Rosa mística - V Rosa mística · Capítulo 6 de 7
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Rosa mística - V

Rosa mística - V

IJÓ

tisses neste extremo do soffrimento

humano! É preciso morrer, morrer a

tempo . Entre as mais bellas coisas da

Vida está a Morte Opportuna. Logo

que se tenha attingido a perfeição,

antes que a degradação comece . Se

se colhessem os fructos sazonados, não

apodreceriam. Ha na vida do Corpo

e da Alma esta florescencia radiosa,

esta maturidade feliz; esta decompo­

sição nefasta . ..

Batedores de luz,

numa preoessãodia­

mantina de astro,

annunciamnum cla­

rão extenso, um luar

merencoreo. A lua

tímida vae lenta e

fria surgindo aureo ­

lacla ele l!lm halo gi­

gantesco". Vão se

apagando estrellas

pallidas além. Um

fei:x;e louro de luz,

coado pelo enfolha­

mento das laranjei ­

ras, illumina suave

mente o semblante

de ATMA, adormicla,

numa postura ange -

13 7

lica, em um banco

de pedra, na som­

bra, sob as folhas

çiciantes . .A debil

claridade destaca o

vulto branco na per ­

feicão harmoniosa

de 'um contorno ml­

.peccavel.

Sonha talvez. Na

fronte serena e pai­

a estende -se um

véo de felicidade .

Dominado pela ru­

deza in:flexi vel e cal ­

ma de uma decisão

inabalavel EGREGOR

se approxima e con­

templa -a extact ico,

longo tempo, si­

lenciosamente. Na

mente cont urbada

ermam cog ita ções

passadas.

EGREGOR

Pois que és perfeita, deves morrer.

A mor te é semp re a integração ele

uma vida mesmo quando ella tenha

sido comple ta e attingido a perfeição

ideal.

És minha obra, fiz-te uma perfeição

humana come nunca sonharam as men­

tes enfebrecidas . dos grandes poetas;

nunca o einzel de um esta:tuario vil!l

surgÍ!r do marmore a tealisação de seo

idéal, como tu foste dG> mep; a tincta

em tela alguma tracejou ainda uma

linha que lembrasse o magico encanto

que te circunda; a harmonia de teo

ser incomparavel só a podia crear um

grande amor. E pois que te dei a

harmonia da musica d.ivina, a clari­

dade immmtal que te illumina, que te

insculpi imagem viva de meo sonho e

meo amor e te infiltrei a essencia pre­

Ciosa e incorruptível de grandes pen­

samentos, 'fazendo -te ignorar todas as

sanies que azinhavram a natureza 1m­

mana, devo agora abandonar -te á fu­

ria ic0noclasta de barbaros embria­

gados, que te hão de conspurcar irre­

ligiosamente, carvoando -te a pureza

com um contacto irreverente?

Dos labios entre­

éllbertos de AnviA fo­

ge docemente um

sorriso, aclavando o

seo sonho .

EGREGOR contem-

, ..

plandoa, sempre

enlevado .

Teo corpo tem a santidade dos sa­

crarios, é um •templo de uma sumptuo ­

sidade mag,nifica e divina que só a

contrição da pFece não poderá offen­

der; ta' Alm.a, um jardim secreto hôrto

concluso, cheio de sombra e mysterio,

onde florescem os junquilh os e as ro­

sas, os myrtos e os raimmculos, as

anemonas e as hortencias, onde psal­

modiam fontes de aguas vivas, ryth

mos de uma ensonancia límpida e per­

feita, onde voam nas auras a1p.igas

todos os perfumes exquesitos das :f;lo.

res dispersas, symbo los de pensamen­

tos variados, perfeitos, harmoniosos,

odorantes .

E deve o mansionario do Templo

consentir que mãos impuras violem a

intangibilidade mystica do sanctuario

e o guarda do J ardi~ Sagrado que

a impiedade arranque as flores cresci-

r das para eoroar uma bella existencia

e transmude-as em grina ldas de bac­

chante, entecidas para a pollução de

.uma noite na insania festival de um

mysterio dyonisiaco?

