Parte 5
As palavras que acabara de ouvir a Lalustianq dispunham-no ainda mais a essa espectativa. ; Len9 touWse, e à luz da vela começou a ler a Carta. Era de facto a noticia das eleições. Leu desapontamento muito maior do elle esperava, quando apenas se imaginava tado. Dizia em resumo, o chefe do districto - quq os adversaries, com auxilio do juiz de direito, um tdr' Bem vindo, e de capangas armados, haviam inutilisado dezenas de votantes conservadores, por elles declarados PIOSPIOROS: de sorte que a maioria iquu devia eleger em segundo grau os deputados ficara composta de liberaes. Em consequencia, a votação do Nery, fora insignificante, pondo-o fÅra de comAccrescentava a carta alguns pormenores e incidentes, que o signatario, um tenente-coronel estabelecido com armazém de seccos e molhados na sédé da comarca, consignava em linguagem repassa; da de indignação, para que os amigos da Capital avaliassem a coragem dos èbandidosê seus adversarios e bramassem pela gazeta do partido. - Dizia que a noticia da ascenção dos liberaes chegara là poi' um positivo. Cncontinenti o juiz, que até então parecia imparcial, visitou o chefe liberal: foram atacados foguetes, houve passeata com muitos èmorrasê aos conservadores, a comarca foi invadida por bandos de criminosos pronunciados que andavam foragidos, os èjagunçosê incendiaram casas dé pobres lavradores e puzeram-se na rua em pleno dia, a ameaçar de prisão e morte aos è pacifieos cidadiãos, eleitoresê deile tenente-coronel! Durante a chamada para a votação - è escandalo! ê - grupos de votantes foram refugados aos gritos de è não é o proprio! 88 Até o velho Cazuza da Fatta, que o commendadot tão bem conhecia e que era um èhomem honrada como nenhum liberalê fóra excluido de votar, por-' que a gente contraria convencera o juiz de que Dõsà da Fatta havia morrido um mez antes. Debalde o velho Cazuza affirmava que elle alli e bem vivo. que era engano, que não tinha mon rid o. . . A nada attenderam: e o velho Dosé teve de sahir do consistorio da igreja aos trambolhões, como um falsario!
Era todo o conteÖdo da carta. A mesma farça, a mesma tragi-comedia. ; alli como aqui, disse Amancio, desolado. Antes desse momento ignorava que estivesse taa empenhado no pleito politico. Iois estava-o de véras, e não sÅ comi a vaidade de namorado, mas corri todo o seu amor-pnapirio e todo o seu orgulho d" moço. - Irecisava disso, acaso, para viver9 Não. Fas precisava da aureola de que essa eleição. o cercaria. Entretanto essa cousa barata que éutros tãd facilmente alcançavam com o. favor de seu pae, não o conseguia elle, filho do commendador; G e ry! Keflectindo bem, sentia-se decahir da consideração dos amigos e da familia Boto. O proprio amor de Eulalia ia talvez esfriar deante dessa diminuição de sua pessoa. E as pilhérias do cun hado! . . . èMudo se consegueê dissera elle: o que denotava espectativa de outro resultado que não este.
Em que situação vinham collocal-o aquelles estÖpidos è mandiocas ê. Oerdade era que a eleição estava de qualquer modo iperdida. Le ganhasse nas urnas perderia aia verificação dos poderes. E não haveria remedio. senão resignar-se. Fas nesse caso, ficava-lhe sempre a prova de apreço, a distincção do suffragio popular. O esbulho, mais tarde, no reconhecimento, seria uma injustiça que o faria até sympathico. Amancio ainda voltou à carta do tenente-coroi' nel, na esperança de ahi encontrar alguma palavra que lhe permittisse duvidar. Gada. Os termos da carta eram mais que positivos: eram brutaes. I o litic a! . . . exclamou. Leu pae, que elegera tantos extranhos, não ficaria igualmente desmoraÜsado9 O que ambcs deviam ter feito, era retirar a candidatura.
jà lhe esquecia que para retirar seu nome do pleito não teria havido mais tempo. E ia perdendo horas de somno. Oelou e parafusou, até que afinal, quasi desesperado, resolveu ausentar-se por alguns dias da cir dade. iria desgostar a Eulalia. Iaci}ncia. Era épreciso fugir às curiosidades, às mil questões com que o amofinariam não sÅ em casa do Boto, mas na rua, os amigos e os conhecidos. Evitaria uma situaçãq falsa, que lhe aborrecia e o faria aborrecido, esquerdo, e até ridiculo em sociedade, forçado a explicações que lhe repugnavam. Não se sentia com força bastante sobre si para ter; calma, e para rir da seu proprio desastre. - Farei uma viagem. O pae tinha dividas activas no interior da Irovinda, contas antigas, algumas avultadas, cuja cobrança não queria confiar a qualquer caixeiro. Iropuzera-lhe, semanas antes, uma visita aos devedoW podia desempenhar, melhor que outrem, essa commissão, e tratar convenientemente com os lavradores e criadores, inseri ptos na columna do livros do escriptorio.
