Rosa mística - IV
Rosa mística - IV
IO
EGREGOR
Amas . . . mas não pensaste bem
ainda na significação terrivel desta
simpl es palavra .
An..rA
É tão doce amar ... e tão simples ...
E GREGO R
Filha, porque te deixas envenenar?
Porque não confiaste . a teo pobre pae
esta molestia horrivel que te inficcio
nou? P0rque me occultaste esta roi
seria?
AnvrA
Doe tanto a palavra acre em tua
bocca ... Não falles assim ... se sou
besses como elle te parece, como é
bom, como é terno, como é doce . :.
EGREGOR
Eu ci sei demasiado . . . Elles são
todos assim . . . Os cantos das sereias
são perfidos e inoculam n'aima um
phyltro venenoso . . . Não os ouças,
filha, são como as flores do mal que
aspiradas corrompem.
I
ATMA
Nunca ouvi de seo la:bio esta palavra
mentirosa e envenenada. É tímido, é
doce; não falia, balbucia; não se ar
rouba, não se transporta, reza con
trito, humilde, orações piedosas que
só a crueldade não ouv1na .. .
EGREGOR
Sim, eu conheco estes artistas ha
beis . . . Quando 'te dirige contrito e
humilhado, de bocca tremula e olhos
supplic es uma prece inspirada, nem o
cuidas, representa uma farça impu
dente, colla ao descaro salaz a mas
cara que mais facillhe dará um trium
pho. A outras entoaria carmes lyricos
ou teria a audacia de uma explosão
confessada, mas como abordar a in
violabilidade da Torre de David, em
sua eburnea pureza, senão vestindo o
mystico arnez da devoção e armando-se
das alabardas das oblações piedosas?
Si tivesses aprofundado o olhar atra
véz do embaciamento theatral de sua
pupilla, verias brilhar lá dentro con
vulsamente a chamma farpada do de
sejo vehemente . . . Este amor pode
começar no cimo de um arroubo mys -
tico para acabar na profundura da
degrada ção irrem ediavel, porque por
detraz da nuvem de incenso ruge tor
rentuosa a onda escaldada do desejo.
Emquanto a prece contrita escapa -se
tímida do labia, o desejo desp e-te as
ves tiagen s protectoras, insinua -se im
pudente por secretas intimidades e a
imaginação repasta-se luxurio sam ente,
oh abominação! na decifra ção do
enigma paradisíaco de teo corpo vir
gem.
O que elle quer de ti não é a Alma
harmoniosa, a candidez lilial, é a V o
lupia que só a pureza intacta pode
ainda dar aos sentidos gastos, aos n er
vos frouxos e que elles cançam -se de
buscar pelo mundo .. .
ATMA
Desvias do caminho justo. O que
elle aspira é a transfusão ardente das
Almas na plenitude azul de sua pu
reza. É um templo para adorar incon
dicionalmente Nma chimera de amôr . . .
EGREGOR
Não; de ti não fará o oratorio em
que cada dia s~ ajoelhará piedo sa-
IIJ
mente para a prece, mas a compa
nheira de sua luxuria, digna de seo
desprezo e sua abominação.
Será preciso que eu te grite ao ouvido
esta verdade amarga? ...
Silenciam ambos,
meditativos pç.lli
dos, tremulas.
AnrA . .
Não o conheces .. . talvez. Ensinaste-
me a amar a Justiça e agora me in
sufl.as. n' Alma um o di o violento a uma
pobre Alma cujo crime é apenas o de
ter amado muito . . . Teo adio falsea
o teo juizo . . . Ah se tu soubesses a
sua Alma... O outro dia~ maguei-o
com um olhar indifferente. Approxi
mou-se tímido, humilde e bocca sup
plicante disse:
"Senhora de minha vida, Dona de
meo penar, tende piedade de mim que
recorro a vós ... "
Vi-o tão humilde, tão contrito que
me remordi, dando-lhe a esmola de
um olhar cheio de graça . Esta v a tão
pobre, tão pequeno . .. A voz se aque -
ceu mais: .
