Rosa mística - IV Rosa mística · Capítulo 5 de 7
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Rosa mística - IV

Rosa mística - IV

IO

EGREGOR

Amas . . . mas não pensaste bem

ainda na significação terrivel desta

simpl es palavra .

An..rA

É tão doce amar ... e tão simples ...

E GREGO R

Filha, porque te deixas envenenar?

Porque não confiaste . a teo pobre pae

esta molestia horrivel que te inficcio­

nou? P0rque me occultaste esta roi­

seria?

AnvrA

Doe tanto a palavra acre em tua

bocca ... Não falles assim ... se sou ­

besses como elle te parece, como é

bom, como é terno, como é doce . :.

EGREGOR

Eu ci sei demasiado . . . Elles são

todos assim . . . Os cantos das sereias

são perfidos e inoculam n'aima um

phyltro venenoso . . . Não os ouças,

filha, são como as flores do mal que

aspiradas corrompem.

I

ATMA

Nunca ouvi de seo la:bio esta palavra

mentirosa e envenenada. É tímido, é

doce; não falia, balbucia; não se ar­

rouba, não se transporta, reza con­

trito, humilde, orações piedosas que

só a crueldade não ouv1na .. .

EGREGOR

Sim, eu conheco estes artistas ha­

beis . . . Quando 'te dirige contrito e

humilhado, de bocca tremula e olhos

supplic es uma prece inspirada, nem o

cuidas, representa uma farça impu­

dente, colla ao descaro salaz a mas­

cara que mais facillhe dará um trium­

pho. A outras entoaria carmes lyricos

ou teria a audacia de uma explosão

confessada, mas como abordar a in­

violabilidade da Torre de David, em

sua eburnea pureza, senão vestindo o

mystico arnez da devoção e armando-se

das alabardas das oblações piedosas?

Si tivesses aprofundado o olhar atra­

véz do embaciamento theatral de sua

pupilla, verias brilhar lá dentro con­

vulsamente a chamma farpada do de­

sejo vehemente . . . Este amor pode

começar no cimo de um arroubo mys -

tico para acabar na profundura da

degrada ção irrem ediavel, porque por

detraz da nuvem de incenso ruge tor ­

rentuosa a onda escaldada do desejo.

Emquanto a prece contrita escapa -se

tímida do labia, o desejo desp e-te as

ves tiagen s protectoras, insinua -se im­

pudente por secretas intimidades e a

imaginação repasta-se luxurio sam ente,

oh abominação! na decifra ção do

enigma paradisíaco de teo corpo vir­

gem.

O que elle quer de ti não é a Alma

harmoniosa, a candidez lilial, é a V o­

lupia que só a pureza intacta pode

ainda dar aos sentidos gastos, aos n er­

vos frouxos e que elles cançam -se de

buscar pelo mundo .. .

ATMA

Desvias do caminho justo. O que

elle aspira é a transfusão ardente das

Almas na plenitude azul de sua pu­

reza. É um templo para adorar incon­

dicionalmente Nma chimera de amôr . . .

EGREGOR

Não; de ti não fará o oratorio em

que cada dia s~ ajoelhará piedo sa-

IIJ

mente para a prece, mas a compa ­

nheira de sua luxuria, digna de seo

desprezo e sua abominação.

Será preciso que eu te grite ao ouvido

esta verdade amarga? ...

Silenciam ambos,

meditativos pç.lli­

dos, tremulas.

AnrA . .

Não o conheces .. . talvez. Ensinaste-

me a amar a Justiça e agora me in­

sufl.as. n' Alma um o di o violento a uma

pobre Alma cujo crime é apenas o de

ter amado muito . . . Teo adio falsea

o teo juizo . . . Ah se tu soubesses a

sua Alma... O outro dia~ maguei-o

com um olhar indifferente. Approxi ­

mou-se tímido, humilde e bocca sup­

plicante disse:

"Senhora de minha vida, Dona de

meo penar, tende piedade de mim que

recorro a vós ... "

Vi-o tão humilde, tão contrito que

me remordi, dando-lhe a esmola de

um olhar cheio de graça . Esta v a tão

pobre, tão pequeno . .. A voz se aque -

ceu mais: .