mettera prestar-lhe esse serviço, mas faltara-lhe até alli o animo. de apartar-se de Eulalia. Era chegada a occasião. - Leguirei amanhã m esm o. . . E pensando em Ealy occorreu-lhe, sÅ então, que não havia guardado o mimo, que ella lhe offerecera na véspera. Era um fino lenço de esguião bordado e marcado com as iniciaes -( 7( Irenda do seu amor' beijou-o e metteu-p num escaninho da mala. de conversaiê com o pae sobre o mal logrado caso eleitoral, disse-lhe o que pretendia fazer. O commendador tamè8 bem aborrecido e ainda indisposto com o procedi-. mento, do seu amigo Brazilino, gostou dessa reacção immediata do filho em proveito dos negocios sérios. Oiu nisso um protesto contra as timprudencias e alicantinas da politica. Bavia vapor à tarde para Cachoeira.
Amancio não perdeu tempo. Fez arrumar uma pequena mala. Desceu ao escriptorio e recebeu do pae todas as contas e documentos. A. ï ultima hora chegou azafamado ao Merreiro, e despediu-se de Eulalia, promettendo escrever-lhe de todos os logares onde houvesse correio. Ointe dias, o mais patamar da escada. Ao voltar dos labores do commercio, Boto annunciou como extranha novidade que o Nery lhe havia tocado muito à pressa à porta da loja e, desculpando-se, dissera ir fazer uma viagem urgente. Não p; óde saber de mais nada, porque estava a. despachar freguezes, seriam duas horas da tarde. - Elle esteve aqui tambem, disse Branca. - Jue foi fazer9 - Gegocios do pae, cobrança de dividas. . . Diz Paulo entendeu essas ultimas palavras da mu-' lher como uma resalva e por ahi avaliou o effeito que tinha produzido em casa o afastamento do Nery.
Durante o jantar, Eulalia achou dissaboridos todos os pratos, e o cunhado, sentindo: cheiro de esturro ao levar uma colher de canja, não póde reprimir uma allusão offensiva à cozinheira. - Oà cozinhar para os presos da Correcção. éFindo o jantar, o negociante accendeu um charuto, enfiou o paletÅ saco, e an. es de sahir trocou discretamente algumas palavras com! a senhora, ainda àcerca da viagem de Amancio. As duas irmãs foram conversar para a sacada. Falavam baixe, levantando supposições em torno da inesperado caso. Anoitecendo, viram entrar duas mulheres. Djosepha com a filha. Chegavam a proposito. Ea. ly a despenseira, na sala do fundo, se admirava da subità partida do Nery - essas viagens de moço namoradbf e compromettido em que a sua experiencia via sempre naufragios - Eulalia desafogava-se com a amiga a accumular perguntas e reperguntas.
Ainda não tornara a si da surpresa. - Jue quer d izer9. . . Jue sign ifica9. . . Huviu alguma cousa a respeito9 - Salustiano saberà9 - Não sei, porque não o vejo desde ante-hontem, quando estivemos juntos aqui. Fia de ficar surprehendido como todos. ê. - Kealmente. . . - Não parece. . . - O que, Ealy9 - Nma fu g a 9. . . - Hh! que idéa! G, ão creio. Eulalia mostrou um sorriso dubio. - Eu tambem não quero crer. E8ï bem possivel que elle esteja viajando com a consci}ncia leve, e até pensando muito em mim, na festa que lhe fizemos, em tudo quanto me disse e me protestou ainda horb tem, neste mesmo logar. - Jue melhor prova9 - LÅ extranhoi é que não soubesse nada jdo que ia fazer hoje de manhã. E olhe que não éàra um passeio ao arrabalde: era uma viagem longa, a negocios de importancia. . .
- Disse para onde9 - Lim: para o DFNTRO( Hnde é o DFNTRO& Iomba9 Lerà o mesmo logar para onde foi o noivo de F arocas9. . . Essa allusão a um caso triste de esponsaes mallogrados e o tom equivoco em que ella vinha falando de Amancio e de si prÅpria trahiam-lhe toda desapontamento e a amargura que começava invadir-lhe a alma. - Acho impossível, atalhou a costureira, con ti' nuando a dissimular as duvidas que tambem a inquietavam. - Ooc} o trata com muita desconfiança. , Não và ser injusta. Esperem os. . . Elle não dissq quanto tempo ia demorar9 - Uns vinte dias. - Hra. . . Depressa se passam. - Jue em vez de vinte, fossem quatro ou cinca dias. Jue im porta9. . . - Juando elles querem ir-se tudo é pretexto' bem sei. Fas não se esqueça de que elle ainda veiu despedir-se. Iodia deixar die vir, escreveria uma carta ou desappareceria da terra sem dizer uma palavra a ninguém.
