Parte 4
bdecido defronte com armarinho: - è O. sor. Fanoel, temol-a travada9ê - èLei c à. . . A mimí parece-me que é coisa no K io ê. Gessa occasiwo approximavam-se. alguns soldados de cavai lar ia, a galope. Cmmedíi atam ente o, F anoel bateu uma das folhas dia porta, p tamanqueiroi imitou-o: começaram a fechar-se outras lojas do qtian teirão. Ganhadores, carroceiros e capadbcios reuniam; -9 se aqui e alli, a grulhar e, a sofltar grito s: no mer-M cado e nos caes augmentava o borborinho: o. com: -' mercio pacato e cauteloso espreitava o movimento, com desconfiança, receiando um fecha-fecha. Paulo deixara a prosa, , e ao fundo %d! a loja contava, o dinheiro entrado no- dia. Os caixeiros; wrrum! avam% peças de fazendas e recolhiam as amostras. C om eçara o refluxo para a cidade alta.
Juasi todas as casas do bairro fecharam, antes! das seis. Os vendedores de jornaes apregoavam sen! tomar foi ego: èO novo ministério! ê èO partido, beral! ê è Melegrammas do Rio! ê O movimento crescia, toda a gente, accelcrada, havia adquirido força, dupla. Os transeuntes em marcha descompassada fo n mavam na via publica moles vivas que ora se uniam espessamente, ora se desaggregavam se tornar compactas. Eia-se a anciedade em todos -" Karos sujeitos macambÖzios, outros visivelmente arreliados, paravam gesticulando sinistramente, como se éíroplietisassem revolução. O sapateiroi depunha a sovela, o alfaiate a tesoura, o marceneiro! a plaina, o pedreircj a trolha, e corriam todos a sau-u dar o seu popularissimo chefe. Moda essa gente era! liberal, e causava inveja a Salustiano, pobre escrB pturario sem pae alcaide e sem licença de manifestar, da mesma forma, a suaï opinião, com receio de incorrer no desagrado daquelles que amanhã poderiam, voltar ao poder.
- De sorte que eu, um funccionario da proving cia, sou menos independente do que qualquer sapa-í teiro ou alfaiate! Ao galgar o repiquete da Conceição, AmancioW jà opposicionista, referia aos companheiros o prini cipio da desordem que presenceara, pelas. . horas do dia, à rua de Ialacio. Um gua; rda urbano intimara a dous mulatos que contendiam exaltadamente a prcposito da mudança de situação. Eram adversaries. O conservador tomara o partido de ir enrbora, mas o outro entesava com o guarda e, voz em grita: - Não, camarada! não pÅde me tapar a boca 9 como qualquer. chefe de cimaj ninguém me leva preso. O r a. . . o r a. . . o r a. . . Gem, sua majestade! - E isto dizendo, soltara estrondos sos vivas ao partido liberal, a seu chefe e ao m n Os circumstantes romperam da, e o guarda afastou-se.
- Hutra, continuou o Nery sem tomar folego. na Ajuda. Um açougueiro, visinho de urrt alfaiate, bradava que havia de ser inspector de quart feirão, para FSGRFHBR os cabras DBSDUEOS( O alfaiatd tomou a carapuça, e veiu à porta pedir ao è inlustrissimo visinhoê que o deixasse socegad! ê em seu canto. E sÅ por isso ia recebendo uma machadada tíd - Costas quentes. . . - Eï sempre assim, ajuntou Salustiano: camboatà é que suja agua. Então considerava o G e r y: - Avalie que hoje apenas chegou a noticia da ascenção dos liberaes. Jue não serà amanhã9 O Boto, com um lenço passado em vtolta d! o pescoço, lia seu jornal e soprava de fadiga. Não estava triste, apesar da sua predilecção pelo partido da ordem. O escripturario sentia-se, pouco &a pouco, esperançado. Ancioso por pedir a mão td; e Pomba, sÅ aguardava accesso ou reforma da tabella dos vencimentos. Dos conservadores estava cansado de esperar. Os que viessem não poderiam ser peores: era até provàvel que, para captar ésympathias fizessem alguma cousa em beneficio da classe.
Go largo do Mheatro fizeram alto. Bavia lahi muita gente e ainda maior agitação. Era ío ponto de cionvergeucia, o grande receptàculo das correntes de curiosos, eleitores, votantes, cidadãos qualificados, individÜos sem classificação, funccionarios, operàrios, politicos e neutros, chefes e sub-chefes de De todas as ruas desciam, rolavam estrugindo -4 ares, como as aguas de muitos confluentes, massaa populares que vinham espraiar-se no largo. E là se viam grupos nos passeios, à porta do 0JVRJO& das armazéns, dos hotéis. Aqui e alli bandeiras desfraldadas, jubilo irreprimível nas conversações, nos gestos, nos commentarios. Gos armazéns povoj a entrar e a sah ir. . . E a cerveja a espumar sobre os balA multidão transpirava um quente vapor de talegria, gue de quando em quando se condensava em brados de enthusiasmo.
