Rosa mística - II
Rosa mística - II
uma sombra amiga e um tecto hospe
deiro que te acolherá. O sol doe
tanto . . . e estás tão desfeito . ..
0 -VIANDANTE
Não . . . de nada careço
gmre1.
EGREGOR
prose-
Porque este amargo desconforto?
que te falta, nieo filho?
o VIANDANTE
Não sei; ... a vontade ...
EGREGOR
Que soffres?
o VIANDANTE
Não sei; ... a vida ...
EGREGOR
Falta acaso o alento para a lucta,
esse fogo que roboresce as almas for
tes e lhes dá a victoria na vida?
o VIANDANT,E
Deixa-me ... és um louco, um
visionario; acreditas na victoria da
vida ...
EGREGOR
Para que fallas assim, tu que não
sentiste ainda a vida, que ainda não
soffreste?
o VIANDANTE
És velho e não comprehendeste já
qu~ a Dôr é insuperavel, que todo
esforço é inutil e que é na renuncia da
lucta que se acha o Bem na terra?
EGREGOR
' Quem te plantou n'Alma esse nihil
isrno atroz, esta desillusão aspera que
esterilisa o homem?
. o VIANDANTE
Que importa? . . . Frontes enneve
cidas na cogitação das coisas actuaes,
Almas maceradas improficuamente no
soffrimento, boccas tG>rcidas por um
travo amargo, mas que não mentem ...
E eu senti a verdade e fujo do mundo
porque ali mora a Dôr.
EGREGOR
Enganas-te; meo filho. Busca a agua
viva lustrai da redempção para lavar
esta mácula com que te sujaram, esta
~ * J
JÓ
peste que te queima e que os !azara
dos te contaminaram .
És moço. És forte. Tem animo.
Caminha. A lucta é dolorosa, mas a
inercia é covarde; a uma segue a ale
gria radiosa do triumpho, a outra tem
o desespero infinito do tedio.
Conserva religiosamente em teo peito
como um ' velaria sempre acceso, uma
alegria para illuminar um instante do
loroso.
Quando a Dôr te assaltar ep1 teo
caminho, soluça e chora, mas não de
sesperes nunca; esse pranto amargo
fará brotar uma confiança mais impe
tuosa ainda e um' alegria serena te
transfigurará.
É a Dôr qÚe afina a Alma das
oxydações torruptoras. O Soffrimento
Humano é a fornalha ardente que de
pura, comburindo-as, todas as peque
nina s fraquezas, lia vil de nosso caracter.
São quantidades necessarias da equa
ção humana. Deve ser assim.
Não vês que os dias mais luminosos
succedem sempre ás noites mais escu
ras e que as estrellas luzem ma1s
quando engastadas em uma treva
densa?
o VIANDANTE
És um velho demente. Não sentiste
que a vida é uma longa noite tormen
tosa e que o dia luzente de que falias
só existe no Nada?
E GREGO R
Elles te enganaram, meo filho. Es
queceos e amaldiçôasos, porque te
envenenaram a Alma .
o VIANDANTE
Eu já comprehendi a vida como
aquell' Alma inspirada que pensou o
Ecclesiastes: "Tudo é vaidade e affiic
ção d' espírito.';
EGREGOR
Não. A vida é um dom inestima\ rel
que os homens transformaram em uma
dôr continua; forcejemos para tor
naia uma alegria eterna. E porque
não serás um operaria dessa transmu
tação? É o teo dever. É o dever dos
que vivem. A renuncia á lucta é a
continuação da Dôr e tu que és moço
e forte bem podes empenhar a tua
vontade para um dia a.ttingirmos o
iqeal. .'
o VIANDANTE
Mas se todo esforço é doloroso, . se
a vida é uma Dôr continua para que
devo eu quebrar as minhas energias
e depois cançado e soffredor, morrer
de mizeria e de dó tendo embora
n'alma a esperança chimerica de um
triumpho remoto?
EGREGOR
És egoísta e máo. Recusas o teo
valor, porque não tens a certeza de
triumphar nos dias de uma vida pre
caria; ama,ldiçôas um dom que des
conheces e que poderias tornar me
lhor . . . tu que nunca soffreste, que
nunca encontraste o mal.
E se queres um premio, que melhor
premio, se ao Be:n;J. não basta bem
fazer, que viver immortal nas paginas
do grande Leccionario onde a Historia
guarda inalteraveis as essencias pre
ciosas de Augustas Memorias, ter o
nome insculpido na frontaria solemne
do Templo que a Idolatria destinava aos
Deuses e aos Santos e que a Justiça
reservou aos que illuminam a trilha
ensombrada á Humanidade, aos Uteis
á sua progressão atrave~ das edades?
