor-

ÓI

rem apressados, proferindo injurias tal­

vez. É doloroso verter pragas sobre

os infelizes ... mas ha homens que não

conhecem ÇL piedade .

Seja tudo pelo amor de Deus ...

Mas isso não bastou ainda. Os me­

ninos agruparamse, os maos meni­

nos, e vendo a velhinha cega e inerme

e o netinho doente e impotente gri­

tavam muito de longe, num alarido

selvagem de vaia, atirando pedras.

Sei que a velhice é feia e a lepra é dis­

forme, mas a vaia é covarde e a pedra

impiedosa. Choravamos ambos. Re­

solvi voltar á minha triste casinha

onde me esperava a mizeria silenciosa

que não tinha para nós o insulto, a

mudez, o nojo, a palavra azeda, os

olhares constrangidos, a vaia, as

pedras. Que volta angustiosa, meo

Deus! Até o sol tinha brazas para

nós. A terra me queimava os pés

doídos.

E Deus fez o milagre, Deus fez o

milagre . . . Bem dito seja Deus! Lou­

vado seja o nome do senhor que fez

o milagre!

Uma voz doce, muito doce, cha­

mou-me . . . Pensei em Maria, a Vir-

gem Santa . . . Ella devia ter a voz

doce assim .

Era tua filha, senhor. Fomos con­

duzidos a uma sombra amiga, a teo

tecto. Sejas bemdita minha Filha!

O rosto de ATMA

consternado e af­

flicto illuminase de

uma alegria inten­

sa ... Um sorriso

divino, a luz dessa

benção commovida

expunge a magua

de lagrimas recen­

tes.

A VELHINHA CEGA

Beijou os labias de meo filhinho, sim

ella, a pura e santa ao lazaro ferido

de quem os homens contaminados fu­

giram ...

Lavou-me os pés . . . A santa mão,

tão pequena e tão doce curou as feri­

das que a terra ardente rasgou. Dizem

que Jesus lavou tambem os pés can­

çados dos pobres. Depois nos deu o

pão. Na minha treva senti que meo

filhinho ria. O pobresinho tinha fome.

Mudou-lhe a roupa. Nós não tere­

mos frio hoje. Deu-lhe . até brincos .. .

deu-lhe tantas coisas. Quando meo

filho entrar em casa e nos vir tão con­

tentes e o tono de um conforto em

nossos rostos pensará que uma bôa

Fada passou lá pela casinha humilde .

Eu lhe direi que fbi Maria, a Virgem

Santa.

E quem saberá repetir as palavras

de amor que ella nos disse? nunca a

dôr humana ouviu mais alentadoras .. .

Dá, filha, dá sempre o consolo destas

palavras doces á pobre velhinha .. .

EGREGOR

Ella irá dizel-a!'l. E tu minha velhi­

nha não vas pedir mais

aos homens.

A cidade é distante e teo filhinho se

cançará. Aqui mais perto encontrarás

amigos, terás quem te ame, a teo filho

e a teo netinho.

A v ELHINI:lA CEGA

Ah! senhor ! tu és a Providencia.

Deus te pague . Deus abençõe e torne

bemaventurados tu e tua filha! Deixa­

me beijar tua mão . . .

EGREGoR, enternecido

Não, minha irman . . . minha mão

não é digna ... Deixa-me antes bei­

jar a tua ...

A VELHINHA CEGA

A minha é mais velha, mas a tua

é melhor, a tua faz o bem.

EGREGOR

Não, não . . . mas a tua é pura

(beija-lhe a -mão ntgosa) Deus derrame

a alegria em tu' alma!

ATllu, beijando

tambem a mão tre­

mula da cega.

Deus te ajude e aos teus, minh'a­

vósinha!

A VELHINHA CEGA

Deus os abençõe! .. . São tão bons!

Pedirei a Elle por vós ...

o LAZARO

Adeus Santa! Adeus Senho1:! OPae

dos Céo os ajude!

A Velhinha ar­

rasta-se pela mão

do pequeno. ATMA

ajuda - os e os leva

até o portão.

EGREGOR, triste e

SÓ.

Pobre gente! Vida Cruel! ...

AT:M:A reapparece

só, com um veo de

tristeza sobre os

olhos humidos, ves-

tigiando lagrimas

recentes .. .

EGREGOR vendo-a

approximar-se.

Pobre gente ./ . . . Como é cruel o

soffrimento humano!

ATll-rA, ainda com­

movida.

Sim, como é cr-uel o soffrimento hu­

mano! Nunca imaginei uma rnagua

tão funda . . . nem chorei lagrimas tão

longas e tão amargas .. . Um senti­

mento novo, nunca experimentado agi­

tou até as raizes occultas ela Alma

meo ser inteiro. Não foi a farpa elo

Üdio aggressivo dirigida contra os

auctores desta perversidade inaudita,

foi um'exaltação fervorosa e crescente

de Piedade e de Amor pelas victimas

de tanta Violencia e tanta Ferocidade:

Rosa mystíca.

o sentimento de não poder reparar

toda esta profunda Injustiça humana.

