Rosa mística - III Rosa mística · Capítulo 4 de 7
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Rosa mística - III

Rosa mística - III

III

Afllictio tma, aff!ictio ecce vcnit

... venit tempus, prope est dies occisio nis ...

Prophecia Ezechiclis,

Caput VII, S-7

A mánhan vem

acordando os

campos . A luz se­

rena e branca, hu­

mida e fria vae, nu­

ma caricia branda,

despertando uma a

uma as fontes mys­

t edosas da vida uni­

versal. Fremitos ele

azas no ninhos, bo­

cejos de corollas

orvalhadas, meigui-

8o

ces preguiçosas da

aragem matutina, .

beijando aNatureza

com os labias hu­

midos.

EGREGOR anda

pelo jardim conver­

sando a -companhia

alegre das plantas.

AT:NIA vem satis­

feita e fel iz beijar­

lhe as mãos.

EGLmGoR

És feliz?

AT:~

Sim . . . muito feliz .. . É tu?

EGREGOR

. .. Agora o sou ... mas soffri muito.

A velhice é triste, nem dormindo des­

cança. Esta noite um:a visão cruel me

substituiu o somno . E que os tempos

de soffrer se approximam ...

A nu

Crês que os sonhos tenham uma

significação?

8r

EGREGOR

Não sei . . . talvez não mas ás

vezes parecem enigmas do destino

communicados á Alma.

Sua decifração é uma revelação ás

vezes ...

ATMA

E teo sonho foi decifrado? É uma

revelação tragica?

EGREGOR

Uma visão de sangue, de cadaveres,

de violencias, de profanações.

Era num templo magnífico, um pro­

digio de marmore florindo sumptuosa­

mente sob um ceo latino. Riscava no

azul, augustamente, as grandes linhas

solemnes de suas torres, altas, muito

altas, confundindo as cruzes de seos

cimos, lá nos cimos das nuvens. Dentro

pairava na immensa nave a contrição

uftivoca de preces fervoradas. Uma

nuvem de incenso subia alto, estenden­

do-se pelos altares accessos, como um

véo ondeante, num' ascensão rythmica.

Um sussurro debil evolava-se de labias

soabertos onde as Almas fluctuavam

serenamente. Havia em todos os rostos

Rosa mystlca. 6

esta harmonia de traços que um mesmo

ideal puro e nobre ordena, que déle

as asperezas naturaes, e numa trans ­

figuração miri:fica illumina um rosto

sombrio . . .

Os santos dos altares derramavam

a luz solemne de seos halos triumphaes

sobre as pobres Almas contritas, con ­

fiantes, subm issas ... Desdobravam -se,

passando, . na magestade de sua gran­

deza as pompas sumptu.osas do rito

na eurythmia serena de sua perfeição,

librando as A lmas mizeraveis da Terra

ás alturas puríssimas dessa Terra Mys ­

tica aspirada . Casavam -se num con­

certo perfeito as vozes melancholícas

dos orgãos, os halitos balsamicos dos

thurybulos, refagulhações metalicas

dos altares, o alarido triumphante das

purpuras, as revelações chromadas dos

paramentos liturgicos, das luzes , de

flores entecidas em grinaldas . . .

Súbito, um ruido extranho, um som

enorme, feito da babelisação de mil

sons discordantes, um collossal ester ­

tor, prolongado, invasor se ouviu, e de

todos os pontos, pelas portas rasga­

das, uma multidão conturbada e sacrí­

lega, parída nq setimo inferno, talvez,

envadiu o sanctuario. Do peristylo á

ábside, um só grito de sorpreza e de

dôr, vozeado por milhares de boccas,

encheu o templo.

Eram barbaros ... haviam destruido

a cidade gloriosa, insultado os mais

nobres logares e virtham agora cevar

sua barbaria no recesso da alma, na

paz do templo.

Aquelles rostos sinistros, mascara ­

dos de poeira e de sangue; aquelles

dentes amarellos, rangendo numa furia

de feras esfomeados; aquelles traços

crispados na convulsão de uma alegria

satanica; aquellas mãos enormes, ma­

culadas de nodoas suspensas de bra­

ços longos pelludos e possantes e

brandindo armas de depredação e de

morticínio; aquellas plantas impuras

magoando o Solo Sagrado, aquella

horda que com'uma onda tempestuosa

quebrava-se violentamente de encontro

ae Prodígio dos .Marmores e afogava,

submergia tudo, nem se poderá pen­

sar. Só acolhidos na região distante

do Sonho poderiam sentidos humanos

guardar a memoria de tanta dôr ...

