Narração (estrofes 21-35) Prosopopéia · Capítulo 5 de 9
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Narração (estrofes 21-35)

21.

. Sendo os Deuses à lajem já chegados,

estando o vento em calma, o Mar quieto,

depois de estarem todos sossegados,

por mandado do Rei e por decreto,

proteu, no Céu c´os olhos enlevados,

como que invistigava alto secreto,

com voz bem entoada e bom meneio,

ao profundo silêncio larga o freio.

Canto de Proteu

22.

. "Pelos ares retumbe o grave acento

de minha rouca voz, confusa e lenta,

qual torvão espantoso e violento

de repentina e tórrida tormenta;

ao Rio de Aqueronte turbulento,

que em sulfúreas burbulhas arrebenta,

passe com tal vigor, que imprima espanto

em Minos riguroso e Radamanto.

23.

. De lanças e d'escudos encantados

não tratarei em numerosa Rima,

mais de Barões Ilustres afamados,

mais que quantos a Musa não sublima.

Seus heróicos feitos extremados

afinarão a dissoante prima,

que não é muito tão gentil sujeito

suplir com seus quilates meu defeito.

24.

. Não quero no meu Canto alguma ajuda

das nove moradoras de Parnaso,

nem matéria tão alta quer que aluda

nada ao essencial deste meu caso.

Porque, dado que a forma se me muda,

em falar a verdade serei raso,

que assim convém fazê-lo quem escreve,

se à justiça quer dar o que se deve.

25.

. A fama dos antigos co'a moderna

fica perdendo o preço sublimado:

A façanha cruel, que a turva Lerna

espanta com estrondo d'arco armado:

O cão de três gargantas, que na eterna

confusão infernal está fechado,

não louve o braço de Hércules Tebano.

Pois procede Albuquerque soberano.

26.

. Vejo (diz o bom velho) que, na mente,

o tempo de Saturno renovado,

e a opulenta Olinda florescente

chegar ao cume do supremo estado.

Será de fera e belicosa gente

o seu largo destrito povoado;

por nome terá Nova Lusitânia,

das Leis isenta da fatal insânia.

27.

. As rédeas terá desta Lusitânia

o grão Duarte, valoroso e claro,

Coelho por cognome, que a insânia

reprimirá dos seus, com saber raro.

Outro Troiano Pio, que em Dardânia

os Penates livrou e o padre caro;

um Públio Cipião, na continência;

outro Nestor e Fábio, na prudência.

28.

. O braço invicto vejo com que amansa

a dura cerviz bárbara insolente,

instruindo na Fé, dando esperança

do bem que sempre dura e é presente;

eu vejo c'o rigor da tesa lança

acossar o Francês, impaciente

de lhe ver alcançar uma vitória

tão capaz e tão digna de memória.

29.

. Ter o varão Ilustre da consorte,

dona Beatriz, preclara e excelente,

dois filhos, de valor e d'alta sorte.

Cada qual a seu Tronco respondente.

estes se isentarão da cruel sorte,

eclipsando o nome à Romana gente,

de modo que esquecida a fama velha

façam arcar ao mundo a sobrancelha.

30.

. O Princípio de sua Primavera

gastarão seu destrito dilatando,

os bárbaros cruéis e gente Austera,

com meio singular, domesticando.

E primeiro que a espada lisa e fera

arranquem, com mil meios d'amor brando,

pretenderão tirá-la de seu erro,

e senão porão tudo a fogo e ferro.

31.

. Os braços vigorosos e constantes

fenderão peitos, abrirão costados,

deixando de mil membros palpitantes

caminhos, arraiais, campos juncados;

cercas soberbas, fortes repugnantes

serão dos novos Martes arrasados,

sem ficar deles todos mais memória

que a qu'eu fazendo vou em esta História.

32.

. Quais dois soberbos Rios espumosos,

que, de montes altíssimos manando,

em Tétis de meter-se desejosos,

vem com fúria crescida murmurando,

e nas partes que passam furiosos

vem árvores e troncos arrancando,

tal Jorge d'Albuquerque e o grão Duarte

farão destruição em toda a parte.

33.

. Aquele branco Cisne venerando,

que nova fama quer o Céu que merque,

e me está com seus feitos provocando,

que dele cante e sobre ele alterque;

aquele que na Idea estou pintando,

Hierônimo sublime d'Albuquerque

se diz, cuja invenção, cujo artifício

aos bárbaros dar total exício.

34.

. Deste, como de Tronco florescente,

nascerão muitos ramos, que esperança

Prometerão a todos geralmente

de nos berços do Sol pregar a lança.

Mas, quando virem que do Rei potente

o pai por seus serviços não alcança

o galardão devido e glória digna,

Ficarão nos alpendres da Piscina.

35.

. Ó sorte tão cruel, como mudável,

por que usurpas aos bons o seu direito?

Escolhes sempre o mais abominável,

reprovas e abominas o perfeito,

o menos digno fazes agradável,

o agradável mais, menos aceito.

Ó frágil, inconstante, quebradiça,

roubadora dos bens e da justiça!

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