Contempla o mundo: ahi encontrarás
muita dor ' silenciosa, muito pranto
mudo, muitas Almas a quem a For
tuna nunca sorriu um dia, a quem a
Fatalidade perseguiu sempre infati
gavelmen.te, para quem a natureza foi
impiedosa e roubou a integridade phy
sica e deu chagas e dores aos membros
defor .mados, e que entretanto, simples
porém energicos, forcejam noite e dia
no afan da lucta incessante tendo
sempre no mais acerbo de seo soffri
mento um clarão de esperança, con
:fiando sempre nesse a11zanhmz impene
travel: Seos labias nunca se fenderam
numa imprecação queixosa nunca amal
diçoaram a natureza, nunca blasphe
maram injurias violentas; são humil
des, são resignados, soffrem sempre
mas esperam sempre . Não vês ao
longe n'aquella erma solidão um vulto
humano vivificando a paizagem deso
lada? É um velho curvado sobre a
enxada, cançado e soffredor. mas in
vencido. Foi moço e foi forte, teve
saúde e beijou muitas boccas ,- teve
alegrias e gerou muitos :filhos .. . hoje,
tem sessenta annos, está cancado, sem
forças, minado pela molesti~, morre-
ram -lhe quasi os affectos, no seo cora
.ção enxameiam cruzes mortuarias, tem
uma pobre mãe, velhinha e cega e
um pobre filho, um lazaro disforme;
a mizeria bateu-lhe ás portas . .. mas
continúa lá na lida fadigosa , sempre
o mesmo . As aves do ceo rouqam-lhe
as sementes das covas, a terra ingrata
e esteril afoga a semente em seo seio,
o sol, que derrama a fecundidade para
todos, cresta-lhe as plantinhas que vin
garam . .. . . mas elle é sempre o mesmo,
imagem viva do Soffrimento Humano,
symbolo mudo da Resignação Activa,
nunca deixou abrirem-se os labias num
grito de maldição, nunca renunciou á
vida dolorosa e quando semeia, uma
esperança lhe illumina o rosto . Confia
nessa roesse abundosa da Redempção
que sua Vontade lhe promette ...
Como, pois, começas a v iver desa
lentado, sem animo, sem energias, me
droso e covarde, recusando -te ao dever,
á obra ingente a que és associado?
Que fizeste até hoje por ti e por teos
irmãos?
o VIANDANTE
Eu?! ... fazer o que? Que devo ao
mundo para me sacrificar a elle e lhe
entregar minhas forças? Para vel-as .
desfeitas, impotentes, impro:ficuas? ...
EGREGOR
Assim diz o egoísmo, a avareza pe
quenina de uma vida mesquinha, assim
devem dizer o parasita e o verme que
se apegam a um organismo exi:ranho
para delle sugar a vida, os que pro
curam expoliar, arrancar, devastar sem
um esforço para a obra de recons
trucção, sem uma lembrança terna
para os que no passado lhe prepara
ram a vida, sem um olhar agradecido
e compassivo para os que no presente
buscam na terra uma alegria inextin
guível. Despe esta lepra que te afasta
dos homens, porque egoísta mesquinho
e covarde, tu é que és o máo e o
desprezível, porque és o inutil. Em
vez desta tristeza sombria que te de
vora e que te anihilará, obscuro e
esquecido, levanta e caminha trans
figurado no apostolo da Esperança,
erradiando em derredor de ti a luz
divina do Bem e deixando na memoria
do Tempo o rastilho de uma Sagra
ção Immortal.
\
Faze a terra sáfara cobrir-se de fruc
tos, a agua viva brotar dos rochedos
adustos, a fé luminosa boiar no olhar
affiicto e o riso florescer sobre os la
bios torcidos.
Semêa o bem pela tua estrada; elle
resurgirá cristalisado numa alegria
cantante. O maio _r prodígio elo mundo,
mira digna ele um esforço titan ico,
consiste em fecundar a aridez, extrahir
da magua o riso e buscar a vida no
proprio seio da morte.
É a bella missão . E a Alma Enthu
siastica não carece para a jornada
difficil mais que um Viatico :-a Es
perança.
o VIANDANTE
Pobre velho louco ... tuas palavras
são vans; o vento as varre; nenhum
echo as repete; eu as esqueço ... per
des o teo tempo .. .
EGREGOR
Não impo r ta ... continuarei . . . Di
zes-me uma palavra? Que esperas de
te o nihilismo, de tua renuncia?
o VIANDANTE
A Paz . ..
EGREGOK
A Paz só existe para os que lucta
ram. Tu abandonas a lucta e covarde
fugitivo procuras a quietação e o re
pouso . . . Sabes o que te espera? O
Tedio ' . Sabes o que é o Tedio ...
Ü, V !ANDANTE
Um monstro que devora homens
vivos .. .
EGREGOR
Homens não, transfugas inertes . Elle
te espera .
o VIANDANTE
Abrindo os labios
num sorriso ironico.
Eu o esperare i . ..
EGREGOR
E quando elle te atormentar?
o VIANDANTE
Procurarei nos prazeres, no amor,
a alegria de um esquecimento para o
meo Tedio. O meo philosopho disse
me: "o homem coisa nenhuma ten1
melhor debaixo do sol, do que comer,
beber e alegrar -se"; "goza da vida
com a mulher que amas".
EGREGOR
11as estes prazeres, este amor cus
tam esforços e sacrificios inauditos . O
amor que tu conheces é o Arnor-odio
tedio, adio .irnplacavel, velado embora
por urna apparencia feliz. As hyenas
têm tarnbern UI!l riso, riso feroz quando
afiam os dentes para cravar na presa.
É feito de estos, arroubos, violencias,
convulsões, suspeitas, duvidas, desespe
ros, r~crirni:t:ações, espasmos, desfalle
cirnentos. E o prazer esteril, ator
mentado, cançado mas insaciavel, uma
contorsão epileptica do adio, que co
meça n'uma aspiração fa:llaz, miragem
allucinatoria de uma felicidade dese
jada e termina na realidade impassí
vel do esgotamento desconsolador do
Tedio.