Monstruoso. Inadjectivavel. O san ­

gue borbotou, tingindo o mannore

6*

pu.ro e a Carnagem, as Violações, as

Depredações, o Insulto, a Blasphemia

commandadas pelo Odio foram r€pre­

sentando sua epopéa desgraçada. Os

Symbolos Sagrádos, as grandezas da

Arte foram mortos pelas mãos sacrí­

legas: tudo se viu destruido, profa­

nado, irremediavelmente perdido.

Depois o que o Odio poupou, o fogo

consumiu e os monstros embriagados

entoaram os canticos barbaros de­

ante das fogueiras onde ardia a fé de

um povo, os sonhos de genios aclara­

dos, as grandezas de aspirações gigan­

tescas e os cadaveres profanados, vio ­

lados mesmo na morte d' aquelles que

ha instantes tinham a Alma nos labio s

e a paz serena da contrição a illumi­

nar-lhes a harmonia dos traços.

Além, em torno, muitas outras fo­

gueiras ardiam e seo fumo levava para

o ceo a angustia suprema de uni

grande povo immolado ao Destino

Cruel.

No horario fatal dos Crepusculos

. dos povos havia soado a hora do cre­

pusculo latino ...

E o ceo latino não cobria mais

uma terra iUuminada pelo talento,

florescente pelas artes, heroica pela

fé, forte pelas armas, rica pelo com­

mercio ... abobadava em sua eterna

placidez sobre um montão de escom­

bros, lambidos por mil línguas de fogo,

emquanto os cannibaes embriagados

celebravam o ritual satanico de seos

credos occultos, dansando macabra­

mente em torno dos altares sacrílegos

de Belial, erramalhados de asphodelo

e verbena e aclarados pelas chammas

luguhres dos loureiros e cyprestes

accesos.

Do solo rubro, ainda quente do san­

gue abeberado em que a ponta dos

sabres assassinos traçavam os signos

sinistros das evocações, sombras de­

beis e vacillantes, pallidas e temerosas,

emergiam, rastejavam, subiam, per­

dendo-se na grande sombra negra que

vinha caindo para amortalhar o mundo.

Iam perecendo abafadase extinctas

as ultimas vibrações dos louvores bar­

baros ás divindades terríveis da Des­

graça e da Morte ...

Na espessura fria da sombra ouvia­

se apenas em surdina um chocalhar

de ossos desligados, um lamber preci­

pite de línguas de um fogo occulto

que consome destroços, estrebilhando

uivos de cães sinistros perd idos além

na vastidão extensa dó espaço e da

noite infinita.

E a grande perfe ição, esforço su­

premo de vontaçles heroicas desappare­

cera da Terra .

Rolam na face de

An1A perolas ma­

guadas.

EGREGOR

Choras? Comprehendestes tambem

que ahi ha uma revelação crue l ? Não

te parece ver ahi uma palavra de

ameaça? ... Os tempo _s de soffrer se

approximam ...

Contemplando as

lagrimas tristes da

filha.

Fiz-te pena ... Perdoas-me; sim?

Beijaa terna-

mente.

Vae consolar - te com as tuas lin­

das flores; conta -lhes teos lindos so­

n11os ...

ou ver as minhas arvores ... h ontem

não as vi . . . tenho já saudades das

pobresinhas ...

Vae lentamente

caminhando para o

p01nar.

ATlVIA, só e triste

A velhice tem sonhos tristes ... deve

ser doloroso ser velho, morrer todos

os dias, -todos os instantes ... hoje

morre mna crença, amanhan um'illu­

são, foge um riso do labio, escorre

uma lagrima maguada, empana-se o

brilho de um olhar, cava-se o sulco

de uma ruga.

Beijando uma ca­

melia rubra.

Corpo é gentil! Porque pensar nes­

tas tristezas, quando se é feliz, quando

se comeca a viver ...

~

Um rubor subito,

cora-a levemente ...

Sim, porque só amar é que é viver ...

• Virá hoje? Dar-lhe-ei minhas me­

lhores rosas e o meo melhor sorriso ...