"Attendei a meos rogos, ouvi mi-

Ro sa mystica. 8

I 14

nhas supplicas, tende piedacle de mim

que recorro a vós .. . " Disse-lhe: falla,

eu te ouvirei . Como um crente ex­

tactico, genufiex0 aos pés de um altar

a voz tremula rezou um poema longo

e supplice. Teria tanto prazer ei:n t'o

contar . .. . mas o odeias tanto . . .

EGREGOR

E o conservaste?

ATMA

O ouvido não esquece a palavra d€

amor . Reoolhi-:as, uma a uma, piedo­

samente, na memoria, como a mão

devota guarda, uma a uma, as contas

de um rosarío. Queres que as reze?

EGREGOR

Para que? Eu as sei todas ...

ATMA

Para que has de odiar tanto? ...

EGREGOR

Reza .. . reza, seja feita tua vontade .. .

ATMA

Mas ouves satisfeito?

rr5

EGREGOR

Sim ... satisfeito ...

ATMA

"Em um outro dia, lá num Paiz Dis­

tante que meo sonho conhece, esten­

dido sobre a planície sempre azul da

Eterna Phan.tasia, floresceu num pala­

cio ele lyrios encarnados a Princeza

Cruel.

Nunca a Terra viu passar em seo

tempo um prodígio de mais extranha

formosura, nem conheceu um coração '

mais frio, uma Alma mais arida.

Branca, como as visões em syncopes,

parecia em seo ninho encantado uma

gotta de leite, boiando triumphante

em um -lago de sangue.

Os lyrios invejavam -lhe a elegancia

delicada do talhe; as magnolias diapha­

nisavam -se para imitar a morbida pal­

lidez de suas mãos; as anemonas adoe­

r:iam desbotando-se para tomar o tom

esmaiado de seo labio fino, os helio­

trapos requintavam-se em arteficios

para aprer:tder o segredo de sua pelle

aromacla . Dera -lhe uma loira estrella

luz para o nimbo ele sua fronte, e o

sol despeitado, comendo raivas esbra -

8"'

I G

zeadas, escondera-se muito tempo sob

nev:oas, porque em seo olhar havia

uma chamma mais robusta que o es­

plel'ldor victorioso .de astro. E no en­

tanto, esse Templo acabado, Cathedral

magnífica de sonho, ante . o qual o P.e­

regrino p0dia extasiar -se diante da

Divindade Omnipotente da -BeUeza

E terna, não 'tinha alta r, e a ara sa­

grada era um vasio enregelado, im­

palpavel, vestido ;;tpenas de uma ap­

parencia mentirosa.

Quanto crente afervorado nesta sede

insaciavel de culto que de terra s lon­

gínquas vinha-se demandando o sanc ­

tuario que lhe acenava de além na ima­

ginação devota, não estacara ahi, vendo

deserto, abandonado, como se mão

sacrilega o tivesse profanado, roubando

a urna miraculosa em que se guarda

a suprema verdade da vida? E si,

devoFado pelo Íl'lcendio da adoração,

illudido pela ficção enganosa da ap­

parencia, deixava-se conduzir pela 'mi­

ragem, a 'mudez fria recolhia em se o

ciborio profundo e invisível a palavra

escandecida, a prece inspirada, esque ­

cendo-o extactico, morto, na posição

ascetica de quem se desprende, na

II]

postura. immutavel de quem já não

tem vida.

Então, Ella apparecia, serena e im­

passível, macerando a Alma das vio­

letas já enroxecidas de dôr nos dedos

brancos e ia até o encontro do crente

perplexo ennoitecido na morte da

desesperança .

A mão fria, a mão branca, abria

então o tabernaculo com as cinco cha­

ves da crueldade, fazia decerrar-se o

velarium que occultava o vaso de elei­

ção e rubros de sangue, ardendo in­

consumíveis na chamma, os dedos

brancos, os dedos frios, arrancavam

de sua haste a mystica flor vermelha

da vida, ainda palpitante, vestida ainda

das brazas alacres das purpuras, dei­

xando cair um corpo inerte, involucro

desanimado que nem era mais um ci­

nerario de amor, pois a mão sacrílega

roubara vehemente da sementeira a

paixão enflorecida.