Dià em alguns ajuntamentos se antecipava a distribuição dos empregos e commissões. - Fulano vae ser o inspector do Mhesouro. - Licrano o chefe %d; e policia. - Juem serà o secretario do governo9 Malvez o Là. - Não, não: garanto-lhe iquef "d o Ki' beiro. - Aposto pelo Fagalhães - Jual historia! urna presidencia de província. Dias, que lhe darão9 - Com certeza, jo cominando da policia. . . O futuro inspector do Mhesouro não desagra-. dava a Salustiano. Bella pessoa, sim, senhores. E8ï um homem Modos esses commentarios e càlculos, toda essa expansão festiva causava certa displic}ncia ao espirita de Amancio Nery que, ao despedir-se dos outros! : prometteu apparecer à noite para irem ñà Eapinha, mas isto - conform e. . . conform e. . . Lepararam-se. Continuando a subir para a rua Direita, ponderava o Boto ao escripturark8:
- Agora vamos a ver o que fazem. . . Estão com a faca e o queijo nas mãos. - O que lhe assevero é que a Provincia està bem endividada. O paiz tem oitenta mil contos de Não foi pelo que pagaram nalismo publico. - E a secca do sertão9 LÅ do Dbazeiro mais de tres mil pessoas emigradas. Forrem de fome quatro e cinco por d ia. . . -r- E isto quando a Provincia deve perto; de quatro mil contos. . . Jue o s s o! - Iois sim, mais uma razão para economisarem. Iaguem a divida e deixem que a lavoiurà e o com mercio andem pTra deante. reparo, descobriram o dr. Iinto que descia a rua da Ajuda. O doutor, éapres a boca risonha à sombra dos bigode fouveiros, não tinha tempo para extensa conversa. - Jue jà sabia de tudo, sim, senhor, fóra sempre, seimpre muito amigo do conselheiro, e se bem nãc precisasse de favores politicos, estimara immensamente a subida dos liberaes.
Salustiano perguntou-lhe se tinha relações con: o futuro inspector. . . - Fuito intimas. . . ha longos annos. - Iois desejo um fa v o r. . . Não puderam ir adeante. Nma philarmonica, pre-i cedendo massa enorme de populares, vinha da praç0 de Ialacio trombeteando a victoria liberal. Modos os grupos se volviam para a rua Direita, vibrantes de alegria, gesticulando rasgadamente. CapadÅcios e meninos corriam, pulavam, soltandb vin v a s: e os foguetes recomeçavam a chiadeira á8eloL ares, és copos se esvasiavam à pressa fe cahiam ti-f nindo sobre os baldões. As portas dos armazéns e hoteis embarricavam-se de gente atarantada, sofre-9 ga, tonta de prazer, em quanto os pratos, o bombou os baixos e os clarinetes, batidos e sopradas a todlà a força, desciam para o largo ao trapejar de umWi - èOiva o partido liberal! ê A ï noite na sala de Boto achavam-se Wreunidos, Salustiano, Amando, Pomba, d. Branca e a irmã, touniformemente de alvo.
Com o dono da casa formavam tres pares. Aguardavam o momento de sahir. Entrem entes, Paulo gracejou com o Nery a proposito da queda, dos ècascudosê, . seus correligionàrios. - Mristezas não pagam dividas. . . nem vencem elei7Woes. Devirtamo-nos e deixe que as urnas falém, - O que faz ao caso não7 é que as íurnas falem' mas que digam verdade. Amancio, aliàs, mostrava-se mais despreoccupa-í do do acontecimento politioo, embevecido na pre-' sença de Eulalia, cujas faces de um roseo fino éganhavam com a alvura do vestido, uma expressão anD. Antonia veiu convidados a entrar. Ga salas de jantar estava posta uma linda mesa de bólos e doces, queijo, am}ndoas, nozes, passas de uva e figo, que Dpsepha serviu com delicadeza, offereCenW do especialmente a Amancio de um covilhete de si' Bcaia feita pela prÅpria viuva. Copinhos de Iortoi e Foscatel foram distribuídos a todos.