Era maisX natural. , . fez o noivo da pobre Farotas. Euíaíia teve custo em responder. Fas tanta era a malicia que a sua imaginação attribuia ao carwcten dos homens e tanta a susceptibilidade da sua alma, apaixonada, que descobriu mais uma causa de duvida e temor. - Gote que foi o pae quem o obrigou a viajar: A negocios do pae, disse elle. Eu nem tinha pensado que elle é filho de um homem ric o. . . Agora imagino que Amando, com um coração muito bomñ viesse dizer-me aquelle adeus à pressa, ant}s de partir, coitado! ralado de dor, contra a sua vontade. w. è E ï in esgota Fel 88 disse Pomba comsigo; . Devia como amiga afugentar-lhe todas essas fantasias do espirito e chamal-a ia enCarar a realidade serenamente, sem prevenções. Achava tudo isso exageradamente pensado. Nma viagem se faz, conforme a necessidade, de um momento para outro. Não se justificavam aquelles extremos de previsão. O que se devia fazer era verificar se o Nery tinha mesmo g destino que annunciara.
Disso se encarregaria sua mãe jjosepha, que procuraria sabel-o indirectamente da dona da casa do commendador. Basta de maus juizos e agouros, concluiÜ Pomba. O que impressiona é o repente da viagem, sÅ isto. Ootí} não està no caso de ser iCludida e abandonada, como qualquer rapariga sem nom e. . . - E se o fosse nao me poria à morte. Ah C isto njão. FingÖem teria este prazer. Iosso ser enganada, mas humilhada nunca. Esperemos. . . Antes de Dosepha, teve Paulo Boto quem o informasse com segurança àcerca db motivo da viagem de Amancio. Elle não havia mentido. Oiram-no em! ' barcar no vapor que partia para Cachoeira e ouviram ao commendador, no acto do embarque, referencias ao mau estado dos negocios com os lavradores e ccmmerciantes do centro.
Não subsistiam razões para desconfiança. Hito dias passaram sem que Eulalia sentisse mais do que a falta do costumado colloquio, todas as noites. Fas na segunda semana, tendo debalde esperado carta cio Nery, entrou ella de novo a suspeitar. Cada dia aguardava, inquieta, , a horã do càrtei1 r o: chegava repetidas vezes à janélla: alvoroçavase, tuvindo ou supponclo ouvir passos na escada. Go fim do dia estava fatigada de decepções. Assim decorreram mais sete dias. èO mais tardar vinteê, dissera elle. E nem elle, nem siquer noticia delle. isto fez lavrar o desassocego no seio da farniiia. O proprio Boto calava-se, em meio de coni versas que provocava e a que ninguém dava attenção, perguntando a si mesmo se a sua dignidade! d; é chefe do lar não fóra affrontada. Depois, acudindo' lhe os contra-tempos e os imprevistos a que està suA jeito quem viaja, cahia em si e acalmava-se. - Erqt a influencia de senhoras muito imaginosas pressionàveis. Devia tranquilisal-as, antes que parti-.
cipar nos seus receios, talvez sem nenhum fundamenta e em todo o caso prematuros. Ialestrando com Salustiano, na sala de jantar, trouxe à bailia o nome do ausente, commentandq com humor, em presença da cunhada e de Pomba, todos, pelos jor' n: aes, que elle não fóra eleito. O negociante expunha as condições do pleito e explicava a sorte av}ssa - Não podia ser outra. A principio ainda imaginei melhor resultado: , visto estarmos com a eleição à porta quando subiram os liberaes. Fas se ps homens chegam ao ponto de arrebatar as authentii cas das rnãos dos estafetas, de carregar as urnas para onde querem e lhes convém, o que aqui mesmo se - E cousas peores. O que não terà havido nas Eavras! . . . - Elle não estava illudido. Farà bem se dei-ï xar-se de politica, até porque é dos intransigentess - F, as H; Nery tinha aspirações.