O amor que tu conheces é o amor
odio -tedio.
Não conhecerás o amor innocente,
sereno, radioso, o amor fecundo que
cria, que propaga, dissem ina e esparge
sobre a Humanidade a florescenc ia
feliz de todos os gosos .. .
O teo de mundano complicado é o
amor -odio -tedio .
E todo o di o é uma lucta, lucta ac-
cesa e violenta, mais soffredora que
aquella que abandonas no mundo. A
esta seguir-se -á a paz serena da ale
gria victoriosa, a outra, a do amor
terá como termo o tedio da saciação,
o desgosto do esgotamento, o mesmo
odio ainda, mas já sem a mascara
mentirosa.
O o di o e o tedio - a dôr sem remis
são-eis o que te espera. E preferes
os soffrimentos improficuos? As lagri
mas inuteis são as mais amargas ...
O VIANDANTE
Quando um amor me aborrecer, bus
carei outro amor, um outro mais, mais
amores ainda . Uns curarão as feridas
dos outros .
EGREGOR
E as almas soffredoras que enga
nardes para alcançar um bem men
tido e q ue deixarás mizeraveis depois?
o VIANDANTE
Que importa? Soffram. A v~da não
é uma dor continuada? .. . Basta - me
que eu pense em mim.
EGREGOR
Oh! tu 'és abominavel, máo, infame! ...
ae, vae te o caminho ! . . .
Pallido e tremu lo
afasta-se apressada
mente murmurando .
Está perdido ... a peste o devora .. .
está perdido . . .
VIANDANTE
Ri-se do effeito de
suas palavras e sen
tindo -o affastar - se,
chama -o.
Velho ! . .. velho! .. . volta . . . nem
tudo está perdido ainda. V em, diz-me
mais algumas palavras de fé .
EGREGOR voltan
do-se em sua direc
ção.
Não . .. não ... tu estás perdido . ..
O VrANDANTE in-
sistente.
em . . . vem . . . és um homem bom.
Dá-me mais uma palavra amiga, um
conselho.
EGREGOR
Já te disse tudo. Não ha mais nada ...
o VIANDANTE
E recusas por um momento, por
algumas palavras salvar talvez uma
Alma? (d parte) Estes termos vasios
de sentido exercem sempre uma grande
influencia sobre os ingenuos. Elle virá.
EGREGOR volta e
fita-o suspeitoso.
Não queres rir de um velho rude,
mas sincero? Não sena nobre.
o VIANDANTE
Não, não sou tão vil . ..
Falia-me mais. Diz-me agora o que
deveria eu fazer; uma rota a seguir,
mostra-me ...
EGREGOR
Já disse tudo ... Entrega ,•as reve
lações da Energia em ti accumuladas
á obra que os teos maiores te deixa
ram ... Congrega-te aos homens de
bôa vontade para destruir os o bices
que atravancam o trilho por onde a
Humanidade terá de enveredar no Fu
turo. Conheces os Revoltados? É
delles que dependem todas as trans
formações sociaes, porque são os que
não se curvam nunca ás abominações
..j-8
dos homens e insurgidos contra a l\1en
tira buscam o dia em que possam can
tar a Ode Triumphal da Reivindi -ca
ção. Cada dia um tem o seo trium
pho. Empenha teo esforço para que
o triumpho seja de todos.
Lucta, cança, morre, mas ao tom
bar, mesmo esmagado e vencido, ale
gra-te com a esperança que, tua raça
colherá de teo sangue a flor de teos
sonhos . As grandes Utopias são flo
res que só vicejam em sangue. Dá o
teo para que embora tardiamente ellas
sejam um dia realidades fructescentes.
O mundo carece desse sacri:ficio e desse
holocausto.
As idéas são fecundadas pelo san
gue dos Martyres.
O mm1do não se convence só com
a pala,vra e com a razão. Ha entre
os homens uma vasa poderosissima,
estanque e immutavel, ha indivíduos
obstinados que mesmo vendo não cree;m,
que ouvindo esquecem, que sentindo
negam e só um meio existe de evitai
os, anniquilalos para seguir avante.
Se as montanhas fossem respeitadas
quando poderia transpol-as a locomo
tiva? Com o alvião, com a alavanca,
com a dynamite desfaçamos os obsta
cuias, cavemos o tunnel, para ir-se
adiante. F oi preciso correr o sangue
de uma extensa litania de martyres
para que o homem conhecesse oideal
o Bem, que a espada, a forca, a gui
lho~ina agissem para surgir essa flor
de sangue: a aspiração da liberdade
política.
O socialismo se debate nos comi
cios, nos pleitos, na imprensa, nos par
lamentos .. . talvez seja preciso a pro
paganda-pelo-facto do anarchista, a
depredação pela dyn.amíte, explodindo
e fazendo ruir o edificio social, para
se conseguir o nivelamento da egual
dade economica.
Ha de chegar o dia em que os cru
zados do bem, com a palavra, com o
exemplo, com a violencia se for pre
ciso, tragam ao mundo este extremo
em que o ideal humano se confunde
com a promessa divina: - a fraterni
dade moral.
A liberdade política não existe
ainda, a egualdade economica é uma
aspiração, a fraternidade moral é um
longínquo sonho ...
