Parte 2
Como sentisse alguma sede, Bótío enfiou o braço no da mulher e encaminhou-se para a fonte. Geste ponto começou a soar longínquo um tamborilar semelhante ao da chuva em telhado de zinco. O sol de estio temperado pela aragem dios outeiros espalhava uma doce tepidez. . - campo' e nos relvados. Eulalia afastou-se e passou à outra margem da estrada, a colher flores sylvesfres. O escripturario, meio amornado, deixou-se estar sentado debaixo da mangueira, a acompanhar em ésilencio a arfagem do peito farto de Pomba. El la ré-ê costada- ao collo da raiz, tirava do cabelloi com um gesto indolente dos braços pallidos, nus até os co-. tovellos, os foliolos e florinhas alouradas que ca-i lenta e incessantemente da fronde cheirosa. Os quadris e as pernas trançadas, repuxando o pannoi do vestido, pesavam-he em preguiçosa immobillidade;
sobre uma cama de folhas murchas. Gessa attitude, modelada em vivo relevo dia cintura aos tornozePomba evocava uma erÅtica fantasia de rem, a primeira acena de um acto sexual, entre vapores aromàticos de especiaria excitante, sobre os divans e tapetes dos templos consagrados à Oenus O olhar embaciado de Salustiano abysmava-se: naquellas fÅrmas como que adormecidas numa iner-8 cia palpitante. Ga calma da hora tépida, ao zumbir dos insectos e ao grito de chamamento de um ou outro sabià, emquanto o sol fazia estalejar as folhas e os casulos de gementes das hervas, elle tinha uma visão allucinadora, tão real que a comparava e a achava semei lhante à nudez quente, suavemente tostada, de uma9 cigana que lhe l}ra em casa a CUFNB'EJDIO(, Gem um nem outro boquejava.
Gisso fez a costureira um movimento languido de quem se estremunha. Encolheu uma perna e deixou a outra estirada, solida, espessa, afusada, 7veL; tida de meia cór de carne, justa até o joelho. LaW lustiano sahiu do seu logar e abaixou-se-lhe ao lado. Iassou a mão pela meia, estremeceu e viu nos olhos chimericos da favorita um sorriso e um tsymptéma de embriaguez. Le ella fosse a turca, diria ter fu-8 ínado haschich. . . Um sonho de volÖpia se reflectia& nos pingos negros das pupillas de Iom ba: seu caèé bello cheirava a cravo da Cndia: os labios entrea-ê bertos, parados naquelle sorrir provocador, quasi cy-ê nico, elle os sentiu aquecidos, ardentes como se ella acabasse de mascar gengibre. Oozes na estrada, à distancia, dienunciaram os roceiros que voltavam da cidade com os - Hnde està Ealy9 perguntou a costureira, ide pé, a sacudir os gravetos e folhas miÖdas que lhe haviam adherido ao cotão da saia.
- Oi-a descer por alli, para a fon te. . . O escripturario ainda quiz partir com ella peloi matto até a gamelleira. E segurou-lhe a mão. - Não, não. . . Kesistindo, Pomba alisava o cabello; e ria-se comoi as creanças surprehendidas em travessura por paes indulgentes. Elle, sentindo a approximação do casal e de Eulalia, entrou sÅsinho por umas moitas de jurubeba, e desappareceu. Branca trazia um regaço cheio de laranjas maduras e a irmã punhados de flores do campo, desda os roixos ciumes-de-velha e as brancas campanulas do estramonio até as marianinhas delicadas e azues comoé myosotis. Lentaram-se, uma a compor um ramalhete, e a outra a sopesar as fructas. Paulo esperou pelo amigo. Como este tardasse, entrou a gritar-lhe o nome. - LalÖ! Laiu!
Ginguém respondia. Então, volvendo-se para a costureira, começou a intrigal-a com pilhérias, a que ella respondia, amuada, com repetidos ème deixeê. Fazia calor, e os passaras ainda seLteavam. Salustiano não vinha. - Deveras, aonde iria elle9 Ca recomeçar a galhofa, quando apontou o esNão trazia flores, não trazia fructas: trazia um caçador, moço, sanguineo, espigado, de cabello e bigode castanhos, correctamente equipado para a caça aos passarinhos, vestindo paletÅ saco cór de chumbo. êConhecera-o Salustiano, havia mais ou menos dous annos, em um préstito fÖnebre. Os convidados eram muitos, nao estacionava mais um carro vasio: sÅ havia logar para uma pessoa na caleça onde ella se aboletara. Oendo um moço que corria de portinhola em portinhola, Salustiano fez-lhe signal que entrasse.