Depois caminhava sobre os corpos

machucados das violetas mortas, im­

passível, serena, a mão cruel incen ­

diada, supportando o coração ainda

arquejante, quasi morto, mas amante

sempre.

II8

No palaci:o encantado dos lyrios en­

carnados Ella ia depol-o numa camara

silenciosa, o salão elas gardenias, trans­

fixaclo por um longo alfinete de prata,

na parede alva, onde já muitos outros

existiam, semelhando uma sangria ele

rosas, borbotando de ~oh uma epíderma

de açucenas.

E todos os dias devotos ajoelhavam­

se no templo, contemplativos e extac­

ticos, vindos de paragens distantes,

trazendo a oblação piedosa ela Alma

nos labias contritos para padecer o

martyrio e entregar o coração já que

não era possível possuir o outro.

Ao longo das aléas rescendentes, as

flores que odiavam e invejavam a Prin­

ceza Cruel, viam-na passar todos os

dias, vestida da tunica alvíssima do

silencio, serena e impassível, na ma­

gestade olympica de seo orgulho, sem­

pre cruel e triste, torcendo entre os

dedos a Alma dos jasmins até expre­

mer gottas de sangue, macerando as

carnes dos manacás cada vez mais

rôxos pelo soffrimento, até perder -se

encoberta pela folhagem .

As fontes tremiam assustadas e as

gargantas roucas das pedras tinham

sons mais pallidos, melódias menos

confusas, quando Ella p_assava: receia­

vam que uma nota ~cre as fizesse odia ­

das e lhes impozesse 'a condemnacão

do perpetuo silencio do abando'no.

Uma dellas jazia extincta, protegida

a nudez vergonhosa de seo ventre ape­

nas por uns farrapos de lichens par­

dacentos, porque gaguejara um estri­

dor convulso, turvando a limpide z, de

u:ru de .seos momentos.

As ayes estarrecidas, immoviam -se,

dirigindo-lhe olhares mei"gos, um côro

de adorações mudas quando Ella pas­

sava, pois dizia -se, gostava de ouvil -as

somente de longe ..

E ai do imprudente que .não a pre ­

sentisse e ~e cuidasse na expansão -de

sua liberdade. Um dia um ficara sus­

penso no ar, immovel, gelado, na at­

titu.de de queJ,U vôa et~rnamente, con­

demnado á sua ankylose angustiosa

porque avoejara cantando um psalmo

rubro de felicidade, e lá está e dor­

mirá talvez a noite dos tempos na im­

passibilidade em que o destino cruel

o collocou. Nunca a Tyrannia en­

cGntrou arminhos mais afôfados, nem

e:&istiu ainda uma mais perfeita con-

!20

cordancia entre a dominação absoluta

e a subn1issão illimitada .

Passavam -se assim os dias da Dona

Cruel. Nunca se vira em seo labia

:florir um riso alegre , nem em sua

fronte desdobrar-se a luminescencia,

ele um pensamento amigo . E ao passo

que só espinhos semeava em seos ca­

minhos, só os lyrios da adoração in­

condicional brotavam nestas semen­

teil:a:s desprezadas .. .

A camara qas gardenias foi perdendo

a sua alvurà e trocando-a pel0 tom

sanguinosG., e os corações feridos, ache­

gados agora uns aos outros, tanto o

seo numero apouGava o espaço em

que viviam apunhalados pelos longos

aifinetes de prata.

Quando Ella penetl;ava na camara

rubra ouvia-se uma musica longínqua,

ciciante, uma mistura diluicla de beijos

apaixonados, conservados num hymna­

ri:d' de amor, e um perfume rnystico

derramava-se das urna s de amor in­

extincto no ambiente morno; seo olhar

frio, quando passeava pelas paredes,

as grandes :flores rubras palpitavam si­

lenciosrus, vivendo ainda a inextinguiv.el

existendá do Amor Imperecível . . . . . .

mas o olhar era frio, o labio mudo,

o gesto inexpressivo e as palpebras

brancas, duas petalas alvíssimas, ca­

biam languorosarnente, deixando o

olhar interior contemplar o lago da

Phantasia, allumiado pelas phosphori ­

sações intensas de uma orgia de luz

e perfumadG pelas pyras gigantescas

do Sonho diluindo no ambien t e, tran­

quillo o nardo, a myrra, o cinnamomo

da Illusão.