O esforço humano deve convergir
Rosa rnystica. 4
5o
para a realisação desses ideaes distan
tes. O dia tardará, mas ha de vir.
A Verdade e a Justiça serão os
dois pólos da Terra, extremos desse
eixo omnipotentea SolidariedadeHu
mana, a Paz choverá serenamente dos
ceos e sobre o rimndo florirá uma Ale
gria vivaz e imperecivel. Então só
faltará a Morte para integrar a per
feição da Vida!
O VIANDANTE de
sata um riso de iro
nia caustica.
Bem. Já me diverti bastante. Vae
agora buscar quem te ature até a noite.
Mais juizo, meo velho, mais JUIZO ..•
Levanta-se e re
toma, rindo sempre,
a estrada abando
nada.
EGREGOR queda-se
entristecido e afas-
ta-se.
Tu chorarás ... está perdido ... está
perdido ...
Volta o velho af
fiicto ao trabalho
interrompido, pen-
sando neste triste
espectaculo que de
frentou. Sombras de
pensamentos tristes
passam ...
EGREGOR
É assim. . Está ahi a perfeição es
tratificada de seculos, a resultante final
de uma longa lucta pela civilisação.
Este deploravel moço é o cimo sub
tilisado do gosto, da sciencia, da phi
losophia, da educação de uma epocha.
Insu:B.aram -lhe sciencias inuteis, artes
inproficuas, philosophias anniquilado
ras, narracões obscenas e envenenadas
e depois ~ Sociedade, a impura cor
tezan chegou-lhe aos labias o absintho
do prazer inficionado que sorveu até
as fézes. A religião instruiu-o na des
crença, deslumbrando-o mais pela ex
pectação apparatosa da sumptuosi
dade dos ritos que por verdades, ve
ladas mysteriosamente; a moral es
terilisou todas as nobres tendencias
naturaes, substituindo-as pelo egoísmo
arido; a sciencia levouo longe do
caminho das verdades uteis para mos
trar-lhe a mira de improductivas e ocio-
4*
sas cogitações; a Arte occultou-lhe a
Belleza san e forte para ensinar-lhe o
r~quinte acrobatico da Forma Tortu
rada; o Livro verteu n'a1ma a essen
cia amarga do pessimismo; o prazer
impuro roeu a chaga do tedio.
O Coração ficou inculto e cresceram
no terreno sagrado, fadado ás aspira
ções "" sublimadas, a zizania as pera, a
urtiga caustica, o cardo espinhoso . . .
Aprendeu a desdenhar porque os
desconhece, a dor silenciosa e o pranto
mudo, o sentimento terno e o amor
puro, a affeição simples e a emoção
sincera, a graça natural, o riso franco,
o orgulho nobre, o enthusiasm
dente, a admiração arroubada. E um
producto de estufa, vivendo n'atmo
sphera artificial da convenção; um
aleijão monstruoso quando poderia ser
um homem forte e bom.
O corpo é desfibrado nas macera
ções da sensualidade e na sobriedade
degradante da intemperança; o espí
rito vitriolado por um mixto infernal
de venenos corrosivos.
Incapaz de um pensamento lucido e
de um feito altanado, o mal é som..:
bra constante que o segue por toda
a parte, até a Morte, visonha impla
cavel que o apavora, como se a Na
tureza quizesse lançar uma irrisão so
bre o apparato artificioso de seo pes
simismo. Está ahi a grande cultura
da Civilisação, o maravilhoso prodígio
que adultos-ingenuos de nosso tempo
.tanto encarecem. Dizei-me agora, vós
todos, Homens que semeaes as urzes
que hão de tornar impraticavel vosso
caminho, que cavaes fundo e fundo o
abysmo em que tereis sepultura, se
não s.erieis mais felizes ," voltando so
bre vossos passos, retomando outro
caminho, desmontando o manequim
pretencioso para deixar o movimento
livre ao homem simples, são, forte,
procurando na terra o Bem e na Na
tureza as alegrias inextinguíveis que
são o grande Segredo .
Para isso seria preciso incinerar o
vosso monstruoso egoísmo . .. .. . mas
eu bem sei que preferis antes a pro
pria Morte, a sombra que vos ame
dronta o animo pusilanime e a cruel
dade covarde . . . Proseguireis, bem
sei ... mas um dia haveis de voltar ...
Meo :Qeus, permitti que ainda seja a
tempo! ...
Silencía melanco
lisado apoiando-se
na enxada e volta
depois ao trabalho
amigo, achegando
terra aos troncos
das arvores.
ATMA
Pae! . .. Pae! . . .
EGREGOR
Procura-me . ..
ATMA apparece
guiando uma velhi
nha cega e tremula
e uma criança dis
forme, roxa, entu
mescida e chagada
pela lepra.
Pae, venho te mostrar os nossos vi-
sitantes . ..
EGREGOR dirigin
dose á Velhinha
Cega.
Bôa tarde ... bôa tarde ...
A VELHINHA CEGA
Deus te dê tambem bôa tarde.
EGRFGOR
Resolveu sempre vir? Porque já não
veio? Minha porta esteve sempre
aberta . . . Teo filho tem saude?
A 'VELHINHA CEGA
Pobre filho! Trabalha sempre, nem
tempo tem para repousar um instante.