Depois de servidos voltaram à sala, e dahi ai pouco desciairt as escadas do sobrado. A mãe de: Pomba ficava em companhia da viuva para ver aê passagem. dos èranchosê pelo Merreiro. Juando to( dos sahiam, d. Antonia, dirigindo-se a Dosepha, disse-lhe esperançada: - Ahi està o filho unico do homem rico da A jud a. . . Eembra-se9. . . - Gem me diga, d. Antonia. . . Deus me perE a despenseira açoitou com os dedos ambas as faces, em castigo de haver um dia, naquelle jnesi mo logar, concebido aquillo que felizmente não dis-' sera à viuva: a ètroca de cabeçaê, a desgraça fcfcÜ Descendo à Baixa dos Lapateiros, Paulo e seusi obrigados a estacar até que desfi; -i lasse, por entre alas compactas de povo, um ranchoê de raparigas que seguiam aos pares, batendo castanholas e pandeiros, num esvoaçar de fitas mÜltB cores. Go mesmo passo tregeitava, abrindo o préstito, a figura funambulesca do èbalisaê, em saltos' e vira-voltas deante de uma è Lereiaê.
A sereia, de papelão, ia à cabeça de uma molecaj alta e flexivel, a quem o balisa fazia repetidas con' O desfilar foi rapido, mas a maré de curiosoW crescera, embaraçando o transito. Bombro a hombro com Eulalia, Amando Nery exaltava a louçania do rancho. Ao tempo em que este, là adeanteW estrugia os ares, cantando, elle extasiava-se: - Jue peitos fortes! Jue vozes afinadas! Cantam melhor do que muitas moças bonitas nos cÅ-8 ros das igrejas. èExcellente occasião ê pensou Eulalia: e pergun-t - Keparou bem nas cantoras9 Oiu como tsãol lindas, que b ellezas. . . Nery bufou de riso. - Algumas supportaveis: as outras medonhas, com aquellas caras de tres esquinas e aquellas ven' tas de b o i. . . - Então, confessa que unia mulher pÅde cantar como uma diva, interpretar divinamente Eistz, e nãor merecer que alguém se apaixone por ella.
- De certo. Fas porque me diz isto9 - Esquecido! Dà não se lembra que me proê metteu um album de musicas para que etO as tocasse, afim de merecer o seu amor9 - Eu, E a ly 9. . . E foi esse o motivo do seu enfado! Iercebo agora. Mive tanta intenção, que até este memento ignorava a causa daquella frieza repentina com que me tratou. . . Iensei que era uma indisposição, que era um capricho ou uma prova. Iensei tudo, menos que a havia offendido. Enganeis me. Fui um desastrado, á8Åde ser. Iequei por paiavras, níão por pensamentos. . . - Convenci-me, desde o dia seguinte. . . Le não tivesse essa certeza, teria agradecido as suas cortezias e iría esperar por quem me estimasse sem - Com o eu o f i z. . . Juando a vi na pela primeira vez, sabia acaso quaes eram os seti0 dotes adquiridos9 Amei-a sem condiçfões, fui seduzido pela sua p essoa. . . pelos seus o lh o s. . .
Eulalia sorriu deliciosamente e respondeu com, - Jueira-me sempre assim. . . despida de todas Wjs apparencias e luxos. . . pelos meus bellos E captivou-o ainda mais com essa ligeira mescla dp leviandade e malicia, levando-o a imaginar a estatua de urna Ihrynéa no Areopago. Boto caminhava à frente, de braço com a esposa. O empregado publico seguíalo de perto éao lado de Pomba, cujo cor; po exhalava o cheiro de cravo da Cndia, da sua predilecção. Ga altura do Carmo, um rancho de creoulasW vestidas de saias brancas, cantava à porta de uma casa abarracada: è Oiva Iedro Cmperador, è Cmperador do Brasil. . . ê - Fuito a proposito! chacoteou Amancio. Huça, Boto, é ura rancho è liberal ê. Continuavam a andar, muito prezenteiros ao clarão da lua que se alterava.
Fais longe, como que envergonhado da sua rustiqueza e velharia, fugindo às vistas do publico, encafuado na meia sombra de uma viella, berrava um CTDMCBFNTFU'COJ épara divertimento dos pobres moradores do beco e dois raros transeuntes que ainda amavam aquelle frangalho de tradição. O rufo àspero dosí pandeiros e a monotonia do estribilho - èEh, bum ba! ê - cantando por vozes duras e urrantes, mudaram depressa as disposições de Eulalia. Oendo-a épensativa, tão differente da espirituor sa gue momentos antes lhe dera uma lição de atilamento e lhe provocava os sentidos, Amancio ex- - Eembra-se, disse ella, daquella tardinha, noi - Como esquecel-a, se foi o dia em q u e. . . - Não é por isso, atalhou. Emquanto éespera-W vamos, de longe, à porta da casinha, ouvíamos aquellei batuque interminàvel, là nas brenhas, no meio da uma grande solidão. . . Juantos pensamentos me as-' sombraram! Oultos de negros feiticeiros, negras ali lucinadas, loucas, vinham atormentar-me e davam-me& vontade de fugir da; ; i mais que depressa. Pombai tão calada, tão quieta, que eu cheguei a perguntar-' lhe se estava rezando. Fal me respondia: ; pareceu-' pessoa desaccordada.