Isto pagará o que tem soffrido por

illlill ...

Uma voz que se

approxima .

Atma! Atma!

Anu. corre para

o graçlil, radiante,

feliz.

É elle . . . é elle ...

NEHEi\1

Bom dia, meo amor!

Olha-a transpor-

tado á beatitude pa­

radisiaca do extase,

onde se congraçam

o Desejo e a Espe­

rança, longo tempo,

longo tempo. Passa

urn instante extra ­

humano, irr eal, em

que as Almas se

estendem para o

altar esponsalicio

do sentimento, em

quanto na vida dois

corações encham­

meados . ru:B.am pre­

cipitados a marcha

triurnphal das As­

pirações satisfeitas.

Depois voltam as

Almas ás boccas.

NEHEMvaerezando

E m cada dia descubro em ti uma

graça nova. .. Hoje és mais bella que

hontem . . . Que bôa fada te trans­

forma assim, dia a ~a, para mim?

ATUA

A tua lembrança. Sinto-me mais

bella quando penso €m ti. Pensas

tambem em mim?

NERK\(

S6 pen o em ti ... e quando se ama

pode-se pensar em outra coisa? ... o

amor absorve-nos completamente .. .

perde-se a noção da personalidade,

apaga-se o eu, abandona-se a vida, a

honra, a fortuna, a .gloria para viver

transfundido em um outro corpo, em

um'outr'Alma, a doenteamado . . Mesmo

porque não ha vida, honra, gloria,

fortuna sem. amor.

A nrA

Sim, sei bem, porque antes de amar,

eu não vivia ... : ria, chorava, cantava,

dormia, adorava a Deus e a meo Pae,

mas não VIVIa... E se alguma vez

senti a vida foi talvez por essa ob­

scura sensação do amor que antes de

nos surprehender torna-no vídentes

da felicidade futma. É que amamos

go

talvez antes de nos encontrarmos: esse

pre-amor doira alguns dias felize s de

uma vida vasia ...

NEHEM

Sim, Atma, é verdade. Eu te ha­

via penetrado n' Alma antes, muito

antes . de te ver . Porque não sabes

que nossas Almas erram, vagam ahi

no infinito, sentem-se, comprehendem

e esperam? Eu te esperava; conheci

que chegaria o dia e o dia veio. Não

me v~ste tambem, nunca me sentiste?

ATl\U

Senti tambem sim, talvez, mas não

comprehendia; via que em mim exis­

tia um vacuo ainda; tinha um pedaço

de Alma vasio, esperei que o dia viesse

e o dia veio e essa porção que me

faltava eras tu.

Não vês como nossas Almas se sen­

tem contentes?

NEBEM

Não sei bem, mas nossas Almas tem

uma pela outra a attracção mysteriosa

e indizível dos que se buscam para. se

completarem .

Nunca viste num extenso areial lá

no extremo confuso e perdido na ne­

blina, lá muito ao longe, apparecer o

sopro indeciso de uma sombra, que

caminha, que cresce, que se destaca,

que vive, que se agita, augmentando

sempre, até tra-nsformar-se em um ente

vivo e depois, avançando, deixar ler

em sua fronte as linhas :firmes de um

rosto humano? Assim me foste tu.

Eras pallida sombra ao longe, mwi.to

ao longe, perdida nos con:fins de meo

areial deserto, foste minha phantasia

e o meo sonho .

Nã"o tinhas forma ainda, eras um

Ideal apenas. E marchei em busca

de meo Ideal, a sombra cresceu para

mim, vi desenharem-se os seos traces

senti que não era uma chimera, que

tinha vida, que embora sonho, era

sonho vi.vído; depois vi bem que era

uma mulher, era pura, era bella, era

santa, eras tu.

E estendi. os braços, abracei a

tu' Alma .

ATMA

Eu bem senti tambem que alguma

coisa ia me acontecer, alguma coisa

enorme, que se não sabe definir, com­

prehender, mas que se sente.

Visão? Perfume? Harmonia? Não

sei, mas ia-me cercando, apoderando-se

de mim e absorta esperei _sem saber

o que esperava, sem ouvir os seos pas­

sos, sem distinguir ós seos traços, sem

aspirar o seo perfume, mas minh' Alma

muda esperava sempre . Eras tu mi­

nha visão, meo perfume, .minha har­

monia e hoje vejo, ouço, sinto e co.m­

prehendo emfim: és tu!