Não, não serás profanada: passarás

intacta, immaculada, perfeita, á per­

feição da Morte, a consoladora su­

prema de toda tristeza terrena, que

te abrigará em seo grande ventre de

mãe e te preservará de todas as m-

famias humanas .... . .

A mão firme numa

impulsão irrepremi ­

vel, instilla nos la­

bias semi - abertos

uma essencia fatal ...

Uma nuvem vela

a face do luar e pas ­

sa instantaneamen­

te. E o semblante

de An.u, sorridente

e feliz illumina-se de

um esplendor novo.

Tecem os raios do

luÇLr na teia delica­

da de sua cabellei ­

ra loira um poema

de graça infinita,

o estema de oiro

das santas felizes.

Mais pallida, sem­

pre mais pallida,

immaterial, impon­

deralisada, um sor­

riso de bemaventu­

rança ungindo san-

tamente o labia, vae

se seraphisando len­

ta, lentamente .. .

Desprendido de

si, alheiado á effec ­

tividade real, EGRE­

GOR vae seguindo o

caminho da morte

nesse rosto feliz, que

é o de sua filha, im­

movei já, já sem

vida . . .. . .

O momento tra­

gico traz lhe a per­

cepção nítida de sua

insanavel miseria.

EGREGOR

Miseravel! Miseravel! matei minha

vida! ...

Um grito rasgan­

te precede o baque

surdo de um corpo

em terra . ..... .

Expunge-se o luar

numa treva densa.

Uma lagrima de luz

és:fia-se silentemen ­

te pela face condoí-

da do ceo, enxugan­

do-se na bruma in­

finita do espaço, e.

um traço de phos­

phoro guarda por

instantes a rnemoria

desse pranto pela

rniseria terrena .. .

Um vento frio,

amante louco, vae

despindo as arvores

enfuriadarnente. E

urna paz lobrega

cae da noite tragi­

ca para amo;rtalhar

o mundo . ...

Só as Horas, vigi­

lantes, passam .. . .

Desce dos céos,

conca v o de uma ta­

ça profunda e inex­

haurivel, uma quie ­

titude infinita para

o cançaço e o esgo­

tamento dos entes

soffreclores cl3J Ter­

ra. Sombras phan­

tasticas deslisam no

escuro ao longe .

EGREGOR assenta-

do numa pedra, a

cabeca entre mãos,

remeinora a vida

cruel .. .

As sombras des ­

filam uma a uma

na escuridão.

EGREGOR

Quem sois? . . . Para onde ides?

As palavras caem

profundas no silen­

cio da .noite e a paz

lhes succede.

EGREGOR

Quem sois? . . . Para onde ide s?

Vozes enterradas

na treva.

Os Revoltados . . . Para o Paiz da

Reivindica ção ...

EmmGoR

Os Revoltados ... Para o Paiz da

Reivindica ção ...

As som bras con­

tinuam a se perder

na noit e profunda.

. 1 44

EGREGOR a uma

sombra que se avi ­

sinha.

Quem és!

PRnmiRA So11>IBRA

Um homem a quem negam a liber­

dade de pensar e dizer a verdade ...

EGREGOR

E tu?

SEGUNDA SmmRA

Um que tem fome e sêde ele justiça;

vou procurar o mundo em que a cons­

ciencia do juiz não trema das amea­

ças ela força.

EGREGOR

E tu agora . . . donde vens?

TERCEIRA SoMBRA

Um forçado, fujo da Siber.i.a, pre­

mio que me deram por aninhar no

peito o sonho de umélJ patria livre.

Vou buscar a liberdade política.

E GREGO R

Quem és?

QuARTA SoMBRA

Sou a mulher; procuro no futuro

uma redempção ao jugo mais pesado

que ainda existiu, que vem da pri­

meira mulher e passará além de mim .