"Attendei a meos rogos, ouvi mi-
Ro sa mystica. 8
I 14
nhas supplicas, tende piedacle de mim
que recorro a vós .. . " Disse-lhe: falla,
eu te ouvirei . Como um crente ex
tactico, genufiex0 aos pés de um altar
a voz tremula rezou um poema longo
e supplice. Teria tanto prazer ei:n t'o
contar . .. . mas o odeias tanto . . .
EGREGOR
E o conservaste?
ATMA
O ouvido não esquece a palavra d€
amor . Reoolhi-:as, uma a uma, piedo
samente, na memoria, como a mão
devota guarda, uma a uma, as contas
de um rosarío. Queres que as reze?
EGREGOR
Para que? Eu as sei todas ...
ATMA
Para que has de odiar tanto? ...
EGREGOR
Reza .. . reza, seja feita tua vontade .. .
ATMA
Mas ouves satisfeito?
rr5
EGREGOR
Sim ... satisfeito ...
ATMA
"Em um outro dia, lá num Paiz Dis
tante que meo sonho conhece, esten
dido sobre a planície sempre azul da
Eterna Phan.tasia, floresceu num pala
cio ele lyrios encarnados a Princeza
Cruel.
Nunca a Terra viu passar em seo
tempo um prodígio de mais extranha
formosura, nem conheceu um coração '
mais frio, uma Alma mais arida.
Branca, como as visões em syncopes,
parecia em seo ninho encantado uma
gotta de leite, boiando triumphante
em um -lago de sangue.
Os lyrios invejavam -lhe a elegancia
delicada do talhe; as magnolias diapha
nisavam -se para imitar a morbida pal
lidez de suas mãos; as anemonas adoe
r:iam desbotando-se para tomar o tom
esmaiado de seo labio fino, os helio
trapos requintavam-se em arteficios
para aprer:tder o segredo de sua pelle
aromacla . Dera -lhe uma loira estrella
luz para o nimbo ele sua fronte, e o
sol despeitado, comendo raivas esbra -
8"'
I G
zeadas, escondera-se muito tempo sob
nev:oas, porque em seo olhar havia
uma chamma mais robusta que o es
plel'ldor victorioso .de astro. E no en
tanto, esse Templo acabado, Cathedral
magnífica de sonho, ante . o qual o P.e
regrino p0dia extasiar -se diante da
Divindade Omnipotente da -BeUeza
E terna, não 'tinha alta r, e a ara sa
grada era um vasio enregelado, im
palpavel, vestido ;;tpenas de uma ap
parencia mentirosa.
Quanto crente afervorado nesta sede
insaciavel de culto que de terra s lon
gínquas vinha-se demandando o sanc
tuario que lhe acenava de além na ima
ginação devota, não estacara ahi, vendo
deserto, abandonado, como se mão
sacrilega o tivesse profanado, roubando
a urna miraculosa em que se guarda
a suprema verdade da vida? E si,
devoFado pelo Íl'lcendio da adoração,
illudido pela ficção enganosa da ap
parencia, deixava-se conduzir pela 'mi
ragem, a 'mudez fria recolhia em se o
ciborio profundo e invisível a palavra
escandecida, a prece inspirada, esque
cendo-o extactico, morto, na posição
ascetica de quem se desprende, na
II]
postura. immutavel de quem já não
tem vida.
Então, Ella apparecia, serena e im
passível, macerando a Alma das vio
letas já enroxecidas de dôr nos dedos
brancos e ia até o encontro do crente
perplexo ennoitecido na morte da
desesperança .
A mão fria, a mão branca, abria
então o tabernaculo com as cinco cha
ves da crueldade, fazia decerrar-se o
velarium que occultava o vaso de elei
ção e rubros de sangue, ardendo in
consumíveis na chamma, os dedos
brancos, os dedos frios, arrancavam
de sua haste a mystica flor vermelha
da vida, ainda palpitante, vestida ainda
das brazas alacres das purpuras, dei
xando cair um corpo inerte, involucro
desanimado que nem era mais um ci
nerario de amor, pois a mão sacrílega
roubara vehemente da sementeira a
paixão enflorecida.