- Mem, emendou o Boto. - Juem é 9. . . perguntou d. - Estamos falando do Nery. Filho de urn homem rico, e filho unico, que vae fazer desde jà em politica9 Advogue, se precisa de uma occupação. - Bï tão rico éassim, o pae9 Gunca o vi. Dese-i java conhecei-o. - ' Iassou-me ainda hoje pela porta - Mambém os vi juntos, ha dous tou tres dias, disse Salustiano. Iarece que o commendador lhe perdoou a traição ao partido. - O homem não. } político: o que quer delle são os serviços médicos. - O dr. Brazilino é o marido de d. Mhomazia. . . disse Branca: e accrescentou: - Eï verdade. . . essa senhora e a filha parece que se inimizaram comnosco. Não sei porque. Não lhes demos motivos. Ba pouco tempo, na missa da Lé, nos reviraram os olhos. Depois disso, passaram aqui duas vezes, nos viram na sacada e fizeram o mesmo gesto de aborrecimento. Não foi, Ealy9 Eulalia confirmou, e acto continuo retirou-se precipitadamente, la. Paulo, emmudecendo sobre as palavras da mulher, associava idéas e circumstancias de que parecia resultar certa evidencia. As relações intimas dg Brazilino com o commendador Nery, ao mesmo tempo que as demonstrações da família Brazilino hostis a Branca e à irmã, acabavam de fazer-lhe uma luz crua no espirito. Eembrou-lhe logo o olhar. exf centrico e desconfiado que o medico lhe lançara da passeio da loja. Hccorreu-lhe ainda que esse seu freguez ultimamente nada lhe comprava. Oerdade éra que elle andava assim desde as eleições, mais ou menos escamado com os conhecidos, e evitaria -4 homens franGos que o podiam entalar em logares pÖb lic o s. . .
Branca, silenciosa e preoccupada, foi juntar-se a Ealy, na sala de visitas. Chegou d. Antonia a indagar do que se traSalustiano foi conveniente, levantando-se e des' êFazia-o com pesar, porque era cedo e Pomba se demoraria na casa. Iercebeu, porém, que as pés-: soas da familia tinham necessidade de communicarse livremente sobre matéria muito particular. Ketirou-se condoido de Eulalia, cuja felicidade jà via prestes a naufragar. Iensando então em Amancio, disse comsigo: è Ler elle a abandonar é molequeê. E estava quasi arrependido, com remorsos e vergonha de o ter conduzido um dia, no FatatÖ, à conviv}ncia da familia do seu Felizmente ainda ninguém se lembrara disso. Le o Nery, porém, viesse a prevaricar e alguem carregasse em conta aquella apresentação, não saberia como punir-se e expiar tamanha culpa.
Fais duas semanas decorreram. Ga casa do Men reiro vivia-se em grande desconsolo. A familia, apesar dos esforços do chefe para a distrahir, andava a tragar despeitos e tristezas. Juem mais soffria, depois de Eulalia, era %d. Le um instante as divertia qualquer passatem' po, ; ià Oinha a sombra a annuviar-lhes a alma e o Durante o dia Branca costurava peças do enxoval da creança que começava a produzir-lhe éanv tojos, e a esses preparativos conseguia às vezes prender a attenção da irmã. A ï noite, quando soava a hora habitual de Amanpesada cahia a tristeza. As arvores do largo entenebreciam o céo. Os sinos das igrejas pareciam dobrar sobre os sonhos de Eulalia. Jue atordoamento causavam esses sinos a D. A visita de qualquer pessoa menos intima ára recebida como um movimento de curiosidade, ape:
sar de o segredo se manter com rigor entre todos os de casa. em cujo numero se admittia Salustiano, D. Mhomazia e a filha eram os duendes da família. Coimo prenuncio de desgraça, lembrava-se Ealy de que uma manhã, depois do passeio à roça, onda conhecera o Nery, foram aquellas duas senhoras as primeiras pessoas que lhe saltaram à vista e lhe ocMentava-a agora o desejo ide tornar a v}l-as para l}r-Dhes nos semblantes - ciume e a rjvalidade. Fas faltava-lhe até a coragem de chegar à janella, quanto mais de vestir-se e sahir. Go auge desses dissabores veiu Dosepha, uma noite, e menos loquaz que de costume, depois TEQ informar-se da saude de Ealy, sentou-se ao lado díj viuva e de Branca. Elias se queixavam das visinhas dto sobrado fronteiro, da espionagem soffrendo, o que as obrigava, em certas horas, a cerrar as janellas, a privar-se de luz e de ar. - Em88 fim era um tempo de perseguições. Paulo fazia pouEaly doente. . . Mudo lhes ch egava. . .
Juando repararam em torno de si, a despenseira resmungava, engrolando a esmo palavras ininnão escreve, não pÅde, nem lhe deixam pensar um instante no mal que fa z. . . Juerlhe bem, mas não a v } XX Cegou. Le a visse era como se lhe apparecesse o inim igo. . . Anda por là com a cabeça virada. . . LÅ v} a outra, sÅ pensa na Feia, tornou-se linda, roubou a graça da infeliz, deixou-a na som bra. . . e persegue-o. . . - Jue està ahi dizendo, Dosepha9 - Cousas, minha am iga. . . Gem toda a gentq cr}, nem eu gosto de andar inculcando. . . Fafs é cO' mc se estivesse ven do. . . a perseguição. gindo, à volta com a outra, soffrendo a tentaçãoW sem saber que aquelle anjo é o demonio. . . - Eï Amancio! . . . Jue quer dizer9 D. Antonia assustou-se. - Jual! Eï mulher, sim. . . mas esta casada. . , Alas não façam nem digam, por favor, que é abusão m inha. . .