NEHE:M

Falia assim, santa! quando tua bocca

se ahre tua Alma vem á tona de teos

labios, eu a ouço fallar e sinto que é

minh'Alma que grita, como alguem

que n'um deserto mudo ou visse gritar

a si proprio . Tua voz parece que não

vem de te os labias, é em ,mim que

esses sons nascem, eu me ouço gritar,

elles se derramam e me dizem que

não estás só, a tu' Alma ahi está. E

eu a vejo e sinto: és tu.

Olha meos olhos, não te vês em duas

pequeninas effigies aquafartadas em

minhas pupillas?

Eu vejo-me nas tuas . . .

Quando nos afastarmos estas gra­

vuras se apagarão, mas na pupilla

d' A lma, com destaq u e mais nítido tua

sombra me acompanhará sempre .

ATliiA

Viverás tambem indelevelmente es­

cripto na pupilla :fiel de minh' Alma .

NEHEIII

Pois não é verdade que quando dois

seres se amam duas Almas se traris ­

fundem?

ATMA

Sim, é bem verdade; eu já não me

conheço ou me conheço mais porque

te conheço, tudo o que vejo em mim

é teo, vem de ti, tudo me diz bem

alto que sou tua e se não fosse tua

não me conheceria .

NEHEl\I

Sill)-, somos nossos. Nossos corpos

se pertencerão e viveremos dias feli­

zes . . . Constru iremos a cabana de

nossos sonhos, veremos pastarem os

rebanhos de nqssas illusões, emhria­

gar -nos -emos do arom.a dos prados em

flôr e morreremos de goso vendo o

sol morrer.

An:rA

Gostas de ver morrer o sol?

NERE:i\1

Oh ! muito! porque a tristeza é doce

e o sol que morre é triste. Não doe

vel-o pender a grande cabeça ferida

e enchammeada, para afogai-a no seo

leito rubro de sangue? Iremos ver

morrer o sol e morreremos tambem

tu em meos braços, eu afogado em

tu'Alma .. .

AnrA

Sim, morreremos de prazer e tris­

teza vendo morrer o sol, tu em meo

peito branco eu em tu'Alrna mais

branca ainda .

NEREl\I conversan­

do a folhagem, m­

vestigador.

Teo Pae não deve tardar . . .

Adeus! Se soubesses como eu o

receio l É o obstacu lQ á nossa felici ­

dade. Adeus! Pensa em mim . Adeus[

Afasta-se lenta­

mente ...

Atma, novamente

só, vê-o clesappare­

cer na estrada que

se esteira ao longe,

mandando -lhe bei­

jos ainda, até per­

der-se distante; seo

rosto feliz magôa-se

de um tom a ppre­

hensivo e um secre­

to dó vae lhe en­

luctanclo a Alma.

ATMA

Porque hão ele os homens detestar-se

assim? Um tão puro, tão santo, glo­

rificado no altar de minh' Alma, com'

um Deus ... o outro tão perfeito, tão

amante, senhor de meo coração, como

meo amor ... e entretanto, a separal-os

um enxame ele palavras as peras, ele

pensamentos injustos.

Porque ha de um espírito puro ser

iniquo para um'Alma bôa? Ah se po- '

desse unil-os, dar a um a acloracão de

filho, a outro a immensa tern~ra de

pae, apagar todos os máos pensamen­

tos e substituil-os pela confiança tran­

quilla da felicidade mutua!

g6

Poderão minhas lagrimas vencei-os

e approx.imal-os? N.:o sou, meo Deus,

digna da felicidade de os adorar juntos)

Um extenso sileli-

cio interpoe -se me-

ditativo . . .

É preciso dizer -lhe tudo . . . Nada

occultarei ... - Chorarei e me perdoará.

Soffro tanto l

Emmudece e sen­

tada em um banco

cobre o semblante

angeiico de um veo

de tristeza infinita.

Egregor vem se

approx.imando e pa­

ra ao longe para con­

templai-a. Vão che­

gando apprehen s6es

tristes.

EGRJ;;GOR

Já não parece a mesma . . . Foi-se

a alegria ingenua de crianç.a a rir eles- 1

cuidosamente para o futuro. N aquella

fronte ha uma sombra que ençobre,

.quem sabe? uma dôr .. .