E lá do cimo da Paixão onde se perde

a sensação mesquinha da Realidade,

eu contemplei a Immensa Dôr Humana

e beijei-a num extase mystico atravez

dos lalDios ulcerados do leproso, cui­

dand'l verter sobre a chaga repellida

e insultada o balsamo divino de uma

repaJTação.

Porque sentimento infernal de Im­

piedade o homem que vê cair esma­

gado pela Fatalidade seo irmão, con­

sente que se interne mais no ventre

do precipício, quando podia estender

a mão e reerguel-o?

Porque não se hade enflorar e fron­

descer miraculosamente a Arvore do

Bem no coração humano, aspergindo

sobre a Dôr o balsamo de uma essen ­

cia preciosa e vulneraria?

É pois uma cruel certeza que a Cari­

dade sobre a Terra é uma virtude atro­

phiada, um fructo murcho e pêcco do

qual nada ha mais a esperar?

EGREGOR

Bem disseste, a Caridade é um fructo

definhado. Mas crês que mesmo sazo -

nado bastasse como o anodyno á Dôr

humana?

Embora ella existisse na plenitude

de sua maturidade, seria assim como

um minguado regato incapaz de abe­

berar o extenso areial sedento da Mi­

zeria .

O ideal evangelico da salvação do

homem pela Caridade falhou. E assim

devia sel-o. Aos visionaríos, embahi­

dos na illusão altruística, que cuida­

ram achar a decifração da monstruo sa

sphynge, um apostolo illuminado do

mundo moderno antepoz um novo

içleal mais nobre: o da Justiça Re­

demptora.

A Caridade como o palliativo para

a dôr humana é um triste remedio, de

pequena efficacia, de um effeito passa­

geiro, venerada talvez pela intenção

generosa, mas estreita d'aquelle que

a semeou pelo mundo; como ideal so­

lução do problema humano seria uma

calamidade iniqua porque sanccionaria

a monstruosa lei que divide os ho­

mens em afortunados e soffredores .

Não, isso seria justificar a viol?-ção

odiosa da organisação social em que

todos os homens tem uma somma

5 *

egual de direitos; seria mentir a affini­

dade collectiva da Humanidade que

reuniu os homens sob a égide .pro­

teetora da Solidariedade .

Porque pois, senão por um crime

que se perpetra ha myriades de annos

sobre a face Q.a Terra e que o ideal

da Caridade Salvadora pretendia per­

petuar, uma parte da humanidade se

alcandora em um'eminencia mentirosa

e com'um dom de sua magni:fi.cencia

e de sua grandeza, estranho ao dever

que a estultice desconhece, lança es­

mólas á outra , parte que foi esmagada

na lucta e que lidou a seo lado?

Na aggremiação humana formada

pela colligação ele interesses mutuos

ele defeza e auxilio na lucta pela vida,

os individuas tem pelo proprio facto ele

su'inclusão no seio social, os mesmÓs

direitos e deveres, os mesmos proven­

tos. e prejuízos, que resultarem ao todo,

a somma em fim das responsabilida­

des inherentes ás prer"ogativas rece ­

bidas .

Como, pois, não prestar aos nossos

auxiliares ele ho,ntem o apoio que sua

velhice cançacla, suas energias venci­

das, seo organismo desfeito pela mo-

6g

lestia carecem hoje? Em nome de quem

existem o Luxo e a Miseria, a prepo­

tencia qu'esmaga e o estomago qu'es­

móla?

Em nome da Força, a lei natural

soberana e invencivel responde um

sophisma forjado no inferno ... Mas

vós mentis, exploradores vis!

A victoria não foi ganha pela vossa

força, foi uma conquista social, a re­

sultante d'esforços congregados e que

só a vós aproveitou porque a mentira

e a má fé vos levaram até o fim, em­

quanto vossos companheiros tombaram

feridos no campo sanguinoso. A Jus ­

tiça Inflexível ::;entenda bem alto que

os invalidados na lucta antes da vic­

toria, tem como os, vencedores direito

aos louros e aos. despojos.

O sonho evangelico apontand9 a

Caridade como solução ideal do enigma

humano, appellando ,para a generosi­

dade dos venturosos qu'em troca de

beneficios prodigalisados receberiam

o premio da salvação eterna é neste

sentido a mais iníqua perversidade

que o homem já imaginou, porque é

a sancção çle um' extorsão, de uma

violencia.

,-

Sequencia natural de um utopismo

degradado qu'invertendo os valores

fez dos ultimas os primeiros, que creou

um ceo para os pobres d'espirito, en­

deosou a ociosidade n0 desprendimento

e no ascetismo e aviltou o homem no

preconicio da humildade, religião de

pusilanimes e d'escravos, a solução do

problema economico não podia ser se­

não esta transação espuria da Caridade.

Não: é preciso apagar da memoria

humana a Generosidade e substituil-a

pelo Dever, odiar a Caridade por amor

da Equidade, trocar o Egoísmo que

theorisa em leis o Mal pelo reconheci­

mento da Solidariedade Humana que

trará todos os bens sobre a Terra.

