Rosa mística - V
Rosa mística - V
IJÓ
tisses neste extremo do soffrimento
humano! É preciso morrer, morrer a
tempo . Entre as mais bellas coisas da
Vida está a Morte Opportuna. Logo
que se tenha attingido a perfeição,
antes que a degradação comece . Se
se colhessem os fructos sazonados, não
apodreceriam. Ha na vida do Corpo
e da Alma esta florescencia radiosa,
esta maturidade feliz; esta decompo
sição nefasta . ..
Batedores de luz,
numa preoessãodia
mantina de astro,
annunciamnum cla
rão extenso, um luar
merencoreo. A lua
tímida vae lenta e
fria surgindo aureo
lacla ele l!lm halo gi
gantesco". Vão se
apagando estrellas
pallidas além. Um
fei:x;e louro de luz,
coado pelo enfolha
mento das laranjei
ras, illumina suave
mente o semblante
de ATMA, adormicla,
numa postura ange -
13 7
lica, em um banco
de pedra, na som
bra, sob as folhas
çiciantes . .A debil
claridade destaca o
vulto branco na per
feicão harmoniosa
de 'um contorno ml
.peccavel.
Sonha talvez. Na
fronte serena e pai
a estende -se um
véo de felicidade .
Dominado pela ru
deza in:flexi vel e cal
ma de uma decisão
inabalavel EGREGOR
se approxima e con
templa -a extact ico,
longo tempo, si
lenciosamente. Na
mente cont urbada
ermam cog ita ções
passadas.
EGREGOR
Pois que és perfeita, deves morrer.
A mor te é semp re a integração ele
uma vida mesmo quando ella tenha
sido comple ta e attingido a perfeição
ideal.
És minha obra, fiz-te uma perfeição
humana come nunca sonharam as men
tes enfebrecidas . dos grandes poetas;
nunca o einzel de um esta:tuario vil!l
surgÍ!r do marmore a tealisação de seo
idéal, como tu foste dG> mep; a tincta
em tela alguma tracejou ainda uma
linha que lembrasse o magico encanto
que te circunda; a harmonia de teo
ser incomparavel só a podia crear um
grande amor. E pois que te dei a
harmonia da musica d.ivina, a clari
dade immmtal que te illumina, que te
insculpi imagem viva de meo sonho e
meo amor e te infiltrei a essencia pre
Ciosa e incorruptível de grandes pen
samentos, 'fazendo -te ignorar todas as
sanies que azinhavram a natureza 1m
mana, devo agora abandonar -te á fu
ria ic0noclasta de barbaros embria
gados, que te hão de conspurcar irre
ligiosamente, carvoando -te a pureza
com um contacto irreverente?
Dos labios entre
éllbertos de AnviA fo
ge docemente um
sorriso, aclavando o
seo sonho .
EGREGOR contem-
, ..
plandoa, sempre
enlevado .
Teo corpo tem a santidade dos sa
crarios, é um •templo de uma sumptuo
sidade mag,nifica e divina que só a
contrição da pFece não poderá offen
der; ta' Alm.a, um jardim secreto hôrto
concluso, cheio de sombra e mysterio,
onde florescem os junquilh os e as ro
sas, os myrtos e os raimmculos, as
anemonas e as hortencias, onde psal
modiam fontes de aguas vivas, ryth
mos de uma ensonancia límpida e per
feita, onde voam nas auras a1p.igas
todos os perfumes exquesitos das :f;lo.
res dispersas, symbo los de pensamen
tos variados, perfeitos, harmoniosos,
odorantes .
E deve o mansionario do Templo
consentir que mãos impuras violem a
intangibilidade mystica do sanctuario
e o guarda do J ardi~ Sagrado que
a impiedade arranque as flores cresci-
r das para eoroar uma bella existencia
e transmude-as em grina ldas de bac
chante, entecidas para a pollução de
.uma noite na insania festival de um
mysterio dyonisiaco?
Não, não serás profanada: passarás
intacta, immaculada, perfeita, á per
feição da Morte, a consoladora su
prema de toda tristeza terrena, que
te abrigará em seo grande ventre de
mãe e te preservará de todas as m-
famias humanas .... . .
A mão firme numa
impulsão irrepremi
vel, instilla nos la
bias semi - abertos
uma essencia fatal ...
Uma nuvem vela
a face do luar e pas
sa instantaneamen
te. E o semblante
de An.u, sorridente
e feliz illumina-se de
um esplendor novo.
Tecem os raios do
luÇLr na teia delica
da de sua cabellei
ra loira um poema
de graça infinita,
o estema de oiro
das santas felizes.
Mais pallida, sem
pre mais pallida,
immaterial, impon
deralisada, um sor
riso de bemaventu
rança ungindo san-
tamente o labia, vae
se seraphisando len
ta, lentamente .. .
Desprendido de
si, alheiado á effec
tividade real, EGRE
GOR vae seguindo o
caminho da morte
nesse rosto feliz, que
é o de sua filha, im
movei já, já sem
vida . . .. . .
O momento tra
gico traz lhe a per
cepção nítida de sua
insanavel miseria.
EGREGOR
Miseravel! Miseravel! matei minha
vida! ...
Um grito rasgan
te precede o baque
surdo de um corpo
em terra . ..... .
Expunge-se o luar
numa treva densa.
Uma lagrima de luz
és:fia-se silentemen
te pela face condoí-
da do ceo, enxugan
do-se na bruma in
finita do espaço, e.
um traço de phos
phoro guarda por
instantes a rnemoria
desse pranto pela
rniseria terrena .. .
Um vento frio,
amante louco, vae
despindo as arvores
enfuriadarnente. E
urna paz lobrega
cae da noite tragi
ca para amo;rtalhar
o mundo . ...