Pobre cabeça pequenina, tal vez .ve­

ja~ erguer a primeira ilhtsão, phanta ­

sia diaphana por:que esperas ...

Abotoada em si mesma, já o pobre

ouvido em que guardava os seos se­

gredos não lhe é discre t o e tem por

mu dos confidentes a estrella solitaria

e a flor dos campos; o silencio a segue,

envolvendo-a no extase de um sonho!

Que teo sonho seja doce, filha, que

te ado rrnente serena anesthesia e não

despertes para não serem teos olhos

desmentidos e teos labios se não tor ­

çam pela amarugem da tristeza real.

Doire teo devaneio alguns momentos

felizes e se esva ia corno os son hos das

crianças e as pequeninas nuvens que

pairam lá no azul, como lençqs bran­

cos . O Deus dos bons te poupe o

rasgamento de um desengano, a tor ­

menta . de uma desillusão .

Deus meo, poupae-lhe uma lagrima,

eu tenho chorado tantas!

ae caminhando

lentamente até A-r-

1\U .

Que máo pensamento te possúe, que

idéa escura te annuvia a alma limpa?

ATMA, tremula, in­

decisa esboca um

gestoinsignifi.cativo.

R osa mysti ca . 7

/

g8

Scismo, Pae, em nada, em tudo,

nesta tristeza communicativa do silen­

cio e da solidão, que se derrama em

nosso ser, doendo a nota emocionante

da saudade . . . saudade indefinida, in­

explicavel, de coisa alguma, sem causa,

mas sempre saudade amarga e quente

que nos embala suavemente a alma

como o canto velado de uma monodia

lacrimosa. Nem eu sei . . . Saudade

talvez de um outro mundo, de um outro

clima, de um outro dia, talvez ....

EGREGOR com uma

afflicção triste no

.olhar.

Porque não procurar no intimo a

causa desse sentimento nascente para

não seres illudida como agora por sua

natureza?

An1A

Não te comprehendo, Pae.

Nada mais sinto que a tristeza suave

que passeia ahi pelo ambiente . . . E

que sei ser o reflexo dessa tristeza

das coisas . . .

EGREGOR

Enganas-te ainda. Não é a tristeza

morna da hora que passa nem a sau­

dade distante de um outro mundo, de

um outro clima, de um outr.o dia tal­

vez, que te turva esse perfil seraphico,

arrepanhando as linhas puras de teo

rosto ... é talvez o bater de azas ele

um sentimento novo que se acorda em

ti, que germina sem o suspeitares, que

te invade e te submetterá talvez á sua

dominação, é que amas minha filha ...

Tremula e palli­

da, de uma pallidez

de morta, ATMA bai­

xa os olhos triste­

mente.

ATMA

Ma ... as ...

EGREGOR

Confessa ... o que sentes chama -se

amor . .. dize-me, dize-me, porque m' o

occultar?

Beija-a sobre os

olhos, lentamente,

ternamente .

AnrA

Talvez ... sim. Passam-se em nós

scenas que muita vez desconhecemos;

roa

ha um mysterioso influxo que se apo­

dera de noss'Alma, communica-se e

nella se infiltra sem que tenhamos o

conhécimento . E mais tarde quando

se irrompe, quando se manifesta, sen­

timo-nos trahiclos, mas já é tarde en­

tão, não h a meio ele resistencia: ou

se capitula vencido, desesperado, ou

vae-se ao encontro ela derrota ...

EGREGOR

E já pensaste no caminho a escolher?

A:r.:vrA com o rosto

torturado por uma

angustia inexprimi­

vel.

Pae, não me perguntes assim ... são

tão frias as tuas palavras ...

Com um olhar do-

loroso que implora.

Ampara-me, ajuda-me a escolher ...

EGREGOR

Quem sabe se já não será tarde? .. .

Custa tanto a arrancar um amor .. .

É unu. planta vivaz que nenhuma in­

temperie, nenhuma résistencia pode

matar ... entretanto abandonada a si

!OI

morre tão facilmente . . . Como o fogo,

o assopro o faz crescer . . . alongue-se

o cuidado delle e se apagará ephe­

meramente.

