Narração (estrofes 7-20) Prosopopéia · Capítulo 4 de 9
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Narração (estrofes 7-20)

7.

. A Lâmpada do Sol tinha encoberto,

ao Mundo, sua luz serena e pura,

e a irmã dos três nomes descoberto

a sua tersa e circular figura.

Lá do portal de Dite, sempre aberto,

tinha chegado, com a noite escura,

morfeu, que com sutis e lentos passos

atar vem dos mortais os membros lassos.

8.

. Tudo estava quieto e sossegado,

só com as flores Zéfiro brincava,

e da vária fineza namorado,

de quando em quando o respirar firmava

até que sua dor, d'amor tocado,

por entre folha e folha declarava.

As doces Aves nos pendentes ninhos

cubriam com as asas seus filhinhos.

9.

. As luzentes Estrelas cintilavam,

e no estanhado Mar resplandeciam,

que, dado que no Céu fixas estavam,

estar no licor salso pareciam.

Este passo os sentidos comparavam

àqueles que d'amor puro viviam,

que, estando de seu centro e fim absentes,

com alma e com vontade estão presentes.

10.

. Quando ao longo da praia, cuja area

é de Marinhas aves estampada,

e de encrespadas Conchas mil se arrea,

assim de cor azul, como rosada,

do mar cortando a prateada vea,

vinha Tritão em cola duplicada,

não lhe vi na cabeça casca posta

como Camões descreve) de Lagosta.

11.

. Mas uma Concha lisa e bem lavrada

de rica Madrepérola trazia,

de fino Coral crespo marchetada,

cujo lavor o natural vencia.

Estava nela ao vivo debuxada

a cruel e espantosa bataria,

que deu a temerária e cega gente

aos Deuses do Céu puro e reluzente.

12.

. Um Búzio desigual e retrocido

trazia por Trombeta sonorosa,

de Pérolas e Aljôfar guarnecido,

com obra mui sutil e curiosa.

Depois do Mar azul ter dividido,

se sentou numa pedra Cavernosa,

e com as mãos limpando a cabeleira

da turtuosa cola fez cadeira.

13.

. Toca a Trombeta com crescido alento,

engrossa as veias, move os elementos,

e, rebramando os ares com o acento,

penetra o vão dos infinitos assentos.

Os Pólos que sustem o firmamento,

abalados dos próprios fundamentos,

fazem tremer a terra e Céu jucundo,

e Netuno gemer no Mar profundo.

14.

. O qual vindo da vã concavidade,

em Carro Triunfal, com seu tridente,

traz tão soberba pompa e majestade,

quanta convém a Rei tão excelente.

Vem Oceano, pai de mor idade,

com barba branca, com cerviz tremente:

Vem Glauco, vem Nereu, Deuses Marinhos,

correm ligeiros Focas e Golfinhos.

15.

. Vem o velho Proteu, que vaticina

(se fé damos à velha antiguidade)

os males a que a sorte nos destina,

nascidos da mortal temeridade.

Vem numa e noutra forma peregrina,

mudando a natural propriedade.

Não troque a forma, venha confiado,

se não quer de Aristeu ser sojigado.

16.

. Tétis, que em ser fermosa se recrea,

traz das Ninfas o coro brando e doce:

Clímene, Efire, Ópis, Panopea,

com Béroe, Talia, Cimodoce;

Drimo, Xanto, Licórias, Deiopea,

Aretusa, Cidipe, Filodoce,

com Eristea, Espio, Semideas,

após as quais, cantando, vem Sereas.

Descrição do Recife de Pernambuco

17.

. Pela a parte do Sul, onde a pequena

Ursa se vê de guardas rodeada,

onde o Céu luminoso mais serena

tem sua influïção, e temperada;

junto da Nova Lusitânia ordena

a natureza, mãe bem atentada,

um porto tão quieto e tão seguro,

que pela as curvas Naus serve de muro.

18.

. É este porto tal, por estar posta

uma cinta de pedra, inculta e viva,

ao longo da soberba e larga costa,

onde quebra Netuno a fúria esquiva.

Entre a praia e pedra descomposta,

o estanhado elemento se diriva

com tanta mansidão, que uma fateixa

basta ter à fatal Argos aneixa.

19.

. Em o meio desta obra alpestre e dura,

uma boca rompeu o Mar inchado,

que, na língua dos bárbaros escura,

Pernambuco de todos é chamado

de Para'na, que é Mar; Puca, rotura,

feita com fúria desse Mar salgado,

que, sem no dirivar cometer míngua,

Cova do Mar se chama em nossa língua.

20.

. Pela entrada da barra, à parte esquerda,

está uma lajem grande e espaçosa,

que de Piratas fora total perda,

se uma torre tivera sumtuosa.

Mas quem por seus serviços bons não herda

desgosta de fazer cousa lustrosa,

que a condição do Rei que não é franco

o vassalo faz ser nas obras manco.

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