Bouve um instantq em que não sei o que vi nos olhos delia. . . Assus' tou-rne. Mive medo daquelíes roncos que sahiam ídoj inatto. imaginei que os negros e as negras do teri reiro vinham contra nÅs, que era um levante, quç Salustiano e voc} não voltariam mais queíla baixada. . . - Cmaginação para o horrivel. . . Gervoso. . . Effeitos dessas historias tétricas que nos contam desde! a infancia, - levantes de males e haussàs, guer9 ras de quilombos, malefícios de bruxas. . . GÅs to-i dos vivemos mais ou menos assombrados por. esses espectros, pelo negro e o seu feitiço. - Mambém cr} no feitiço9 - Lim e não. Nma ècousa feitaê nunca é dei todo innocua. Fas o que é o feitiço9 - 1m uma cousa que se faz antes para o mal Cda que para o bem do enfeitiçado. . .
- Com beberagens, comidas, venenos. . . - Esta é a idéa commum que se faz da è cousai feitaê. EDï toda material. Fas isso é a maldade, 0 perversidade, o crime de todos os dias. Os effeitos mais poderosos do feitiço são subtis e vão directa' mente a alma. Hlhe, Ealy, se a pessoa a quem eu estimo ou sou indifferente me arma um feitiço, desde o momento em que desconfio, a minha pertur' bação não se define, a minha repugnancia por essg: pessoa excede a tudo quanto é sentimento de anti-i thia e de aversão. Adoeço sem que fphysicamlenfçj soffra. O odio e o terror combatem identro de mim' Le o odio envenena, o terror mata. Em certas almas, o feitiiço é o pae do p avor. . . Ba almas predisF postas a essa loucura. Não podem defender-se, como! se defenderiam de um intrigante ou de um criminoso vulgar. Por detraz do enfeitiçador està o mysterio: esse inimigo se acastella no segredo mais resistente do mundo. Bï este o poder dos feiticeiros. , de quem muitos riem, mas todos se temem. E; pon isso que eu d ig o: nÅs somos governados ípelo fei-ê ticeiro. Juantas vidas não giram por ahi sobre essq eixo! Juantas almas, submissas, não vivem deban xo dessa mão de fe rro. . .
Não s e i. . . Mudo pode ser. Aquella cantigaj fez-me a mesma impressão que senti Mornei a ver um antro de feitiçarias e crueldades. e ( Apavorou -me. Amancio dizia com sigo: èHnde està a mulheii de espirito. , a gaiata, a finÅria de ha poucos instan! %Continuavam a passar em direcção à Eapinha, com estrugir de cantorias e exclamaçlões jubilosas, . . - regosijo das passeatas e marchas, ao som d; ej musica, de castanheteados e pandeiros, ranchos de creculas bamboieantes, ufanas de seus chapéos de palha com recamo e lajçaria de fitas, o rapazio do com-; inercio, o mulatame de escarpins e arrecadas, na lu' fa lufa de chegar, arrastando na pista, ao cheiro cS' pecial do seu almíscar, a malta de capadocios per' nosticos a dizer facécias e a rir alto dos seus grosseiros dichotes. Era um préstito interminàvel.
Iara alem, muito alem, ficava o theatro da festa: e o grupo ainda se achava em L. Dosé. Era pre-9 DCòLO descer uma ladeira, chegar à Baixa, que pare' cia o leito de um rio transbordante, e dahi subir a Loledade, extensa e larga, cheia de populacho e faDeante disto, Branca deteve-se, e arranjando o fichÖ de musselina em. que envolvia à sua compostura de casada: - Até onde querem ir9 Dà não posso mais. não podia. Alem de ser gorda, andava em principio de gravidez, e apenas supipor; : tava exercícios moderados. - Jue pena! disse o Boto. Ierdermos aquil- - O ï xente! fez Pomba, extranhando a resolução da outra. - Bï pregiiiça9 - Iaci}ncia, E a ly! Não posso andar mais. Estou arfando. E mamãe não ha de ficar de esperd uma noite inteira. um adeus à Eapinha illuBelém pendurada no seu cimH aprazível, onde não dormiriam aquella noite os echos, que os não deixaria dormir a intérmina fomageni de pastores. Adeus, presepe de Desus menino, adb-r rado pelos Fagos na pequena capella em cujas naves épassarão, como nuin cortejo, até que alvoreça' ricos e pobres, grandes e humildes, velhos e moços, pares namorados, ranchos e mais ranchos.