Conversaram até o Campo Lanto, e na volta ainda foram companheiros. Depois dessa occasião, falaramse ainda quatro ou cinco vezes, e nunca mais se Branca inquiriu baixinho, de feição - Eï estrangeiro9 - Jual estrangeiro! Bahiano da gema. E adeantando-se para o recem-chegado, expant sivo, familiar, de braços abertos, recebeu-o Iaulq Boto com esta lacónica exposição: Estamos espairecendo, sr. Nery. E( uma excursxo de desfastio. Não haja cerimonia, todos aqui somos de paz. Deve ter bom appetite quem carregai todo esse apetrecho desde manhã, não serà9. . . E travando-lhe do braço, apresentou-o às nhoras. O Nery cumprimentou-as amavelmente: pou' sou em seguida a espingarda e poz-se a conversar! . sobre caçadas. O lojista, espalmando as mãos sobre o collete; , dirigiu-se dahi a pouco a companhia:
- Consultem os estornagos. Pomba é quem foi abrir a cesta. Estendeu sobre umas folhas seccafe a toalha e ahi dispoz na melhor ordem possivel os assados e as garrafas. O Nery não se fez rogar. jà o chefe da familia, sentado, de pernas cruzadas, urn copo t'n punho, dava o exemplo de semcerimonia, cantarolando: è Hh! que feijoada è Mão engordurada, èMão cheia de br}do. . . ê O caçador, estudado com disfarce pelas senhoras, não se mostrava nem desenvolto, nem formalista. Gesse meio termo, em que ellas viam um signal de: bóa educação, foi obtendo as sympathias, a confiança e o tàcito agradecimento delias. Durante a refeição, ao passo que o lojista mas9 tigava, empinava o copo e procurava igualmente iatafulhar a mulher, Eulalia e o caçador observavam-se dissimuladamente entre dous bocados e alguma phrase em que se empenhavam por parecer alegres.
Do meio para o fim dirigiam-se perguntas G ranEaly todavia comia pouco. Iouco falava o escripturario, immune dos gracejos do negociante que o deixava comer à tripa forra. Bouve um brinde unico, de Paulo Boto ao Nery. Depois uma cantorias, em que a voz do lojista se alteou, ; ; e retumbou, attra: hindo os m eninos; da roça. As laranjas, por fimj' debulhadas à unha pelos cavalheiros, esguichando a sumo das cascas douradas, eram devoradas por elles com intemperança, . . - meio de risos estridentes em que deixavam escorrer pelos cantos da bóca o succo perfumoso e assucarado. Juando os es to magos saciados exigiam o exercício das pernas, e os passeadores se dispunham a visitar as casas da beira da estrada, o Nery, enfiando a correia do polvorinho, fez acção de retirar-sie.
- O qu e! Iois ha quem se lembre de Ajuda e Merreiro estando nesse paraizo, com urna dia de - Com effeito, apoiou Salustiano: não lhe louA companhia era agradavel. Amando Nery não; Caminharam outra vez até a fonte, separados em dous grupos. Aili tentaram pescar camarões Ade agua doce e fizeram outros folguedbs e %traquinadas. Juando voltavam, reunidos, dessa digressão, jà atravez do arvoredo e dos pomares, vindo das baixadas onde plantavam os hortelãos, soava de novo o toque abafado e grave que alterou fas feições e a; cór às faces de Pomba. Era o som característico dos è terreirosê que se ouvia sempre nos arredores da cidade, a partir' - BUNF TUN'TUND. . . Bavia alli quem o não conhecesse, ao menos de ouvir dizer, o echo percuciente e infindàvel do CBKMM africano9 Juan-é tas vezes, noite alta e calma a atmosphera, não chegava esse ruido de uma cadencia inquietadora îaté ao coração da cidade, até ao ninho das Pombas, éaté.
/-. : 1 de outras mais selectas damas, povoandbr lhes o pensamento e o somno de larvas negras e sonhos abracadabricos! Minham-se posto a caminho, as moças adeante com as saias guindadas e as anagoas a roçar pelai9 ervas e a argila da estrada: os homens em linha, falando de varias cousas que lhes davam prazer. Leus passos marcavam automaticamente: o rithmo do batuque longínquo. - BU NR TUN'-UND ((( Iondo-se entre os companheiros, Paulo principiou a contar-lhes, episodios da sua primeira mocidade, nesse mesmo sitio, nos tempos em que era solteiro e caixeiro de escripta, e como9 patrono das raparigas pobres que queriam èfazer santoê ao terreiro assistir à inauguração da grande festividade annual. Ahi perdera longas horas e noites engolfado nos gosos perversos mas exquisitos do candomblé, estimulado e entontecido pelo cheiro hireino& das africanas e creoulas. Bavia tambem mulatas, %moças, fervorosas, fanaticas, que pareciam pallidas de!