Vive lá a revolver a terra, semeando,
esperando e colhendo decepções e de
senganos . .. Nem em casa encontra
um conforto para sua fadiga, vem
soffrer mais ainda, vem encontrar uma
velhice cançada, inutil, tacteando nas
trevas e rever o filhinho doente fu
gindo da luz. Ah! senhor, a vida
cruel , a vida 'cruel! Meos olhos não
tem luz, mas como eu vejo tudo dis
tinctamente . . . Ha uma segunda vista
da qual a gente não se cegá .. . Como
eu sinto a indezivel angustia de seo
olhar parado no filho amado, na pobre
velha cançada . . . Emmudece du
rante - muito tempo, talvez para não
denunciar as lagrimas na voz . Mas
as mães adivinham . Para que ver a
dôr se a dôr se adivinha? Elle chora ...
lagrimas mudas longas, inconsolavel
mente tristes . . . Uma noite ouvi a
treva soluçar . .. ergui-me tacteando pe
los moveis, pelas paredes lento e lento
e fui surprehendel-o. Pobre filho,
buscava as trevas para chorar. Que
pranto triste o das trevas, meo Deus! .. .
E não pude dizer -lhe uma palavra . . .
chorei tambem. Se as lagrimas des
sem a luz e o consolo . . . mas não, ca
da vez mais sinto maior a escuridão .. .
É que o soffrimento augmenta.
EGREGOR
Mas é preciso esperar sempre .
A vELHINHA CEGA
Sim, é preciso esperar . . . Espero . . .
que? . . . não sei bem , mas espero . . .
Talvez a paz no tumnlo. Ao menos
rezarei a Deus por elles . . .
EGREGOR
Sim, o seo dia chegará . . . As pro
vações são necessarias . A paz virá
para um e a saude para o outro .
A VELHINHA CEGA
Deus ouça estas palavras . A saude
para . o meo filhinho ! . . . Podia ser
tão forte, tão são como os outros ...
elle que é tão bom e tão manso! É
o guia da a vósinha cega. Os estra
nhos repellem o seo mal; guardo-o só
para mim . Os estranhos fogem até
delle, as crianças quando o veem riem
se do pobresinho. Como é cruel o riso
que insulta a dôr! ... Por isso afasto-o
dos outros, façoo viver para mim.
Vive opprimido, isolado, , definhando
talvez, mas muito peior é despertar
um pensamento triste, dar um mo
mento máo aos outros. Para encher os
dias, conto -lhe historias encantadas
ou entôo uma cantiga lenta que o faz
adormecer.
EGREGOR
Deus lhe dará saude.
A VELHINHA CEGA
Sim terá pena do po bresinho .. .
senão, que vida triste meo Deus .. .
um homem repellido pela nausea dos
outros . . . A morte é bóa . .. eu terei
feito meos dias em pouco . . . mas o
po bresinho, senhor, que tal vez tenha
longos dias ! ...
Que existencia atormentada, fria e
trevosa . . .
EGREGOR
Não; Deus o sarará ... terá pena
delle ...
A VELHINHA CEGA
Deus te ouca. Falle um anjo por
tua bocca . . .'~se ao menos o~ desgra
çados encontrassem sempre almas boas
assim . . . ComG as penas seriam cur
tas!
Mereces bem a filha que tens, se
nhor. Disse - me umas palavras tão
doces; eu vinha tão af:flicta ...
AnrA
Vinha chorando, Pae. Vi - a lá do
cimo da torresinha . . . Fui esperal -a
ao portão. Os soluços faziam sacudir
todo seo corpo e as lagrimas corriam
sempre. Tive muita pena della e cha
mei-a para a consolar . . .
EGREGOR
Que dôr te magua va?
A vELHINHA CEGA
Ah ! .Senhor ! São tão maus! ...
mas Deus os perdoará, dando -lhes u.m
coração compassivo . . . A Mizeria ha
Sg
muito tempo foi morar em nossa casa.
A casinha era já tão pequena para
nós tres e nossa Dôr! ... mas ella veio.
O pão foi minguando . . . Os velhos
não carecem de muito alimento, uma
migalha basta ... mas meo triste filho
que precisa de forças e meo pobre
pequeno chorando com fome? ...
Que agonia, meo Deus! Porque ha
de a dôr dos outros doer-nos mais
que a nossa? .. .
Muitas vezes foi preciso enganai-o
com uma cantilena para adormecer a
fome no somno .
Faltava-me uma resolução. Ha pelo
mundo muit'alma compassiva; terão
piedade de meo infortunio, pensei eu .
Foi assim que como remedio veio-me
a idea de. pedir uma esmola pelo amor
de Deus. Mas eu era cega .. . e quem
me guiaria? Serias tu, me o pobre
filhinho, meo arrimo ainda nesta via
dolorosa? Doeu-me muito arras tal-o
tão cedo á mendicidade. Mas a fata
lidade ensinava que era preciso . Oc
cultei meo pensamento a meo filho e
quando elle se foi ao trabalho sahi
com o pequeno. Caminhamos muito,
lentamente, um caminhar de cego
6o
arrastado pela mão até encontrar casas
Já visinho da cidade. ' Bati ás portq.s e pedi uma esmóla
por amor ele Deus .
Muitas se conservaram fechadas,
muitas não me escutaram, muitas não
me responderam.' Outras perguntaram
asperamente o que eu queria. Uma
esmóla por amor de Deus.