Ketrocederam todos com o pesar de se privarem do folguedo no melhor dos sitios, sem ao menos saber qual o rancho que havia chegado primeiro a Belém e conquistado o èramoê. Ooltavam. De longe em longe, grupos de populares, exaltados, passavam gritando: èOiva o partido liberal! FÅra os DBSDUEOS, ê Nery ria-se com cs companheiros e proseguia no colloquio delicioscj com. Eulalia. Chegaram ao Ielourinho. Ahi uma foliada rija, a toque de viola e pandeiros, dansava a Burrinha', feita de um panacÖ arreiado de estofos brilhantesj enfiado na cintura de uma creoula que fingia guiar pelas rédeas de fita a cabeça do mostrengo. A roda palmejava, cantando: è Finha burrinha entra piïra dentro, è Kïra a chuva não te molhar, èJue o sellim é de velludo è E a manta é de tafetà! ê Ainda saracoteava a burrinha quando começou a descer a rua do Faciel unr, èternoê de moças. t Era um longo cortejo claro e florida, com musical e lanternas venezianas, a dar vivas ao BRJUMJPIO 9BS'& TORJL( Durante o desfilar, Amancio, sempre atraz dos companheiros, levou aos labios o dorso da mão de - Não me beije, disse ella, para depois não piei - Fala s e rio 9. . . Este beijo é, ou antes, devia ser um juramento.
- Està feito. - Lim, até ser confirmado por outro. . . . . . juramento9 Amancio achou graça a escapatÅria, e accentuou: - Hutro como este, porém mais solemne. D, à lhe custava acompanhar os volteios gentis do espirito de Ealy, as suas sahidas graciosas, as suas fugas risonhas, nos momentos em que elle mais empenhava a força do seu sentimento e em que desejava ler-lhe no rosto& e nos olhos a impressão corElla evadia-se, deixando-lhe a certeza de ser amado, mas sem lhe dar a maior prova, a que elle ancioso espreitava, - que era vel-a soffrer o seu amor. Boto seguia na frente cantarolando o quartetq Cam entrar no Merreiro. A claridade da lua banhava as paredes brancas dos altos sobrados e das - Fas que luar! exclamou Paulo, extasiado. As senhoras ainda pararam, recolhendo os echoL longínquos dos reisados e das musicatas que là iam, na deanteira dos ranchos a caminho de Belém.
A eleição realisou-se no tempo marcado. Gesse dia Amando Nery despertou apprehensivo, descontando muito Äas probabilidades de victoria que Paulo Boto calculara em seu favor. Mendo encontrado Salustiano, que ia votar, dirià praça, horas antes da Dahi seguiram os dous para a rua do Bispo onde Brazilino, chefe conservador da iparochia. Conhecia-o Amando, porque era elle o medico de sua casa. Gas lojas do sobrado, residencia do chefe, havia continuo vae-vem de operarios, pequenos negociantes, caixeiros, homens do povo, que subiam ée desciam, animados, em trajos domingueiros, toman, -ê do a senha para o pleito. Conhecidos galopins ani davam com as mãos cheias de è chapasê a recrutar na rua, entre os transeuntes, votos para o partido. # & sub-chefes e cabos arregimentavam com azafama os grupos de cidadãos, davam-lhes ordens e excitavamlhes o enthusiasmo, desferindo vivas ao èpartida sda Apesar dessas animações, a rua do Bispo cheirava a ostracismo.
Leguiram os dous em direcção à ladeira da Iraça, onde habitava o chefe liberal. Ahi o movimento era espontaneamente popular. Salustiano quiz offerecer ao amigo um ctaculo que elle talvez não conhecia. Defronte édW residencia do chefe, em um casarão antigo, de dous andares, reunia-se a mais curiosa das multidfões. Eram votantes a deitar por fÅra. Modas as janellas escancaradas Cpermittiam ao chefe, que de vez em quando vinha à sacada, avaliar o grosso édias suas forçfas. O saguão não comportava mais èliberaesê da arraia miuda, trabalhadores, quitandeiros, botiquineié8 ros, serventes de repartições, conductores de bon-j des, saveiristas do porto, pessoal de associações jí& officios. Aì porta do pardieiro formava-se uma cauda que interceptava o transito na ladeira.
Amancio parou com o escripturario, a ver o que se fazia là dentro. Oiu dois homens nos primeiroW degraus da escada, a distribuir chapeos e botinasu que muitas mãos agarravam no ar às rebatinhas' Ieles cantos, alguns dos votantes, apoiandõ-se àa paredes, descalçavam os sapatos velhos ou rotos, e Dahi seguiram os dous para a rua do Bispo onde enfiavam os novos. Hutros experimentavam os chapéos, e; rindo e dando vivas atroadores ao partidiJ liberal, safavam-se à custo do redemoinho do sa. guão e vinham para a rua exultantes, ardorosiDW concitando os animos à lucta. - Desde hontem à noite é isto que està vendo, disse Salustiano ao, Nery. - E- a è combuca ê, não é 9; - A combuca da Lé. E se voc} visse a rde Lanto A ntonio. . . - Juanto custa àsso, no fim de contas9 - Além da roupa feita, que jà se distribuiu Dà em cima, custa jantares, bebidas charutos e ajudas em dinheiro para os que deixaram a familia sem pitança. Eï preciso, muito cobre para vencer eleições.