Só as Horas, vigi
lantes, passam .. . .
Desce dos céos,
conca v o de uma ta
ça profunda e inex
haurivel, uma quie
titude infinita para
o cançaço e o esgo
tamento dos entes
soffreclores cl3J Ter
ra. Sombras phan
tasticas deslisam no
escuro ao longe .
EGREGOR assenta-
do numa pedra, a
cabeca entre mãos,
remeinora a vida
cruel .. .
As sombras des
filam uma a uma
na escuridão.
EGREGOR
Quem sois? . . . Para onde ides?
As palavras caem
profundas no silen
cio da .noite e a paz
lhes succede.
EGREGOR
Quem sois? . . . Para onde ide s?
Vozes enterradas
na treva.
Os Revoltados . . . Para o Paiz da
Reivindica ção ...
EmmGoR
Os Revoltados ... Para o Paiz da
Reivindica ção ...
As som bras con
tinuam a se perder
na noit e profunda.
. 1 44
EGREGOR a uma
sombra que se avi
sinha.
Quem és!
PRnmiRA So11>IBRA
Um homem a quem negam a liber
dade de pensar e dizer a verdade ...
EGREGOR
E tu?
SEGUNDA SmmRA
Um que tem fome e sêde ele justiça;
vou procurar o mundo em que a cons
ciencia do juiz não trema das amea
ças ela força.
EGREGOR
E tu agora . . . donde vens?
TERCEIRA SoMBRA
Um forçado, fujo da Siber.i.a, pre
mio que me deram por aninhar no
peito o sonho de umélJ patria livre.
Vou buscar a liberdade política.
E GREGO R
Quem és?
QuARTA SoMBRA
Sou a mulher; procuro no futuro
uma redempção ao jugo mais pesado
que ainda existiu, que vem da pri
meira mulher e passará além de mim .
EGREGOR
E tu sombra encurvada?
QuiNTA Soi\!03~A
Um que envelheceu no estudo da
natureza e a quem a falsa sciencia
apedreja e insulta .
EGREGOR
Quem és, tu que passas?
SEXTA SmmRA
Um christão; deixei n.os templos os
escribas e os phariseus, vou procurar
a minha crença perdida. Ainda acharei
o látego do nazareno? Afugentarei
ainda os mercadores da fé?
EGREGOR
Tu agora, phantasma triste ...
SETIMA SoMBRA
Uma perdida, pobre carne que a
sensualidade explora e a moral chama
uma chaga neces saria.
EGREGOR
Falla, falla .. .
ÜITAVA SoMBR A
Sou judeo; a intolerancia reLigiosa
de um seculo livre expelliume do
mundo.
EGREGOR
E tu, sombra que pas sas?
NoNA SoMBRA
Sou um operaria que o capital ex
plora e deixa morrer de fome. Espero
a egualdade economica.
EGREGOR
Falla, quem és?
DECll\I[A SoMBRA
Um condemnado, victima da iJ..npie
dade humana; suppoem -me a liber
dade de querer e perseguem-me pela s
falhas de uma natureza madrasta. Não
seria melhor matarem -me que deixar
apodrecer numa gehenna?
1 47
EGREGOR
Que soffres, dize ...
UNDECIMA SoMBRA
A tyrannia do Estado não me per
mitte a liberdade de não crer; querem
me deformar a alma .
EGREGOR
Tu que te arrastas, falia .
Duo:EJECD ,IA SoMBRA
Sou um doente, fujo de um hospital,
busoo a equidade san depois de ter
sentido o insulto de unia caridade hu
milhante .. .
EGREGOR
Que dôr te opprime?
DECHiifA - TERCEIRA SoMBRA
Fujo dos exercitas, sou soldado,
derarp-me um'arma de guerra para
man:ter a paz ou para matar irmãos ....
Passa o grupG
tragico das Som
bras . ..
EGREGOR
Vão -se todos .. . Revoltados ... Para
IO *
q :S
o Paiz da Reivindicação . . . Pela Paz,
pela Justiça, pela Equidade, pela Ver
dade, pela Liberdade Politica, pela
Egualdade Economica . .. mas 'ningu em
vae pela Fraternidade Moral . . . Devia
ir eu, a victima, devia ir eu .. .
. . . miser avel velhice que roubas àté
o alento para a lucta. Eu sou o mais
miseravel de todos . Não ha dôr que
se compare á minha . . . não p0der
mai s nem luctar .. . ... morrer inutil .. .
Miseravel ... miseravel .. . que vida
mesquinha! . . . só resta morrer .. .
Abraça e beija
convulsivamente o
cada ver gelado de
AnrA.
Uma voz enterra
da na sombra ...
ao longe .. . na noite
infinita .
Estou morto . . . minh' Alma morreu ...
meo coraçãGI morreu . . . perdi minha
vida . .. Ai quem achará minha viela,
quem tem mizericordia ele mim?
EGREGOR esten
dendo o olhar na
treva .
1 49
É elle! É elle! É o Desejo dam-
11ado . . . A carne tem fol'ne . . . a
fome faz delirar ... o desejo endo i
dece ...
Olhando mais al
lu cinadamente.
Vae com os braços levantado s para
os ceos. A carne de ve penar péllra
lavarse ... Salvei-a ! Salvei-a!.
Uma paz infinita.
Perde -se no além
uma voz desmaian
do .
. . . . morto . . . . morreu . . . . minha
vida . . . miserere! . . . miserere! .. ...
EGREGOR doido
abracado ao Cada
ver de AnrA.
Salvei -a! ... Salvei~a ! ... Filha! . . .
Filha! .. . Atroa! Atroa! .. .
Um echo lugubre
perdido na immensi
, dade da noite.
Atroa! .. . Atroa! . ..