Outras respostaram á supplica; Deu.s
favoreça . Foram as melhores, ainda
bem. Mas assim mesmo . . . Ah se
nhor l ... a caridade dos homens! quando
querem negar, dizem: "Deus favo
reça!" Estas palavras são muito bôas
quando ditas numa voz mansa, doce,
unctuosa, mas lançadas sem alma, sem
piedade, num tom acre como respon- .
dendo a uma impertinencia . . . doem
muito . .. querem significar : vae-te, tu
és importuna . Eu bem sei, a Mizeria
é importuna, mas que fazer? . . . Deus
quer ass1m. Un.s logo que viam
meo filhinho afastavam-se receiosos.
Outros jogavam moedas de longe . É
a caridade covarde .. . senhor. Nosso
Senhor amou tanto a Lazaro e os ho
mens desprezam tanto os infelizes .. .
Cospem quando os. veem passar e cor-
ÓI
rem apressados, proferindo injurias tal
vez. É doloroso verter pragas sobre
os infelizes ... mas ha homens que não
conhecem ÇL piedade .
Seja tudo pelo amor de Deus ...
Mas isso não bastou ainda. Os me
ninos agruparamse, os maos meni
nos, e vendo a velhinha cega e inerme
e o netinho doente e impotente gri
tavam muito de longe, num alarido
selvagem de vaia, atirando pedras.
Sei que a velhice é feia e a lepra é dis
forme, mas a vaia é covarde e a pedra
impiedosa. Choravamos ambos. Re
solvi voltar á minha triste casinha
onde me esperava a mizeria silenciosa
que não tinha para nós o insulto, a
mudez, o nojo, a palavra azeda, os
olhares constrangidos, a vaia, as
pedras. Que volta angustiosa, meo
Deus! Até o sol tinha brazas para
nós. A terra me queimava os pés
doídos.
E Deus fez o milagre, Deus fez o
milagre . . . Bem dito seja Deus! Lou
vado seja o nome do senhor que fez
o milagre!
Uma voz doce, muito doce, cha
mou-me . . . Pensei em Maria, a Vir-
gem Santa . . . Ella devia ter a voz
doce assim .
Era tua filha, senhor. Fomos con
duzidos a uma sombra amiga, a teo
tecto. Sejas bemdita minha Filha!
O rosto de ATMA
consternado e af
flicto illuminase de
uma alegria inten
sa ... Um sorriso
divino, a luz dessa
benção commovida
expunge a magua
de lagrimas recen
tes.
A VELHINHA CEGA
Beijou os labias de meo filhinho, sim
ella, a pura e santa ao lazaro ferido
de quem os homens contaminados fu
giram ...
Lavou-me os pés . . . A santa mão,
tão pequena e tão doce curou as feri
das que a terra ardente rasgou. Dizem
que Jesus lavou tambem os pés can
çados dos pobres. Depois nos deu o
pão. Na minha treva senti que meo
filhinho ria. O pobresinho tinha fome.
Mudou-lhe a roupa. Nós não tere
mos frio hoje. Deu-lhe . até brincos .. .
deu-lhe tantas coisas. Quando meo
filho entrar em casa e nos vir tão con
tentes e o tono de um conforto em
nossos rostos pensará que uma bôa
Fada passou lá pela casinha humilde .
Eu lhe direi que fbi Maria, a Virgem
Santa.
E quem saberá repetir as palavras
de amor que ella nos disse? nunca a
dôr humana ouviu mais alentadoras .. .
Dá, filha, dá sempre o consolo destas
palavras doces á pobre velhinha .. .
EGREGOR
Ella irá dizel-a!'l. E tu minha velhi
nha não vas pedir mais
aos homens.
A cidade é distante e teo filhinho se
cançará. Aqui mais perto encontrarás
amigos, terás quem te ame, a teo filho
e a teo netinho.
A v ELHINI:lA CEGA
Ah! senhor ! tu és a Providencia.
Deus te pague . Deus abençõe e torne
bemaventurados tu e tua filha! Deixa
me beijar tua mão . . .
EGREGoR, enternecido
Não, minha irman . . . minha mão
não é digna ... Deixa-me antes bei
jar a tua ...
A VELHINHA CEGA
A minha é mais velha, mas a tua
é melhor, a tua faz o bem.
EGREGOR
Não, não . . . mas a tua é pura
(beija-lhe a -mão ntgosa) Deus derrame
a alegria em tu' alma!
ATllu, beijando
tambem a mão tre
mula da cega.
Deus te ajude e aos teus, minh'a
vósinha!
A VELHINHA CEGA
Deus os abençõe! .. . São tão bons!
Pedirei a Elle por vós ...
o LAZARO
Adeus Santa! Adeus Senho1:! OPae
dos Céo os ajude!
A Velhinha ar
rasta-se pela mão
do pequeno. ATMA
ajuda - os e os leva
até o portão.
EGREGOR, triste e
SÓ.
Pobre gente! Vida Cruel! ...
AT:M:A reapparece
só, com um veo de
tristeza sobre os
olhos humidos, ves-
tigiando lagrimas
recentes .. .
EGREGOR vendo-a
approximar-se.
Pobre gente ./ . . . Como é cruel o
soffrimento humano!