Depois caminhava sobre os corpos
machucados das violetas mortas, im
passível, serena, a mão cruel incen
diada, supportando o coração ainda
arquejante, quasi morto, mas amante
sempre.
II8
No palaci:o encantado dos lyrios en
carnados Ella ia depol-o numa camara
silenciosa, o salão elas gardenias, trans
fixaclo por um longo alfinete de prata,
na parede alva, onde já muitos outros
existiam, semelhando uma sangria ele
rosas, borbotando de ~oh uma epíderma
de açucenas.
E todos os dias devotos ajoelhavam
se no templo, contemplativos e extac
ticos, vindos de paragens distantes,
trazendo a oblação piedosa ela Alma
nos labias contritos para padecer o
martyrio e entregar o coração já que
não era possível possuir o outro.
Ao longo das aléas rescendentes, as
flores que odiavam e invejavam a Prin
ceza Cruel, viam-na passar todos os
dias, vestida da tunica alvíssima do
silencio, serena e impassível, na ma
gestade olympica de seo orgulho, sem
pre cruel e triste, torcendo entre os
dedos a Alma dos jasmins até expre
mer gottas de sangue, macerando as
carnes dos manacás cada vez mais
rôxos pelo soffrimento, até perder -se
encoberta pela folhagem .
As fontes tremiam assustadas e as
gargantas roucas das pedras tinham
sons mais pallidos, melódias menos
confusas, quando Ella p_assava: receia
vam que uma nota ~cre as fizesse odia
das e lhes impozesse 'a condemnacão
do perpetuo silencio do abando'no.
Uma dellas jazia extincta, protegida
a nudez vergonhosa de seo ventre ape
nas por uns farrapos de lichens par
dacentos, porque gaguejara um estri
dor convulso, turvando a limpide z, de
u:ru de .seos momentos.
As ayes estarrecidas, immoviam -se,
dirigindo-lhe olhares mei"gos, um côro
de adorações mudas quando Ella pas
sava, pois dizia -se, gostava de ouvil -as
somente de longe ..
E ai do imprudente que .não a pre
sentisse e ~e cuidasse na expansão -de
sua liberdade. Um dia um ficara sus
penso no ar, immovel, gelado, na at
titu.de de queJ,U vôa et~rnamente, con
demnado á sua ankylose angustiosa
porque avoejara cantando um psalmo
rubro de felicidade, e lá está e dor
mirá talvez a noite dos tempos na im
passibilidade em que o destino cruel
o collocou. Nunca a Tyrannia en
cGntrou arminhos mais afôfados, nem
e:&istiu ainda uma mais perfeita con-
!20
cordancia entre a dominação absoluta
e a subn1issão illimitada .
Passavam -se assim os dias da Dona
Cruel. Nunca se vira em seo labia
:florir um riso alegre , nem em sua
fronte desdobrar-se a luminescencia,
ele um pensamento amigo . E ao passo
que só espinhos semeava em seos ca
minhos, só os lyrios da adoração in
condicional brotavam nestas semen
teil:a:s desprezadas .. .
A camara qas gardenias foi perdendo
a sua alvurà e trocando-a pel0 tom
sanguinosG., e os corações feridos, ache
gados agora uns aos outros, tanto o
seo numero apouGava o espaço em
que viviam apunhalados pelos longos
aifinetes de prata.
Quando Ella penetl;ava na camara
rubra ouvia-se uma musica longínqua,
ciciante, uma mistura diluicla de beijos
apaixonados, conservados num hymna
ri:d' de amor, e um perfume rnystico
derramava-se das urna s de amor in
extincto no ambiente morno; seo olhar
frio, quando passeava pelas paredes,
as grandes :flores rubras palpitavam si
lenciosrus, vivendo ainda a inextinguiv.el
existendá do Amor Imperecível . . . . . .
mas o olhar era frio, o labio mudo,
o gesto inexpressivo e as palpebras
brancas, duas petalas alvíssimas, ca
biam languorosarnente, deixando o
olhar interior contemplar o lago da
Phantasia, allumiado pelas phosphori
sações intensas de uma orgia de luz
e perfumadG pelas pyras gigantescas
do Sonho diluindo no ambien t e, tran
quillo o nardo, a myrra, o cinnamomo
da Illusão.