terror fetichista ao lado das devotas e Lacerdotisas! negras. Fas o mysterio da cabala, os gestos do n9 tual, a belleza do culto não se pronunciavam tanto nas mestiças pardas, quanto nas puras africanas, : à nas suas filhas de pelle azevichada. - Le a religião, é n egra. . . disse A maneio. - Lim, como que se combinam melhor e as cou9 sas remontam à sua origem. Alli, proseguiu Paulo, comprehendera a alma na' gó, bonacheirona, sobria, submissa e jovial, com lunl laivo de banzo, que é a nostalgia da Costa natal, a saudade da aringa e do deserto. Al li conhecera ai fidelidade do amor dia africana, a sua a. f feição habilidosa em cultivar pela coizinha aphrodisiaca os idesejos do esposo ou affeiçoado. Aíli admirara a forte sensualidade creoula, como que gerada sob a influencia de dous sÅes ardentes, o que os paes traziam da ófrica, no sangue, e o que as filhas aqui absorviam na terra não menos calida do nascimento.
E a fé, a compenetração religiosa que tanta gente costumava negar-lhes! . . . - Não eu, que vi Dercnyma, possuida do santo, desembestar pelo terreiro a fora, varando brenhasi como um boi barbatão, cabriolando nos charcos, trepando nas arvores, precipitando-se de barrancos. . . 7 E as irmãs atraz, sem forças para conter aquella fÖria de mil diabos, até que ella rolava no: chão GD( 7sej debatia num estrebuchamento medonho, que parecia: a agonia de uma besta fero z. . . - Cr} então que elles são sinceros9 perguntouW Amancio Nery. - Os negros do candomblé9 Affirmo. Le ha: entre elles meliantes e histripes não são em maiori numero do que os do nosso credo. O prestigio de um feiticeiro africano aos olhos das filhas db TFRGJ RTTJRO não fica atraz do de um prelado de qualqueW àgreja a quem as damas civilisadas veneram. DigoF lhes aqui à puridade, que minha mulher não m: J CComo os tres se puzessemf a rir, as senhoras voltaram-se para traz e uma delias perguntou ao negociante para onde iam.
- Descansaremos em uma daqueflas casas. Bei de encontrar gente minha conhecida. éContinuaram a andar, e Paulo a narrar as façanhas do seu bom tempo, nesse ë%atatÖ, de camaradagem com os OUHMS& que eram os protectores influentes e benemeritos do terreiro. - Mambem o protege9 perguntou-lhe o Nery, piscando o olho. - Acabou-se esse tempo. Chefe de família, convinha-lhe mostrar-se arref-i dio das confrarias e parecer, deante da prÅpria classe dos èougansê, um simples honoràrio, cujos bons officios não se recusariam, todavia, em casos de proh fanação, difficuldades ou perseguições policiaes. Lalustiano sabia entretanto que elle, um anno- antes de casar, ainda concorrera com dinheiro para a iniciaçãq de j. ima rapariga, e que na qualidade de èougan&W continuava a gosar as vantagens que redundam ida patronato exercido em favor do candomblé, a submissão das negras devotas até a assifetencis# salvadora dos santos.
Boto reservava-se nesse particular, e seguindo quanto possível os preceitos, fazendo- oblatas, rece-8 bendo os tributos das filhas dos èorixàs ê, Ünhai para si que antes a amísade e a gratidão que ta anè tipathia ou malquerença de um pae de terreiro. Aliàs pouca attenção jà lhe prestava o Nery, seduzido pelo andar, os gestos, as graças de Eulalia, sentindo-se cada vez mais interessado pela sem-cerimónia dos seus ditos e do seu riso crystallinp. . El la Oolvia-se a cada passso, a pretexto de olhar GE, rama de uma arvore cu acompanhar o vóo de um: passam. Os seus olhares encontravam-se e entendiam-se. Eulalia punha. se então a segredar aos ou. vidos de Pomba, como que no proposito de o enAdeante Paulo tomou o braço da mulher, que se queixava dos barrancos da estrada. E seguiu dn zendoBlhe a meia voW e por miudo, quem era Amanciq!
Nery. ponhecia-o de muito tempo, um desses DO', nhecimentos feitos no balcão da loja. O Nery, bacharelado esse anno, apparecia-lhe nos mezes de festa e fazia-lhe compras. Era filho unico de uin commendador viuvo e rico, chefe de uma casa importadora da praça. Com este não tinha relações: apenas podia informar que era homem alto, corpulento e carrancudo. Go dizer das màs linguas, vivia em mancebia& com uma creoula: outros affirmavani que a sujeis ta era simples zeladora da casa, onde íaccumulava' os serviços de copeira, cozinheira e engommadeira. O som do batucagé, que cessara havia um quarto de hora, recomeçou frouxo e hesitante, com repetidas paradas, como um ensaio de orchestra. Ac& mesmo tempo os passeadores chegavam à porta de uma casa de paiha ande Paulo reconheceu a prop-riestaria de uma baiuca liquidada. Era uma. velha branca, viuva, que agora sÅ vendia laranjas, limas, cambucàs e outras fructas. Paulo acceitou os bancos que ella trouxe para a frente da casa.