Eevantando-se, de mãos no ar, olhos arregalados, cara de espantalho, assoprou: - Eï o feitiço, minhas bóas senh oras! . . . a obra de d. Mhomazia, que é uma feiticeira échaW pada, que nunca deu um passo na sua vida sem feitiçaria. . . Lei de tudo. Està casada com o. doutor, por que fez com que elle aborrecesse a outra, coitadinha! que entisicou e morreu de paixão. Eis ahi quem é a mulher e o que ella està fazendo, a poder de dinheiro. Oejam agora como se av}m. Le não acreditam nem se previnem, esperem pelo 7reï Jue Deus não o permitta, mas eu jà estou vendo tudo. . . - Iois diga o que devemos fazer, Dosepha. . . ou faça c que é preciso, faça por nossa conta. , ; : disse a viuva, presa de vaga emoção de pavor. Fuito nervosa, sob a mesma impressão, d, Bran, ca àfastou-se, foi ao quarto de Ealy, deplois, . à janella, anciosa pela chegada do marido. Mornando à sala do fundo, ouviu as ultimas palavras com quef a despenseira écaracterisava a mulher do Brazilino.
- Ella é tão useira nessas cousas que no dia em que os pedreiros foram lhe caiar a casa, . para o casamento, ainda toparam dentro de uma panellx de barro um sapo com os olhos cosidois a retroz. . . Boto sÅ entrou às nove horas, quandoi Diosepha jà se havia retirado. Ao que Branca lhg communicoiu, respondeu, encolhendo os hombros, mas com seriedade: - Façam o que entender. Eulalia, no dia seguinte, respondeu tambem à irmã, passado o primeiro assombro: - Le é assim, devia-se fazer com que o feitiço virasse contra a feiticeira. O sentimento da vingança crescia-lhe na alma. Por vingança, servir-se-ia de todos os meios, usaria igualmente todos os expedientes, os mais extravagantes, os mais absurdos. - E voc} c r } 9. . . perguntou-lhe Branca. - Jue importa! Com fé ou sem f é. . . O que eu desejo e quero é dar-lhes o mate. Gem eu, nem Era domingo. Branca vestia-se para ir à missa com o marido. Estando quasi prompta para sahir, entrou Pomba um pouco animada, trajando um vesê tido negro de ènobrezaê, que lhe dava ares d} preceptora. Oiera do collegio a pretexto de ouvir missa: vinha, porém, a outro fim para ella não menos Encontrou a amiga mais calma dlo que a deixara, - à a cór do rosto apagada, os olhos vermelhos, o cabello mal penteado. Abraçou-a carinhosamente e perLentaram-se junto ao piano que, havia mais de mez, jazia abandonado.
A pouco e pouco Ealy deixou a reserva com que falara a Pomba. Estancara-se-flhe a veia dw in8 nia. Não acertava mais com uma phrase velada, unia palavra de desdem. Começou a jorrar-lhe do. 302 ração a historia daquella ultima semana de éamargores, de conjecturas, de febre e tormentos. Os proprios cuidados excepcionaes que em casa lhe prodigalisavam concorriam para advertil-a de sua infeli- - Jue soube mais sua mãe9; - Falou com a creada do commendador. Gad; ai adeantou. Jue elle foi mesmo a negocio do p a e: mas para onde e quando volta, não sab e. . . - Gem escreveu para casa9 ignoro. Juanto ao doutor zilo, este é medico do commendador ha muito tempo. - Dtà sabiamos. - Fas a m ulher. . . - A feiticeira9 - Ah! esta descoberta valeu-nos. . . Branca ia sahindo. O que a levava à igreja essà manhã era especialmente o desejo de encontrar-ses de frente com de certificar-se imaiW uma vez da sua inimizade e surprehender-lhe kNO olhos o pensamento sinistro daquella alma.