ATll-rA, ainda com
movida.
Sim, como é cr-uel o soffrimento hu
mano! Nunca imaginei uma rnagua
tão funda . . . nem chorei lagrimas tão
longas e tão amargas .. . Um senti
mento novo, nunca experimentado agi
tou até as raizes occultas ela Alma
meo ser inteiro. Não foi a farpa elo
Üdio aggressivo dirigida contra os
auctores desta perversidade inaudita,
foi um'exaltação fervorosa e crescente
de Piedade e de Amor pelas victimas
de tanta Violencia e tanta Ferocidade:
Rosa mystíca.
o sentimento de não poder reparar
toda esta profunda Injustiça humana.
E lá do cimo da Paixão onde se perde
a sensação mesquinha da Realidade,
eu contemplei a Immensa Dôr Humana
e beijei-a num extase mystico atravez
dos lalDios ulcerados do leproso, cui
dand'l verter sobre a chaga repellida
e insultada o balsamo divino de uma
repaJTação.
Porque sentimento infernal de Im
piedade o homem que vê cair esma
gado pela Fatalidade seo irmão, con
sente que se interne mais no ventre
do precipício, quando podia estender
a mão e reerguel-o?
Porque não se hade enflorar e fron
descer miraculosamente a Arvore do
Bem no coração humano, aspergindo
sobre a Dôr o balsamo de uma essen
cia preciosa e vulneraria?
É pois uma cruel certeza que a Cari
dade sobre a Terra é uma virtude atro
phiada, um fructo murcho e pêcco do
qual nada ha mais a esperar?
EGREGOR
Bem disseste, a Caridade é um fructo
definhado. Mas crês que mesmo sazo -
nado bastasse como o anodyno á Dôr
humana?
Embora ella existisse na plenitude
de sua maturidade, seria assim como
um minguado regato incapaz de abe
berar o extenso areial sedento da Mi
zeria .
O ideal evangelico da salvação do
homem pela Caridade falhou. E assim
devia sel-o. Aos visionaríos, embahi
dos na illusão altruística, que cuida
ram achar a decifração da monstruo sa
sphynge, um apostolo illuminado do
mundo moderno antepoz um novo
içleal mais nobre: o da Justiça Re
demptora.
A Caridade como o palliativo para
a dôr humana é um triste remedio, de
pequena efficacia, de um effeito passa
geiro, venerada talvez pela intenção
generosa, mas estreita d'aquelle que
a semeou pelo mundo; como ideal so
lução do problema humano seria uma
calamidade iniqua porque sanccionaria
a monstruosa lei que divide os ho
mens em afortunados e soffredores .
Não, isso seria justificar a viol?-ção
odiosa da organisação social em que
todos os homens tem uma somma
5 *
egual de direitos; seria mentir a affini
dade collectiva da Humanidade que
reuniu os homens sob a égide .pro
teetora da Solidariedade .
Porque pois, senão por um crime
que se perpetra ha myriades de annos
sobre a face Q.a Terra e que o ideal
da Caridade Salvadora pretendia per
petuar, uma parte da humanidade se
alcandora em um'eminencia mentirosa
e com'um dom de sua magni:fi.cencia
e de sua grandeza, estranho ao dever
que a estultice desconhece, lança es
mólas á outra , parte que foi esmagada
na lucta e que lidou a seo lado?
Na aggremiação humana formada
pela colligação ele interesses mutuos
ele defeza e auxilio na lucta pela vida,
os individuas tem pelo proprio facto ele
su'inclusão no seio social, os mesmÓs
direitos e deveres, os mesmos proven
tos. e prejuízos, que resultarem ao todo,
a somma em fim das responsabilida
des inherentes ás prer"ogativas rece
bidas .
Como, pois, não prestar aos nossos
auxiliares ele ho,ntem o apoio que sua
velhice cançacla, suas energias venci
das, seo organismo desfeito pela mo-
6g
lestia carecem hoje? Em nome de quem
existem o Luxo e a Miseria, a prepo
tencia qu'esmaga e o estomago qu'es
móla?
Em nome da Força, a lei natural
soberana e invencivel responde um
sophisma forjado no inferno ... Mas
vós mentis, exploradores vis!
A victoria não foi ganha pela vossa
força, foi uma conquista social, a re
sultante d'esforços congregados e que
só a vós aproveitou porque a mentira
e a má fé vos levaram até o fim, em
quanto vossos companheiros tombaram
feridos no campo sanguinoso. A Jus
tiça Inflexível ::;entenda bem alto que
os invalidados na lucta antes da vic
toria, tem como os, vencedores direito
aos louros e aos. despojos.
O sonho evangelico apontand9 a
Caridade como solução ideal do enigma
humano, appellando ,para a generosi
dade dos venturosos qu'em troca de
beneficios prodigalisados receberiam
o premio da salvação eterna é neste
sentido a mais iníqua perversidade
que o homem já imaginou, porque é
a sancção çle um' extorsão, de uma
violencia.
,-
Sequencia natural de um utopismo
degradado qu'invertendo os valores
fez dos ultimas os primeiros, que creou
um ceo para os pobres d'espirito, en
deosou a ociosidade n0 desprendimento
e no ascetismo e aviltou o homem no
preconicio da humildade, religião de
pusilanimes e d'escravos, a solução do
problema economico não podia ser se
não esta transação espuria da Caridade.