Os corações ensanguentados feridos
mais e mais pela indifferença cruel,
não cessaram de amar, ampliaram
n' o transformandoo na .essencia vio
lenta do amor exacerbado-o odio im
placa vel dos que amam -e começaram
a sonhar a epopéa sanguenta das rei
vindicações.
Tavde laivada de tons pallidos so
bre a turqueza ' esmaecida, morna, si
lenciosa, cahindo em lentidão demo-
' rada . . . A Princeza Cruel subiá do
jardim cançada de ter pisado o brio
cios lyrios, maguado a vaidade das
rosas , manchado a epiderma das ma
gnolias, bebido a Alma das horten
cias, exhaurido o canto das fontes e
vinha agora dar aos corações feri-
dos mais . uma significação de sua
Crueldade .
A mesma imprecação muda e apaixo
nada . . . a mesma frieza silenciosa e
eruel ...
Então _., passou pela sala um sopro
quente e num m0me11to como se fôra
tramada a urdidura de uma vasta
conspiraç[o, as chammas irromperam
de todos os lados, espalmadas como
linguas mendigas, lambendo o ar n'uma
gananeia esfaimada ...
Os corações accesos, py~as :fl.amme
jantes enlabaredavam o ambito da ca
mara rubra e a Princeza Cruel con
fundida na vertigem do incendio, abra
çada, beijada, estrangulada furiosa
mente pelos mil labios sequiosos que
a devor 'avam ... remiu a culpa de süa
vida ...
No ~alão das garden ias, no pala cio
dos lyrios encarnados, iá num paiz
distante que meo sonho conhece, esten
dida sobre a planície sempre azul da
Eterno Phantasia, onde outr' ora :flo
resceu a Princeza Cruel, sob um pu
nhado de cinzas frias existe ainda um
coração, vasta :flor rubra orue aninha
como um seio quente um enxame de
outros corações, achegados, unidos,
felizes agora, só na morte, por um
amor partilhado . . .
Sim além da vida, porque o amor
é mais forte do que a morte .. .
Foi assim a historia da Princeza
Cruel . . . "
E depois a voz perfumada pela emo
ção, elle voltou os olhos para mim:
. "E vós, Senhora de minha dôr, Dona
de meo penar, sereis a Princeza Cruel?
Não temeis que um incendio .vos con
suma?"
E baixo, humi lde, pequen ino, como
um' Alma que se arrasta pelo chão :
- "Ü ~eo coração só, seria «apaz de
vos queimar inteira ... "
E eu, pela primeira vez tive para o
pobre um sorriso benigno ... estendi
iJ.he a mão fria e disse-me feliz como .
se tivesse entrado na Gloria .
"Vós sois desde este instante a Nossa
Senhora dCJ Bom Sorriso . . . . Ah como
sois bella ! com0 sois perfeita! . . "
Meo . orgulho, eu o matei, mas elle
disse-me estas palavras que te digo ... ;
não sou vaidosa por tel-as ouvido, fui
apenas comy,adecido para quem as disse.
EGREGOR
E a santa abandonou o altar para
diluir-se no meio das mulheres . . .
ATMA
. Pode - se ser bemdita entre as mu
lheres .. .
EGREGOR
Não, entre as mulheres, hoje, não.
Outr'ora a mulher sabia apenas orar,
chorar, sorrir, amar . . . tinha nos la
bias a imagem sup.plicante de um
beijo na falla um poema molhado de
lagrimas, no olhar uma prece muâa e
irresistivel, em toda sua floração fe
minina um prodígio de graça deli
cada ... Era o que te contava fazer ...
Hoje é a mundana complicada, arti
ficial, aprendeu o canto das sereias,
destilla do labio fel que queima, no
olhar ha chammas atrozes, no corpo
vertebrações de serpente, ensopada
de lascívia, ardendo e deixando tudo
em cinzas após si . .. É a sorte que
inve jas .. .
ATMA
Mas o Amor a depura de todas as
maculas . . .