- Descansem aqui, disse à mulher. GÅs des' cemos a barranca para olhar aquella festa. E, ï alli onde se v} a copa de uma gamelleira. . . Oia-se a elevada fronde rebrilhando ao sol da tarde, como uma vasta umbella de setirn verde-bronze. Ga sua sombria projecção ficava o èterreiro, ê. A arvore estendia e curvava os galhos immensos, formando arcadas aereas engrinaldadas de verde: alguns ramos espigavam acima da cupola de folhas, semelhando pequeninas torres, campanarios e agulhas. Iarecia uma cathedral e parecia um enorme fe- - èMemplo ou divindadeê, dissera o OUHMJ( imaginavam-se facilmente cs caracteres physicos do divino ser vegetal: os pés muito longos cravai dos no sÅlo, cobertos de callosidades salientes, ar% mados de garras penetrantes: o corpo erecto, cos-j corenfo, formidàvel, farto de sangue vivo, que cor-í reria ao contacto do ferro profanador, a fronte nas nuvens, ao sol e às tempestades, mas invulneràvel a todos os fogos dé céo, ostentando na cabelleira ra' malhuda uma primavera eterna. Era a imagem dei èHubatalàê, o ido lo bisexual, mãe fecunda de seios inesgotàveis, ao mesmo tempo que pae prolifico, sempire moço e viril como o esposo hindu, a quem nãoj falta o favor de Hschen, prodigalisador dos %gerJuando os tres homens desappareceram pela ribanceira abaixo, resoava o TUND TBN'TUND barbaro je monotono. Ealy pensava no caçador, provocando Iomba a faiar. Le ella soubesse por onde vagava nesse momento o espirito da m estiça! . , , em que névoas' de mystica exaltação lhe appareciam aquellas divindades que uns discutiam- e de que outros mofavam! . . .
e que fios subtis, invisíveis, prendiam o seu destino à pot}ncia sobrenatural das arvores, das pedras ée dos animaes daquelie terreiro! . . . Fas Pomba era de uma discreção inviolàvel a tal respeito. Ella e a mãe Dosepha, ninguém inais: participava do seu segredo. Gem o proprio Salustiano, cuja felicidade pendia do simples gesto de um simples negro afrii Leu pensamento ia em direcção à copa da gaííieÜeira-fetiche, com os tres homens a quem desejaria poder acompanhar. A essse tempo, atravessando o brejjo por lumi aterro, entre os talhiões de legumes que se banha' vam no escorrimento esverdinhado dO pantano, os -tres chegavam à vertente da ribanceira opposta. Ahi, numa solidão suggestiva, Üercada ao futidkí de capjões de matto, se occultava a casa baixa Ld; e quatro ínguas e telhas bolorentas, com as paredes de barro sem encasque, porta e duas janellas qua olhavam por uma extensa latada de maracujà-assÖ, A agua estagnada do charco esplendia nos regos com!
uma luz micante e pallida, em torno das leiras êviçosas de couve e repolho. Iela sombra da latada seguiram os passeadores até o atrio do singular pagode africano, caverna er santuàrio, de onde sahiam ligeiras chocalhadas e ru7 fos intermittentes. Eis o terreiro de tio Elesbão, disse Paulo, aoà dous companheiros. Elesbão devera ter sido um príncipe, aprisiof' nado pelos chefes de outras tribus na sua aringa destruída, e vendido aos negreiros a troco; die fumo e cachaça. Exilado e captivo, conseguira aqui, como ècapitão de cantoê, ajuntar economias e comprar a carta de alforria. As artes da feitiçaria, a sua primi-r tiva dignidade sacerdotal, o seu profundo conhecimento dos s}res e objectos divinisaveis, da pedraW do osso, da cobra, da planta ou do buzio onde se podiam alojar os espiritos, grangearam-lhe desde logo a veneração e a vassallagem dos parceiros nagós. Meve casa na cidade e fez capella na roça. Ahi reinava e celebrava o pontifice africano, cercado de negros e mulatos, de caboclos e brancos.