A Caridade humilhante, que a mão

dadivosa dos felizes semêa com'uma

ostentação de seo altruísmo, regeite-a

a Mizeria para exijir da Justiça a So­

lidariedade basica, a satisfação da

clausula reparadora.

A astucia e o roubo que possuem

milhões, que exploram milhares de

homens levando-os caminho da mize­

ria e levantam hospitaes para acolhe­

rem alguns infelizes, não são philan­

thropos generosos dignos . de um' alta

sagração mas simplesmente ladrões

execraveis que illudem a Humanidade

abrigados pelo erro evangelico que

trouxe sobre o mundo uma cegueira

de tantos seculos.

Não é atirando um punhado de ouro

para o ventre do abysmo que se had'

enchei-o: é abatendo as montanhas

que a Improbidade injusta levantou,

trazendo o nivelamento primitivo e

impedindo de se reerguerem para todo

o sempre ...

A nu

Sim tens razão: é a Justiça que nos

falta, só ella pode trazer á Terra o

equilíbrio da Felicidade e a alegria

da Paz .

EGREGOR com um'

outra idéa a lhe as­

saltar a mente .

E viste como a pobre gente soffre

resignada? Como são simples, sem as

aspirações perversas, sem as desfallen­

cias criminosas dos todo-poderosos do

mundo?

ATMA

A Dôr purifica e afina a Alma das

màculas azinhavradas que a corrupção

mundana estampou no homem. Quanto

mais soffrem mais perfeitos e mais di­

gnos são da vida melhor que a Jus­

tiça lhes reservou e que o Egoismo

Humano afasta cada vez mais.

EGREGOR

Emquanto acolhias a velhinha sof­

fredora, um viandante de ros.to tor­

mentado, olhar enfebrecido, labias

crispados, a individuação da Magua

estacionou aPi_ em meio da estrada.

Não sei p01:que mysteriosa concor­

dancia o acaso permittiu-me em dois

instantes visinhos contemplar um con­

traste tão violento. Como differem as

duas 'mizerias que eu vi, minha filha!

Interroguei a afflicção q-ue torturava

sua physionomia juvenil, o tom de de­

salento qu'ennuveava seo gesto, ap­

proximei-me depois cúidando poder

verter n' Alma exulcerada o anodyno

de uma palavra amiga.

Deu-me ape:J?.aS respostas áridas es­

condendo o mal secreto que o roia:

foram sons as1::íeros, fel qu'esbra zêa

labias, ironias farpeadas e até abomi ­

nações que degradam . É preciso que

se tenha attingido o extremo da oxy­

dação moral P:=tra pensar e proferir

certas palavras. Elle m'as disse. Atra­

vez dellas pude comprehender que te­

nebroso passado tinha percorrido e

que dias d' enscenação perversamente

tragica .d' infamia co, arde o esperam

no futuro.

A santidade d'alma é flôr prodigiosa,

magnolia de uma contextura delicada

que um pensamento impuro pode tisnar

como o menor contacto irreverente

degradar perpetuamente. O perdão

pode ser obtido pela contrição das

lagrimas, a pureza perdida não vol­

tará jamais .

' Assim ha molestias da alma que

nunca se curam, qu'infectam e conta­

minam até . as intimidades profundas

do ser; para ellas não existe a rege­

neração porque o meio unico ., o das

lagrimas, é trilha que a impudencia

perdeu. Estes infelizes transmudam-se

em um :f:lagello portador de desgraças

sementéando o mal e a aridez por onde

passam . Se o caminho é juncado d'ini­

quidacles, per:fi.dias, perdi~ões, impre­

cações, blasphemias. O riso queima,

o olhar agonia, a gesto esterilisa, as

mãos depredam, o contacto corrompe

e a bocca, mesmo quando se abre

n'uma palavra nobre, profere um at­

tentado sacrilego, visa uma per:fidia

satanica .

A Natureza opulentou - o de todas

as magni:ficencias de seos dons e a

Civilisação contemporanea apurou - se

em dar - lhe todos os requintes que

transformam o homem, a boa argila

primitiva numa perfeição monstruosa­

mente perversa . Entretanto porque

o mal não pode ser senão a origem

ele um outro mal, elle prop rio é con­

sumido pelas chammas que ateia. A

propria voz acompanha o côro de mal­

dições que lhe dirigem.

Aqui agora viste o amplo estuario

em que a Natureza despejou tocl'a sua

vasa, em que a Sociedade verteu tocl'a

onda amarga ela Injustiça e ela Im­

piedade, não conseguindo, muit'em ­

bóra, submergir os altos cimos elo Sen­

timento Nobre e do Pensamento Illu ­

minado que dignificam a personalidade

humana. Alguns instantes que dei ao

moço torturado confrangeram -me o ser

inteiro, as palavras que disse á pobre

velhinha enterneceram o coração, hu-

medeceram os olhps e fructesceram

n'almaPensamentosSublimados. Existe

a lepra do Corpo e a do Espirito; uma

é repellida pela Impiedade humana, a

outra envenena a Humanidade inteira.

Só isto bastaria para decidir qual a

mais execravel.

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