EGREGOR
Não, o amor dos homens é uma
peste con-uptora. É com'um oxydo
mordendo um?- lamina polida para
corroel-a . . . Es hoje esta lamina es
pelhante . . . depois o amor embaciará
para sempre a superficie limpa ...
para sempre . ..
ATMA
Onde aprendeste tanta palavra as
pera?
EGREGOR
Na vida .. . r o coração m'as ensinou
a preço de muitas lagrimas . . . A ~
alma de tua mãe me disse em sonho,
chorando: "a desgraça se approxima."
Olhei e vi-a que caminhava ...
AnviA
Deus a varrerá de nosso caminho . ..
Desfila a reticen -
cia de um silencio . . .
EGREGOR, olhos no
céo.
Permitti Senhor que eu minta! Di
gam-te os anjos: amen! amen!
rz6
ATMA
É preciso esquecer as apprehensões
tristes . . . É quasi noite ... ficas ainda?
EGREGOR
Eu preCiso interrogar o silencio.
AnvrA sae de um
passo lento. A noite
cae completa ...
EGREGOR, só, pas
seia tristemente,
pen sando ainda em
seo mal immedica
vel.
Tel-a até hoje amimado corno ao
sonhb mais bello de uma existencia
inteira, plantado em su' Alma uma fé
robusta, uma bondade san, sanear-lhe
todos os instantes de idéas limpas, sem
lhe deixar doer um só espinho da vi
leza mundana, envolvei-a de um des
vello constante para que nunca a
audiencia de uma palavra má, a con
templação de um acto impuro a ferisse
duramente, viver alentado desse en
canto que a perfuma, e depois ... ter
de entregaia fatalmente a um ser
máo, egoísta, brutal, polluido pe'los
attrictos enyi ~ ecedores, que lhe soube
apenas mentir, para manchai -a de seo
contacto animal e rir -se depois en
soberbecido desse triumph0 .. .
Ah! esse amor que ella sonha, allu
cinamento luarento que se agita avoe
jando na ignorancia . das virgens puras,
que lhe ern.balsama instantes tão do
ces, pobre filha, para quem ergue os
bra ços, é uma dôr, goso brutal, en
venenado, infecto .
Os braços que esperas em teo sonho
para abraçar a tu' Alma hão de ape
nas neste espasmo animal, bruto e
nojoso, o am.or dos homens, unico
comprehendido por elles, cingir -te como
serpentes de ferro o corpo immacu
lado para apertai -o e corrompel -o do
lorosamente . . .
Dessa violencia que é o sonho da
humanidade inteira ha de a flor de
tua carne resurgir fanada, doída, .ma
cerada, e tu' Alma branca, pobre Alma
despedaçada, ferida em sua illusão
ma:is santa, o sonho esvai do de um
amor puro, sentirá a dór alanceante
dos que se veem para sempre, irreme
diavelmente perdidos. Onde se nim
bavam brancuras de arnünho, estam-
par-se-á a macula indelevel dessa suji
dé!ide humana. Onde mais a fé des sa •
bondade que te dei, a doce ignoran
cia da vileza 'mundana, a pureza im
mácula de te os sonhos? Elle s lá irão
num tropel vertiginoso, sumindo-se de
ti e os teos braços hão de se cançar
fatigados de chamai-os; toda s as tuas
lagrimas serão poucas para obteres a
volta de um só delles . . . E se desse
embate resistires, o fermento do mal
em ti lançado, degradará perversa
mente todo o resto de tua pureza
poupada, e aviltada, impura serás a
companheira digna do amante lascivo,
aprenderás a mentir, irás te juntar a
esse exercito copioso do vicio a quem
a sociedade dá impl:lnemente a liber
dade para prostituir-se uma vez atra
vesse a porta desse alcouceo casa
mento . É a prostituição legal, feita
com o cerimonial ridículo e cynico que
perdoa as torpezas uma vez consagréli
d&s pelos codigos. Ha mais pureza
na mulher que cede e que se entrega
ignorante a um homem que lhe men-
tiu, que nesta comedia torpe em que
um malfeitor toma a liberdade e a
sociedade o sancciona, de inficionar
uma vida, conspurcai-a da mais negra
impureza e jungila depois, pulsos
arroxados, para leval-a victima inde
feza a esse altar de sacr ificio e irn
molala, barbaro holocausto, a sua
luxuria . Ha mais pureza na mulher
que se vende e no infame que compra,
porque lhes ensinaram este commer
cio abominoso que neste outro caso
que as leis do homem, a tyrannia do
macho, regularisam, porque . ahi ha
tambem commerc io infame de ouro
que compra ou de lagrimé).s que são
o preço de violencia porém mais hypo
crisia, mais f:1rça, mais mentira, mais
regulamentos, mais formulas ...