; Com effeito, entre os convivas da festa que ape-9 nas começava, não eram poucos os homens de cór. ! impa e cabellos lisos que se agitavam em volta da casa, engravatados, mettidos em lustrosos fatos engcmmados, com ares complacentes, quando não de todo serios. Paulo conheceu-os e falou a mais de um. Eram èougansê como elle, mas ainda em plend exercicio das suas funcções. Ga vasta sala do candomblé, ornada de palmai desfiadas, mobiliada de mochos, bancos e tambore-ê tes dispostos em roda, num chão de terra escura bem socada, formavam circulo africanos de ambos os sexos, mancebas creoulas, muiatas cór de ambar e cór de chocolate, cabras de tez brunida, fulars ardentes como tijollo queimado e pretas fuscas, sem matiz: parecendo cobertas de um pÅ fino de carvão. Mrajavam saias de cores variadas, pannos da Costa e camisas de cabeção de rendas, com fios de contas!
em volta do pescoço e dos pulsos. Iela cór das vestes e dos enfeites que predominava na roda, - saia branca e contas amarei las hl. viu Paulo que era Hxun o santo do dia, a divina Hxun, esposa de Qangó, do genio que troveja nas; nuvens e lança as pedras de raio, partículas sua divindade. Fas outras èyauósê, filhas de R}-man-jà, de Hxó-Hcy, de Cansarn, de Hgun, de Hrixalà e HmonolÖ tinham vindo commungar a alegria religiosa do ter-i reiro, todas com algum distinctivo de irmandade, es-9 tas adereçadas de contas vermelhas, aquellas de mis-ê sanga azul opalina e transparente, outras combinando o branco marfim e o açafrão nos collos e braços tintos ou azeitonados. Ao centro da sala vieram os tocadores com os tabaques e os deitaram no chão. Um velho marabÖ, director da orchestra, tomou a iniciativa. Emquanto mastigava obi, ia mergulhando os dedos jnuma quartinha e aspergindo um por um os instrumentos. Os companheiros mascavam das mesmas nozes, servidas pela mãe do terreiro num prato de barroEm seguida foram levantados os tabaques, e cada qual occupou o seu logar.
Salustiano e Amancio rejubilavam, na espectativa de revelagões. Go banco mais comprido, os pretos se dispuzerarn segundo a ordem decrescente dos tabaquesv Ga ponta da fila aquelle cujo ar trahia a dignidade de mestre de capelia prendía entre os joelhos o grande; tabaque de sfeis palmos. Aos instrumentos! de percussão seguiam-se as cabaças vestidas de redes de buzios, promptaL a rolar nas mãos fouveirasê que as empalmavam. Go extremo da linha ficava: o mais moço, aguardando o momento de ferir é! u 7: gan ê émetal lico. òChegou esse momento, A musica, em surdina. , parecía interpretar o sentimento de temor e peito que pairava, devéras, sobre a sala. As ancillas dos orixàs, de olhos fi tos no invisível, ; sen tindío íjà a attracção de um mysterio nascente, moveram-sW a compasso, antes rosnando que cantando. De vez em quando pelos hombros oleaginosos das mais medias passava um leve frémito, que podía ser provocado pelo sopro de um espirito ou pelas patas tpfeï A roda proseguía, morosa e quasi tristonha.
Algumas Craziam quartinhas e copos de barro, e ao passo que mugiam no adagio medroso, iam borrifando o chão e a testada da casa. O %Géry, interessado, foi encostar-se ao batente da porta para seguir melhor os actos do cerimoniah Acudiu-lhe logo uma negra a pedir-lhe com suas mais delicadas maneiras: - K}da dïahi, yóyó. ëmancio arredou-se, mas extranhando que ninguém occupasse a entrada, olhou para o Boto. - áï urna medida de prudencia, díisse-lhe. este, Antes de começar o candomblé, despacha-se ExÖ. Eï o que eiias estão fazendo. ExÖ, o mau espirito, exige actos propiciatorios: é uma condição para que não aconteça desgraça ou qualquer perturbação durante a festa. E ExÖ tem cie sahir pela porta principal. Le encontrar alguma creatura que lhe sirva de estorvo, é de receiar, pelo menos, que a atire aa chão com um ataque de estupor.
A passagem ficou livre até que as vozes e as aspersões cessaram, dando por findo o despacho. lmmediatamente, num accesso de paixão, despertaram os xequer}s com fragor, annunciando uma presença Os olhos recolhidos e morbidos das filhas do espivitaram-se e volveram as janellas onde se mostravam os è ougansê. As faces torvas illuminaram-se de prazer: o rebate dos instrumentos accentuava essa expressão. - Juem é 9. . . Aí' porta da camarinha, surgindo da penumbra, retiro espiritual, alteava-se a figura athletica e prelaticia de Elesbão. Appareceu e dobrou-se num salamaleque deante dos ougans brancos, mostrando num arreganho af' favel a forte dentadura de marfim. Kecebendo esta alta oortezia, saudados assim pelo terreiro agradecido, os seus protectores sorriam uns para os outros.