Não: é preciso apagar da memoria
humana a Generosidade e substituil-a
pelo Dever, odiar a Caridade por amor
da Equidade, trocar o Egoísmo que
theorisa em leis o Mal pelo reconheci
mento da Solidariedade Humana que
trará todos os bens sobre a Terra.
A Caridade humilhante, que a mão
dadivosa dos felizes semêa com'uma
ostentação de seo altruísmo, regeite-a
a Mizeria para exijir da Justiça a So
lidariedade basica, a satisfação da
clausula reparadora.
A astucia e o roubo que possuem
milhões, que exploram milhares de
homens levando-os caminho da mize
ria e levantam hospitaes para acolhe
rem alguns infelizes, não são philan
thropos generosos dignos . de um' alta
sagração mas simplesmente ladrões
execraveis que illudem a Humanidade
abrigados pelo erro evangelico que
trouxe sobre o mundo uma cegueira
de tantos seculos.
Não é atirando um punhado de ouro
para o ventre do abysmo que se had'
enchei-o: é abatendo as montanhas
que a Improbidade injusta levantou,
trazendo o nivelamento primitivo e
impedindo de se reerguerem para todo
o sempre ...
A nu
Sim tens razão: é a Justiça que nos
falta, só ella pode trazer á Terra o
equilíbrio da Felicidade e a alegria
da Paz .
EGREGOR com um'
outra idéa a lhe as
saltar a mente .
E viste como a pobre gente soffre
resignada? Como são simples, sem as
aspirações perversas, sem as desfallen
cias criminosas dos todo-poderosos do
mundo?
ATMA
A Dôr purifica e afina a Alma das
màculas azinhavradas que a corrupção
mundana estampou no homem. Quanto
mais soffrem mais perfeitos e mais di
gnos são da vida melhor que a Jus
tiça lhes reservou e que o Egoismo
Humano afasta cada vez mais.
EGREGOR
Emquanto acolhias a velhinha sof
fredora, um viandante de ros.to tor
mentado, olhar enfebrecido, labias
crispados, a individuação da Magua
estacionou aPi_ em meio da estrada.
Não sei p01:que mysteriosa concor
dancia o acaso permittiu-me em dois
instantes visinhos contemplar um con
traste tão violento. Como differem as
duas 'mizerias que eu vi, minha filha!
Interroguei a afflicção q-ue torturava
sua physionomia juvenil, o tom de de
salento qu'ennuveava seo gesto, ap
proximei-me depois cúidando poder
verter n' Alma exulcerada o anodyno
de uma palavra amiga.
Deu-me ape:J?.aS respostas áridas es
condendo o mal secreto que o roia:
foram sons as1::íeros, fel qu'esbra zêa
labias, ironias farpeadas e até abomi
nações que degradam . É preciso que
se tenha attingido o extremo da oxy
dação moral P:=tra pensar e proferir
certas palavras. Elle m'as disse. Atra
vez dellas pude comprehender que te
nebroso passado tinha percorrido e
que dias d' enscenação perversamente
tragica .d' infamia co, arde o esperam
no futuro.
A santidade d'alma é flôr prodigiosa,
magnolia de uma contextura delicada
que um pensamento impuro pode tisnar
como o menor contacto irreverente
degradar perpetuamente. O perdão
pode ser obtido pela contrição das
lagrimas, a pureza perdida não vol
tará jamais .
' Assim ha molestias da alma que
nunca se curam, qu'infectam e conta
minam até . as intimidades profundas
do ser; para ellas não existe a rege
neração porque o meio unico ., o das
lagrimas, é trilha que a impudencia
perdeu. Estes infelizes transmudam-se
em um :f:lagello portador de desgraças
sementéando o mal e a aridez por onde
passam . Se o caminho é juncado d'ini
quidacles, per:fi.dias, perdi~ões, impre
cações, blasphemias. O riso queima,
o olhar agonia, a gesto esterilisa, as
mãos depredam, o contacto corrompe
e a bocca, mesmo quando se abre
n'uma palavra nobre, profere um at
tentado sacrilego, visa uma per:fidia
satanica .
A Natureza opulentou - o de todas
as magni:ficencias de seos dons e a
Civilisação contemporanea apurou - se
em dar - lhe todos os requintes que
transformam o homem, a boa argila
primitiva numa perfeição monstruosa
mente perversa . Entretanto porque
o mal não pode ser senão a origem
ele um outro mal, elle prop rio é con
sumido pelas chammas que ateia. A
propria voz acompanha o côro de mal
dições que lhe dirigem.
Aqui agora viste o amplo estuario
em que a Natureza despejou tocl'a sua
vasa, em que a Sociedade verteu tocl'a
onda amarga ela Injustiça e ela Im
piedade, não conseguindo, muit'em
bóra, submergir os altos cimos elo Sen
timento Nobre e do Pensamento Illu
minado que dignificam a personalidade
humana. Alguns instantes que dei ao
moço torturado confrangeram -me o ser
inteiro, as palavras que disse á pobre
velhinha enterneceram o coração, hu-
medeceram os olhps e fructesceram
n'almaPensamentosSublimados. Existe
a lepra do Corpo e a do Espirito; uma
é repellida pela Impiedade humana, a
outra envenena a Humanidade inteira.
Só isto bastaria para decidir qual a
mais execravel.