Narração (estrofes 66-80) Prosopopéia · Capítulo 8 de 9
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Narração (estrofes 66-80)

66.

. E se determinais a cega fúria

executar de tão feroz intento,

a mim fazei o mal, a mim a injúria,

fiquem livres os mais de tal tormento.

Mas o Senhor que assiste na alta Cúria

um mal atalhará tão violento,

dando-nos brando Mar, vento galerno,

com que vamos no Minho entrar paterno.

67.

. "Tais palavras do peito seu magnânimo

lançará o Albuquerque famosíssimo,

do soldado remisso e pusilânimo,

fazendo com tal prática fortíssimo.

E assim todos concordes, e num ânimo,

vencerão o furor do Mar bravíssimo,

até que já a Fortuna, d'enfadada,

chegar os deixe a Pátria desejada.

68.

. À Cidade de Ulisses destroçados

chegarão da Fortuna e Reino salso,

os Templos visitando Consagrados,

em procissão, e cada qual descalço.

Desta maneira ficarão frustrados

os pensamentos vãos de Lémnio falso,

que o mau tirar não pode o benefício

que ao bom tem prometido o Céu propício.

69.

. Neste tempo Sebasto Lusitano,

rei que domina as águas do grão Douro,

ao Reino passará do Mauritano,

e a lança tingirá em sangue Mouro;

o famoso Albuquerque, mais ufano

que Iason na conquista do veo d'ouro,

e seu Irmão, Duarte valeroso,

irão c'o Rei altivo, Imperioso.

70.

. Numa Nau, mais que Pístris, e Centauro,

e que Argos venturosa celebrada,

partirão a ganhar o verde Lauro

à região da secta reprovada.

E depois de chegar ao Reino Mauro,

os dois irmãos, com lança e com espada,

farão nos Agarenos mais estrago

do que em Romanos fez o de Cartago.

71.

. Mas, ah! ínvida sorte, quão incertos

são teus bens e quão certas as mudanças;

quão brevemente cortas os enxertos

a umas mal nascidas esperanças.

Nos mais riscosos trances, nos apertos,

entre mortais pelouros, Entre lanças,

prometes triunfal palma e vitória,

para tirar no fim a fama, a glória.

72.

. Assim sucederá nesta batalha

ao mal afortunado Rei ufano,

a quem não valerá provada malha,

nem escudo d'obreiros de Vulcano.

Porque no tempo que ele mais trabalha

Vitória conseguir do Mauritano,

num momento se vê cego e confuso,

e com seu esquadrão roto e difuso.

73.

. Anteparou aqui Proteu, mudando

as cores e figura monstruosa,

no gesto e movimento seu mostrando

ser o que há de dizer coisa espantosa.

E com nova eficácia começando

a soltar a voz alta e vigorosa,

estas palavras tais tira do peito,

que é cofre de profético conceito.

74.

. Entre armas desiguais, entre tambores

de som confuso, rouco e redobrado,

entre cavalos bravos corredores,

entre a fúria do pó, que é salitrado;

entre sanha, furor, entre clamores,

entre tumulto cego e desmandado,

entre nuvens de setas Mauritanas,

andará o Rei das gentes Lusitanas.

75.

. No animal de Netuno, já cansado

do prolixo combate, e mal ferido,

será visto por Jorge sublimado,

andando quase fora de sentido.

O que vendo o grande Albuquerque ousado,

de tão trágico passo condoído,

ao peito fogo dando, aos olhos água,

tais palavras dirá, tintas em magoa":

76.

. -Tão infelice Rei, como esforçado,

com lágrimas de tantos tão pedido,

com lágrimas de tantos alcançado,

com lágrimas do Reino, em fim perdido.

Vejo-vos c'o cavalo já cansado,

a vós, nunca cansado, mas ferido,

salvai em este meu a vossa vida,

que a minha pouco vai em ser perdida.

77.

. Em vós do Luso Reino a confiança

estriba, como em base só, fortíssimo;

com vós ficardes vivo, segurança

lhe resta de ser sempre florentíssimo.

Entre duros farpões e Maura lança,

deixai este vassalo fidelíssimo,

que ele fará por vós mais que Zopiro

por Dario, até dar final suspiro.

78.

. "Assim dirá o Herói, e com destreza

deixará o genete velocíssimo,

e a seu Rei o dará: Ó Portuguesa

lealdade do tempo florentíssimo!

O Rei Promete, se de tal empresa

sai vivo, o fará senhor grandíssimo,

mas 'te nisto lhe será avara a sorte,

pois tudo cubrirá com sombra a morte.

79.

. Com lágrimas d'amor e de brandura,

de seu Senhor querido ali se espede,

e que a vida importante e mal segura

assegurasse bem, muito lhe pede,

torna à batalha sanguinosa e dura,

o esquadrão rompe dos de Mafamede,

lastima, fere, corta, fende, mata,

decepa, apouca, assola, desbarata.

80.

. Com força não domada e alto brio,

em sangue Mouro todo já banhado,

do seu vendo correr um caudal Rio,

de giolhos se pôs, debilitado.

Ali dando a mortais golpes desvio,

de feridas medonhas trespassado,

será cativo, e da proterva gente

maniatado em fim mui cruelmente.

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