Os corações ensanguentados feridos

mais e mais pela indifferença cruel,

não cessaram de amar, ampliaram­

n' o transformandoo na .essencia vio­

lenta do amor exacerbado-o odio im­

placa vel dos que amam -e começaram

a sonhar a epopéa sanguenta das rei­

vindicações.

Tavde laivada de tons pallidos so­

bre a turqueza ' esmaecida, morna, si­

lenciosa, cahindo em lentidão demo-

' rada . . . A Princeza Cruel subiá do

jardim cançada de ter pisado o brio

cios lyrios, maguado a vaidade das

rosas , manchado a epiderma das ma­

gnolias, bebido a Alma das horten­

cias, exhaurido o canto das fontes e

vinha agora dar aos corações feri-

dos mais . uma significação de sua

Crueldade .

A mesma imprecação muda e apaixo­

nada . . . a mesma frieza silenciosa e

eruel ...

Então _., passou pela sala um sopro

quente e num m0me11to como se fôra

tramada a urdidura de uma vasta

conspiraç[o, as chammas irromperam

de todos os lados, espalmadas como

linguas mendigas, lambendo o ar n'uma

gananeia esfaimada ...

Os corações accesos, py~as :fl.amme­

jantes enlabaredavam o ambito da ca­

mara rubra e a Princeza Cruel con­

fundida na vertigem do incendio, abra ­

çada, beijada, estrangulada furiosa­

mente pelos mil labios sequiosos que

a devor 'avam ... remiu a culpa de süa

vida ...

No ~alão das garden ias, no pala cio

dos lyrios encarnados, iá num paiz

distante que meo sonho conhece, esten­

dida sobre a planície sempre azul da

Eterno Phantasia, onde outr' ora :flo­

resceu a Princeza Cruel, sob um pu­

nhado de cinzas frias existe ainda um

coração, vasta :flor rubra orue aninha

como um seio quente um enxame de

outros corações, achegados, unidos,

felizes agora, só na morte, por um

amor partilhado . . .

Sim além da vida, porque o amor

é mais forte do que a morte .. .

Foi assim a historia da Princeza

Cruel . . . "

E depois a voz perfumada pela emo ­

ção, elle voltou os olhos para mim:

. "E vós, Senhora de minha dôr, Dona

de meo penar, sereis a Princeza Cruel?

Não temeis que um incendio .vos con­

suma?"

E baixo, humi lde, pequen ino, como

um' Alma que se arrasta pelo chão :

- "Ü ~eo coração só, seria «apaz de

vos queimar inteira ... "

E eu, pela primeira vez tive para o

pobre um sorriso benigno ... estendi­

iJ.he a mão fria e disse-me feliz como .

se tivesse entrado na Gloria .

"Vós sois desde este instante a Nossa

Senhora dCJ Bom Sorriso . . . . Ah como

sois bella ! com0 sois perfeita! . . "

Meo . orgulho, eu o matei, mas elle

disse-me estas palavras que te digo ... ;

não sou vaidosa por tel-as ouvido, fui

apenas comy,adecido para quem as disse.

EGREGOR

E a santa abandonou o altar para

diluir-se no meio das mulheres . . .

ATMA

. Pode - se ser bemdita entre as mu­

lheres .. .

EGREGOR

Não, entre as mulheres, hoje, não.

Outr'ora a mulher sabia apenas orar,

chorar, sorrir, amar . . . tinha nos la­

bias a imagem sup.plicante de um

beijo na falla um poema molhado de

lagrimas, no olhar uma prece muâa e

irresistivel, em toda sua floração fe­

minina um prodígio de graça deli­

cada ... Era o que te contava fazer ...

Hoje é a mundana complicada, arti­

ficial, aprendeu o canto das sereias,

destilla do labio fel que queima, no

olhar ha chammas atrozes, no corpo

vertebrações de serpente, ensopada

de lascívia, ardendo e deixando tudo

em cinzas após si . .. É a sorte que

inve jas .. .

ATMA

Mas o Amor a depura de todas as

maculas . . .