- Ainda mesmo com o partido de cim a. . . - Jue quer9 O povo é pobre, não tem trajos decentes para estas oecasiões, perde às vezes d: e fazer um èganchoê. Le os chefes querem victoria éque paguem o pato, vistam ao menos o votante e td}emlhe um dia de regalo. . . - E é com certeza a unica cousa que elles lucram da politica. A ' combucaê começou a vomitar chusma de homens, negros, brancos, mestiços, quasi todos de fai tiota em folha, calças duras, sem vinco, paletÅs sem medida, uns muito frouxos, outros justos de mais, com refegos nas costas, mangas curtas ou longas de engulir as mãos até às pontas dos dedíos. Algunst coxeavam, sentindo o aperto do calçadlo novo e dando patadas para o amansar. Modos, porém, enthusiasr' madas, subindo e dispersando na praça, entre Oi-ê vas clangorosos ao è partido liberalê.
Dous dias e duas noites, informava Salustiano, vinha funccionando a è combucaê. Bospedaria e restaurante, algibebe, casa de jogo, sala de armas, es-' cola de estrategia, tudo isso ao mesmo tempo, alli se levantava o moral dos tibios, se concertavam; planos de ataque e defesa. Contra possíveis tentativas de assalto, de suborno e corrupção, guardavam-na e visitavam-na dia e noite os ècapangasê e os cabalistas de maior confiança dos chefes. A ïs onze horas estava Amancio ao canto da sala, num dos collegios eleitoraes, pensando na sorte que lhe caberia, dentro em breve, no remoto collegio Minha começado o processo da votação. Ga extremidade da mesa, o presidente, velho sizudH, tíé longas barbas brancas à ingleza, ordenara a chamada, que um dos vogaes ia fazendo, por uma lista, em voz alta. Da multidão que borborinhava em volta do recinto fechado por grades, destacavam-se umê os votantes, e recebendo com ostentação e garbo a èchapaê que lhes entregavam dous cabos eleitoraes, investiam para a urna posta na outra ponIroseguía assim o trabalho, quando de repente echoou na sala uma formidàvel noticia. - Um chefe conservador parochia, homem de uma brigada de votantes cabresteiros, acabava de èvirar a casacaê, declaràndose liberal. Os liberaes presentes, ém grande maio' ria, receberam com acclamações de jubilo a defecção do adversario da vespera.
A surpresa desacoroçoou os conservadores. Fas os seus cabos apertaram o cerco, prevenindo d e serções, e emquanto vituperavam o traidor, iam empurrando para o recinto os amigos que eram chamados a votar. Gisto foi convocado um nome dos menos conhecidos. O mesario tinha apenas pronunciado, tou-se um sussurro immenso no collegio. O cidadão chamado deteve-se deante da urna, com a mão no bolso da calça. O rumor desmesurou-se em tempestade de'-protestos. O votante, mulato c de feições tragicas, olhos esbugalhados, tentava desvincilhar-ise dos braços que o arrastavam para fÅra. Dà um grito insistente, repetido ao infinito, sobrelevava na gritaria infernal: - sNão é o p ro p rio! , . . Não é o proprio! . . . O presidente, de pé, todos os vogaes na mesma attitude, clamavam:
- Hrdem! ordem! O tumulto augmentava. O vetante impedido permutava murros com os seus aggressores. Bengalas e chapeos de sol cruzavam-se em duellos parciaes. E nquanto alguns votantes evacuavam a sala, desconhecidos a invadiarri em borbotão, atacando os que ainda gritavam: - Não é o proprio! Atropeíladbs contra a malta de capangas que acabava de varar o collegio, os protestantes resistirarrí a cacetadas. Generalisou-se o combate. Da mesa foram aos ares papeis, livros e tinteiros. O recinto violado, os mesarios desappareceram. Ielas escadas do edificioi precipitavam-se homens contundidos. As ca' deiras eram arremessadas aos pedaços em todos px sentidos. Cabeças ao léo, cabellos desgrenhados, olhos de Cçucos, roupas dilaceradas, collarinhos tintos de sangue, os populares começaram a evadir-se. Chegava a policia armada. Chegava tarde: a urna tinha desapparecidb.
Em poucos minutos varrido o populacho do collegio, sÅ restava a um canto, entre a parede e um éar8 mario intacto, um moço que não fó. ra votar. Amancio Nery, horrorisado, como se escapasse à sublevação de um hospicio, atravessou o recinto pisando em bengalas partidas, guarda-sÅes rasgados' lenços e gravatas, maços de papel, e chapas inutilizadas. A ï noite, em casa de Boto, tomando: a chàvena de chà que d. Branca lhe servia, narrou entristecido as scenas truculentas que se vira forçado a testeCausou forte impressão a Ealy e a d. Antonia, - à E isto se passa aqui na capital, às barbas do governo, certamente com a sua connivencia. - Malvez n ã o. . . ponderou o amigo. O governo tem costas largas. Os exaltados, os serviçaes é que abusam e o compromettem. E o povos é sempre a mesma meninada trefega.