Elesbão deu então alguns para o assento que o esperava. ë cabeça encoifada num gorro de velludo amarei lo vergava um pouco sobre o peito dia camisa de babados, que lhe cahia como uma sobrepelliz por cima das calças. Lentado, correu os olhos meio ictéricos pela sala, deixando ver em cada uma das façoilas cór de polme de café um gilvaz obliquo e lustroso. Depois de breve pausa começou a invocação jd7j Ainda Amancio estudava o aspecto e sondava a alma do Ferlin africano, dizendo de si para si: èquantos corações, quantos espiritos, quantas vidas não se movem ao som da sua harpa magica. . . ê, e eis que vieram discorrendo as bailadeiras, seduzidas por aquelle canto irresistível. Ielas suas riçadas chorinas passava o calafrio do transporte mystico.
essa hora as aguas doces das fontes, tios lagos e dos rios, onde mora a mãe Hxun, lhes murt muravam segredos inquietantes. - Jue temos hoje9 perguntou Paulo Boto a um dos seus conhecidos. - A iniciação de Belmira. Era o que elle esperava. Belmira, accrescentou ê, jà estava là dentro no peji, de caj&eça lavada e gizada, libando o licor frfystica que requinta as energias das neophytas. Go meio da sala, duas a principio, depois cinco, oito, dez, jà dansavam e pinchavam: o tronoq& e as ancas num balanço uniforme sobre os jarretes, os braços ora estendidos, ora em gancho, governa' dos pela mesma cadencia, achatando num vae-vem continuo, com os cotovellos grossos, as ilhargas das Em breve o jogo dos braços variou. e magros, negros, escuros e pardos, os braços iam cahindo ao longo das saias, estirando-se para a frente e erguendo os punhos em figa. Mornaram-se, mais leves, mais ageis e flexíveis: pareciam deslocar-se e dansar sÅsinhos, no ar, mutilados dos corpos, , semelhantes a gibÅias aladas.
As cabeças tambem dansavam num balouço que presagiava o esvaecer da vertigem. Empinavarrwse, , descahiam sobre as nucas, pendiam para os collos; , oscillavam como p}ndulas, com jogos novos de physionomia, todas porém transfiguradas na mesma expressão de feitiço. A mesma luz raiava dos olhos caliginosos, dos olhos congestos, dos olhos de topàzio. Do mesmo alcool provavam os labios esbranquiçados, os labios de carne cosida, os labios grosW sos, succosos, roixos como genipapo. Eatejavam, suavam os narizes batidos, de azas duras e concheadas, rombos e nodosos, as faces de na, as faccs afumadas, as gordas c as redondas, as longas e angulosas. - Muinc-tun-tunc! . . . Cruel despotismo, làtego inexoràvel queimai con sentia respirar às sacerdotisas da Merpsichore negra!
Batiam os tabaques reforçados sempre pelo rascar das cabaças. Da baixada pantanosa subia e espraiava a melopéa enervante, no tom e no compasso em que rugiria ainda longos dias e noites a fio. Hnde estava o alarve divino que se nutria de tanto esforço! Era uma divindade surda que ahi se invocava9 Hu estas suas servas não mereciam a graça de a encarnar e possuir na hypostase miraculosa que jà parecia tardar aos profanos do candoímblé9 Aiï impaci}ncia destes respondia de vez em quandq brado convulsivo de todas as festeiras: - Hrà-i}-i}! . . . Os movimentos da ronda se desconcertavam S esse grito, e mais de uma èy au ó ê, de olhar choca, ' lheiro e mammas tremulas quasi a saltar pelo toraí da camisa descahida, pinot}a, com os braços abertos, como que obedecendo às attracdões de um iman engastado no tecto. O pae do terreiro, que tudo observa, deita um olho alvação aos tocadores e manda accelerar a musica. Modos os passos se fundem numaj choréa delirante. Mresanda forte o bodum; acre daà axillas e dos cangotes molhados de suor. As bocas, offegantes mastigam e salivam, ruminam os cor. ções convulsionados. Fas no seio' deste chaos entóa-se um cxntico diverscx, e traçados pelos tabaques, vão se reconstruindo pouco a pouco os passos medidos do bailado.
Em frente a Elesbxo jà algumas, enclavinhandoi os %jledcs e deixando tombar os braços, dwnsam, rendendo-lhe adoração. Hutras apoderam-se die quartil nhas douradas, tintas de rubro, e as vão equilibrandcW Lurge, porém, a mais imponente dentre todas. Alta, esgrouviada, fantastica, empunha um molho dei clinas alvas que se desfiam e vóam em torno éde8 sanga amarei la. A saia curta mostra-ihe os tornozeB los em anilhos de caurim. Ginga e men}a-se oom trejeitos mandingueiros, farejando o mysterio com as narinas largas e o beiço macilento arreganhado. ; As outras jà lhe viram os signaes de eleição. Eï a grande astro sinistro a arrebanhar os satellites: ao& capricho da sua curva todas ei Cas se movem. Com ella avançam, recuam, giram, pendem para o solo, soerguem-se reverentes, fazem contin}ncias, e dé repente se afastam para deixar sÅ no centro-, a imperar' a rainha do batucagé.
