Invocação (estrofes 1-6)
1.
. Cantem Poetas o Poder Romano,
sobmetendo Nações ao jugo duro;
o Mantuano pinte o Rei Troiano,
descendo à confusão do Reino escuro;
que eu canto um Albuquerque soberano,
da Fé, da cara Pátria firme muro,
cujo valor e ser, que o Céu lhe inspira,
pode estancar a Lácia e Grega lira.
2.
. As Délficas irmãs chamar não quero,
que tal invocação é vão estudo;
aquele chamo só, de quem espero
a vida que se espera em fim de tudo.
Ele fará meu Verso tão sincero,
quanto fora sem ele tosco e rudo,
que por razão negar não deve o menos
quem deu o mais a míseros terrenos.
3.
. E vós, sublime Jorge, em quem se esmalta
a Estirpe d'Albuquerques excelente,
e cujo eco da fama corre e salta
do Carro Glacial à Zona ardente,
suspendei por agora a mente alta
dos casos vários da Olindesa gente,
e vereis vosso irmão e vós supremo
no valor abater Querino e Remo.
4.
. Vereis um sinil ânimo arriscado
a trances e conflitos temerosos,
e seu raro valor executado
em corpos Luteranos vigorosos.
Vereis seu Estandarte derribado
aos Católicos pés vitoriosos,
vereis em fim o garbo e alto brio
do famoso Albuquerque vosso Tio.
5.
. Mas em quanto Talia no se atreve,
no Mar do valor vosso, abrir entrada,
aspirai com favor a Barca leve
de minha Musa inculta e mal limada.
Invocar vossa graça mais se deve
que toda a dos antigos celebrada,
porque ela me fará que participe
doutro licor melhor que o de Aganipe.
6.
. O marchetado Carro do seu Febo
celebre o Sulmonês, com falsa pompa,
e a ruína cantando do mancebo,
com importuna voz, os ares rompa.
Que, posto que do seu licor não bebo,
à fama espero dar tão viva trompa,
que a grandeza de vossos feitos cante,
com som que Ar, Fogo, Mar e Terra espante