A nu

Matar?! mas para que matar o meo

amor? . . . me o bem tão caro, sonho

tão doce?

EGREGOR

Planta venenosa. Aroma que enleva

embriaga, envenena, corrompe e mata

ou degrada. Que ful'lestós destinos traz

o amor!

ATMA

E nunca amaste?

EGREGOR

Soffri, penei, chorei, significam o

mesmo . Ah! eu errei tambem; desci

ao pejo impurb da lascívia humana,

essa in:ficcionadora que destroe a ale­

gria, cava o caminho das lagrimas,

arma o ninho do tedio, aguça o es­

pinho do odio, e acera a garra da dôr.

Enleprei tambem a magnolia de um'

Alma santa com um contacto irre­

verente, preparei o soffrer e o remor-

so ... mas fui perdoado porque muito

amei ...

E Ella, a Eterna Ausente, o sera ­

phim que desceu de sua A ltura para

parti lhar minha mizeria, aba.ndonou-me

fugindo para a Patria Melhor, remit­

tida de sua culpa de lasci via que de­

grada, por essa dôr de ser Mãe que

divinisa . ..

ATMA

Sim, foste desgraçado, mas os outros

que amam ta11_1bem, são tão felizes . . .

EGREGOR

Parecem felizes . . . mnguem lhes

conhece o coração. É um paiz onde

nunca ninguem foi . . . As lagrimas

occu ltas ninguem as conta . Todos

soffrem . . . cada um se julga desgra ­

çado e consola-se suppondo a felicidade

dos outros . . . Mentem todos .

ATMA

Tu é que és o illu dido .

EGREGOR

Filha, eu conheço a vida, eu_ soffri

o amor . Fui enganado tambem como

IOJ

todos os outros. Perdi a alegria, a

força, a illusão, experimentei o adio,

o tedio, o arrependimentoo dia se­

guinte do amor .

A pureza é o maior bem humano e

o que mais nos aforçamos em perder.

Queres pois perder o teo uni co bem?

Inveja-te o ser desgraçada? Queres

aprender a chorar, a odiar, a mentir?

A fli IA chora con­

vulsiva.mente . Tran­

sido de magua e fe­

rido tambem EGI{E ­

GOR senta-se a. seo

lado, abraça-a ter­

namente e um pran­

to só deslisa longo

e triste.

IV

Omnia munda mundis.

Epístola Beati, Pazeli Aposto/i ad Tz'tmn,

Caput I, 15.

Tarde serena e

doce. Por além

dalongasinuosa tra ­

çada no espaço pela

p>rojecção das cor­

covas dos montes,

estende -se uma tela

de um verde es­

maecido, laivada de

estrias de sangue e

bordada de peque ­

ninas cristas negras .

I08

Tudo tem urna tinta

suave e morna . Ha

um& paz satisfeita

nas coisas, um so­

cego feliz em tudo.

O ar é leve, de uma

transparencia cal­

ma, de um aroma

penetrante .

As andorinhas ris­

cam vôos extensos

na turqueza infinita.

ATMA e EGREGOR ca­

minham vagarosa­

mente ao comprido

de uma aléa de la­

ranjeiras enfloradas

e uma aragem pa­

cifica vem a espaços

chover-lhes sobre as

cabecas um enxa ­

me de petalas bran­

cas. Um tem uma

dobra as pera na boc ­

ca e no corpo uma

apparencia de ve­

lhice cancada e sof­

fredora. , A outra

tem a sere n idade

tranquilla e feliz dos

que attingem a ple­

nitude da graça .

Dia a dia completa

sua perfeição. Fi­

na, delicada, qua si

etherea, como as

Virgens branca s,

longas, immat eriae s

que só os Primitivo s

conheceram o se­

gredo de sonhar,

como as flechas das

cathedraes gothicas

uma prec e muda

lan çando -se para o

céo, uma aspiração

terr ena em assum­

pção gloriosa. Vem

chegando a hora

tri ste dos pezares,

das palavras amar­

gas.

EGREGOR

Já. pen saste be~ ? Interroga ste a

tu' alma? Gua:rdas em ti ainda esse

amdr infeli z !

ATNIA

E tu já. perdest e as pala vras que

ferem ? Muito embora todo s os obsta­

culos que oppuz a meo amor, elle

cresce, cresce ' continuadamente. Amo

immensamente ...

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