EGREGOR

Não, o amor dos homens é uma

peste con-uptora. É com'um oxydo

mordendo um?- lamina polida para

corroel-a . . . Es hoje esta lamina es­

pelhante . . . depois o amor embaciará

para sempre a superficie limpa ...

para sempre . ..

ATMA

Onde aprendeste tanta palavra as­

pera?

EGREGOR

Na vida .. . r o coração m'as ensinou

a preço de muitas lagrimas . . . A ~

alma de tua mãe me disse em sonho,

chorando: "a desgraça se approxima."

Olhei e vi-a que caminhava ...

AnviA

Deus a varrerá de nosso caminho . ..

Desfila a reticen -

cia de um silencio . . .

EGREGOR, olhos no

céo.

Permitti Senhor que eu minta! Di­

gam-te os anjos: amen! amen!

rz6

ATMA

É preciso esquecer as apprehensões

tristes . . . É quasi noite ... ficas ainda?

EGREGOR

Eu preCiso interrogar o silencio.

AnvrA sae de um

passo lento. A noite

cae completa ...

EGREGOR, só, pas ­

seia tristemente,

pen sando ainda em

seo mal immedica­

vel.

Tel-a até hoje amimado corno ao

sonhb mais bello de uma existencia

inteira, plantado em su' Alma uma fé

robusta, uma bondade san, sanear-lhe

todos os instantes de idéas limpas, sem

lhe deixar doer um só espinho da vi­

leza mundana, envolvei-a de um des­

vello constante para que nunca a

audiencia de uma palavra má, a con­

templação de um acto impuro a ferisse

duramente, viver alentado desse en­

canto que a perfuma, e depois ... ter

de entregaia fatalmente a um ser

máo, egoísta, brutal, polluido pe'los

attrictos enyi ~ ecedores, que lhe soube

apenas mentir, para manchai -a de seo

contacto animal e rir -se depois en­

soberbecido desse triumph0 .. .

Ah! esse amor que ella sonha, allu ­

cinamento luarento que se agita avoe­

jando na ignorancia . das virgens puras,

que lhe ern.balsama instantes tão do ­

ces, pobre filha, para quem ergue os

bra ços, é uma dôr, goso brutal, en­

venenado, infecto .

Os braços que esperas em teo sonho

para abraçar a tu' Alma hão de ape ­

nas neste espasmo animal, bruto e

nojoso, o am.or dos homens, unico

comprehendido por elles, cingir -te como

serpentes de ferro o corpo immacu ­

lado para apertai -o e corrompel -o do­

lorosamente . . .