EGREGOR

E tu sombra encurvada?

QuiNTA Soi\!03~A

Um que envelheceu no estudo da

natureza e a quem a falsa sciencia

apedreja e insulta .

EGREGOR

Quem és, tu que passas?

SEXTA SmmRA

Um christão; deixei n.os templos os

escribas e os phariseus, vou procurar

a minha crença perdida. Ainda acharei

o látego do nazareno? Afugentarei

ainda os mercadores da fé?

EGREGOR

Tu agora, phantasma triste ...

SETIMA SoMBRA

Uma perdida, pobre carne que a

sensualidade explora e a moral chama

uma chaga neces saria.

EGREGOR

Falla, falla .. .

ÜITAVA SoMBR A

Sou judeo; a intolerancia reLigiosa

de um seculo livre expelliume do

mundo.

EGREGOR

E tu, sombra que pas sas?

NoNA SoMBRA

Sou um operaria que o capital ex­

plora e deixa morrer de fome. Espero

a egualdade economica.

EGREGOR

Falla, quem és?

DECll\I[A SoMBRA

Um condemnado, victima da iJ..npie­

dade humana; suppoem -me a liber­

dade de querer e perseguem-me pela s

falhas de uma natureza madrasta. Não

seria melhor matarem -me que deixar

apodrecer numa gehenna?

1 47

EGREGOR

Que soffres, dize ...

UNDECIMA SoMBRA

A tyrannia do Estado não me per­

mitte a liberdade de não crer; querem

me deformar a alma .

EGREGOR

Tu que te arrastas, falia .

Duo:EJECD ,IA SoMBRA

Sou um doente, fujo de um hospital,

busoo a equidade san depois de ter

sentido o insulto de unia caridade hu­

milhante .. .

EGREGOR

Que dôr te opprime?

DECHiifA - TERCEIRA SoMBRA

Fujo dos exercitas, sou soldado,

derarp-me um'arma de guerra para

man:ter a paz ou para matar irmãos ....

Passa o grupG

tragico das Som­

bras . ..

EGREGOR

Vão -se todos .. . Revoltados ... Para

IO *

q :S

o Paiz da Reivindicação . . . Pela Paz,

pela Justiça, pela Equidade, pela Ver ­

dade, pela Liberdade Politica, pela

Egualdade Economica . .. mas 'ningu em

vae pela Fraternidade Moral . . . Devia

ir eu, a victima, devia ir eu .. .

. . . miser avel velhice que roubas àté

o alento para a lucta. Eu sou o mais

miseravel de todos . Não ha dôr que

se compare á minha . . . não p0der

mai s nem luctar .. . ... morrer inutil .. .

Miseravel ... miseravel .. . que vida

mesquinha! . . . só resta morrer .. .

Abraça e beija

convulsivamente o

cada ver gelado de

AnrA.

Uma voz enterra­

da na sombra ...

ao longe .. . na noite

infinita .

Estou morto . . . minh' Alma morreu ...

meo coraçãGI morreu . . . perdi minha

vida . .. Ai quem achará minha viela,

quem tem mizericordia ele mim?

EGREGOR esten ­

dendo o olhar na

treva .

1 49

É elle! É elle! É o Desejo dam-

11ado . . . A carne tem fol'ne . . . a

fome faz delirar ... o desejo endo i­

dece ...

Olhando mais al­

lu cinadamente.

Vae com os braços levantado s para

os ceos. A carne de ve penar péllra

lavarse ... Salvei-a ! Salvei-a!.

Uma paz infinita.

Perde -se no além

uma voz desmaian­

do .

. . . . morto . . . . morreu . . . . minha

vida . . . miserere! . . . miserere! .. ...

EGREGOR doido

abracado ao Cada­

ver de AnrA.

Salvei -a! ... Salvei~a ! ... Filha! . . .

Filha! .. . Atroa! Atroa! .. .

Um echo lugubre

perdido na immensi­

, dade da noite.

Atroa! .. . Atroa! . ..

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