Narração (estrofes 81-94)
81.
. Mas adonde me leva o pensamento?
Bem parece que sou caduco e velho,
pois sepulto no Mar do esquecimento
a Duarte sem par, dito Coelho.
Aqui mister havia um novo alento
do Poder Divinal e alto Conselho,
porque não hai quem feitos tais presuma
a termo reduzir e breve suma.
82.
. Mas se o Céu transparente e alta Cúria
me for tão favorável, como espero,
com voz sonora, com crescida fúria,
hei de cantar Duarte e Jorge fero.
Quero livrar do tempo e sua injúria
estes claros Irmãos, que tanto quero,
mas, tornando outra vez a triste História,
um caso direi digno de memória.
83.
. Andava o novo Marte destruindo
os esquadrões soberbos Mauritanos,
quando sem tino algum viu ir fugindo
os tímedos e lassos Lusitanos.
o que de Pura mágoa não sufrindo
lhe diz"; -Donde vos is, homens insanos?
Que digo: homens, estátuas sem sentido,
pois não sentis o bem que haveis perdido?
84.
. Olhai aquele esforço antigo e puro
dos ínclitos e fortes Lusitanos,
da Pátria e liberdade um firme muro
verdugo de arrogantes Mauritanos;
exemplo singular para o futuro
ditado, e resplandor de nossos anos,
subjeito mui capaz, matéria digna
da Mantuana e Homérica Buzina.
85.
. Ponde isto por espelho, por treslado,
nesta tão temerária e nova empresa.
nele vereis que tendes já manchado
de vossa descendência a fortaleza.
À batalha tornai com peito ousado,
militai sem receio, nem fraqueza,
olhai que o torpe medo é Crocodilo
que costuma, a quem foge, persegui-lo.
86.
. E se o dito a tornar vos não compele,
vede donde deixais o Rei sublime?
Que conta haveis de dar ao Reino dele?
Que desculpa terá, tão grave crime?
Quem haverá que por traição não sele
um mal que tanto mal no mundo imprime?
Tornai, tornai, invictos Portugueses,
cerceai malhas e fendei arneses.
87.
. "Assim dirá: mas eles sem respeito
à honra e ser de seus antepassados
com pálido temor no frio peito,
irão por várias partes derramados.
Duarte, vendo neles tal defeito,
lhe dirá": -Corações efeminados,
lá contareis aos vivos o que vistes,
porque eu direi aos mortos que fugistes.
88.
. "Neste passo carrega a Maura força
sobre o Barão insigne e velicoso;
ele, onde vê mais força, ali se esforça,
mostrando-se no fim mais animoso.
Mas o fado, que quer que a razão torça.
o caminho mais reto e proveitoso,
fará que num momento abreviado
seja cativo, preso e mal tratado.
89.
. Eis ambos os irmãos em cativeiro.
de peitos tão protervos e obstinados,
por cópia inumerável de dinheiro
serão (segundo vejo) resgatados.
Mas o resgate e preço verdadeiro,
por quem os homens foram libertados,
chamará neste tempo o grão Duarte,
para no claro Olimpo lhe dar parte.
90.
. Ó Alma tão ditosa como pura,
parte a gozar dos dotes dessa glória,
donde terás a vida tão segura,
quanto tem de mudança a transitória!
Goza lá dessa luz que sempre dura;
no mundo gozarás da larga história,
ficando no lustroso e rico Templo
da Ninfa Gigantea por exemplo.
91.
. Mas, enquanto te dão a sepultura,
contemplo a tua Olinda celebrada,
coberta de fúnebre vestidura,
inculta, sem feição, descabelada.
Quero-a deixar chorar morte tão dura
'té que seja de Jorge consolada,
que por ti na Ulissea fica em pranto,
em quanto me disponho a novo Canto.
92.
. Não mais, esprito meu, que estou cansado,
deste difuso, largo e triste Canto,
que o mais será de mim depois cantado
por tal modo, que cause ao mundo espanto.
Já no balcão do Céu o seu toucado
solta Vênus, mostrando o rosto Sancto;
eu tenho respondido c'o mandado
que mandaste Netuno sublimado".
93.
. Assim diz; e com alta Majestade
o Rei do Salso Reino, ali falando,
diz: -Em satisfação da tempestade
que mandei a Albuquerque venerando,
pretendo que a mortal posteridade
com Hinos o ande sempre sublimando,
quando vir que por ti o foi primeiro,
com fatídico esprito verdadeiro.
Epílogo
94.
. Aqui deu [fim] a tudo, e brevemente
entra no Carro [de] Cristal lustroso;
após dele a demais Cerúlea gente
cortando a veia vai do Reino acoso.
Eu que a tal espetáculo presente
estive, quis em Verso numeroso
escrevê-lo por ver que assim convinha
para mais perfeição da Musa minha.