A pelle retesa dos tabaques vibra em crescendo. A negra desengonça-se em mesuras e momos tràgicos. Ao jogo das espaduas dansam-lhe o ventre e as nàdegas sobre os jarretes dobradiços como moelas de aço. Ielo sulco- do dorso- oo. rrem-lhe fluidÅsi que vão explodir em chispas nas cand}as dos olhos bugalhados. Os braços, nÖs e finos, não cessam de oscillar nem os pés de bater à marcação dos instruO canto que lhe sae da gorja imita às: vezes o ronquido de uma egua A pouco e pouco faz-se um anjo das trevas& Ga cabeça uma restea de luz do poente, traspassando o verdor da latada, vem il! uminar-lhe o 8extase diabolico. A mãe do terreiro entra em scena e enxuga-lhe, com uma toalha alva, o carão lavadoi de suores. LÅ o rithmo dos tabaques: e o canto das outras filhas de Hxun dirigem o fantasma. O feixe de clinas treme-lhe apenas no pulso. Ella dorme na roda. E. ï uma somnambula. Kespira sem esforço. Delira num sonho. Lonha talvez que vae voando ao seio de Hlorum, que està no céo.
Juando desperta, como que ebria de uma. embriaguez por tabaco de cão, o olhar ainda extàtico, a seguir visões que se diluem, prorompe n a. salai um alarido tão estridente que chega a assustar os proprios ougans habituados. A cabroeira allucinada grita, misturando, num syncretismo de lingua bunda e lingua de branco, acclamar, ões fetichistas e vivas a è Lirihó do Bornfim ê. Da camarinha sae de novo, à pressa, a mãe do terreiro, trazendo uma faixa larga, bordada de contas e buzios da Costa. Iassa-a por baixo dos seios; aperta-a fortemente e deixa pontas do laço. Eï o èojàê que lhe pjõem, disse ao Nery Üm dos assistentes. Lem lhes dar mais tempo nem repouso, parte a esgalgada filha do terreiro no balanço exhaustivo, aos golpes ferinos do gan e ao tunc-tunc dos taba-' ques, em volta dos quaes revolucionam as cabaças.
Keapparece a tremelga viscosa, convulsiva, a tresfclegar. Dahi a pouco jà não é figura humana: á uma harpia, uma gorgona, perseguida por um dardo secreto. Freme e tresstía, rumina e devora com as ventas tÖmidas o ar saturado de catinga e bafos de àlcool. EWaços e tronco, pernas e cabeça agitam! se-lhe em trepidações de calafrio. Keergue-sé e oscilla, as mãos abertas, os dedos hirtos, corno palpando uma sombra. As contracçjóes do rosto, a pailidez do beiço, o esgazear dos olhos jà denunciam-; demasiado soffrimento. E, ï uma angustia contagiosa, , de que parece soffrer todo o terreiro. Fas esta mesma agonia exalta ainda mais as irmãs da ronda e dà-lhes a ancia mÅrbida do paroxismo e da posLuas vistas coruscantes parecem ditosa dor da companheira.
Elesbão està fechado e profundo, aoompanhani do no interior da prÅpria alma, como em um espelho, os progressos dessa divina alienação. Os toa mexer-se no banco, presentinda a immineneia de um desfecho. E tangem a atordoar, tangem a ensurdecer. Apodera-se do monstro um delirio muscular. M odos cs membros ihe estrebucham. Dos pés ligeiao docil cangote, mordem-na invisíveis bondos de fogo. As clinas sacodem furiosamente toi ar. Da garganta rompe-lhe um brado estertoroso: - Hxun! . . . Dilatam-se-lhe ainda mais as azas do nariz borrachudo. Crispa-se-lhe a face. Oe-sW-llie o arquejai doloroso do peito. Gesse transe, pula do seu assento o pae Elesbão, e como algoz inexoràvel entra a bater-lhe em& torno da cabeça e junto às orelhas a dupla campanula do èagogjóê que torna mais infernaj a confusão, O terreiro em peso fica suspenso na espectativai da queda. - A filha eleita dos orixàs vae enloiuw quecer ou m orrer9. . .