Dessa violencia que é o sonho da

humanidade inteira ha de a flor de

tua carne resurgir fanada, doída, .ma­

cerada, e tu' Alma branca, pobre Alma

despedaçada, ferida em sua illusão

ma:is santa, o sonho esvai do de um

amor puro, sentirá a dór alanceante

dos que se veem para sempre, irreme­

diavelmente perdidos. Onde se nim ­

bavam brancuras de arnünho, estam-

par-se-á a macula indelevel dessa suji­

dé!ide humana. Onde mais a fé des sa •

bondade que te dei, a doce ignoran­

cia da vileza 'mundana, a pureza im­

mácula de te os sonhos? Elle s lá irão

num tropel vertiginoso, sumindo-se de

ti e os teos braços hão de se cançar

fatigados de chamai-os; toda s as tuas

lagrimas serão poucas para obteres a

volta de um só delles . . . E se desse

embate resistires, o fermento do mal

em ti lançado, degradará perversa ­

mente todo o resto de tua pureza

poupada, e aviltada, impura serás a

companheira digna do amante lascivo,

aprenderás a mentir, irás te juntar a

esse exercito copioso do vicio a quem

a sociedade dá impl:lnemente a liber ­

dade para prostituir-se uma vez atra­

vesse a porta desse alcouceo casa­

mento . É a prostituição legal, feita

com o cerimonial ridículo e cynico que

perdoa as torpezas uma vez consagréli­

d&s pelos codigos. Ha mais pureza

na mulher que cede e que se entrega

ignorante a um homem que lhe men-

tiu, que nesta comedia torpe em que

um malfeitor toma a liberdade e a

sociedade o sancciona, de inficionar

uma vida, conspurcai-a da mais negra

impureza e jungila depois, pulsos

arroxados, para leval-a victima inde­

feza a esse altar de sacr ificio e irn­

molala, barbaro holocausto, a sua

luxuria . Ha mais pureza na mulher

que se vende e no infame que compra,

porque lhes ensinaram este commer ­

cio abominoso que neste outro caso

que as leis do homem, a tyrannia do

macho, regularisam, porque . ahi ha

tambem commerc io infame de ouro

que compra ou de lagrimé).s que são

o preço de violencia porém mais hypo­

crisia, mais f:1rça, mais mentira, mais

regulamentos, mais formulas ...

E legiões .sobre legiões passam,

assistem a estas torpezas, applaudin­

do-as como a maioria ou se resignando

mudos á fatalidade desse crime.

Vós todos que tendes filhos, paes,

que tendes até hoje feito para poupar

esse pedaço querido de vossa vida

para que não se pollúa como fostes

manchados?

Irmãos, que vale a santidade de voss0

affecto se sois impotentes para luctar

contra a sociedade que vos arrebata

o alvo de vosso culto?

IJO

Doces mães, de olhar languido e

choroso, capazes de luctar com bra­

vura pela guarda desses anjos que vos

cahiram dos ceos, porque num mo­

mento consentis que vos venha um es­

trangeiro roubar a flor de vosso affecto,

para esmagal - a com sua violencia,

com sua infamia e cuspir uma nodoa

de lama sobre a Alma que :fizestes

santa? Ah, sois fracos! mentem -vos!

e enganados ou temerosos, acompa­

nhaes a onda que vos avassala . ..

E hei de eu vel-a infamada, impura,

s0ffredora?

Úm rictus cruel

rasga-lhe os labias.

Não . . . antes morta!

v

O vos omn es qui tran si tis per viam, attendite,

et videói si est dolor sicut dolor me•.1s.

La-1nen.t~tioues Jere?J!.Ícc,

Caput I, 12.

Vem se fazendo

noite. A ultima

tinta violeta do cre­

pusculo esbatese

diluída num oceano

de sombra que roia

r submerg-indo tudo.

Contornos se apa ­

g-am, formas se dis­

solvem, perfis se in­

certam, somem -se

na treva invasôra as

figurações elas coi­

sas.

Pelo espaço, no

azul retincto, pas­

sam rapiclas, tremu­

las, imagens inde­

cisas de luzes.

Depois, um pha­

roleiro invisível vae

lentamente, desor­

denadamente, ac­

cerrclendo o alampa­

dario elas constel ­

lações. As pon­

tuações luminosas,

numa scint illa cão

precipitada clã~ á

paizagemsideral um

aspecto . febril .e a l­

lucinado. Só a pu­

pilla clara de V es­

per tem para a Ter­

ra Triste um olhar

de infinita doçura.

A Alma de EGRE ­

GOR . se entenebrece

na effusão commun.i­

cativa da Aln:.a uni­

versal . Rolam na

mente insana frag­

mentos dispersos de

idéas doidas.

EGR'EJGOR

Contingencia terrível das coisas .. .

incoherencia mysteriosa do Destino .. .

em a Imaginação armando um cas­

tello de sonho e vem a Fatalidade

após desfazendo, um a um, os entra­

vamentos subtis de nossos planos, an­

niquilando, arrazando, subvertendo,

mão iniqua, na contradita violenta de

todas as nossas futurações.

Que sin istros desígnios trouxe o ho­

mem ao surgir, que traição formi­

davel lhe prepara em cada hora, em

troca da penuria de existir o impla ­

cavel Destino?

Quando hade o homem libertar-se

dessa sujeição ominosa que o escravisa

ao maior jugo que ainda existiu?

Em que dia de raivas negras te gerou

o inferno, dominador dos homens, para

vingar -se com um flagello e stupendo

de cada pequenina alegria abro lhad a

na Terra?

Morrer ... ah supremo refugio, MGrte

amiga, mãe terna que nos acolhes ca­

riciosa, branda, sem queixas, sem ex­

probações, silenciosa, doce . . . Como

a Vida seria mil vezes ]nais luctuosa,

se tu, grande consoladora, não exis-

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