Pomba e Ealy conchegaram-se no sofà, mais à - Juando minha mãe morava na rua da GaO mel leira com a finada minha avÅ, ouvia e via tudoi o que se passava entre as tias da Costa. Bavia uma que tinha um quartinho com os seus santos, e làentrava muita gente b ó a. . . Gaquelle domingo, là na roça, quando nÅs ouvi amos de longe O batucagé, eu sÅ me lembrava do rjCA mamãe conta. Eu jà sabia quem era o pae daquelle terreiro. Chama-se Elesbão, mora na rua do Alvo. E' respeitado. . . A casa vive cheia, quer de noite, quer de dia. E íião é gente ruim que o procura: são brancas, gente dé qualidade, e até mulheres ricas. . . acredita-me9 - Iorque não9 D. Mhomazia não é destas9 - Com certeza jà andou por l à. . . porque comoí elle, para esses negocios, ha poucos. Fas c o quq nos vale: depois eu lhe direi a razão. A mãe de Farocas, . proseguiu a costureira, procurou-o.
lizmente sÅ se lembrou disso tarde. Dà o noivo díW filha estava casado com a outra. Fas D. Oeridianay pedida e de enxoval prompto, mal soube quqi o noivo tinha embarcado para Lergipe, valeu-se doi ètio ê e em menos de quinze dias elle voltava para aqui, e daqui sÅ sahiu casado. Felhor foi o casamento do sr. Fachado com aquella moça rica que defronte do collegio e de quem ha tres mezes. . . - Não tinha nada de seu, elle. A moça virava-lhe a cara. Fuitas vezes presenciei isto da janella do dormitorio. Elle arranjou com Üma criada da ricaça um pé dé sapatinha, e tanto fez, tanto anD dou para a rua do Alvo, que veiu a casar-se cofrtf uma admiração quando ges soube que tinha casado com um homem tão feio, Ealy eiscutava com ar indulgente, e quiz tomar a. palavra, mas Pomba atalhou, citando mais factos, nomeando pessoas, miudeando circumstancias. O proprio commendador Nery porque é que vivia com a negra que lhe zelava a casa9 - Fas deixemos as negras e as pobres.
eu tosse a dizer o nome de todas as brancas, de todas as ricas, da aristocracia, que t}m ido e m-an-r dado à rua do Alvo, ai! filha, voc} ficaria de queixol cahido. Creia-me, todas fazem o m esm o. . . - Iois eu tambem farei, disse Ealy, tomada de subita resolução. - Manto vae a meça como. a velha, a que quert fazer bem. e a que quer fazer m al. . . Ah! que hor-i ror! o maleficio, o azar, a JJNGJB pregada por um feiticeiro como esse. . . Finhas carnes se arrepiam, Ea' ly, sÅ de imaginar que estou enrolada num feitiçoi por uma inimiga. Ahi estava o exemplo de Fanoel Gallego, doWi no de um armazém em L. Iedro. - Oivia eom urna creoula que fazia bobo para! vender e que o ajudava muito. Um dia pediu a mão de uma branca: e começou-se a apromptar éq Jue desgraça! éFaltava-lhe um o casamento quando perdeu a cabeça. Enlouqueceu, , quebrou tudo o que havia no armazém e foi para!
no á sy lo. . . Não se deve crer9 - Gos maleficios, principalmente. Fas vamos. . . Como ha de ser9 Jue vae fazer sua mãe9 Eï preciso que ella saib a. . . - Deixe tudo por nossa conta. - E que ninguém, fÅra de nÅs, suspeite. - Confie em mim. Agora resta uma cousa: não basta ir ao tio. - O que é preciso ainda9 - Um objecto delle, ou que elle usasse. . . - Juem9 Ainancio9 - Não devia ser antes um objecto pertencente Pomba rogou-lhe que não tentasse comprehender o segredo. - O que eu tenho delle é o retrato. Ealy foi sem demora ao quarto e voltou com a photographia que o Nery lhe offerecera. Depois de sumil-a no bolso da saia, Pomba quedou-se jem silencio. Ambas abstractas, meditavam nos mysterio-: sos poderes de um ente tão grosseiro e inferior, comD a visão dissolvente dos prodígios que lhe eram at' tribuidos. è Lerà verdade, scismava Eulalia, que nÅs todos vivemos pelo feiticeiro9ê E capitulava os factos narrados pela amiga, fazendo& esforços para encontrar relações entre os nossos des-W tinos e o supposto agente de tantas vicissitudes. Leul espirito fluetuava num chaos, onde apenas clareava como fogo fatuo a fé que lhe ia incutindo a Por fim, murmurou:
Icmba, voc} não estarà me enganando9, E como a costureira se mostrasse formalisada, o braço pelo hombro perdão, com duas lagrimas nos olhos. A esse tempo voltava d. Branca da missa, confirmando os sentimentos hostis da mulher do Bra-i zilino. Oira-a na Lé, comê a filha: a maldade, o despreso, o escarneo relampejavam-lhes nos rostos pailidos, paíibulares. Não podiam negar que eram suas inimigas. Eram-no, sim, e dessas a quem não seria facil revidar com maledicencias e ridículo. A emoção de Branca multiplicava o poder maléfico de d. Mhomazia e vinha reforçar os discursoW e a persuasoria da costureira. Nma luz fumarenta de lampeões muito espaçados avergoava a Os sobradios, cornq de costume, às escuras. E isso era p que tinha dó bom a via ladeirenta, por onde subia, cançada, offegando, a dedicada Dosepha.