Elle tinha votado. Go seu collegio houvera também umas duvidas sobre a identidade de certo votante conservador. Fas tudo se resolveu em paz, graças à energia do presidente da mesa. Demais, desde o começo da chamada ficara evidente a maio- - Aliàs eu concorri para isso. - Com o! Não votou com o seu partido9 Boto sorriu dessa intransigencia do joven politico e não perdeu esse novo ensejo de o ir trei- - Eu sou conservador, não ha duvida: mas tenho amigos liberaes. Os liberaes promettem alguma cousa em favor das classes. Darão ou não. Em todo o caso convém animal-os, uma vez que estão no poder. Dei-lhes o voto por esta vez. ; Como visse o pasmo no rosto de Nery, accen-ê tucu firme e convicto: - Esta é a boa escola, fique sabendo. Desgrapolítica dos que não sabem transigir. Hs verdadeiros políticos não andam em linha recta: marcham como os rios sobre os traços que o terreno lhes offerece. Aqui uma recta, além uma curva, mais adeante uma sinuosa. O que os rios não fazem é trepar pelos montes.
- E que diz desse chefe conservador que se passou com armas e bagagens9. . . - Esse foi traidor e fez escandalo, porque illudiu até a ultima hora o partido. Não apresentou énenhuma razão: deu um salto mortal. Hra essas cousas se fazem por principio, e com g e ito. . . com certa elegancia. . . se me permitte a expressão. O nosso homem, n ã o: abalou como um desertor. Dà sabe quem f o i. . . - Ainda não9 Foi o Brazilino. Amancio estremeceu. - Conhece-o9 perguntou-ilhe - ETï o medico de meu pae. - Iois é liberal desde hoje. E pÅde lhe ser util, quem sabe9 - quando a Assembléa se reunir, na verificação dos poderes. . . O Nery fez uma car}ta de repugnancia. Dias depois não se fallava mais em conflictos nem viol}ncias. A victoria do partido liberal era o facto publicado e festejado. Os chefes recebiam manifestações. E Amancio, da prÅpria casa de Iaula Boto, onde entrava cerca de oito horas da noite, via partir um préstito festivo a acclamar o chefç eleitoral da Lé.
Era isso na vespera de chegar-lhe o resultado do seu districto, conforme os càlculos do pae. A surpresa, porém, que lhe preparara a fa9: rr: 9: B7! 9: ! 4 1 F milia Boto, graças a uma indiscreção de SalustianoW distrahia-o da politica. - Oamos cà, disse-lhe o chefe da familia, ape' nas desappareceu o préstito. Adivinhamos que era hoje o seu anniversario. Agora acceite as E foram pétalas de rosas, punhados de peíalax lhe esparziam Ealy foi em seguida ao piano e tooou um lindío' preludio. Amancio sorria, encantado, emquanto tiano, cumprimentando-o, se applaudia por haver uma vez na vida infringido a sua norma de homem disNão findaram ahi as gentilezas. Chamando Amancio de parte, Ealy estendeu-lhe a mão e passou-lhe um delicado invoCucro, que elle guardou no bolso, porque o Boto veiu logo buscal-a para a sala de jantar, onde pediu vinho e o brindou.
- Lenhor Nery, additou uma voz cançada aq extremo da m esa: muitas felicidades. Era D. Antonia. Jando vinha ao Merreiro, na noite seguinte, leiiii companhia de Salustiano, foi Amancio voluntariamente retido atraz da igreja da antiga Lé. Ahi, às portas de um velho sobrado, em redor do poste de um lampeão amortecidta, soavam cor' doadas de violões. Os capadÅcios, na meia obscuri-W dade da rua, garganteavam, applaudiam-se e galhavam, trocando chufas em giria descabelladja. - Memos serenata, disse o escripturario, com desejo de gosal-a um pouco. - Iaremcs, respondeu o Nery. Lentados uns, outros de cocoras à bordia db passeio, os trovadores foram-se revezando numa especie de desafio, qual a qual dando voz mais terna' dorida ou desesperada aos vàrios sentimentos e pai-, xões que interpretavam.