E legiões .sobre legiões passam,
assistem a estas torpezas, applaudin
do-as como a maioria ou se resignando
mudos á fatalidade desse crime.
Vós todos que tendes filhos, paes,
que tendes até hoje feito para poupar
esse pedaço querido de vossa vida
para que não se pollúa como fostes
manchados?
Irmãos, que vale a santidade de voss0
affecto se sois impotentes para luctar
contra a sociedade que vos arrebata
o alvo de vosso culto?
IJO
Doces mães, de olhar languido e
choroso, capazes de luctar com bra
vura pela guarda desses anjos que vos
cahiram dos ceos, porque num mo
mento consentis que vos venha um es
trangeiro roubar a flor de vosso affecto,
para esmagal - a com sua violencia,
com sua infamia e cuspir uma nodoa
de lama sobre a Alma que :fizestes
santa? Ah, sois fracos! mentem -vos!
e enganados ou temerosos, acompa
nhaes a onda que vos avassala . ..
E hei de eu vel-a infamada, impura,
s0ffredora?
Úm rictus cruel
rasga-lhe os labias.
Não . . . antes morta!
v
O vos omn es qui tran si tis per viam, attendite,
et videói si est dolor sicut dolor me•.1s.
La-1nen.t~tioues Jere?J!.Ícc,
Caput I, 12.
Vem se fazendo
noite. A ultima
tinta violeta do cre
pusculo esbatese
diluída num oceano
de sombra que roia
r submerg-indo tudo.
Contornos se apa
g-am, formas se dis
solvem, perfis se in
certam, somem -se
na treva invasôra as
figurações elas coi
sas.
Pelo espaço, no
azul retincto, pas
sam rapiclas, tremu
las, imagens inde
cisas de luzes.
Depois, um pha
roleiro invisível vae
lentamente, desor
denadamente, ac
cerrclendo o alampa
dario elas constel
lações. As pon
tuações luminosas,
numa scint illa cão
precipitada clã~ á
paizagemsideral um
aspecto . febril .e a l
lucinado. Só a pu
pilla clara de V es
per tem para a Ter
ra Triste um olhar
de infinita doçura.
A Alma de EGRE
GOR . se entenebrece
na effusão commun.i
cativa da Aln:.a uni
versal . Rolam na
mente insana frag
mentos dispersos de
idéas doidas.
EGR'EJGOR
Contingencia terrível das coisas .. .
incoherencia mysteriosa do Destino .. .
em a Imaginação armando um cas
tello de sonho e vem a Fatalidade
após desfazendo, um a um, os entra
vamentos subtis de nossos planos, an
niquilando, arrazando, subvertendo,
mão iniqua, na contradita violenta de
todas as nossas futurações.
Que sin istros desígnios trouxe o ho
mem ao surgir, que traição formi
davel lhe prepara em cada hora, em
troca da penuria de existir o impla
cavel Destino?
Quando hade o homem libertar-se
dessa sujeição ominosa que o escravisa
ao maior jugo que ainda existiu?
Em que dia de raivas negras te gerou
o inferno, dominador dos homens, para
vingar -se com um flagello e stupendo
de cada pequenina alegria abro lhad a
na Terra?
Morrer ... ah supremo refugio, MGrte
amiga, mãe terna que nos acolhes ca
riciosa, branda, sem queixas, sem ex
probações, silenciosa, doce . . . Como
a Vida seria mil vezes ]nais luctuosa,
se tu, grande consoladora, não exis-