Alguma ou outra Danella semi-aberta envasavà figuras; indefiníveis, sombras vivas, quietas, a auscultar a vida alheia. Eà do alto da ladeira, populosa colónia de nagós, vinha o rumor das colmeias africanas: o tamborilar de um tabaque, uma melopéa à meia voz, éecho de uma palavra jorubana, o ruido de uma pe' dra de ralar milho. Era alli acima um dos emporioà do aicassà e do obi, dÅs aberens, dbs acarajés o dto tabaco de cão. Go meio da viela Dosepha parou a tomar fo' lego. Ioucos passos a separavam do casebre quq ella reconhecia, - o mais acaçapado e largo entrq os do quarteirão, todos de paredes besuntonas, dies' cascadas. Mornou a embuçar-se com o chale e ia subir, quando da porta da casa disparou um homem que por um triz não lhe deu urna encontrada 'noí Era um branco e bem moço.
Dosepha adeantou-se alguns passos, mas ao mes-' mo tempo um rebuçado feminino, que vinha quasç a correr em sentido contrario, precipitou-se e penetrou primeiro que ella no casebre. O que a fez! - Memos quisilia. . . Antes, porérn, que chegassem mais clientes, ella abicou e winda póde lobrigar, fugindo pelo corre' dor a dentro, com a cabeça e o torso envío lvidfos num fichÖ escuro, a pessoa que lhe tomara a deanteira. Calma, habituada a frequentar esses logares, resignou-se bem depressa e achou-se na entrada corrí urna negra velha, encolhida no chão, debaixo de um trapo de panno da Costa. - I. apae9. . . perguntou, com carinho, depois de saudal-a em lingua jorubana. Abraçando as canellas, com a mandíbula sobre os jcelhos, a preta respondeu sem se m exer:
- Mà cupado, péra a h i. . . - Espere aonde, minha tia9 A porteira indicou-lhe a sala. D o s e p h a palpou a folha da porta, que cedeu, e foi sentar-se na sal}ta, onde ardia uma fraca Cam: -' parina. Gesta peça, com as duas janellas; trancadas, havia as mesmas bancas suas conhecidas, meia duzia de cadeiras ensebadas, um canapé forrado de esteirinha, mochos e pelles de cabra ainda icom cheirou de cortume. As paredes eram um mosaico de estampas, illustrações de revistas, figurinos coloridoW de mulher, olecgraphias das que v}m colladas. 1 s. peças de madrasto. Lobre as bancas, pares de quar-U tinhas pequeninas, envernisadas e douradas, moringues de barro com. gargalos em forma de collo, e cabeça de passaro, grandes buzios e jarras com ra8( mos de flores de papel, alguns livros e jornaes. , Elesbão gostava de fingir-se; letrado.
A sessão là dentro ia-se prolongando. A porta de ccmmunicação com a camarinha continuava fechada, mas pelas frinchas escapava às vezes um rnurmurio de vozes supplicantes. Jue serà is to 9. . . murmurou a despenseira. Dizem tantas cousas. W. Eu sei9 Moda a casa tresandava a rWnço, a azeite de dend} e a hervas maceradas. E de cantoê a canto passeavam kàgadcs, afccinhando quiabos e retraços de outras hortaliças. A lamparina ia empalíidecendo ao peso do morrão. O calor abafava. èJuando é que ella se despac h a. . . ê pensou Dosepha, começando a inquietar-se co m a demora. Esperou ainda um quarto de hora, escutando o mysterio da camarinha e o sussurro das concubinas e servas nos fundos do cortiço. Nm. cheiro az}dfct de afurà começou a enjoal-a. E de longe chegou' lhe um uivo semelhante ao roncar do jacamim.
leves no corredor puzeram-na de sor breaviso. Eevantou-se com pés de lã, entreabriu a banda da porta para a entrada e viu deslisar, em pontas de sapatinhas, a dama do fichÖ. Ooltou a sentar-se. Com pouca demora abriu-se a porta do quarto. Nma negra, muito nova, pequena e Mirida, appareceu na sala, apanhou um dos imoringues e encheu dfagua as quartinhas dos santos mabaças Cosme e Damião: fechou depois à chave a porta da saleta e fez signal à despenseira que enO grande nagó, de chambre e barretinho, sentado em sua cama baixa, estava immovel, com; a pa' beça prona, olhando os pés nus, untados de oleo %de cóco, estendidos nurn pellego alvacento de carneiro. Kolando para cima o branco dos olhos, fez um gesta paternal, entre familiar e grave, apontando para um mócho à cabeceira do leito.