Amancio e Salustiano, encostados à esquina da igreja, ouviam com deleite. Go silencio da noite as coplas enternecidas voavam nos acGordes soluçantes dos violões. lancolias e saudades estendiam-se no avelludado dos bordões em tom menor. Os jÖbilos amorosos acompanhavam de arpejos e accidentes de tão viva expressão erÅtica que fazia suspirar de goso o auditcrio sensualizado. Dà duas modinhas escutara Amancio, e alli per-r uma complac}ncia que nunca para essas noitadas de capadÅcios. Go intervalDo da segunda cantoria, abriu-se uma porta na loja do pardieiro. Oeiu de chapa contra éq Lé o reflexo vermelho de um candieirq de petroleo. Eà dentro, no meio da quadra, sobre %uml fogareiro esbrazeado, fervia o azeite de uma fritura, cujo cheiro se mesclava ao picante de cominhos e pimenta da índia de provàvel panellada de èmão dó vacca ê. Oinham sahindo do interior d; a quitanda, precedidos das suas compridas sombras e a permutar palavradas, duas figuras typicas de faunos, gestos temulentos, trajos amarrotados, chapéos às tres panAtraz delíes uma mulata baixa e gorda, de mãos nas cadeiras, ria-se, tratando-os com obscenidades familiares. Juasi ao sahir, o mais magro dos dous, rodando sobre os calcanhares, levantou oontra ella o violão que trazia debaixo do braço, ao mesma tempo que esboçava uma è rasteiraê.
- D; à àstà menos divertido, observou Amanciict para o amigo. O outro havia-o impellido para a rua, mimosean; ê do a quitandeira com um chorrilho de termos fjescenninos que a sacudiram em novos espasmos de - Gózinho! gritou de íÅra, nesse interim, UM dos tocadores. Os outros repetiram o chamado, accrescentando: - A èpredilectaê, G ózinho. . . Com o violão que lhe ia servindo de cac}te, o capadccio encostou-se à columna do lampeão. Finí cando os pés de rijo nas pedras da calçadà, tirou do instrumento meia duzia de notas e começou! cantar a èpredilectaê. Fechou-se o circulo, de que Gózinho era o centro. Da garganta que havia pouco vomitara torpesas horripilantes sahiam agora doçuras e amavios. Cada phrase de amor, cada confissão, cada supplica, achava nos graves e nos agudos de Gózinho modulações tãq prÅprias e trizantes, e demais tão realçadas pelas harmonias e èfalsasê do seu violão, que os funcçanistas não sabiam a quem dessem mais applausos se ao cantor, se ao tocador.
- Bravo, maestro! Os outros violonistas, ciosos de apprehender as cambiantes chromaticas do èmaestroê foram insen' sivelmente abaixando o acompanhamento. o bardo, findando a parte moderada da çanção, atacou o estribilho, uniu-se ao forte e vivaz dos violões um repique estridulo de castanholas. Geste ponto a voz do cantor e as bordoadas dos èpinhosê impellidas pela carretilha do castanheteado, partiram numa corrida brilhante, tão cheia ídç ardor, e demencia que bem descrevia a alegria do trovador, convidado, emfim, pelos braços desejadbs da amante. . . Com esta impressão iam. se retirando Salustiano e Amancio, quando o primeiro, vendo semi-cerradia, no mesmo quarteirão, a porta de uma taverna, entrou para comprar phosphoros. Atraz delle, o capadocio, entre risadas satiricas dos companheiros, jà o seteava, cantando ern passa de chula a mais temida das canções da epoca:
è ós gentes que vemos è De todas as classes è Entram com disfarces. . . è Ga venda. . . Salustiano, ouvindo a allusão, sahiu sem mais demora do balcão suspeito e riscando um phosphoro para dar satisfação à musa critica do garóto, poz-se a caminho com o amigo. O cantor, alteando a voz, ia por deante, desta vez alludindo ao bacharel: è Doutores de banca, è E outros charàs, è Formam è provaràs ê. . . è Ga venda. . . ê - Iatifes! disse Amando. E rindo-se da garotiee, os dous amigos afastaram-se depressa, emquanto os capadÅcios, dando gri' tos de enthusiasmo lascivo, invadiam a loja da quitandeira a pedir gerebita. Antes de separar-se na Iraça, o escripturark8 perguntou a Amancio: - Ainda não teve noticia de sua eleição9 - Espero-a por estes dias. . . não sei se da eleição ou se da derrota.
- Ba muita gente que aposta pela sua vicio- - Lim. E muitas pessoas, até senhoras, desejam isso e andam anciosas. . . - Não duvido. Leria Eulalia, pensou o G e ry: e talvez tamberrt a futura noiva do seu amigo, a quem promettera seus serviços de deputado. Despedindo-se do escripturario, Amancio seguiu apressadamente para a Ajuda. Ao entrar em casa o relcgio batia onze horas. Entrou no seu quarto d7/ sobre o velador achou uma aberta que lhe deixara, sem duvida, o commendadbr, novas do pleito9 Irimeiro despiu-se. Apesar de tantas circumstancias desfavoràveis, inclinava-se a crer na victoria.