Eil-a em disparada, num frenezi de energÖmena' E de balde que o rithmo atroante do batuque tenta regrar-lhe os movimentos. - Hrà-i}-i}! clamam todos em deli rio. El la revolut}a, dà um ultimo pinote, empalli-í dece e por fim baqu}a, como fulminada por um raioí de Qangó. . . - Nem o diabo no corpo. , disse Am ando, disfarçando a sua prÅpria angustia. - Não, emendou I au lo: foi o santo que lheï chegou à cabeça. . . descarrega numa descompassada celeuma a emoção que a esmagava. Gisto Salustiano adverte aos companheiros: - Hlhem que são mais de seis horas. Paulo se havia esquecido das senhoras. mais demora por baixo da latada de maracujà. Mranspuzeram o brejq e a riban-' ceira. O zunir das cigarras apressava-os. Kindo, embora, e commentando alegremente, 8o coração ainda lhes batia sem compasso.
Eulalia à janella, de manhã, , olhava o Merreiro! de Desus, o grande chafariz cercadlo de pretas que entravam e sahiam com barris dïagua, a Academia na taciturnidade das ferias, o adro da Cathed; ral e o de L. Domingos, onde grupos de beatas esperavam! missa, L. Iedro dos Clérigos sempre fechada numa especie de interdicção. Oia passar negociantes emí rumo da cidade baixa, ganhadeiras, operarios, , um ou outro reverendo, cabisbaixo, caminhando vagaror sàmente para Os templos. Oinha por baixo das altas gamelleiras, que ahí bracejavam, um moreno, abotoado em redingote meio russo. Era Salustiano. Dirigia-se paral Dahi a instantes passavam mulheres; de vestidos pretos surrados, velhas com caras de Bavia de ser missa de finados. . . Branca despachava là dentro o marido, servia-lho o almoço, escovava-lhe o chapéoé e a gola do paletÅ.
Iouco depois descia elle a escada e esfusiava pelo passeio em caminho para Lanta Barbara. ë passagem do escripturario avivou a Eulaiia certos incidentes do passeio de domingo. Bavia qua-s tro dias que ella não pensava em outra cousa, e se tentava ler ou conversar sobre assumpto diverso, o espirito lhe fugia para o matto e recomeçava a e x ós vezes achava-se a si mesma piegas, quasi tóla, a recompor o encontro na roça e a volta ao crepus-r culo, pelos caminhos sombrios, por onde pinchavam os bacuraus, gritando. - DURJBNHa" l DURJBNHa T - Nem graça, dizia à irmã. pomo se ella ainda estivesse no tempo de santa ingenuidade, em que acreditava nos estudantes e os suppunha apaixonados de véras por sua belleza. O que mais lhe interessava era a conversa de Amancio com Salustiano, muito perto delia e de Iomba, ao longo da estrada sem luz. As cigarras zoavamv os laranjaes rescendiam intensamente. O Nery, familiarizado, se abria. - Agora que estava formado. , dizia elle, tratava de escolher uma carreira. Não pre-r tendia nenhum despacho: não queria ser juiz roça. Mambém advogados e politicos jà os havia à ufa. Com tudo, inclinava-se a aventurar na politica.
contando para isso comt a influencia do pae, sempre attendido pelos chefes da capital por causa de suas relações comtmerciaes no interior. O governo era conservador. . . tanto melhor. Leu pae nunca recusara apoio aos conservadores. Foramj estes os que lhe deram a co. mmenda da Kosa. publico também falara. - Jue' estava de tenções feitas: longe dos poucos parentes vivos no sertão, carecendo de quem éo zelasse, pensava em casar-se. Fas a falta de; meios. . . Farcando passo num lugar de terceiro escripturario, cofin ordenado mesquinho. . . . - Era não desanimar, interrompeu-o Am ancio: talvez, se fosse eleito, ainda lhe pudesse servir para alguma cousa. . . Cam assim conversando. E ella, toda ouvidos, sem: saber que futilidades dissesse à amiga, contente com o acaso que lhe valera aquelle encontro.
Irovocada quotidianamente pelos rapazes da Academia, a verdade é que não fizera até então senãoj namoricos. Hs taes pretendentes appareciam os dias, a horas certas, faziam algazarra no Merreiro, chamavam-lhe a attenção, queriam todos a um tempo conquistal. a. Bavia dous entre elles bem sympathicos: mas que partido offereciam9 - Limples passa-tempo. Com este, agora, valeria a pena, talvez, preoccupar-se. Não era creança: não era estudante. Minha maneiras e boa figura. Estava a vel-o, ccrado, o cabello castanhoè partido à banda, dentes limpos, olhos crepitantes, às vezes malicioEembrava-se dos trajos qór da sua gravata. Os gestos, o perfil, o andar, o medo de servir-se e de rir, com as palpebras quasi unidas, tudo lhe acudia flagrantemente. E o certo é que se aprazia em recordar tudo isso.