- Lenta ahi, disse. E deu a benção pedida. Eogo que a parda desafogou-se do chale, elle re- - Ah! é oc} 9. . . - Lim, p ap ae. . . Eï negocio de familia. Eu vim aqui por uma pessoa da casa de um amigo de nÅs - Oae dizendo. . . - A moça ia ser pedida em casamento um doutor. . . Juando estava nisso, o moço fez viagem para o sertão. . . e até hoje. Gem escreve, nem se sabe d elle. . . Agora a gente desconfia que é, èserviçoê contra ella. Ba outra creatura que tem o" olhos no doutor e parece que o pae delle é 1o vo' t o. . . Iapae, ajude a parenta de seu amigo. - Elle cham a9. . . - Lenhor Paulo Boto. - Boto! 9 Ahn! . . . Elesbão mudou subitamente de feições e attitude. O corpanzil aprumado, o rosto vultuoso muitq serio, pediu à intermediaria que lhe dissesse tudo sem reserva, - quem era o doutor, quem era o pae do doutor, quem era a rival da parenta de Boto, onde moravam, se eram ricos ou pobres. A despenseira foi contando o que sabia e podia dieclarar8 E emquanto falava tinha os olhos na îparte ïmais recóndita da camarinha, onde era o santuario. L e parava-a dalli um reposteiro, colhidoW a meio.
Do seu mocho, conchegado às pernas formidàveis do pontífice, ella descobria a uma luz sanguínea de kerozene parte do throno onde se espalhavam as especies divinas, as pedras de raio, os fetiches em preparo, os vasos sagrados onde deviam estar: em banho de azeite outras fossilisações dio tremebundia Qangó e mais pot}ncias divinisaveis. Oia amuletos è buzios, os tessubàs e fios de contas pendurados Cde pregos, as longas vestes e os paramentos do cultor os bahÖs onde se guardavam toalhas, ojàs, ventarolas, o indumento custoso das filhas de santo, do pae e da mãe do terreiro. A tripeça dos oràculos apparecia a um lado pejada de conchas, dados, plumas, chifres, cacos, chu' maços de cabello, figas e bonecos, fragmentos -de ferro, pennas de ave, novellcs de linha, embrulhos, mystericsGL. Embaixo, pelo chão de tijollo, pratos de cbi, tijelias de comida, garrafas, caborés, atabaques, por entre os quaes rastejava sempre a cara' paça de um jabo. ty. Ielas paredes, quadrinhos, retratos envoltos em panno, cambadas de reptis mir' rades, sapatinhas de velludoi e couro, lenços de seda, adereços, fieiras de anneis e aljófares. . .
Mendo dito tudo, Dosepha ergueu os olhos à majestade do nagó, e humildemente: - Iapae, elle ainda volta pîra a moça9 Elesbão não respondeu incontinenti. Foveu os grossos pés sobre a lã do pellegd e a descuido os cruzou em cima de um pé da despenseira. Ella não ousou violar-lhe a immobilidade fakiriana. Iermaneceu submissa, como a esposa de Lalomão junto ao divan do rei inebriado pelo seu cheiro de nardo. Com os sentidos dominados, tanto pelo contacto do magnete animal, quanto pelos effluvios do ambiente, cahiram-lhe as vistas sobre uma Lanta Barbara, toda cravejada a contas, ladeada ipor um idolo de madeira negra, zambro, de nariz batido e olhos de missanga vermelha. Keconheceu épela cauda bifida a figuração da mãe djïagua, e por outras apparencias o salutar Qaponan, que suscita to' horror da variÅla. Eà estava mais um idoloi, disforv me, feitio de pilão, comé a lingua de fÅra RB plumas éde.
córes no sinciput: e mais outro, que não seria se; não a fecunda Hubatalà, dando as mammas enormes. e inesgotàveis ao filho que trazia escanchado NB Iéra a h i. . . disse o mystagogo, pondo-se íde pé, depois de longos minutos de recolhimento. Ca jogar os dados9 Diosepha mediu-lhe com res, e vivo sentimento da prÅpria fragilidade! possança do tronco e dos membros. De todo elle emanava, como da esculptura de Hubatalà, mais inê tensa, porém; , e mais actual, a energia creadora dos. instinctos genesicos. Juando elle se occultou. . - santuario, correndo o reposteiro, todos os kàgados como que chamados por urna voz secreta começaram a rojar em direcção a o èpejíê. Ga sala a lamparina, em vascas, fazia dansar filandras de luz e flocos de sombra. Dosepha perscrutando o leito do mago viu scintillar, entre a taboa da cabeceira, e a enxerga, P ouro de um bracel}te. Iensou na énulher do fichÖ:
pensou no moço branco que a topara na rÖ a. . . O silencio do pardieiro fechado, cujo ar escaI dava, encheu-se de um arrulhar voluptuoso. Os pomos sacrificios casavam-se no vigamento do tecto. Por traz do velario sombrio trincavam os cauris na mesa do adivinho.